entrevista de Luiz Mazetto
Responsável por alguns dos discos mais barulhentos (no melhor sentido possível) das últimas três décadas com o Today is the Day, uma das bandas mais influentes e subestimadas do metal underground dos EUA, Steve Austin resolveu seguir um caminho diferente em 2026. Isso porque o vocalista, guitarrista e produtor acaba de lançar o seu primeiro disco solo, em que o foco sai da combinação entre guitarras dissonantes e gritos saídos diretos do âmago.
Intitulado “Marked Cards e Loaded Dices”, o álbum de estreia dessa nova fase da carreira do músico (que continua firme e forte com o Today is the Day, vale dizer) traz um som country clássico da melhor qualidade, que respeita as origens do gênero, seja em referências como Willie Nelson, Townes Van Zandt e Hank Williams ou na gravação analógica com músicos experientes no estilo, mas traz uma abordagem própria por parte de Steve, que cresceu com esses sons e atmosferas na infância no estado do Tenessee.
Na entrevista abaixo, Steve fala sobre como a gênese do disco começou no início da pandemia da COVID, analisa o legado de mais de 30 anos do Today is the Day, conta como sua paixão pela música country influenciou até nos nomes dos seus filhos, revela como um disco do Miles Davis mudou a sua vida, lembra como foi produzir discos clássicos de nomes como Converge, Lamb of God e Deadguy e ainda conta porque considera a família de Max e Iggor Cavalera seus melhores amigos em todo o meio musical.
S&Y: Pelo que li nessas últimas semanas, você começou a trabalhar nesse disco durante a pandemia em 2020, então há cerca de seis anos. O quanto a própria pandemia e o isolamento, em que todos nós estávamos naquela época, influenciaram sua abordagem para as músicas, incluindo as letras?
Steve: Teve muito a ver com isso porque, como todo mundo, eu estava em lockdown durante a pandemia e enlouquecendo em meio a tudo aquilo. Eu não tinha ninguém para tocar junto, então acabei tocando violão pra caramba. E, no meio disso, estava meio enojado com muitas coisas na vida e tentando entender tudo. Cresci no Tennessee, por isso toco música country desde que era criança, mas nunca fiz isso na minha carreira profissional como músico. Então escrevi uma música chamada “Am I Just Crazy”. E depois que escrevi essa música, gostei tanto dela que decidi continuar escrevendo e fazer um álbum completo.
Essa é uma ótima história porque é minha música favorita do álbum. É uma música realmente muito bonita!
Eu também gosto muito dela, Louie. E estou animado porque há um produtor e diretor de vídeo, o nome dele é Zev Deans, e ele fez vídeos para Ghost, Mastodon, High on Fire, um monte de bandas, realmente ótimas. E ele vai fazer um vídeo de “Am I Just Crazy” comigo em junho. Estou realmente animado com isso. Acho que vai ser muito legal. Essa música me atingiu muito, muito forte, lá na época da COVID e tudo mais. Sabe, você tinha tanto tempo para pensar em tantas coisas. E acabei pensando sobre a minha vida, de onde eu vim, quem eu sou. Também era algo para provar a mim mesmo, em termos de talento, sobre conseguir compor músicas e fazer algo que é baseado totalmente em tocar seu violão, cantar e compor músicas, então foi um grande desafio. E eu estou muito feliz com isso porque eu queria fazer direito. Não queria simplesmente fazer um álbum e jogá-lo por aí. Basicamente, eu gostaria de dar algum tipo de coisa à música country para que as pessoas que a acompanham – ou talvez não gostem de música country – possam ter um gosto de como soa a verdadeira música country, o tipo de coisa que começou tudo lá nos anos 1940, 50, 60 e 70.
E você conseguiu ver shows de alguns dos cantores clássicos enquanto crescia no Tennessee?
