CD: Alborada do Brasil, Carlos Núñes

por Rodrigo Fernandes

Diferente de tudo que tem sido cometido por essas bandas equatoriais, “Alborada” é a melhor prova de que mesmo super explorado, nosso “exotismo” musical (muitas aspas aí) ainda pode render bons resultados.

Prova também que nossos clássicos, quando manejados com criatividade e pouca reverência, ainda surpreendem pela força. “Alborada do Brasil” (é com b mesmo é tudo que o pop brasileiro podia ser, não fosse tão burro e covarde. O disco é de um gaiteiro espanhol, Carlos Núñez.

Com Fernanda Takai nos vocais, cantando em galego (uma espécie de espanhol mestiço, parente do portunhol), a faixa de abertura “Alborada de Rosália” nos apresenta os fundamentos do disco. Nela a cantora mineira dialoga com a gaita de fole do músico gringo e um esperto rap de Alê Siqueira.

Seguindo com “Vou Vivendo”, o gaiteiro – e não gaitista – esbanja malemolência num choro malandro, muito brasileiro. O mesmo se dá com “Alvorada de Cartola”, samba clássicão que conta com bela interpretação de Wilson das Neves. Mas o disco ganha ares inusitados e benfazejos é mesmo com “Nau Bretã”, um delicioso meio caminho entre o sertão brasileiro e a Galícia (um xote celta?) que fica ainda mais bacana com a participação de Lenine.

“Feira de Magiao”, “Maxixe de Ferro” e “Assum Preto/Asa Branca” estreitam essa ponte intercontinental e surpreendem pela beleza e o frescor. A tristonha “Gaita”, com participação de Adriana Calcanhotto, e a releitura de “Ponta de Areia” ampliam os horizontes geográficos com sabedoria.

Os poucos pontos fracos ficam por conta de “Xotes Universitários”, cuja intenção de promover uma colagem “visual” se perde na execução, e “Padaria Electrica da Barra”, que também destoa desgraçadamente do resto do álbum. Carlinhos Brown, que comanda a faixa, é exuberante demais para uma obra que prima pelo bom gosto da discrição.

Repleto de nuances, detalhes e participações especiais, “Alborada do Brasil” é um disco de diálogos. Entre linguagens, culturas e ritmos. Quitute finíssimo. Mal comparando, se aproxima de “Circuladô”, de Caetano Veloso. No disco de 1991, Veloso cunhou uma obra superproduzida, mas que ainda dialogava com franqueza com o nosso folclore, nossa ‘memoria passionis’, unindo o melhor dos dois mundos.

Límpida e original, a “Alborada” de Carlos Núñez segue por uma trilha aventureira e se torna o melhor disco lançado nos últimos tempos. Descubra.

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Rodrigo Fernandes assina o blog Ao Vinagrete

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