texto de João Paulo Barreto
“Toy Story” não falha em nos surpreender. Mesmo após cinco filmes, a capacidade da Pixar em criar, a partir de uma premissa simples e direcionada ao público infantil, histórias munidas de profundas reflexões voltadas para o público adulto, é algo deveras impressionante. Ao pensar nisso, claro, é impossível não observar o modo como, nos últimos 31 anos, desde a estreia de seu marco da computação gráfica com o filme original em 1995, as tramas propostas por John Lasseter, Pete Docter e Andrew Stanton conseguiram construir um escopo profundamente enraizado em seu público alvo. Tal profundidade diz muito sobre o significado da real infância na formação dos seres humanos e como isso reflete no amadurecimento e na formação de caráter em futuros adultos.
Assim, após trazer Woody e Buzz como bastiões da felicidade infantil do pequeno Andy até que o garoto crescesse e fosse para a universidade em um emocionalmente dilacerante final de trilogia (como esquecer aquele momento na fornalha no encerramento da parte 3?), foi com um sentimento tenro e uma semelhante alta carga emocional que vimos surgir uma nova criança para que a dupla de brinquedos e sua trupe pudesse acompanhar em sua jornada por essa estrada de amadurecimento. A introvertida Bonnie, que, neste novo exemplar da franquia, simboliza a timidez infantil em sua dificuldade de fazer novas amizades, tem em seus brinquedos um portal criativo no qual extravasa uma imaginação que somente seus pequenos companheiros conseguem canalizar.
Mas como os últimos 31 anos desde que fomos apresentados a Andy foram, ao mesmo tempo, inovadores e criativos em termos de formas de brincar, tal passagem do tempo também se mostrou capaz de tornar uma individualidade nessas brincadeiras um exemplo nocivo de como transformar crianças em pessoas solitárias e individualistas. Em seu roteiro para essa quinta aventura do cowboy e do astronauta, os dois queridos personagens de toda uma geração não são os protagonistas. Jessie, a cowgirl, se torna o brinquedo preferido da pequenina e fofinha Bonnie, que imagina a intrépida vaqueira nas mais diversas aventuras. Porém, logo um novo brinquedo surge, um tablet digital batizado de Lilypad, uma tentativa dos pais de Bonnie em tornar mais fácil para a pequenina fazer amizades com outras crianças.
É neste ponto que “Toy Story 5” ganha seu ponto de reflexão e se faz presente como mais um episódio imprescindível que a Pixar traz em intervalos regulares de tempo e nos ajudam a pensar sobre a importância de uma infância feliz e repleta de brincadeiras na criação de adultos mentalmente saudáveis e equilibrados. Ao desenhar com precisão a escravização de toda uma sociedade perante telas de aparelhos eletrônicos e como a geração de crianças atuais caminha por uma trajetória tragicamente semelhante de dependência, os roteiristas e diretores Andrew Stanton e McKenna Harris atualizam o conceito de “Toy Story” como mais do que um simples filme infantil, colocando-o como uma obra que espelha de modo sagaz o que vemos em nosso entorno no dia-a-dia, bem como enquadrando-o como uma exata análise da passagem do tempo que afeta de maneira psicológica e diferente cada pessoa.
E nesse revisitar dos personagens originais da Pixar, Andrew Stanton e McKenna Harris não perdem tempo em brincar de maneira hilária com essa mesma passagem do tempo afetando seus protagonistas clássicos. Assim, é com um sorriso de canto de boca que vemos um descascar da tinta em Woody denotar uma calvície ou quando outros exemplares de Buzz Lightyear surgem com modernas e surpreendentes atualizações tecnológicas, sendo uma elas um momento ‘deus ex-machina’ perfeito para a trama. Nas piadas envolvendo antigos brinquedos eletrônicos com funções educativas ou câmeras digitais infantis com suas fotos pixelizadas (sendo um deles dublado de modo histérico e hilário por Conan O’Brien), “Toy Story 5” encontra outro ponto sagaz de extravasar cômico.
Mas ainda é na tradicional relação afetiva com a simplicidade de brinquedos feitos de pano, como a vaqueira Jessie e seu fiel companheiro, o pangaré Bala no Alvo, que reside muito da beleza desse novo exemplar. Nas brincadeiras imaginárias de Bonnie, que eventualmente acaba encontrando alguém para dividir essa criatividade mental, uma exata relação entre essa simplicidade das brincadeiras é percebida e denota de modo pungente a sagacidade do roteiro de Harris e Stanton em sua representação visual e metafórica do onírico presente no ato de brincar. Quando quer ilustrar como as brincadeiras são representadas na mente das crianças, “Toy Story 5” não utiliza o aspecto impressionantemente real de sua marca visual. Ao invés disso, o filme faz valer um tradicional tipo de animação, algo que gera uma representação muito mais adequada do imaginário infantil.
Some a isso uma bela relação afetiva de adultos e suas raízes simbólicas representadas pelos seus brinquedos e “Toy Story 5” se garante como mais um exemplar emocionalmente estoico para adultos, mas deliciosamente divertido para seu público alvo. Que a essa altura, já não se sabe mais se são as crianças ou os marmanjos que, nos últimos trinta e um anos, cresceram e, esperamos, se tornaram adultos mais saudáveis mentalmente por causa de seus brinquedos e de filmes como este. Um último aviso: levem um lenço para o cinema. Vão precisar.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.