Eu consegui ver o Willie Nelson. Meu pai me levou para ver o George Jones. Não tive a chance de ver muitos deles porque morávamos bem no interior, e o lugar mais próximo onde eles costumavam tocar era Nashville, de vez em quando. Mas tive sorte de conseguir ver alguns dos grandes nomes. E há alguns que eu gostaria de ter conseguido ver, como Townes Van Zandt e Blaze Foley. Não cheguei a ver esses caras tocarem porque acho que eles eram um pouco anteriores à minha época.
E quando você estava crescendo, sendo um jovem que gostava de punk e metal, você ainda ouvia country ou meio que deixou isso para trás, como algo da sua infância? Porque, quando crescemos e começamos a ficar mais rebeldes, às vezes deixamos certas coisas de lado por um tempo e depois voltamos a elas.
Foi exatamente isso que aconteceu. Quer dizer, aprendi a tocar violão/guitarra tocando músicas country, principalmente canções do Hank Williams junto com meu pai. E, como qualquer criança, você gosta dessas coisas porque elas estão ao seu redor e porque talvez realmente goste delas. Mas, quando cheguei ao fim da adolescência, descobri o hard rock, o heavy metal e o rock progressivo. E também, por ter crescido no sul, como qualquer garoto, eu queria sair de lá. Queria ir para Nova York. Queria viajar. Então, quando estava no fim da adolescência, eu não diria que achava country algo sem graça, mas tudo relacionado a viver em Nashville… eu não queria ter nada a ver com aquilo. Eu ressentia a música country e ressentia Nashville. E parte disso era porque aquilo tudo representava essa versão moderna do country, muito corporativa e tudo mais. Então veio a COVID, e aquilo meio que me fez começar a pensar na minha vida e nas coisas que realmente importavam para mim. Foi aí que percebi: “Uau, isso é legal”. Estou mais velho agora e já não tenho mais aquela neura de odiar o lugar de onde vim ou coisas assim. Na verdade, comecei a enxergar a beleza da forma como cresci, sendo um garoto numa fazenda, e a valorizar muito mais as coisas simples da vida: ter seu cachorro, correr pela floresta, caçar, pescar, estar em contato com a natureza, coisas gratuitas que eu podia aproveitar quando era criança. E também a maneira como cresci, como me tornei um jovem adulto e comecei na música… muita reflexão introspectiva sobre tudo isso.
Eu li que o álbum originalmente estava planejado para ser lançado em 2024. Houve algo específico que fez você adiar isso? Você lançou um novo disco com o Today Is the Day em 2025 (“Never Give In”), talvez tenha sido para evitar que os dois álbuns saíssem tão próximos um do outro?
Bem, foram algumas coisas. Quando você lança muitos discos ao longo dos anos, começa a perceber que o timing tem tudo a ver com as pessoas conseguirem ouvir algo. E, como você provavelmente se lembra, durante a COVID, ficamos praticamente parados em 2020 e 2021, e ainda em boa parte de 2022. Então, em 2023, eu já estava perto de terminar o álbum, e minha intenção era lançá-lo em 2024. Mas olhei ao redor e parecia que o mundo ainda estava uma bagunça. Havia problemas na cadeia de suprimentos, todo tipo de loucura acontecendo. E eu não queria que o disco simplesmente saísse e fosse esquecido por causa de toda aquela confusão no mundo. Então decidi: “Bom, eu já tenho o álbum do Today Is the Day pronto, então vamos esperar um pouco com os dois discos até parecer que as coisas estão voltando ao normal”. A parte engraçada é que, como você sabe, as coisas até voltaram um pouco ao normal, mas, de certa forma, estão mais bagunçadas do que nunca, até agora. Então chegou um ponto em que minha estratégia — de pensar “você colocou muito tempo nesses discos, não quer simplesmente jogá-los no mundo quando tudo está ferrado” — precisou mudar. Tive que tomar uma decisão: será que tudo vai realmente se ajeitar? O mundo vai voltar minimamente ao normal e existir um momento perfeito para lançar isso? Ou simplesmente “foda-se”, temos que lançar agora? E acabou chegando nesse ponto.
