A impossibilidade do amor em 3 cenas

por Moreno Osório

“Eu não imaginava que a vida de casada fosse tão complicada.
Quando você é solteira, é responsável apenas por si mesma.
Quando se casa… estar bem sozinha não é o bastante”.

Diálogo do filme “In the Mood for Love”, de Wong Kar-Wai

Christophe Honoré: A impossibilidade do amor em três cenas

Em coluna publicada no final do mês de maio na Folha de São Paulo (disponível também aqui), Contardo Caligaris, falando de amor, lamentou a valorização, em nossa cultura, da idealização da ruptura, da aventura, e o fato de que só a hora do “apaixonamento” importa. Caligaris citou um filósofo francês chamado Alain Badiou, que define o amor mais como um percurso do que como um acontecimento. Em última instância, ele crê na obstinação como o fator determinante para o triunfo do amor. A grande questão é que, apesar de todos o desejarem, ninguém parece querer fazer esse esforço por ele. Uma contradição que o polonês Zygmunt Bauman tentou explicar em Amor Líquido e que está toda hora dando tapas de luva na nossa cara. Para desespero de todos. Mas também para a felicidade da arte. Neste caso, especificamente do cinema.

Christophe Honoré, um dos poucos que conseguiram utilizar o legado da Nouvelle Vague para fazer um cinema moderno, estampa essa condição em pelo menos três de seus filmes. E o faz com uma leveza que contrasta com a peso de tal condição. Em “A Bela Junie” (“La Belle Personne”), “Em Paris” (“Dans Paris”) e “As Canções de Amor” (“Les Chansons D’Amour”), a eterna dúvida da humanidade em relação ao amor aparece como fio condutor dos roteiros. Dirigindo elencos que emanam sensualidade (fora o fato de os filmes serem falados na língua dos amantes, o que por si só já é um deleite), o francês de 40 anos converte dor e angústia em beleza. Transforma em arte o que é próprio da vida, e, assim, atribui mais sentido ao existir – ainda que não sejam fornecidas respostas, e sim reforçadas as dúvidas.

Em três cenas dos filmes citados, a dicotomia buscar versus manter dá ao amor uma condição de eterna impossibilidade em função do seu constante fracasso. Cada uma delas mostra fases distintas do amar, mas todas retratam a mesma coisa – a derrota do amor diante das circunstâncias da vida. Medo, quebra e desesperança. Mas que também poderiam ser chamadas de antes, durante e depois do amor.

“A Bela Junie” e o medo de amar

Em um dos últimos diálogos de A Bela Junie, Junie (Léa Seydoux) fala para Nemours (Louis Garrel):

“Eu pensei que houvesse uma coisa que você gostasse em mim. Minha franqueza. Imaginar que você pode não mais me amar é muito pior para mim do que aquilo que você chama de regras que fiz para mim mesmo. Eu sei que somos duas pessoas. Então, como qualquer um, nós podíamos estar juntos. Mas por quanto tempo? Se nós somos duas pessoas normais, por quanto tempo nosso amor vai durar? Amor eterno não existe, nem mesmo nos livros. Então amar significa por um tempo determinado. Seria um milagre para nós. Não somos diferentes das outras pessoas”.

Em determinado momento, Nemours interfere:

“Você não pode resistir sozinha ao seu amor“.

Junie resiste ao seu amor. E sofre por isso. Sofre por ter medo de se entregar ao desconhecido, ao que pode fazê-la sair do eixo, desconcertá-la. Está estampado no seu rosto de beleza serena, na sua pele branca, nos seus olhos distantes, nos seus longos cabelos negros. Ela carrega consigo esse fardo. Uma condição que parece ser eterna. Isso a torna distinta. Desejada por ser inacessível, por parecer estar acima do amor.

