Curitiba ficou pequena!

Por Murilo Basso

Quatro anos atrás, o Scream & Yell “visitou” Curitiba e se surpreendeu com uma das cenas mais empolgantes do país. O resultado rendeu um especial publicado primeiramente no Portal Terra, e depois no próprio Scream. O tempo passou e Curitiba continua sendo um dos principais centros criativos do país. Musicalmente falando, é claro.

A cena independente curitibana evoluiu muito nesses últimos anos; talvez o pouco espaço e visibilidade, antes característica marcante seja responsável por esse crescimento: a busca por essa diferenciação nos palcos, e fora deles também, acabou evidenciando o profissionalismo destes músicos; a estrutura cresceu significativamente e hoje Curitiba ficou pequena para tanta banda bacana.

É fácil citar, pelo menos, duas dúzias delas com quem podemos perder algumas horas do nosso dia. Com lançamento do seu primeiro CD previsto para o final de março o Anacrônica faz um som pop que facilmente te fisga e seu potencial para baladas radiofônicas é inegável.

Na estrada de 2004 e com 5 EP’s já lançados o Mordida é irreverente, muito bem humorado e deixa sua proposta bem clara: divirta-se. Já o ruído / mm é no mínimo inusitado; inicialmente você pensa que poderia ter surgido em qualquer outro lugar, menos na “fria, gelada e antipática” capital paranaense.

A Trivolve chama a atenção por sua simplicidade: você tem a impressão que apenas um violão e uma voz seriam suficientes, e neste caso, isso está longe de ser algo negativo. Merecem destaque também o dançante Copacabana Club e seu pop-dançante muito bem feito, a delicadeza poética do Wandula ou ainda a despojada Sabonetes.

Isso tudo sem contar aquelas bandas citadas na reportagem de 2004, gente como o Terminal Guadalupe (que está em estúdio preparando o sucessor do elogiado “A Marcha dos Invisiveis”)¸ a Relespública (que lançou no fim de 2008 um novo álbum), a Pelebrói Não Sei (em período de férias) e o Cores d Flores (com Mariele Loyola à frente). E OAEOZ, a Poléxia e… ok. Vou parar.

Agora, o mais divertido, e acho que você conseguiu perceber é que há um pouco de tudo para todos os gostos – “Um suco de tudo quanto é fruta”, brincou um dos músicos da ruído / mm – e grande parte dentro daquela velha filosofia rocker do “faça você mesmo, do seu jeito e não se complique”.

De qualquer forma você pode andar pela cidade na véspera de um final de semana que com certeza irá ouvir vários comentários do tipo: “Curitiba é tão parada” ou “Aqui não tem nada pra fazer”. Conversinha mole, não acha?

ANACRÔNICA

“Não sou diferente, só quero meu sonho…”

 

“Eu, Marcelinho e o Gordo nos conhecemos desde a infância, fomos vizinhos por muito tempo. Já tocávamos juntos há oito anos quando conhecemos a Sandra em meados de 2004. Mais tarde, resolvemos montar um novo projeto, que no começo, tratava-se de um power trio, onde eu cantava. Dois meses depois desistimos da idéia. Eu já estava casado com a Sandra, que cantava em outra banda. Então, por idéia dos outros garotos, resolvemos agregá-la a banda”, lembra Bruno Sguissardi (guitarra e voz).

O Anacrônica surgiu em abril de 2005 e, desde então, se destaca como uma das bandas mais bacanas de Curitiba. Mesclando diversas influências, de Beatles a Cardigans, constrói músicas com ótimo apelo pop: ”Totem”, por exemplo, soa sincera e a força de ”Delorean” faz você balançar. ”Eterno Retorno” é linda – e se encaixa perfeitamente na voz de Sandra. ”Deus e os Loucos” consegue ser, ao mesmo tempo, poética e bem humorada. São letras singelas que mesmo assim fogem do “lugar comum”. Tudo de forma muito espontânea.

