49ª Mostra SP: “Labirinto dos Garotos Perdidos” cria sua (anti) fábula gay sobre o universo dos encontros casuais

texto de Renan Guerra

“São Paulo é um dealer / disfarçado de vendedor de sonhos”, diz o refrão de “São Paulo Cospe Fogo”, faixa do projeto Tintapreta ao lado de Negro Léo; “mil dores mil amores / mil mortes me buscaram / e eu fugindo de São Paulo / com uma música / um sonho / um verso”, segue a canção. Essas palavras podem ser a síntese de quem chega a São Paulo e se perde pelas noites e por seus encontros bem como também pode representar o universo de “Labirinto dos Garotos Perdidos” (2025), de Matheus Marchetti. No filme, um jovem do interior vem para a cidade prestar vestibular, mas antes disso ele acaba se perdendo na madrugada, passando por uma série de encontros sexuais cada vez mais inusitados, para dizermos o mínimo; tudo isso enquanto há um assassino fazendo jovens vítimas pela metrópole, todas com o mesmo arquétipo de jovens gays.

Essa sinopse abre um leque de leituras: seria “Labirinto dos Garotos Perdidos” um filme slasher? Uma homenagem queer às pornochanchadas? Para quem já viu outros filmes de Marchetti, pode até surgir a dúvida se não seria um musical de fantasia. De todo modo, o próprio diretor classifica seu novo filme como uma fábula moderna, que de algum modo bebe de diferentes gêneros, do giallo italiano ao cinema romântico musical. Miguel (Giuliano Garutti) é o nosso guia nessa narrativa: o jovem adulto que chega a metrópole para uma prova e se hospeda na casa do menino com quem trocava mensagens on-line. Tratado com frieza por seu anfitrião, Miguel acaba se aventurando na curiosa experiência dos encontros mediados via aplicativo. Dos encontros reais arranjados via Grindr, Miguel cai numa teia que inclui flertes em banheiros, bosques e outros caminhos inesperados.

O tesão de Miguel o leva por uma jornada que inclui encontros vergonhosos, experiências únicas e, claro, a exposição a diferentes perigos. Lembremos que tem um assassino a solta! Aqui a fábula de Marchetti se entrecruza com a realidade, pois estampam o noticiário diferentes casos de assassinatos de pessoas LGBT que ocorreram após encontros fortuitos, seja em crimes de ódio, em registros de latrocínio ou mesmo outros desdobramentos da violência urbana. Ainda assim, é interessante que “Labirinto dos Garotos Perdidos” não se guia pelo assassino e seus crimes, mas sim os utiliza como um pano de fundo constante, uma espécie de medo onipresente, que persegue seus personagens, medo que decorre da própria experiência marginal de pessoas queer, bem como da experiência geral de medo que paira sobre as grandes cidades.

“Labirinto dos Garotos Perdidos” , tal qual o próprio diretor define, parte da fábula. Com isso, a cidade ganha cores e tons quase farsescos. Aqui as casas de cada encontro possuem ares de antigos castelos, casarões com portas secretas e jardins de inverno; as praças e parques soam como bosques misteriosos, onde gatos e outros seres podem te ofertar desejos inesperados – ok, aqui não são gatos, e sim homens peludos e sedutores, mas fica claro o ponto de referência e sua presente diferenciação. E é nessa diferença, nessas ousadias que “Labirinto dos Garotos Perdidos” se distancia do conceito clássico da fábula, praticamente o subvertendo. As fábulas têm caráter moral; saímos delas com uma lição; a cigarra acaba com fome, hostilizada por ter se deliciado nos prazeres da música e fugido do trabalho. As gays de Marchetti em nenhum momento são culpabilizadas pelo seu desejo e pela violência que as persegue. O desejo aqui segue sendo motor de vida.

No universo criativo de Marchetti a fantasia e o real se entrelaçam caminhando por signos bastante presentes em seus trabalhos: a morte, o mistério, o desejo, o tesão, tudo lido de forma estilizada sob o olhar de um diretor que claramente é apaixonado pelos exageros estéticos, seja da dramaticidade dos filmes românticos musicais ou das cores e do sangue falso dos filmes de exploitation (e aí vamos dos giallos italianos as produções da Boca do Lixo paulistana). Tudo isso faz de “Labirinto dos Garotos Perdidos” uma experiência deliciosamente divertida e sedutora. Produzido totalmente de forma independente, o filme é um experimento de uma equipe apaixonada por cinema e que o faz com o prazer de quem entende as delícias que a tela grande provoca, abusando assim das cores, dos desejos e, claro, do sangue falso.

Tendo sua premiére na 49ª Mostra de Cinema de São Paulo, “Labirinto dos Garotos Perdidos”, de Matheus Marchetti, terá distribuição nacional da Filmicca, distribuidora e plataforma de streaming brasileira que atualmente também disponibiliza os títulos anteriores do diretor.

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– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

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