texto de João Paulo Barreto
Dirigida pela baiana Letícia Simões, a animação “Glória & Liberdade” (2025) integra a programação do festival curitibano Olhar de Cinema 2025. O Scream & Yell assistiu em primeira mão ao filme, uma co-produção pernambucana e cearense, e conversou com a cineasta soteropolitana sobre a ideia original de imaginar um Brasil no qual a divisão territorial do país se concretizou em um futuro distópico (ou até utópico, como frisou a realizadora), no qual a ideia separatista de territórios nacionais reflete um país atual, principalmente pós 2018, quando o discurso de ódio e o preconceito regional passou a dominar não somente ruas repletas de camisas amarelas da CBF, mas, também, uma internet repleta de fake news, e se concretizando como fator crucial para se angariar votos e ganhar eleições.
Existe, aqui, uma aspecto bem claro relacionado a esse Brasil que se evidenciou (mesmo sempre existindo), nos quais o preconceito regional em relação ao Nordeste e ao Norte se mostram em falas preconceituosas e abertas de sudestinos e sulistas sobre uma suposta personalidade das pessoas dessas regiões. Após o período citado acima, quando muitos desses comentários pejorativos clamavam por uma ideia territorial separatista, “Glória & Liberdade” traz em seu roteiro uma realidade nordestina e nortista já confirmada como novos continentes. “O Brasil pós-2018 foi atravessado por um discurso que transformou o preconceito regional em política de Estado. As falas contra o Nordeste não eram apenas manifestações individuais, mas parte de uma lógica de exclusão sistemática”, pontua Letícia.
Ao lado dos diretores de animação Esaú Pereira e Telmo Carvalho, Letícia Simões tem na escolha da animação uma eficiente ferramenta para ilustrar essa realidade futurista, mas calcada em um passado histórico e real. Em relação a tais aspectos visuais, “Gloria & Liberdade” possui elementos que caracterizam bem cada região daquele que costumava ser o Brasil, mas que passou a ser o citado continente Pau-Brasil: Recife como uma cidade futurista, mas que ainda traz elementos atuais. O Pará evidenciando seus tradicionais costumes, tanto em relação à música quanto em seus aspectos geográficos e fluviais, e Salvador quase como uma Gotham City, um local cuja perseguição política, a insegurança social, juntamente às características culturais locais, refletem as escolhas de paletas de cores e estilo na representação da cidade.
Letícia, cuja produtora Poema Tropical, ao lado da Moçambique Audiovisual, do produtor Maurício Macedo, e da produtora de animação Zonzo Estúdio, criaram em parceria o filme, também traz experiências na escrita de séries como “Cangaço Novo” e “Maria e o Cangaço”, trabalhos que abordam fatos históricos e que, com o primeiro citado acima, possui uma roupagem moderna. Na conversa abaixo ela fala, também, sobre como tais experiências a ajudaram a moldar a escrita para “Glória e Liberdade”. No papo abaixo, ela aprofunda esse processo de criação . Confira!
Você possui uma vasta experiência com documentários live-action. Imaginar narrativamente um futuro distópico brasileiro que ecoa tão profundamente em tempos atuais, mas que possui raízes em acontecimentos de revoltas populares reais do passado, funcionou melhor como uma animação?
Sim, absolutamente. A animação me permitiu expandir os limites para criar uma gramática visual própria para esse futuro distópico, (ou até, utópico, dependendo do teu ponto de vista), ainda que ancorado em fatos históricos, como a Revolta da Praieira ou a Cabanagem. A linguagem da animação funciona, no “Glória e Liberdade”, como uma fabulação histórica: ela nos dá liberdade para tensionar o tempo, construir possibilidades e misturar temporalidades, tornando visível o que muitas vezes foi apagado ou deformado pelas narrativas oficiais.
Como se deu o diálogo entre você, Esaú Pereira e Telmo Carvalho visando um estreitamento de olhares estéticos para o resultado final da animação em seus aspectos visuais?
Foi um processo bem colaborativo. Desde o início, buscamos uma escuta mútua entre nossas referências visuais, políticas e afetivas. Eu, vindo do documentário e da escrita, provoquei o uso do arquivo e da materialidade da imagem. Estávamos sempre nos perguntando: como desenhar uma distopia que ainda reverbera no presente? Como povoar esse mundo com rostos, sons e texturas reconhecíveis e, ao mesmo tempo, inventados?