“Não nos sentimos confortáveis estando dentro de um conceito fechado; por isso o nome da banda. Essa é a idéia desde o começo: absorver informações de todos os lugares e a todo o momento em busca de uma identidade” conta Bruno. “Criar algo novo”, continua Marcelo Bezerra (bateria), “Algo nosso, algo que possa remeter a várias coisas, mas que mesmo assim seja diferente”.

A banda demonstra empolgação com a cena musical de Curitiba. “Hoje todos estão preocupados em gravar um bom material, em ter uma produção. Curitiba não é um pólo cultural como é São Paulo; o público está acostumado a receber tudo ‘mastigado’. Mas a cidade está crescendo e com isso a mentalidade do público também”, diz Marcelinho (baixo).

Marcelo acredita que ainda falta Curitiba ‘soltar’ uma banda a nível nacional e, para ele, o cenário está caminhando para isso. “As bandas estão se profissionalizando, o público recebe melhor o artista. O fato é que para uma banda se consolidar nacionalmente precisa estar na grande mídia – SP, RJ. Mas aqui tem tanta banda boa, então chegou a vez de Curitiba”, comenta.

Nos próximos meses será lançado o primeiro CD do grupo, “Deus e os Loucos”, que contará com 11 faixas, sendo uma delas inédita, e foi produzido por Tomaz Magno (Terminal Guadalupe). “Estamos trabalhando pra caramba e ficamos felizes com as críticas positivas, com o reconhecimento do público. No entanto, sabemos que ainda estamos no começo. Temos muito trabalho pela frente!”, conta Sandra.

O Anacrônica consegue ser envolvente e romântico, sem cair naqueles velhos clichês. É gentil o suficiente para te emocionar e você precisa deixar, para saber aonde tudo isso irá te levar. Talvez não mude sua vida, mas consegue fazer você sorrir. E muitas vezes não conseguimos saber como ou porque.

Links:
MySpace: www.myspace.com/bandaanacronica;
Trama Virtual: www.tramavirtual.com.br/anacronica;

MORDIDA

“Todo mundo se diverte como pode!”

Um convite estranho, uma bola fora e a mesma idéia – ao mesmo tempo – em duas cabeças: “Duas pessoas bem diferentes resolveram montar uma banda e encontrar as convergências”, conta Paulo Hde Nadal (guitarra / voz). Assim, em 2003, surgia o Mordida. “É… uma parceria do asanga com o Paulo”, completa Ivan Rodrigues (bateria).

A estréia aconteceu em 2004 com o EP “Mordida”. Logo em seguida foi lançado o ao vivo “A Grande Garagem que Grava” (2005). Em 2007 mais dois EP’s: “Tokyo” e “Festa Jovem”. Para o trio, após alguns anos de estrada, houve uma mudança no discurso. “Estamos interados no que está acontecendo. Nossa música ganhou em peso, ganhou em interpretação. Ganhou identidade”, diz Ivan. “O mundo evoluiu sonoramente e nós evoluímos juntos. É natural”, conclui Paulo.

O som pop-dançante traz referências que vão desde jovem guarda ao britpop, e as letras bem humoradas estão presentes na maioria das canções. Algumas vezes soa repetitivo, mesmo assim há várias e boas surpresas: você pode ser contagiado pela ironia de “Tokyo” ou ser flagrado dançando “Maluca” – “É descontraída, emocionante… e positonada!”, brinca o vocalista. Pode se divertir com a ingênua “Eu Amo Vc” ou com a intensa “Judy”.

Sobre a cena curitibana, a banda acredita que a cidade passa por um momento especial. “É algo único. Posso até citar três bandas bacanas, as primeiras que vêm à cabeça: Poléxia, Charme Chulo e Anacrônica”, cita Ivan. A distância dos grandes centros não é vista como problema. “Para criação não existe mais diferença em fazer música aqui, em São Paulo ou no Rio de Janeiro” comenta Álvaro Antônio (teclado). “Olha, vou ser bem Banda Eva: é lindo! Existe um espírito comunitário” complementa Paulo.

