entrevista de Guilherme Lage
A década de 90 foi uma época de transformações no Brasil. Seja nos desafios de dar um pé na bunda do Collor ou até mesmo se acostumar com a chegada de um novo plano econômico, que está aí até hoje: o real. Foi nessa época também que as guitarras distorcidas começaram a aparecer com mais clareza no underground tupiniquim. O gênero musical já era conhecido de outra década, mas foi ali, nos últimos 10 anos do século XX, que se sacramentou no coração de jovens paulistas: o hardcore.
Naquela época, o hardcore era mais que música, mas conexão, descoberta. Porém,, ainda que São Paulo tenha sido o epicentro da efervescência hardcore, o gênero se espalhou em palcos, garagens e chão sujo de todas as regiões do Brasil. Como diz E.T, guitarrista do Muzzarellas, banda formada em 1991, “o que eu achava que só acontecia em Campinas com meus amigos doidos, estava rolando em todo lugar”. A declaração está no trailer de “Hardcore 90” (2025), documentário idealizado pelo historiador Marcelo Fonseca e pelo jornalista George Ferreira,
O filme levou para lá de 15 anos para ficar completo. Dá para entender: são obstáculos pelo caminho, muita gente para entrevistar, a correria da vida no dia a dia. O projeto, no entanto, nunca foi engavetado, estava era engrossando, ano após ano, e após 12 versões diferentes, finalmente verá a luz do dia no festival de cinema In-Edit Brasil, neste sábado (14), em São Paulo (com exibições ainda no dia 18 na Cinemateca – com pocket show do No Violence, e dia 20 na Matilha Cultural). Imperdível, o filme é um relato afetivo de quem estava lá, quem subiu no palco, quem escreveu sobre aquela cena! Em um mundo cor de xerox, como define George, o hardcore punk era uma boa pincelada com cores.
Músicas de bandas clássicas como No Violence e Rot permeiam aquela geração de jovens que se descobriam em meio ao som dissonante. Hardcore melódico, anarcopunks, straight edge. Tudo em um compilado sincero sobre uma geração que descobriu quem queria ser em meio a busca por identidade, troca de socos e união. Confira o bate-papo com os idealizadores!
Vocês podem me contar um pouco sobre o background de vocês? O Marcelo citou que teve bandas. Vocês participaram da cena hardcore dos anos 90? Como foi aquela época para vocês?
Marcelo: Cara, estou com 51 e toco desde os 19 anos, então é uma jornada bem longa. Nesse período que o filme cobre, eu estava entrando nessa cena e me tornando uma pessoa ativa no quesito de criar música e viver todas as experiências que a gente narra no filme, como troca de correspondência, gravadora… só não tive zine, mas por incompetência minha, pois montei uma pequena gravadora, gravei demo tape, mandei fita pelo correio, comprei muito fanzine, fui em muito show e vi muito show de bandas de amigos em VHS também. Então nessa parte mais prática do “viver a cena”, eu estava ali e foi um período muito rico para mim, já que enquanto outras pessoas estavam vivendo um período de formação, para mim foi um período de maturação. Entro um pouco mais velho do que a média nesse rolê. Sei lá, estava todo mundo com seus 16, 17 anos, eu já tinha uns 19 ou um pouco mais, então foi um período de amadurecer várias ideias, receber várias informações e processar elas no que eu me tornei como pessoa.
George: Da minha parte, eu não sou de São Paulo, cresci no litoral, em Santos. Comecei a frequentar uns shows, principalmente no final de 1990, começo de 1991, e aí saquei que tinha uma cena local legal, tanto de hardcore punk quanto de outros estilos. Eu tinha uns 15 anos nessa época e comecei aos poucos a ir nesses shows, a conhecer o pessoal de lá e a partir de 92/93, passei a vir a São Paulo para ver shows, mas não era algo frequente, era de tempos em tempos, não vinha todo mês. A partir de 94 comecei a vir mais e nessa época eu fiz fanzine, colaborei com fanzine. mais um pouquinho para a frente, ainda morando no litoral com amigos, organizava shows com bandas de São Paulo, chegou até a ter show com banda gringa. Bem mais para frente tive selo voltado para hardcore e punk, e só não tive banda. A gente volta e meia também viajava para outras regiões, ia para outros lugares também…
“Hardcore 90” é um projeto que já se estende há uns 15 anos, né? Queria que vocês falassem um pouquinho sobre isso, como esse tempo foi dividido. Foi questão da captação dos depoimentos? Ou entraves da vida mesmo?
