Ao vivo: Wado e Cidadão Instigado

Texto e fotos por Marcelo Costa

Responsáveis por dois discos que devem aparecer em várias listas de Melhores de 2009, Wado e Cidadão Instigado subiram ao palco para apresentar suas novas canções ao vivo, o primeiro na quinta-feira (08/10) no Studio SP, e o segundo na Choperia do Sesc Pompéia no sábado (10/10).

Em seu segundo show em dois meses na capital paulista, Wado desta vez seguiu a linha afoxé que marca o lançamento de “Atlântico Negro”, quinto álbum solo do compositor, apoiado pelo Projeto Pixinguinha e distribuído gratuitamente em download em seu site oficial. O primeiro show, em agosto no Sesc Vila Mariana, com uma formação feita às pressas tendo apenas um ensaio, foi mais cru, roqueiro e bastante empolgante com o repertório centrando foco no fino da discografia de Wado.

Neste retorno com sua banda atual (a mesma que gravou os dois últimos discos) mais afinada nas apostas musicais de Wado, a guitarra pontua a apresentação em algumas partes, mas descansa e deixa o bloco passar sambando e suingando desde o começo da noite, com “Tarja Preta/Fafá”, que abre o show, seguida do sambinha “Alguma Coisa Mais Pra Frente” e da densa “Tormenta” até abraçar as boas faixas de “Terceiro Mundo Festivo”, coisas belas como “Melhor” e “Fortalece Aí” além de “Pendurado”, “Reforma Agrária do Ar” e a ótima e deliciosamente pornográfica “Teta”.

O disco novo abre o segundo bloco com “Estrada”, e Wado cita o sociólogo inglês Paul Gilroy, cujo livro “The Black Atlantic” (1993) serve de referência para o novo álbum, e continua a festa com o pot-pourri “Jejum/Cavaleiro de Aruanda” e as ótimas “Martelo de Ogum” (que cita Hot Chip) e “Cordão de Isolamento” (cutucada no delicado assunto das cordas que separam classes sociais em carnavais e micaretas e que, em São Paulo, poderia ser traduzido como área vip). As belíssimas baladas “Pavão Macaco” (assista ao clipe aqui), “Frágil” e “Vai Querer?” rendem o momento calmo e lírico da noite.

Para o final, “Ontem Eu Sambei”, brilhante número de “O Manifesto da Arte Periférica”, disco de estréia (2001) que abria ótimas perspectivas para a década, atreladas a redescoberta do samba via Los Hermanos e por uma necessidade de levar a música brasileira para o século 21. Gravadoras deram as costas, o emo comprou as rádios, Wado lançou um álbum obrigatório (“A Farsa do Samba Nublado”, de 2004) e continua distribuindo pérolas aos porcos. Que o digam “Melhor”, “Pavão Macaco”, “Fita Bruta” (ausente na noite) e “Não Para”, canção gravada (numa versão excelente) por Maria Alcina, e que encerra a noite de forma precisa: “Me acorda, me emociona de novo: não para, não para, não para não”.

Candidato fortíssimo ao posto de melhor disco de 2009, “Uhuuu”, terceiro disco do Cidadão Instigado, mostrou toda sua força no palco da choperia do Sesc Pompéia para um bom público. A trupe afiada de Fernando Catatau seguiu a risca a seqüência do disco, e abriu a noite com a poderosa “O Nada”, em que o cantor atropela a métrica, desafina horrores nos gritos, e ainda assim arrepia numa belíssima execução. “Contando Estrelas” surgiu em versão redentora, e exteriorizou ainda outras influências, mostrando um instrumental coeso e uma execução lírica.

É impressionante como todas as canções, que já são excelentes em estúdio, cresceram absurdos ao vivo. A batida tribal de “Doido” (com um q do Franz Ferdinand de “Tonight”) veio ainda mais contagiante e contou com Arnaldo Antunes no palco declamando maluquices. Já a bonita “Dói”, com participação de Edgard Scandurra na terceira guitarra e nos vocais, subiu aos céus. A longa “Escolher Pra Quê?”, música escolhida para antecipar o disco via My Space, conseguiu impressionar ainda mais.