Ainda sobre o aspecto visual do filme, ele possui elementos que caracterizam bem cada região daquele que costumava ser o Brasil, mas que passou a ser o continente Pau-Brasil. Recife como uma cidade futurista, mas que ainda traz elementos atuais. O Pará mantendo com mais evidência seus tradicionais costumes. Salvador quase como uma Gotham City. Como se deu a escolha dos elementos característicos de cada local para compor o que vemos na animação?
Queríamos que cada território mantivesse sua singularidade cultural, mesmo num futuro reconfigurado. Recife, a capital do Reino Unido de Pernambuco, foi desenhada como uma cidade tecnologicamente avançada, mas ainda marcada pelas desigualdades sociais, trazidas desde o tráfico escravagista ilegal do fim século XIX, assim como pela insurreição. Taua Sikusaua Kato, a grande nação com mais de 130 etnias indígenas, guarda a memória dos rios, dos barcos, das diferentes cosmogonias, com tudo isso resistindo à padronização neoliberal (e pagando o preço por isso). Já Salvador aparece como uma metrópole noturna, densa e vigiada, onde a cultura pulsa apesar da repressão. Usamos paletas cromáticas e trilhas específicas para refletir esses contrastes e preservar as atmosferas locais.

Você traz experiência na escrita de séries como Cangaço Novo e Maria e o Cangaço, trabalhos que abordam fatos históricos e que, com o primeiro citado acima, uma roupagem moderna. De maneira tais experiências lhe ajudaram a moldar a escrita para Glória e Liberdade para manter uma abordagem linguística dos povos originários, bem como cultural em seus hábitos que permaneceram até o futuro abordado pelo filme?
Trabalhar com a pesquisa histórica sobre a criação simbólica do Nordeste, bem como a história das rebeliões populares brasileiras me ensinou muito. A escrita de Glória e Liberdade parte do princípio de que o futuro não apaga o passado, ele o dobra. A resistência social se dá também pela permanência da linguagem, do corpo e destas formas de viver. Ao mesmo tempo, esse é um longa-metragem de animação, não é uma tese de doutorado; ou seja, era preciso trabalhar de uma forma sedutora a narrativa própria do filme. O trabalho nestas dramaturgias citadas me deu ferramentas para criar personagens enraizados, mesmo nesse contexto de tamanha pesquisa.

Existe uma aspecto bem evidente relacionado aos tempos atuais, nos quais o preconceito regional em relação ao Nordeste se evidencia em falas de sudestinos e sulistas sobre uma suposta personalidade das pessoas daqui. Isso se evidencia principalmente nas redes sociais em períodos eleitorais. Colocando um destaque justamente para isso em seu roteiro, na ideia de existir um outro continente a abraçar os estados nortistas e nordestinos, como foi que a observação do Brasil pós 2018 influenciou sua escrita?
O Brasil pós-2018 foi atravessado por um discurso que transformou o preconceito regional em política de Estado. As falas contra o Nordeste não eram apenas manifestações individuais, mas parte de uma lógica de exclusão sistemática. A ideia do continente Pau-Brasil é uma provocação, justamente por que o filme pergunta: e se o Brasil tivesse seguido outro caminho? E se os povos que sempre resistiram à colonização tivessem, afinal, vencido? Qual o sentimento que em ti, espectador, provoca essa possibilidade? Por fim, a ficção nos permitiu ensaiar essas perguntas sem pedir permissão à história oficial.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.