Você está acostumado a produzir discos pesados há mais de três décadas com o Today is the Day e também com bandas como Converge, Lamb of God e várias outras. Como foi esse processo para você? Quão diferente foi produzir esse disco majoritariamente acústico — mesmo tendo outros instrumentos, ainda é um álbum principalmente acústico. E eu sei que você quis gravá-lo com equipamento analógico para preservar uma sonoridade parecida com a dos anos 1960 e 70. Isso também foi um desafio em termos de conseguir acesso a esse equipamento?
Eu tinha boa parte dos equipamentos que usei para gravar o álbum, mas foi um desafio fazê-los soar como precisavam soar. Tantas gravações hoje em dia são cheias de truques e técnicas digitais, muito “copia e cola”, e de técnicas usadas para fazer discos que, na minha opinião, transformaram os discos em algo que costumavam ser, mas que agora já não são mais. A antiga forma de fazer isso era você praticar suas músicas, conhecer o material, sabe? E então você entrava num estúdio de gravação e gravava sua música até acertar. E a nova forma é: você nem precisa mais se preocupar tanto com isso. E as pessoas simplesmente fazem esse “copy paste”, edição digital e consertam as coisas. E eu não queria que esse álbum fosse assim. Queria que fosse o mais real possível. E então nós realmente usamos muito pouco o computador, praticamente só para edição digital e algum alinhamento das músicas para conseguir tudo no lugar certo. Eu só queria que fosse realmente gravado com performances reais. E isso levou um pouco mais de tempo. Por outro lado, as pessoas com quem toquei no álbum são tão boas que não foi preciso fazer muitas regravações ou correções. Mas levou tempo porque, durante a COVID, as pessoas simplesmente não saíam muito e não tinham pressa para trabalhar. Então precisei fazer funcionar com o que pude, quando as pessoas podiam vir gravar o disco.
E ainda nesse assunto, quão diferente é para você tocar essas músicas ao vivo? Porque imagino que, nesta última década, você tenha se acostumado a estar no palco com muitos amplificadores, cantando e gritando a plenos pulmões. E agora você precisa meio que medir tudo nos mínimos detalhes. Você se sente mais exposto quando está tocando ao vivo?
Sim, com certeza. É algo totalmente diferente. É engraçado porque, quando comecei o Today is the Day, eu não sabia cantar. Eu não conseguia tocar guitarra, não conseguia fazer nada. Eu simplesmente saía por aí gritando e berrando. E então, ao longo dos anos, fui ficando melhor nisso. Mas essa é a primeira vez em que realmente estou tendo que cantar de verdade. E isso é algo completamente diferente. Você não pode simplesmente subir no palco e berrar como um louco. Tem que controlar sua respiração, controlar a voz, acertar as notas, manter tudo afinado. E, sim, você definitivamente se sente mais exposto porque não existe uma parede de amplificadores escondendo tudo. Todo mundo consegue ouvir cada detalhe do que você está fazendo. Mas, ao mesmo tempo, isso também é algo muito empolgante, porque me desafia de uma forma totalmente nova.
Você estava falando sobre Townes Van Zandt. Você gravou um cover dele e nesta última década acho que houve três discos tributo lançados pela Neurot Recodings com covers feitos por nomes como Wino (Saint Vitus, Obsessed), Steve Von Till (Neurosis), Nate Hall (U.S. Christmas), John Baizley (Baroness) e membros do Amenra e Cave In – e muitos desses músicos também possuem discos ou carreiras solo ligadas ao folk. Por que você acha que tantos músicos dessa cena da qual você também faz parte têm essa conexão tão forte e essa vontade de tocar esse tipo diferente de música, que é mais calma e mais conectada às raízes da música americana?