Marcelo: O projeto nasceu em outubro de 2009, então já são 16 anos! Começou de uma ideia que eu tive. Eu dividia apartamento com uns amigos, que por sinal eram amigos que eu tinha uma banda na época. Eu assisti a aquele documentário “American Hardcore” (2006), do Steven Blush, que nasceu de um livro. E eu falei: “pô, legal para caramba, meio que sempre fala do mesmo período que tem de punk e hardcore no Brasil, que é ali do começo”. Tinha saído o “Botinada” (de Gastão Moreira, focado na origem do punk no Brasil) na época e eu pensei: é impressionante como a minha geração, a do George, não tinha nada documentado assim. Fiquei pensando comigo mesmo, porque eu tinha um monte de VHS de show da época, que eu toquei, que os meus amigos tocaram, pilhas de fanzines em casa. Isso já era começo dos anos 2010, ou seja, já tinha um distanciamento temporal razoável da década de 90. E falei: “Cara, vou fazer isso aí!” A minha primeira graduação é História, na PUC-SP, e havia mais um fator importante nisso: a minha especialização é na área de História Oral, ou seja, criar uma documentação a partir da oralidade e das memórias das pessoas. Eu já tinha participado de dois ou três projetos assim, fui dado a publicar livro, fazer exposição, portal, e pensei: “Já tenho meio que as ferramentas, vou pegar e fazer, já que conheço quase todo mundo”.
Nesse primeiro momento montei um time que era eu, dois amigos que ajudavam a fazer as entrevistas e o Fernando Alves, que tinha uma câmera super simples, aquelas que filmam dois quadradinhos, e não gravava áudio separado, era tudo na câmera mesmo. O roteiro principal era meu, mas propus a seguinte estrutura: eu seguia o roteiro principal e eles pegavam ganchos de assuntos específicos que podem aparecer imprevistos ao meu roteiro, e funcionou lindo, maravilhoso, durante seis meses, até que o futebol de final de semana dos meus amigos começou a atrapalhar a participação deles (risos). Aí começou a ficar custoso… Por exemplo: o George chegou a ser entrevistado, ele é meu amigo há muitos anos e eu queria esse ponto de vista dele, só que, no começo, não havia um corte muito claro sobre a cena em Santos, porque a gente ia falar de tudo, do Brasil todo, do que estava rolando. Então o documentário, enquanto narrativa audiovisual, ele foi se construindo com a própria jornada de fazer.
E daí, mais ou menos um ano e meio depois, eu estava em vias de quase desistir, já tinha gravado umas trinta e poucas entrevistas, no final a gente chegou a mais de 100, e aí eu conversei com o George, ele tinha me perguntando sobre o projeto. E eu falei: “Cara, estou quase desistindo, porque teve entrevista que eu fui gravar sozinho. Então imagina, eu fui com todo o equipamento nas costas, parei no hall do apartamento do entrevistado, montei a câmera, montei o áudio, peguei meu bloco com as anotações e liguei tudo, e ainda ficava monitorando se a pilha não ia acabar, se o cartão não ia encher, se a fita não ia encher e estava muito desesperador para mim, porque eu bancava tudo sozinho do meu bolso. E tem outra coisa: a gente tinha por princípio desde a primeira entrevista que esse documentário tinha que ser feito por pessoas do meio, eu e meus amigos, na base do “Faça Você Mesmo”, que a gente acredita que é o jeito certo de fazer as coisas. Não sou do cinema, nem da área de audiovisual, a minha expertise é História, oralidade, memórias, criar documentações, mas as outras expertises foram vindo do grupo de pessoas que se agregou a mim e fez esse doc andar e sair, que é o George,e o Mário César Rabelo, que é o editor. O Mário também é um cara do hardcore, ele vem da zona sul extrema de São Paulo, onde nasci, cresci e me formei, mas a área de formação dele é outra, é audiovisual mesmo, ele trouxe essa expertise do audiovisual, como o George que, vindo do jornalismo e da comunicação, trouxe outros olhares.
