textos de Marcelo Costa

“Contigo en el Futuro”, de Roberto Girault (2025)
Os primeiros segundos de “Com você no futuro” são dignos de derreter corações de fãs de cultura pop: “Nos anos 80, quando o refrigerante era bom e a maconha ruim, os mortais selavam histórias de amor com músicas numa fita cassete. Os anos se passaram e a maconha foi legalizada em vários lugares, o refrigerante foi condenado e as fitas cassetes, esquecidas”. Quem dá a deixa é um Cupido (Mauricio Barrientos, uma espécie de Jack Black mexicano – calma Elle Fanning, calma), que precisa interromper suas férias porque um casal que ele flechou anos antes está prestes a assinar o divórcio, e “eu não cometo erros”, garante o nosso amigo. Ele então propõe uma aventura aos dois quase ex-pombinhos: que tal retornar aos anos 80, ao dia em que se conheceram e… evitar o romance? Afinal, se eles não se apaixonarem, não tem divórcio. Mas será que a paixão pode ser evitada? Sem ter muita opção, Carlos (Michel Brown) e Elena (Sandra Echeverría) são levados ao passado (de carro, um abraço ao Dr. Emmett Brown) para reencontrarem suas versões adolescentes e tentarem mudar o destino de ambos durante as sete canções (de Duncan Dhu a Flans, de Alaska Y Dinarama a Maná) que ela gravou numa fitinha para ele naquela noite apaixonada. Mistura de “Peggy Sue – Seu Passado a Espera” (1986) com, teoricamente, “Exterminador do Futuro” (1984), com pitadas de “De Volta Pro Futuro” (1985) e citações tortas de clássicos de Tarantino (e penaltis perdidos de Roberto Baggio), a comédia romântica dramática mexicana “Com você no Futuro”, produção da Amazon Studios, é uma pequena perolazinha pop perdida no catálogo da Amazon Prime. Porém, calma com os rojões, eles assustam os cães e tudo mais (isso também mudou dos anos 80 pra cá): “Contigo en el Futuro” não reinventa a roda, mas soa (1, 2… 3) honesto e sincero como um bom filme de John Hughes. As versões adultas de Carlos e Elena esbanjam falta de química enquanto as versões jovens demonstram o contrário, provando que algo se perdeu no caminho. Não se preocupe, o Cupido e o roteiro ajudarão o casal – e você também, caro espectador, que corre o risco de terminar a história com olhos marejados.

“La Dolce Villa”, de Mark Waters (2025)
Em 2017, a Itália implementou um programa nacional conhecido como 1 Euro Houses, visando atrair novos residentes para pequenas cidades cuja população está diminuindo com a proposta de venda de casas antigas por apenas 1 euro (pouco mais de R$ 6 no câmbio atual). O que em teoria parece uma bagatela, na prática revela algumas surpresas. “La Dolce Villa” (2025), terceiro filme consecutivo de Mark Waters distribuído pela Netflix, parece feito de encomenda para divulgar o programa. E ainda que, inadvertidamente, o título faça uma alusão (tosca) a um clássico de Federico Fellini, a inspiração real (ao ponto de quase soar um plágio) é “Sob o Sol da Toscana” (2003), de Audrey Wells, em que Diane Lane interpreta Frances, uma mulher que compra uma casa em um vilarejo toscano e inicia uma nova vida. Nesta “recriação”, Eric (Scott Foley) deixa Ohio em direção a Itália, um país pelo qual nutre certo trauma, visando “resgatar” a filha, Olivia (Maia Reficco), que está decidida a comprar uma casa de 1 euro e passar o resto de seus dias em um vilarejo toscano – ainda que só tenha 20 anos e a mínima ideia do que fazer da vida. Não importa, pois o personagem rascunhado de Olivia, símbolo de um roteiro frágil e superficial, está presente apenas como escada para que o pai se encante não apenas por uma das regiões mais belas do mundo (ainda que fotografada aqui como uma propaganda de margarina – a excelente série “Ripley” elevou muito o nível), mas também por uma bela donna, Francesca, a prefeita da pequena vila interpretada por Violante Placido, ainda mais encantadora que em “The American” (2010), em que, no papel de uma prostituta, vive um romance tórrido com George Clooney (“inexperiente em cenas de sexo”, quem diria). Voltando à comédia romântica insípida, o que Mark Waters tem a oferecer em “La Dolce Villa” é aquele típico cinema “para rir, ver e esquecer”, algo que ele é realmente muito bom, vide “Minhas Adoráveis Ex-Namoradas” (2009), “A Mãe da Noiva” (2024) ou “Cinco Evas e um Adão” (2001) – talvez “Meninas Malvadas” (2004) se salve, talvez. “La Dolce Villa”, porém, é mais um filme bobinho para assistir passando manteiga no pão.

“Ela Disse Talvez”, de Buket Alakus e Ngo The Chau (2025)
O ponto de partida da comédia turco alemã “She Said Maybe” – lançada pela Netflix com este título vago em inglês, a despeito da língua não ser a original dos dois países – é típico de um conto de fadas moderno estilo “O Diário da Princesa”: jovem garota alemã de ascendência turca visita o país de sua família e descobre que é neta de uma das mulheres mais ricas e poderosas da Turquia. Acontece que a “babaanne” (avó) é aquela típica vilã de novela de Globo que tenta manipular todos com o poder do dinheiro buscando aquilo que ela acha melhor para a família, segundo seus próprios preceitos (o que explica o afastamento do filho, que se mudou para a Alemanha com a esposa, teve uma filha, e escondeu a neta da matriarca por 20 anos). Bem, a jovem garota também não é uma Cinderela trabalhando como serviçal (embora o roteiro se esqueça disso em alguns momentos): Mavi (Beritan Balci) acabou de ganhar um prestigioso prêmio de arquitetura na Alemanha e está prestes a ser pedida em casamento pelo todo atrapalhado namorado Can (Sinan Güleç), que para comemorar dois anos de namoro, presenteia a amada com uma viagem à Istambul. Na dúvida entre o desejo de ser uma comédia romântica, uma comédia de costumes (chocando tradições turcas e alemãs, método sempre infalível para comédia pastelão), uma peça publicitária turística ou mesmo um drama familiar de sucessão (a família Roy elevou o nível do último estilo), a dupla de diretores Buket Alakus e Ngo The Chau assume todos, e se as imagens de drone de Istambul são de fazer o espectador abrir sites de viagem, e Beritan Balci demonstre muita desenvoltura conseguindo fazer leite de leão desse raki, o que chama a atenção é a maneira como os personagens turcos são a personificação da maldade na história, seja a avó Yadigar (Meral Perin), o primo que chefia a empresa ou um bonitão (milionário e solteiro) convocado para conquistar a herdeira. No fim, após idas e vindas (algumas inaceitáveis em tempos de apps de trocas de mensagens), “Ela Disse Talvez” soa um filme simpático caso você não se preocupe com bobagens como roteiro e se divirta observando ricaços esforçando para fazer o seu melhor: serem esnobes.
– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.