E o futuro? “Pequenos passos, uma caminhada tranqüila. O trio tá bem afinado e as idéias estão fluindo bem”, conta o vocalista. “Simplesmente acreditamos que estamos em um momento artístico especial e o público local corresponde”, finaliza Ivan. Quando qualquer batida pop acompanhada de letras melodramáticas encontra seu público, apostar em fantasias românticas aparentemente fúteis pode ser uma boa alternativa. Superficial? É… pode ser. Mas muito divertido.

Links:
Site: www.mordida.art.br
Myspace: www.myspace.com/mordidarock
Tramavirtual: www.tramavirtual.com.br/mordida

ruído / mm

“ruído por milímetro ou ruído mordeu a maçã ou ruído matou a maria…”

Antes de tudo é preciso ouvir. E não uma ou duas, mas sim, várias vezes. E mesmo assim você corre o risco de acabar tão perdido quanto no início. Ou pode se surpreender…

O ruído / mm – André Ramiro (guitarra, percussão e escaleta); João Ninguém (guitarra, sintetizadores e acordeom); Ricardo Pill (guitarra e teclado); Giovani Farina (bateria); Rafael Martins (guitarra); Rubens K (baixo) e Sergio liblik (piano e teclado) – sim, sete caras e quatro guitarras, surgiu em 2004.

Nossa conversa começou bem humorada; “Fique tranqüilo, somos bem poéticos”, comenta André. “Eu sei, percebi pelas letras”, respondi. “Veja”, continua, “Ruído é uma referência à mistura de tudo que ouvimos, vemos e somos. É o caos sonoro e impossível que se consiga expressar tais referências de uma só vez. O ‘Por Milímetro’ vem dar ordem a esse caos. Orquestrá-lo de forma a apontar para uma linguagem orgânica, com uma unidade estética singular e coerente”.

Seu som quase indescritível impressiona por sua consistência. Abrindo possibilidades para várias interpretações, e isso, você fará à sua maneira. A ausência de letras desperta várias e distintas sensações. Pela manhã é algo; à noite a sensação pode ser completamente oposta. “Ninguém aqui sabe cantar e, pensa bem, a maioria das bandas possuem letras chulas, por isso são ruins. É muita responsabilidade”, brinca André.

Canções como “A Praia” e “Caixinha de Música” merecem ser ouvidas. “Sanfona” é suave e deixar-se levar por ela é uma experiência muito agradável e as distorções de “Célula Dois” assustam; é possível esperar o inesperado. E então você tem a ligeira impressão de que o mundo está prestes a acabar. Curitiba possui aquela fama de antipática, fria. Então qual a reação a um som normalmente inusitado? “Depende da hora do dia – manhã, tarde ou noite – e do humor de cada um. Muita gente não entende o que fazemos, e isso acontece mesmo com grupos instrumentais”, diz André, ou Pill, ou um dos fantasmas logo atrás.

“A vila é forte”, ouço ao fundo. “Só que quem mora aqui não sabe disso, ou faz pouco caso. Digo isso pelo público e não pelos músicos, porque estes sabem faz muito tempo”, completa alguém. No final de 2008 o grupo lançou seu primeiro álbum (“Praia”; Open Field Records – SP), que fez parte do Top 50 do Prêmio Scream & Yell e foi eleito pela equipe da Trama Virtual um dos melhores trabalhos do ano.

Os próximos passos; “Bem, começou cinza, passou pela praia e terminará despido em alguma estrada do norte da Europa”, ouço. “Uma perna de cada vez, sempre, se precisar, pra frente. Se tiver que voltar, voltamos”, finaliza outra voz. Alguns dias atrás ouvi de um amigo: “Não é para mim e, talvez, não seja para você, mas tem seu valor”. Se você quiser, consegue perceber esse valor, que aqui, vem da criatividade e principalmente do inusitado. Acabou, saio feliz. É bom saber que certas coisas são irreversíveis.

Links:
Myspace: http://www.myspace.com/ruidopormilimetro
Site: http://ruidomaamute.blogspot.com

TRIVOLVE

“Vivo, penso, sou!”