George: Quando a gente teve essa conversa, em 2010, começamos a desenhar a história, preocupando-se com a documentação e a narrativa. (1990) Foi uma década muito diferente da década de 80, que teve o “boom” (do rock nacional) a partir de 1983, e aí teve uma retração, os shows pararam de acontecer, as pessoas voltaram para suas quebradas e isso também coincide com meio que o crescimento do rock nacional da época. Então esse pessoal do hardcore e do punk ficou muito numa obscuridade, e você também tem nessa época, ali por 1986/1987, o boom da cena metal em São Paulo, que foi muito grande, ficou muito maior que a cena punk. Na virada para os 90, você tem ainda algumas pessoas que vieram dessa geração dos 80, mas muita gente nova que entra nisso por “N” vias e expande a coisa. Tanto em termos de música, quanto em termos de direcionamento do conteúdo que essa cena tinha. Acho que a nossa narrativa, desde o início, foi dar muito enfoque nessa diversidade. Tanto na diversidade musical, quanto nessa diversidade de comportamento, de política, dos temas. O documentário fala de diversos temas. Isso foi desafio para a gente, porque na edição a gente teve que colocar isso em xeque-mate, esses temas, tudo isso. Isso tornou o documentário muito dinâmico. Como o Marcelo falou, minha formação é em jornalismo, eu passei por isso, trabalhei editorial, corporativo, mas tanto eu quanto o Marcelo, a gente quis dar um enfoque nesse documentário sobre a importância dessa movimentação como uma movimentação cultural e política, então acho que o documentário vai por aí.
Quando falamos de punk, hardcore, não estamos falando só de música, mas de ideologia, comportamento. Por alguns depoimentos nos teasers, dá pra ver que existia muita união na cena, mas também conflitos. Vocês testemunharam esses rachas?
Marcelo: Cara, estamos falando de uma movimentação social que, evidentemente, é movida por jovens. Eu já “dobrei o Cabo da Boa Esperança”, mas você olha para trás e percebe que, quando você é jovem, você pisa na bola, faz merda, a grosso modo. Há outros componentes que, depois de ter feito o doc, ter lido várias coisas da época, preparado roteiros, entrevistas, surgiram: a primeira geração do punk se perde num mundo de violência, de atrito, de briga, e etc. Essa geração poderia ter escrito algo ali na rocha dizendo “vamos começar uma cena nova e ela não vai ser baseada em ganguismo”, não existe isso, mas era uma premissa que essas pessoas tinham para elas. Por outro lado, era todo mundo muito jovem, tem uma certa inexperiência, um outro fator da juventude é que existe uma certa impaciência para lidar, muito imediatismo dos sentimentos, de como as coisas chegam e atingem.
No “Hardcore 90”, a gente tenta focar em vários agrupamentos, do pessoal envolvido com straight edge aos anarcopunks, do hardcore melódico à cena riott grrls, tudo isso estava acontecendo ao mesmo tempo. Eu vi acontecendo atrito interpessoal e de grupos que já tinham rachado. O filme, em determinado momento, sem querer dar spoiler, trata disso. Pega um caso específico e coloca na mesa, pela voz de todo mundo que participou. É um racha tão importante para a história, que teve gente do (hardcore) melódico que fala disso, gente do straight edge que fala disso, do anarcopunk que fala disso. São relações humanas, pautadas tanto pelo afeto quanto pelo atrito, e dentro dessa cena era inevitável que isso acontecesse.
E digo mais, a gente tem cento e poucos entrevistados, tem gente muito bem resolvida com o passado, e gente muito mal resolvida com o passado. Tem gente que não quer nem tocar no assunto. A coisa marcou a pessoa tão profundamente, o hardcore marcou tanto a vida das pessoas que vivenciaram, que ele é um definidor de personalidade. Então tem gente que não aguenta ouvir isso, que quer apagar completamente da sua vida, e tem gente que vai levar isso para sempre com muita felicidade, muito orgulho, bem resolvida. “Vivi, fiz tal coisa, fiz burrada, fiz coisas legais, está bom para todo mundo e vambora”. Cheguei a ver gente se esmurrando, atrito, o disse me disse. Vamos considerar também que era uma época que a internet estava engatinhando, então a fofoca rolava solta, “Fulano não gosta de beltrano, fulano disse isso e aquilo”, e por aí vai.
George: Olhando para trás, acho que existia, no começo dos anos 90, não uma negação, mas uma aversão ao ganguismo entre alguns polos, alguns segmentos da cena. O pessoal do anarcopunk e o pessoal do straight edge tinham aversão a isso, da parte interpessoal, das ruas mesmo. Tanto que muitos shows foram feitos nessa época em lugares onde os caras não atuavam, para se criar algo novo. Acho que, da mesma maneira, o pessoal que desenvolvia um tipo de som mais elaborado, seja no hardcore metalizado, seja no melódico, também tinha aversão a esse pessoal mais ganguista. Acho que muito mais pelo lado musical do que o lado do ganguismo em si, interpessoal, das tretas e tal. Acho que era uma coisa que pairava no ar.
