Música: entrevista com Armandinho

por Marcos Paulino

O reggae do gaúcho Armandinho estourou no Brasil com a música “Desenho de Deus”, em 2006, que tocou até enjoar nas rádios. Mas, no Sul do país, Armando Antônio Silveira da Silveira já era um nome conhecido. Mesmo numa carreira quase independente, havia conseguido boas vendagens de seus dois primeiros discos. Foi com o sucesso daquela canção, entretanto, que ele atravessou as fronteiras sulinas, o que lhe rendeu contrato com uma grande gravadora, pela qual lançou o CD “Armandinho Ao Vivo”, seguido de “Semente”, em 2008.

Armandinho, porém, não estava totalmente feliz. Achava que sua música andava por caminhos que não eram exatamente os que ele queria. Aí radicalizou. Decidiu gravar um novo álbum no estúdio de sua casa, com seu próprio selo, e nele deixar mais clara sua influência rock´n roll. Assim, com “Volume 5”, ele espera atrair também um público que torcia o nariz para seu lado mais pop romântico. Sobre o novo trabalho, Armandinho deu ao Plug, parceiro do Scream & Yell, a entrevista a seguir.

É nítido que o novo CD traz uma pegada mais rock´n roll, com guitarras mais marcantes. Isso foi proposital?
O Coringa, guitarrista que estava comigo há 12 anos, saiu da banda em 2007. Ele tinha um estilo suave, requintado, de muito bom gosto, melodioso, com riffs bem característicos do reggae. No lugar dele, entrou o Luciano Granja, que tocou com a Pitty e com o Engenheiros do Hawaii. E eu passei a criar os riffs de guitarra. Neste disco, gravei todas as guitarras para dar uma ideia pro Luciano. Gravei na minha casa, sem pressão, e achei que as guitarras ficaram muito boas, gostei da sonoridade. Aí combinei com o Luciano de deixar daquele jeito. Era bem o que eu queria. Como guitarrista, sempre tive essa pegada mais rock. Sou muito fã do Jimi Hendrix.

Esse é um lado seu menos conhecido dos fãs, certo?
Sou surfista e, quando vou pegar onda, gosto de ouvir rock, de som pesado, porque dá uma carga de adrenalina que me deixa mais corajoso. Hendrix e Black Sabbath acabam influenciando meu jeito de surfar. Fazia tempo que queria colocar a adrenalina do esporte que pratico no meu dia a dia, na minha música. Meu trabalho estava vindo na obrigação de fazer sucesso, de agradar as gravadoras. Agora, com meu selo, achei que estava na hora de gravar uma música que pudesse botar no som do meu carro e que me inspirasse a pegar onda. Tive a liberdade de colocar meu lado rock que ficava guardado. Meu trabalho ficou mais completo, mais verdadeiro. Não perdi o romantismo, a veia pop, mas agora tem o rock que faltava antes.

Você considera que seu trabalho estava pendendo muito para o pop romântico?
Muito. Eu estava perdendo a minha identidade. Chegava uma certa hora em que eu não conseguia mais curtir o meu disco. Agora escuto no carro, fiquei muito feliz com o resultado. Acho que estou conquistando um outro público. Meu trabalho estava indo para as crianças e isso me incomodava, porque me deixava um compromisso grande. Sou pai de uma menina de 3 anos e sei que é preciso muito cuidado com as coisas que a gente leva para as crianças. Não queria ir para esse lado. Queria trazer um público que tem mais a ver com a minha idade.

Você foi independente, já esteve numa grande gravadora e agora tem um selo próprio. Como está sendo esta fase?
É uma tendência do mercado. Os artistas cada vez mais estão abrindo seus selos e suas editoras. Voltaria numa boa para uma gravadora, mas precisava da liberdade de me reencontrar. Não posso ficar na pressão de repetir o sucesso de “Desenho de Deus”. A gente muda, escuta outras sonoridades. Ficava angustiado de ter que fazer outro sucesso como foi aquela música.

Mas mesmo na época independente você teve boas vendagens.
Mas foi em dois Estados. E eu não era bem independente. Era de um selo chamado Orbit. Meu primeiro disco vendeu mais de 80 mil cópias no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, o que me valeu um disco de ouro. Na realidade, acho que este momento agora é o mais independente de todos.

Seu selo também lançará trabalhos de outros artistas?
Tenho um acervo enorme de músicas que escrevi, que já não pega mais bem eu cantar. Tenho quase 40 anos. São músicas que ficariam legais para uma banda de molecada. Vou divulgar meu trabalho até julho, e depois quero pegar umas duas bandas que estou de olho para produzir. Quero contribuir para lançar coisas novas.