Acho que, no fundo de tudo, a música é sobre comunicação. É como uma comunicação de emoções, de experiências pelas quais as pessoas passaram. E esses primeiros discos de pessoas como Townes Van Zandt, Bob Dylan e Blaze Foley e coisas do tipo, trazem uma música realmente primitiva no sentido de não ter filtro algum, apenas música honesta e real vindo direto para você. E no mundo em que vivemos, para mim, há muito pouco desse tipo de música, então sempre que você vê alguém como Townes Van Zandt, você percebe, tipo “Uau, esse cara está realmente vivendo isso. Isso é algo sério. Música séria”. E então eu acho que você é muito ligado em música e ama rock progressivo, acid jazz ou qualquer outro tipo de coisa, existe uma apreciação por artistas, não importa que tipo de música eles toquem, se vem do coração e é de verdade.
Legal. E isso vem de um lugar pessoal para você, certo? Porque, como você estava dizendo, você cresceu no Tennessee. E, pelo que eu li, seu filho se chama Hank. Imagino que seja pelo Hank Williams, certo?
Sim, e o outro, meu outro filho, se chama Willie.
Ah, ok, legal. Então é Hank e Willie. Isso é o quanto essa música é importante para você.
Ah, sim, cara, porque quando você volta bastante no tempo, até mesmo antes, digamos, de Hank Williams, sabe, caras como Jimmy Rogers e Woody Guthrie, eles estavam por aí no período pós-Depressão e as pessoas não tinham dinheiro, não tinham nada mesmo, e estavam todas vivendo tempos realmente difíceis, estavam quebradas, não tinham casa e tudo isso. E, obviamente, as pessoas não tinham dinheiro para gastar com instrumentos musicais e coisas assim. Então, de vez em quando, um cara como Jimmy Rogers ou Woody Guthrie aparecia com um violão simples que provavelmente custava quase nada, e sentavam e tocavam músicas e cantavam sobre a experiência do que estavam vivendo na vida, e as pessoas se reuniam ao redor e ouviam e se conectavam com a música. Então, não era baseado em ganhar dinheiro e não era baseado em popularidade ou qualquer coisa assim, era só um cara que tinha algo a dizer e então ele tocava as músicas. E eu acho que esse tipo de coisa é mais importante do que nunca agora por causa do que eu estava falando sobre tecnologia, que, sabe, hoje em dia o maior assunto é as pessoas falarem sobre música feita por IA, onde você pode colocar comandos e fazer a IA criar uma música para você. E isso está a milhões de quilômetros de distância de algo como Jimmy Rogers ou os caras de quem eu estava falando, onde vem do coração, vem de um ser humano de verdade, não há truques, não há firula, sabe. E eu acho que, por causa da revolução digital na tecnologia de gravação, as pessoas estão buscando músicas mais baseadas em talento, como composição, execução de verdade e canto, porque elas querem algo autêntico, e você vê isso com artistas como Billy Strings, que é uma força enorme no bluegrass e na música underground. Você mencionou o Hank III. Eu cresci em Nashville e conheço o Shelton, esse é o primeiro nome dele. Eu conheço o Hank III desde que eu tinha provavelmente 17 anos, e eu adoro ele, adoro o que ele faz, acho ele incrível, e já vi o Hank tocar várias vezes e é sempre intenso, é sempre honesto e vindo do coração, e eu diria até que, se há algo nos dias de hoje que chega perto do que eu faço ao vivo, seria algo como o Hank III com alguns caras do underground que gostam de música pesada e música country, e então eles sobem lá e se soltam e tocam o mais pesado que conseguem, sabe?
Legal. E você já está planejando o próximo disco?