Você perguntou se presenciei alguma coisa, e sim, várias vezes, cara. Em situações diferentes, acho que era uma coisa da época, e dessa pouca idade, dessa posição de ter razão sobre uma determinada situação. Vou dar um exemplo do que que mais me marcou, aquele incidente que aconteceu no segundo “Junta Tribo”, em Campinas, em 94, acho que ilustra bem isso. Porque tinham várias bandas lá, de vários estilos, e algumas bandas de hardcore. Era um festival grande, para aquela época, bem organizado, gratuito, três dias de banda. Teve o primeiro dia e no segundo teve uma provocação ali em cima do Garage Fuzz , e era uma coisa assim, um pessoal anarcopunk da época que foi lá e provocou os caras, jogou coisas neles. Eu estava ali e foi uma coisa gratuita, algo de “vamo ali zoar os caras”, sabe? Gratuito e infantil. Também existia uma coisa na época de a banda ser comercial ou não, entende? Tinha muito esse embate “fulano é comercial”, tem muito termo dessa época.
Marcelo: Tinha muita cobrança. Alguns grupos tinham uma determinada agenda, e eles usavam isso meio que como um filtro moral. É meio risível hoje, fico tentando transplantar isso para hoje e não tem cabimento. Tipo: “olha, eu sou assim e assado e vejo o mundo por essa lente, por essa forma, a postura correta é essa aqui e quem não estiver de acordo com isso, é um problema”. E isso a gente pode falar de “N” grupos. Você coloca isso e todo mundo tinha nessa época, 17, 18, 19 e até 20 anos, e qualquer coisa era motivo de problema. Se nos anos 80, os caras iam para a galeria com a camisa de uma banda e podiam tomar uma pedrada, uma facada, nos 90 parece que isso ficou um pouco mais elaborado por ideologia.
E vocês, como historiador e jornalista, pessoas que participaram ativamente da cena, trazem um retrato muito fiel do que estava rolando. É um relato muito leal de uma época sob a lente de muita gente que realmente viveu aquilo. Como estão sendo as reações? Como isso mexeu com as pessoas envolvidas?
Marcelo: O filme não foi lançado ainda, mas a gente mostrou dois teasers e o trailer oficial e definitivo. Como estamos lançando tudo isso via rede social, a gente tem um termômetro muito imediato. A curva de gente que começou a seguir as nossas redes, que começou a escrever, que começou a comentar nos materiais, ela é absurdamente grande. É uma curva exponencial mesmo. Sei lá, o primeiro teaser deve ter tido umas mil visualizações, olhei o trailer agora há pouco e parece que deu 20 mil já, sendo que a gente publicou ele há dois dias. Para as pessoas que viveram essa experiência, ou que vivenciaram um período próximo, sei lá, que chegou no começo dos anos 2000, que tangenciou essa época, mexe muito com o afeto e com as emoções.
Também tem um outro fator: como o filme demorou muito tempo para ser feito e a gente decidiu fazer ele de um jeito “Faça Você Mesmo”, “Do It Yourself” na veia, aprendendo e quebrando a cara com várias coisas, a gente teve o dilema que a gente brinca até hoje, que a nossa maior dor de cabeça é que o filme foi gravado em quatro ou cinco formatos de câmera diferentes. Daí quando a gente coloca isso na timeline de edição, é um pesadelo para o editor, porque aumenta, cresce, diminui, corta, não sei o quê. Teve entrevistas que o áudio foi captado separado, teve entrevistas que não, teve problema de ruído, teve mil questões técnicas que a gente sambou para resolver nesses anos todos. E, durante isso, no primeiro ano eu mantive um blog da produção “hoje eu entrevistei fulano”, e colocava um pedacinho. Isso acabou virando um problema no começo, porque as pessoas se empolgavam, viam e aí quando a gente entrevistava outra pessoa, a pessoa respondia meio “formatado”, como os trechos que a gente tinha deixado no ar. A gente falou: não, para evitar esse problema técnico e temático, a gente derrubou todas as entrevistas, deixou sem nada.
Durante muito tempo ali, pelo menos os cinco, seis anos iniciais, eu dei muita entrevista do projeto pra fanzine, para canais do youtube que estavam começando, essas coisas. E era assim “daqui a três anos a gente lança, daqui a quatro anos lança”, e nada. O negócio foi esticando, esticando e esticando, que cheguei a conclusão de que a melhor coisa era não dar data. Para trabalhar com tranquilidade, do jeito que a gente quer, tanto que foram de 10 a 12 cortes, imagina, o filme teve 12 versões, que a gente montou ele de diferentes formas nesses 16 anos.
