textos de Joyce Moreno

“Músicas De Pacífico Mascarenhas”, Conjunto Sambacana (1964)
“Foi minha primeira experiência em estúdio. Eu tinha 15 anos quando Roberto Menescal organizou um conjunto vocal para o álbum que ele estava produzindo com as composições do Pacífico Mascarenhas, um compositor mineiro de bossa nova. Pacífico estava bancando a gravação toda, que originalmente era para ser com Os Cariocas. Mas o orçamento não deu. O grupo de apoio já tinha sido o conjunto do Roberto Menescal (cheio de bambas como Eumir Deodato, João Palma, Sérgio Barrozo e Ugo Marotta, além do próprio Menescal, que então ficou encarregado de organizar um quarteto vocal pra isso. E ele me chamou pra ser a primeira a voz desse grupo. As outras vozes são dele mesmo, além de Hedys Barrozo e Toninho (que era o crooner no conjunto de baile Bingo Sete, liderado por meu irmão Newton). Foi uma experiência maravilhosa – e eu ainda ganhei meu primeiro cachê!”. Ouça aqui!

“Joyce”, Joyce (1968)
“Eu era uma garota irreverente e cheia de ideias em 1967, quando a gravadora Philips (depois Polygram, hoje Universal) me contratou, através de seu produtor Armando Pittigliani. Eu tinha aparecido pela primeira vez no Festival Internacional da Canção daquele ano, com a canção “Me Disseram” (“que meu homem não me ama…”, prosseguia a letra, o que me valeu vaias e críticas na imprensa – “como assim, uma menina de 19 anos, aluna da PUC, dizendo essas coisas???” Mas foi justamente o que talvez tenha chamado a atenção da gravadora. Para este álbum inaugural, gravado e lançado em 1968, usei canções minhas, compostas entre os 18 e os 20 anos, como “Não Muda Não” (espécie de carta de intenções onde a menina diz ao rapaz que não pretende se casar, “deixa assim, que tá bom”) e “Superego” (a primeira das minhas canções “estranhas”, que mereceu de um crítico a curiosa afirmação “grande música – difícil acreditar que tenha sido composta por mulher”…). Também entraram canções de amigos tão ou quase iniciantes como eu, que generosamente cederam músicas e letras: Marcos Valle e Ruy Guerra, Caetano, Paulinho da Viola, Toninho Horta e Ronaldo Bastos, meu parceiro Jards Macalé, Francis Hime e o padrinho de todos nós, Vinícius de Moraes, que ainda escreveu o lindo texto da contracapa. Os arranjos foram feitos por Dori Caymmi e Lindolfo Gaya. As fotos de capa e contracapa são de Pedro de Moraes. Foi um começo de carreira bastante feliz. Ouça aqui!

“Encontro Marcado”, Joyce (1969)
“Encontro Marcado”, meu segundo álbum, de 1969, mudou bastante o rumo do que eu vinha fazendo até então. Aos 21 anos, com a cabeça misturada de quem amava o samba e a bossa, mas ao mesmo tempo estava interessada nas novas tendências, como o tropicalismo e as novidades do futuro Clube da Esquina (meus amigos eram, e são, um barato) – o novo disco entrava num caminho diferente. A produção foi entregue ao querido Nelson Motta, e foi sua primeiríssima experiência na função. Os arranjos, usando sonoridades bastante afinadas com o momento, foram entregues a Luiz Eça. No repertório, algumas novas composições minhas, e numa delas, um novo parceiro: José Carlos Capinan, na música “Preparando um Luminoso”. Pela primeira vez, por insistência de Luizinho (com quem eu colaborava bastante nas ideias para os arranjos), toquei violão numa gravação: nesta canção e na faixa-título, “Encontro Marcado”. Gravei também canções de Gilberto Gil e Nana Caymmi, Braguinha e Antônio Almeida, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, e os estreantes Danilo Caymmi, João Carlos Pádua, Nelson Ângelo e Sérgio Flaksman (este também meu parceiro em “Copacabana Velha de Guerra”, que viria a ser gravada por Elis Regina). Uma continuação bem diversa do que eu fizera no primeiro álbum, mas fez sentido naquele momento – um momento de procura por uma identidade, ainda não consolidada, pois eu era muito jovem e aberta a todas as influências possíveis. Eu ainda não era eu. Mas estava chegando.” Ouça aqui.