De qualquer forma você não vai querer abrir mão do público jovem no seu trabalho próprio. Prova disso é a faixa “As festas que eu vou”, que tem uma letra bem adolescente.
É isso aí. Tenho um público fiel e não posso de uma hora para outra virar as costas para ele. Mas essa música já botei lá no fim do disco (Risos). São músicas dessa época, de colégio, da adolescência, que pretendo lançar com outras bandas.

No disco tem uma regravação de “Como dois animais”, do Alceu Valença. Você pensa em gravar mais coisas de outros artistas?

Sou fã demais do Alceu. Este disco, que mistura reggae e rock, tem tudo a ver com ele, porque pra mim ele é um roqueiro. Tem vários artistas que eu gostaria de regravar. No segundo disco, regravei “Leãozinho”, do Caetano Veloso. No ao vivo, gravei “O bem e o mal”, do Dori Caymmi, que foi trilha sonora de “Riacho Doce”, da Globo. Sempre que tenho oportunidade de regravar alguém da MPB, eu faço.

E você pensa em fazer alguma coisa em inglês?
Já fiz. Tenho feito viagens de surfe que estão sendo filmadas. Estou viajando com surfistas profissionais e com músicos que surfam. Um dos surfistas é o Teco Padaratz, grande nome do surfe brasileiro, que escreve, toca e canta. Tem mais duas viagens marcadas: uma em setembro para a Indonésia e uma em março do ano que vem para o Havaí. A trilha sonora desse filme terá músicas em espanhol e em inglês, que já estão sendo gravadas, várias estão prontas. Provavelmente eu vá colocar logo à disposição pra galera conhecer esse meu outro trabalho.

Se você digitar no Google “Armandinho Volume 5”, aparecem dezenas de sites oferecendo o download do disco. Isso te incomoda?
Isso me prejudica e me ajuda. É cedo pra gente tentar tirar uma conclusão se é bom que as pessoas baixem sua música de graça ou não. Isso é uma realidade e nem tem como voltar atrás. O mercado, as gravadoras têm que se adaptar. A internet também é um grande meio de divulgação. Acho que a música tem que tocar, não importa como. Se tiver que tocar de graça, vai tocar. Os profissionais da música ainda estão meio perdidos, mas acho que isso em breve vai ser resolvido. Agora, o que me incomodaria mesmo é se minha música não tocasse nunca. Tenho muitos fãs no Uruguai, na Argentina, que só me conhecem por terem acesso à internet. Mas é lógico que isso faz com que a gente venda menos.

Com “Desenho de Deus”, você conseguiu projeção fora do Sul do país, mas ainda não explorou o interior de São Paulo. Isso está nos planos da nova turnê?

Meu empresário e meu produtor artístico estão morando em São Paulo. Todo meu equipamento também. Continuo morando no Sul, mas nossa base está em São Paulo. Recentemente, fiz um show em Ilha Comprida, no litoral sul de São Paulo, e tinha muita gente do interior. A receptividade foi muito boa. Acho que este é o ano de entrar bem no interior.

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Marcos Paulino é jornalista e editor do caderno Plug, do jornal Gazeta de Limeira

12 thoughts on “Música: entrevista com Armandinho

  1. Confesso: sou muito preconceituoso com essas coisas. Quem mora aqui no RS sabe que o Armandinho, mesmo na fase mais, ahn, “underground”, só fazia pop de segunda linha, que nem “Desenho de Deus”. É meio complicado acreditar que agora ele vai lançar um disco decente nessa influência de Hendrix e Sabbath. É até um pouco risível.

    Não acredito nessa coisa de artista que vai pro mainstream e volta querendo fazer som longe da pressão da gravadora. Se o cara optou por ganhar dinheiro sem se importar com a qualidade do trabalho, que continue assim. Muito fácil encher o bolso e depois vir com discurso sobre o meio independente.

  2. pois é, eu sou uma pessoa esperançosa, consigo encontrar musica boa até nos discos do Papas da lingua (uma, aquela com a adriana calcanhoto), mas num disco do Armandinho é esperar demais da minha fé.

  3. Se nem o cara curtia o som dele, eu que não vou gostar dessa pasteurização de reggae romântico. Agora o cara vai virar rockeiro??? Só ser for da classe da Pitty, Nx zero e essas coisas vergonhosas…

  4. a gente discorda sobre Radiohead, discorda sobre Vanguart, sobre rock gaúcho, sobre o melhor disco dos Beatles etc, etc, etc… mas, pelo jeito, todos concordamos quanto ao Armandinho: pseudo reggae praieiro ou rock… não dá.

  5. “Fuma, fuma , fuma folha de bananeira”
    Mas que pérola, da música brasileira…é reeeealllllmente…um guri dourado…cheio de talento e energia, praticamente um Marcinho Blau-blau dos anos 00…(?)
    Como diria meu titio Bertram, não se fazem mais cachimbos como antigamente…
    Como músico um graaaandeee surfista!
    Ou melhor…
    Vou comer miojo, por que o pastel ta caro…
    Um beijo nas criança…

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