Sim, já escrevi umas quatro músicas para o próximo álbum. E tenho outro álbum chamado “The Magnolia Sessions” que já está gravado e será lançado mais para o fim deste verão. “The Magnolia Sessions” foi gravado em Nashville, Tennessee, então eu fui para lá com minha esposa, Hannah, em outubro passado. E basicamente é uma gravação ao vivo, só eu com um violão acústico Martin e cantando. O disco é composto por muitas músicas de “Mark Cards and Loaded Dice”, e também tem, acho que um cover de “Waiting Round to Die” está lá. Há também algumas outras músicas inéditas que estarão no álbum, que são canções novas. Então vai ser algo legal para os fãs, porque “Mark Hearts and Loaded Dice” tem uma produção mais densa, com muitos violões, steel guitar, fiddle, bateria, vocais, tudo isso, então é uma experiência de banda completa. Já o álbum “The Magnolia Sessions” é mais como um disco do Bob Dylan ou do Neil Young, algo só de cantor e compositor, mas que cria uma experiência bem poderosa. E eu tenho muito orgulho desse. Ele sai mais para o fim, tipo julho ou agosto.
Ah, legal. Sim, faz todo sentido, porque quando você ouve músicas como “Am I Just Crazy” ou “Henry”, dá para imaginar elas só com voz e violão acústico.
Com certeza, eu acho isso muito legal, acho divertido. E, no fim das contas, cara, você faz música porque gosta, e eu quero fazer as pessoas sentirem algo por dentro, seja com Today is the Day ou com isso. E eu sinto um vazio pelo fato de não termos mais um Johnny Cash, não termos mais um Hank Williams, existe um vazio na música, eu acho, desse tipo de coisa. E eu adoro ver que, como eu disse, Billy Strings está mandando muito bem com o bluegrass, Sierra Ferrell é outra que provavelmente é uma das melhores cantoras de country feminino que já existiram, e ela é atual, ela está tocando agora. E tem outra chamada Molly Tuttle, que arrebenta, ela domina o bluegrass na guitarra e no canto. Então há muita esperança para a música country de verdade que finalmente está começando a aparecer. Mas quando eu fiz essa música, eu não… eu simplesmente fiz para mim. Eu não fiz pensando que muitas pessoas iriam gostar ou algo assim, eu fiz porque eu precisava fazer. E espero que talvez outras pessoas como eu, que passaram por momentos difíceis ou viveram muitas situações dolorosas, possam ouvir isso e talvez encontrar alguma inspiração e esperança nisso.
Me diga, por favor, três discos que mudaram a sua vida e por que eles fizeram isso. Não necessariamente os únicos três, porque isso é impossível, mas três dos discos que mudaram a sua vida.
Eu diria que um deles é definitivamente o “Bitches Brew” (1970), do Miles Davis. Esse é meu álbum favorito de todos os tempos. Eu realmente amo esse disco porque é revolucionário, porque começou uma era do pensamento e da arte puramente abstratos, porque a maior parte da música em “Bitches Brew” é improvisada. Há algumas partes em que eles resolveram antes de gravar, mas nem todas. Ouvi esse álbum mais de 20 vezes, provavelmente 50 vezes. Cada vez que escuto, ele me traz de volta algo novo.
Eu diria que outro álbum que mudou minha vida seria o “Wish You Were Here” (1975), do Pink Floyd. É simplesmente incrível. Não sei, para mim, é uma medida de gravar em analógico. A acústica soa incrível nele, os sintetizadores, a composição das músicas, simplesmente no geral, é incrível.
E eu diria que, como outro álbum, é difícil escolher porque há um monte deles, mas talvez o “Outlaws”, do Willie Nelson. Os Outlaws eram uma banda com Waylon Jennings, Willie Nelson, Tom Paul Glaser e Jessi Coulter. E foi o primeiro disco de country a vender um milhão de cópias (nota do repórter; na verdade foi o disco “Wanted!”, dos Outlaws, de 1976 que foi o primeiro no estilo a alcançar essa marca).
Esta é a última pergunta. Você criou esse novo estilo de metal e hardcore com noise com o Today is the Day e influenciou bandas como Converge, The Dillinger Escape Plan e Mastodon, além de ter tocado ao redor do mundo. Você tem um documentário sobre você e agora também está começando uma nova fase na sua carreira como cantor country. Então, eu queria saber: do que você mais se orgulha na sua carreira ao longo destes mais de 30 anos?