“Eu não agüentava mais ficar parado depois do fim da Extremodos”, relembra André Becker. “A Mônica estava começando a compor e queria formar uma banda e como somos vizinhos acabou dando tudo certo”. Completam o grupo Mônica Bezerra (Voz / Violão), Rafael Barp (guitarra) e Carlos Pokes (bateria).

O principal trunfo da Trivolve está na sua simplicidade. A inteligência e a sensibilidade das letras e arranjos expressa na forma como são retratadas pessoas, sentimentos e lugares também chama a atenção. “Que a Loucura me Faça” emociona por sua simplicidade. “Não Preciso Chorar” mostra um falso otimismo, não soa batido, e assim consegue escapar de falsas pretensões. De início podem parecer canções tristes, mas logo se percebe que tudo não passa de palavras verdadeiras que precisam ser ditas e poucas vezes são. E poucos conseguem dizer.

 “Sempre fizemos um som com a nossa cara, sincero, que nos expõe completamente ao público. Acho que isso cria uma maior proximidade e ligação com as pessoas, por não ser uma fantasia que vestimos por alguns momentos pra conquistar quem ouve e depois é deixada de lado”, comenta Becker.  Do início, em 2005, até hoje, a banda vem conquistando seu espaço na cena local: “Evoluímos bastante. Passamos por várias mudanças de integrantes até chegarmos nessa formação. No ano passado tivemos a sorte de conhecer o Carlos Pokes, e de o Rafael Barp, conhecido já há algum tempo, juntar-se a nós”, completa André.
 
Para Becker, ainda que muitos não concordem, as conquistas de cada uma das bandas da cidade têm aberto espaço para as outras. “Possivelmente muitas bandas nem liguem para isso, mas Curitiba tem hoje uma ‘unidade’ – talvez ‘união’ não seja o termo mais correto – formando essa identidade curitibana”.

“Temos artistas talentosos!”, continua Carlos, “Músicos que tocam com o coração, com a emoção. Isso contagia o público. A receptividade de uma forma geral é muito boa. Isso nos dá cada vez mais força pra continuar, no entanto, o público curitibano ainda não acompanha as bandas locais como o pessoal de São Paulo ou até mesmo do Rio, mas acredito que com o tempo isso irá melhorar”. A Trivolve pretende lançar alguns singles no decorrer do ano, sendo um deles no início de março. “Já estamos ensaiando e trabalhando pra nosso próximo registro. Em pouco tempo teremos novas músicas gravadas”, conclui Pokes.

Após ouvir suas canções você não tem mais dúvidas que uma boa música pode sim ser feita das idéias mais simples; e por mais contraditório que isso possa parecer, hoje, ser simples é algo extremamente complicado. É então que você percebe que aquela sinceridade, presente desde o início, continua ali – e tomara que possa continuar por um bom tempo.

Links:
Myspace: http://www.myspace.com/trivolve

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Leia também:

– O rock nacional renasce em Curitiba, por Marcelo Costa (aqui)

15 thoughts on “Curitiba ficou pequena!

  1. Depois que vi o “Sintonizando Recife” da MTV ano passado, logo me toquei de que a próxima cena regional a ganhar um especial pela emissora deveria ser Curitiba. Há um tempo atrás, ela já tinha feito isso com a bandas de Porto Alegre, lembram? no Acústico Bandas Gaúchas.

  2. Mto boa a matéria! Parabéns por escrever bem!
    E obrigada pelas palavras sobre as composições da Trivolve.
    Temos mta gente boa por aqui, e mta diversidade sonora tbm!
    um abraço de Curitiba pra vcs!

  3. Muito boa a matéria, muito bem escrita mesmo, e as bandas todas muito boas, pelo menos pra quem não tem o custume de comer banana com casca!!

  4. estou apaixonada pelas descobertas, na minha própria cidade…está mais do que na hora de valorizarmos os nossos artistas, dessa “ ‘ fria, gelada e antipática’ capital paranaense ” =D

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