Ao dispensar Otto – que se mata após o rompimento –, Junie diz que vai embora porque não quer se apaixonar por uma pessoa que sabe estar apaixonada por ela (Nemours, ainda que não revele a Otto quem é). Junie é franca, racional. Sabe da possibilidade de o romance com Nemours acabar em desilusão e, ao contrário das outras pessoas que se envolveram com o belo professor, prefere nem começar o caso. Mas a dor da paixão aparece e a faz sofrer antes mesmo ter experimentado o que tanto deseja.

Bauman, se por acaso topasse com Junie em um mundo onde os filósofos encontram personagens de cinema nas ruas de Paris, talvez dissesse a ela que qualquer sabedoria em relação ao amor só é possível após vivê-lo. Diria, arrisco dizer, para Junie ouvir Nemours, e não resistir ao seu amor. Para o sábio velhinho polonês que curte um cachimbo, a bela francesa é uma tola que pouco ou nada sabe sobre o assunto. Entre uma tragada e outra, ele talvez até lesse para ela o trecho abaixo, que está em Amor Líquido.

“Enquanto vive, o amor paira à beira do malogro. Dissolve seu passado à medida que prossegue. Não deixa trincheiras onde possa buscar abrigo em caso de emergência. E não sabe o que está pela frente e o que o futuro pode trazer. Nunca terá confiança o suficiente para dispersar as nuvens e abafar a ansiedade. O amor é uma hipoteca baseada num futuro incerto e inescrutável”.

O rosto pálido de Junie denota o temor em relação a esse futuro incerto. É o semblante que Christophe Honoré dá à impossibilidade do amor. A personagem de Léa Seydoux é a personificação daquilo que sentimos quando pensamos na finitude do que gostaríamos que fosse eterno. É o fantasma que assombra a vida de todos os amantes. Olhar pra ela é ter a certeza de que tudo irá acabar – mesmo sem ter começado. Que a separação e a desilusão um dia virão. Que o abandono e a solidão são inevitáveis. Olhar para Junie é olhar para o futuro. Sua beleza representa a morte da esperança. A morte prematura do amor.

“Em Paris” e a quebra

No filme “Em Paris”, Paul (Romain Duris) sofre com fim do seu relacionamento com Anna (Joana Preiss). Cansado de não encontrar alternativas para sair da fossa, ele pega o telefone para tentar por um fim à sua angústia. O resultado é a bela cena abaixo. A música é “Avant La Haine” (“Antes do Ódio”), escrita por Alex Beaupain – que assina as trilhas musicais de vários filmes de Honoré.

A letra mostra um momento de dúvida. Como superar o fim quando ainda apostamos no amor? Como saber quando o amor, na realidade, deixou de existir? Que aquilo que sentimos não é mais amor, e sim a falta, a dor da ausência, a lacuna deixada pelo próprio amor? Paul e Anna cantam essas incertezas. Ele reconhece o seu estado agonizante e tem uma “ideia terrível”: terminar qualquer tipo de relação que ainda exista com Anna “antes do ódio”. Antes que sua condição deplorável comece a determinar seus sentimentos por quem até então era devoto. Ele não quer odiá-la, por isso aposta na separação. Anna diz que não – ainda que também não tenha certeza do sim. Diz que um beijo faria tudo isso passar.

No belo dueto, Honoré nos mostra novamente a impossibilidade do amor, mas agora no momento da quebra, da ruptura. O sentimento deixa de existir e pega Paul e Anna despreparados. Querem ficar afastados antes do ódio, mas querem permanecer juntos porque ainda acreditam no poder do toque. Eles querem continuar se amando. Mas isso já não é mais possível.

Honoré transforma em poesia o exato momento (que parece infinito) em que nada resolve. Ela diz que prefere “as tempestades do inevitável” a ter de perder definitivamente aquele amor. Mas sabe que, naquele momento, não podem e nem conseguiriam estar juntos. Ainda que talvez seja, no fundo, o que eles querem. Sentem falta um do outro, da companhia, do carinho. Resta apenas uma angústia sem fim.

