texto de Gabriel Pinheiro
O novo romance de Han Kang começa com um sonho. Nele, a neve cai esparsa em um campo que se estende até uma colina. A narradora se encontra ali, frente a milhares de árvores pretas sem copas ou galhos, apenas seus troncos nus. Essas árvores se diferenciavam um pouco na altura, como pessoas de idades diversas. “Por isso se pareciam com milhares de homens, mulheres e crianças magras, os ombros curvados cobertos de neve”. “Sem despedidas” (“We Do Not Part”) é o novo livro da última laureada com o Nobel de Literatura, um lançamento da Todavia Livros com tradução de Natália T. M. Okabayashi.
Funcionando tanto como uma espécie de premonição de um porvir quanto interpretação de um passado não-esquecido, este sonho é a porta de entrada – ou melhor, uma chave de interpretação – importante para o novo romance de Han Kang.
Em “Sem despedidas”, a escritora desenvolve uma narrativa lacunar e labiríntica pelo universo particular de sua protagonista, uma mulher que se vê num doloroso processo de isolamento. Até que uma ligação a levará em direção a uma casa isolada durante uma forte nevasca. Ela viaja até a Ilha de Jeju para salvar o pequeno pássaro branco de uma amiga, deixado sozinho, às pressas, após um grave acidente sofrido pela mulher.
Han Kang segue interessada em investigar o trauma, tanto em seu aspecto mais particular e íntimo, quanto naquilo o que ele tem de coletivo. Olhando para a história recente da Coreia do Sul, a escritora lida com um capítulo tenebroso: um massacre na Ilha de Jeju, onde dezenas de milhares de cidadãos foram aniquilados entre 1948 e 1949. Homens, mulheres, idosos, crianças. Numa caça desenfreada aos (supostos) comunistas, não havia distinção frente ao clique do gatilho.
Muitas décadas depois, um sem número de corpos foram exumados no terreno do Aeroporto Internacional de Jeju, espaço por onde hoje circulam milhares de turistas diariamente. O massacre de Jeju foi um precursor da Guerra da Coreia e de diferentes regimes ditatoriais de direita que se seguiram no país.
Entre o gesto documental e o ficcional, entre a sanidade e a loucura, entre o sonho e a vigília, entre o corpo e a memória, Han Kang cria aqui romance magistral, tão profundamente lírico quanto brutal. Num movimento circular, o texto segue um fluxo muito próprio e parece, no fim, retornar ao início. “Sem despedidas” lida com o trauma, a morte, o medo e a perda, mas é, na prosa única de Han Kang também uma meditação sobre a vida, a sobrevivência, a amizade e o amor.
– Gabriel Pinheiro é jornalista. Escreve sobre suas leituras também no Instagram: @tgpgabriel.