O que mais me orgulha em tudo isso são todos os discos do Today is the Day, até agora. Estou realmente feliz com a forma como tudo acabou se desenrolando. Não foi fácil. Houve muitas vezes em que eu provavelmente teria desistido. Perdi minha casa duas vezes durante esse período com o Today Is the Day. Na verdade, perdi tudo duas vezes. Mas tive minha família ao meu lado o tempo todo. E a música sempre significou muito para mim, não apenas para mim, mas também para outras pessoas em suas vidas — pessoas que conseguiram vencer o vício, que encontraram uma maneira de lidar com a depressão, pensamentos suicidas e todo tipo de coisa. E, por saber o quanto isso é importante para as pessoas, nos meus momentos mais sombrios, quando eu queria desistir, eu não fazia isso, porque sinto que foi para isso que fui colocado neste mundo: para ajudar pessoas que estão passando por momentos difíceis. Então, mesmo eu tendo perdido tudo duas vezes, tudo relacionado ao Today Is the Day foi o mais importante.
Também diria que, no mundo das gravações e da produção, me deixa muito orgulhoso olhar para trás e pensar: quem é a maior banda de heavy metal do mundo hoje? Lamb of God. Quem é a maior banda de metalcore do mundo? Converge. E eu tive a sorte de gravar o “New American Gospel” (2000) para o Lamb of God e “When Forever Comes Crashing” (1998) para o Converge. Esses discos foram basicamente a ponte ou a plataforma de lançamento para eles fazerem o que fazem hoje. Então, se sou responsável por alguma coisa além da minha própria música, seja Today Is the Day, country ou qualquer outra coisa, me deixa muito orgulhoso ter conhecido os caras do Lamb of God e ter feito os álbuns “Burn the Priest” (1999) e “New American Gospel” (2000). A mesma coisa com o Converge. Tenho orgulho de ter me tornado amigo deles e de ter feito um disco que ajudou a lançar a carreira deles. O mesmo vale para o Deadguy. Eles tinham “Fixation on a Co-Worker” (1995), depois fizemos “Screamin with the Deadguy Quintet” (1996) e eles seguiram o caminho deles. Então, fico feliz por ter conseguido dar uma mão e tentar colocar um nível de excelência nesses discos que os fãs podem apreciar por muitos e muitos anos.
Muito obrigado, Steve. Espero poder ver você no Brasil algum dia, seja com o Today Is the Day ou também com sua carreira solo.
Cara, mal posso esperar para ir aí. Meus melhores amigos em toda a música são a família Cavalera.
Sério? Nossa, isso é muito legal de ouvir.
Sim, eu considero eles como minha família. É esse o nível de proximidade que temos. E eu estou sempre perguntando ao Max, ao Igor, ao Iggy, à Gloria: “Me contem sobre o Brasil, me falem sobre como é”. Parece um lugar tão empolgante, porque eu nunca estive aí antes. E eles são pessoas maravilhosas. E não estou dizendo isso só porque sou amigo deles, estou falando sinceramente. De todas as pessoas que conheci em 33 anos fazendo isso, a família Cavalera é, de longe, o grupo mais verdadeiro, humilde, gentil e gente boa que já encontrei. E talvez seja coincidência eles serem do Brasil, mas talvez vocês simplesmente tenham um país cheio de pessoas realmente boas e autênticas.
– Luiz Mazetto é autor dos livros “Nós Somos a Tempestade – Conversas Sobre o Metal Alternativo dos EUA” e “Nós Somos a Tempestade, Vol 2 – Conversas Sobre o Metal Alternativo pelo Mundo”, ambos pela Edições Ideal. Também colabora coma a Vice Brasil, o CVLT Nation e a Loud! A foto que abre o texto é de Ericka Poore.