A desesperança em “As Canções de Amor”

No primeiro terço do musical “As Canções de Amor” (“Les Chansons D’Amour”), Julie (Ludivine Sagnier), Ismaël (Louis Garrel) e Alice (Clotilde Hesme) vivem um triângulo amoroso instável. As incertezas a respeito de uma relação que causa estranhamento em quem está de fora os fazem levantar dúvidas sobre a possibilidade de se levar aquilo adiante. Desconfortáveis, expressam – na maioria das vezes de forma leve e divertida, como em “Je n’aime que toi” (assista aqui) – a insatisfação diante da falta de certezas sobre algo que não é visto como normal. Até que Julie morre, e a dúvida dá lugar à desesperança em relação à possibilidade do amor.

Sem o equilíbrio representado por Julie, as outras duas pontas do triângulo buscam maneiras de seguir em frente. Alice se envolve em uma relação heterossexual que logo se mostra um equívoco. Já Ismaël se vê em uma situação até então improvável. Seduzido por Erwann (Grégoire Leprince-Ringuet), não sabe se sua dúvida em ceder ou não àquela aventura homossexual é resultado da sua vontade ou da confusão que virou sua vida sem Julie. Apaixonado, Erwann trata de questionar o porquê da resistência de Ismaël cantando em dueto com o personagem de Louis Garrel. A música é “As-tu déjà aimé?”, mais uma vez de Alex Beaupain, que assina a trilha do musical.

Erwann pergunta a Ismaël se ele já amou pela “beleza do gesto”. O personagem de Garrel diz que sim, mas que não foi nada fácil, que muitas vezes não foi bem tratado. Erwann insiste e diz que quando ousamos amar somos simplesmente invadidos pelo perfume dos males do amor. Ismaël retruca dizendo que os amores passageiros e sua carícias efêmeras esgotam nossos esforços. Então Erwann se rende ao desiludido Ismaël, e termina responsabilizando o amor por toda a nossa desgraça.

Se antes da morte de Julie os personagens se questionavam sobre se o que sentiam era realmente amor, com a perda, a dúvida dá lugar ao desencanto. À tristeza de ter consciência tarde demais. À desesperança de que um amor como aquele pode nunca mais se repetir. No momento em que não estava claro o flerte de Erwann, Ismaël canta uma serena melancolia diante do que parecia imutável – a impossibilidade do amor.

Mas no final, Ismaël acaba se rendendo a Erwann e a uma relação totalmente diferente de tudo o que havia vivido. Uma esperança para o amor?

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Moreno Osório é jornalista e assina o blog Velha Amiga – European Tour

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Leia também:

– “Em Paris”, uma tradução perfeita de melancolia, por Marcelo Costa (aqui)

8 thoughts on “A impossibilidade do amor em 3 cenas

  1. Eu amo “A Bela Junie” e “As Canções de Amor”. Principalmente pelo Louis Garrel, mas isso não importa. Não li tudo, mas precisava comentar. Esses franceses são muito espertos, e adoram deixar tudo impossível, tramar “estratagemas” como em Amelie Poulain.

  2. Artigo bem legal. Sou muito mal informado sobre o cinema francês, mas o artigo despertou a curiosidade. Aliás, vocês poderiam escrever sorbe o amor nos filmes de Wong Kar Wai. 2046 e Amor à Flor da Pele são excepcionais.

  3. Eu amo Christophe Honoré e seus filmes. Assisti todos dele e adoro a delicadeza de seus filmes e como ele deixa tudo mais bonito. A cena de Em Paris que Paul e Anna cantam juntos é uma das mais bonitas que já vi. E o texto está ótimo, faz jus aos filmes.

  4. Poxa, vai falar de amor e utiliza os filmes do Honoré como exemplo? Esse cara é péssimo. Tenta sem sucesso imitar descaradamente o Truffaut. Quer utilizar filmes franceses sobre amor, utilize Truffaut, ou o Rohmer! honoré é lixo pop.

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