A linda “Como as Luzes” ganhou uma versão emocionante que valorizou o seu refrão lírico e seu q de faroeste a lá Ennio Morricone enquanto “Ovelinhas” destacou o lado country da segunda metade da canção. “A Radiação na Terra”, junção de Caetano Veloso fase “Araçá Azul” com o Radiohead de “Ok Computer”, foi um dos grandes momentos da noite, que ainda teria na seqüência as ótimas “Deus é Uma Viagem” e “O Homem Velho”, e o batuque psicodélico de “Cabeção”.

No bis, Scandurra e Arnando voltaram sozinhos para uma versão de “O Buraco do Espelho”, parceria dos dois gravada no disco “O Silêncio”, de Arnaldo. Aos poucos, cada integrante do Cidadão entrava para engrossar o arranjo até a música virar “Bandeira Branca”, clássico de Dalva Oliveira. Bonito. Sem os convidados, o Cidadão partiu para o encerramento com a sensacional dobradinha “Os Urubus Só Pensam Em Te Comer” e “O Pobre dos Dentes de Ouro”, e um constrangedor momento Tim Maia de Fernando Catatau, que poderia até estragar a noite, se o show tivesse mediano. Não foi. O Cidadão é hoje uma das grandes bandas brasileiras sobre um palco. Só precisa tomar cuidado com as mancadas…

Leia também:
– Faixa a faixa de “Atlântico Negro”, por Wado (aqui)
– Cidadão Instigado e Little Joy ao vivo, por Marcelo Costa (aqui)
– Baixe os cinco de Wado gratuitamente no site oficial (aqui)

10 thoughts on “Ao vivo: Wado e Cidadão Instigado

  1. Eu tenho gostado cada vez mais do Wado. Acho interessante como os discos dele vão chegando, para mim, lentamente. Me pego ouvindo “Pavão Macaco” sem parar, assim como aconteceu com “Melhor” do outro disco e aos poucos as outras canções vão ficando mais familiares até eu me apaixonar pelo disco todo. Isso não acontece com todas as bandas que ouço. Ando com pouca paciência e poucas ficam, hoje, como o som do Wado.
    “Vai Querer” é do meu amigo, o compositor de Niterói, Luis Capucho.
    Ainda vejo um show deles.

  2. Gostei muito do show do Wado. Fazia tempo que não dava pra dançar e tomar uma cerveja num show dele aqui em São Paulo (os últimos foram todos em teatro). É uma pena não poder carregar todo mundo que participa da gravação em estúdio para os shows. Adoraria ver a Verinha cantando Martelo de Ogum (e toda a galera que faz os backings juntos). De qualquer forma foi lindo o show.
    Sobre o Cidadão Instigado: uma grande apresentação, como sempre, mas quero ter a oportunidade de ver esse show em um ambiente mais intimista (sim, mais do que a choperia). Tenho ótimas lembranças de um show no antigo Studio SP, na Vila Madalena e de um show instigadíssimo no Inferno, todo mundo pertinho e pulsando com a banda toda. Achei que o cidadão não estava tão instigado assim. Fora o momento “xilique” do Catatau no final. Adorei as músicas novas ao vivo, mas um pouco de improviso seria bacana 😉

  3. De fato, o ‘momento Tim Maia’ do Catatau, quase cagou com um show q até então vinha sendo impecável. Qto ao Wado, uma pena ter chegado a SP um dia depois do show. Mancada perder um show de um cara como ele.

  4. Esse cidadão Intigado é uma ABERRAÇÃO completa. Perdi meu tempo vendo essa porcaria no SESC.O tal de catatau é o pior cantor q já vi na vida.

  5. Engraçado é que cantores ruins (vozes renitentes) são muitos bons: chuck berry, lou reed, chico buarque, tom zé, fred 04, só pra citar alguns. ‘Contando estrelas’ é sem dúvida a melhor música de 2009. Cidadão instigado dá um chute no saco do ‘roquinho meinstrim’. Viva!

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