E como você falou, a sua geração nunca antes tinha sido retratada em um documentário, sempre foi algo focado nos anos 70 e 80, então realmente é uma coisa que estava faltando mesmo, tinha muita gente esperando, né? Ver isso eternizado. Muita gente entra em contato com vocês?
Marcelo: A primeira postagem que a gente fez em rede social foi só com o logo antigo do filme: “vai sair esse ano”. Foi uma hecatombe, a gente teve uma resposta muito rápida e muito calorosa, do tipo: “Nossa, tinha esquecido, pensei que vocês tinham desistido, que legal!”. Muito porque também tem um outro fator: a gente tem um elenco muito grande, e essas pessoas tanto ficam na expectativa esperando o resultado final quanto também falam para outras pessoas: “Pô, eu dei uma entrevista para um documentário que está sendo feito, e esse documentário nunca sai”, então se criou essa coisa meio lenda urbana, sabe? Algo de: vai sair ou não vai? E agora que a gente divulgou deu meio que essa explosão. Não houve nenhum comentário negativo… ainda, só teve gente falando coisa boa.
Claro que estamos falando do retrato de uma geração, relembrando histórias, conversando com pessoas, mas a gente fala “Hardcore 90”, qual a importância da música mesmo no documentário?
George: No final das contas, a música é o que vai unir as pessoas. No início dos anos 90, você tinha poucos lançamentos e por conta do espectro econômico, como estávamos no plano Collor, estava todo mundo super sem grana, e os lançamentos eram poucos. Tinham lançamentos de lojas de discos, de pessoas que não eram da cena, eram pessoas lançando um disco ou outro, no interior de São Paulo. A partir de 92 começa uma nova fase, com selos lançando discos e selos independentes. Aí, com a chegada do CD no Brasil, em escala de fabricação, a partir de 94, começaram a surgir vários selos “Do It Yourself” de pessoas da cena, e isso deu uma boa expandida. Isso fez com que muito mais gente pudesse ter acesso a essa música, conseguisse entrar nessa cena.
A cena dos anos 90 tinha várias movimentações, em que as pessoas eram muito receptivas a pessoas novas. Então você era um cara novato entrando ali, e em pouco tempo você recebia uma carga de informação e queria voltar naquele lugar e estar com aquelas pessoas. Existe uma diferença entre o senso de gangue e sobrevivência e um senso de comunidade, é bem diferente. O que me atraiu foi esse senso de comunidade. Para mim isso foi a coisa mais incrível. Você até perguntou se as pessoas estão entrando em contato com a gente. Comigo, pessoalmente, pelo whatsapp, veio amigo meu que não vejo há décadas, até a dona da agência onde eu trabalhava. Essas pessoas viveram isso de uma maneira ou outra, de uma intensidade ou outra, mas elas querem ter essa informação de volta para elas documentada, isso é uma coisa legal.
Sou viciado em documentário musical. Eu e o Marcelo já fomos juntos no In-Edit várias vezes, desde a primeira edição. Gosto de música, desde música jamaicana até grindcore, ouço de tudo. E eu sempre vejo documentários, que é algo que pode me trazer mais informações e mais aprofundamento. Acho que as duas coisas mais importantes do meio para mim foi a vivência, de comunidade, porque as pessoas se encontram depois de anos e parece que você viu a pessoa semana passada e também essa coisa de ter uma diversidade. Essa cena dos anos 90 trouxe muitas coisas que as pessoas estão falando hoje em dia. Eu vou dar um exemplo básico: esse tema foi comum na cena anarcopunk do início, mas a cena straight edge foi a que colocou, por exemplo, a discussão do veganismo na mídia. Isso eu estou falando de reportagens de 1994. Tem um programa, que não conseguimos para o documentário, porque tem coisas de arquivo que você não consegue, porque se perderam. Mas tem coisas da TV Cultura que já fala desse tema em 94. Eram duas pessoas do straight edge que foram lá falar sobre isso. Em 95 tem vários, tem coisas impressas, como na Folha de São Paulo, Estadão. As pessoas falavam em vegetarianismo, mas era aquela coisa dos restaurantes que você passava na rua, e era aquele restaurante que você entrava e era uma coisa meio que só tinha velhinho dentro, com fruta pintada, não era uma coisa para o jovem.
Já o lance da música, acho que houve pessoas nos anos 90 que tiveram cuidado musical absurdo, bandas que fizeram discos incríveis. Bandas que fizeram disco naquela época, que se tivesse lançado o disco cinco anos depois em português teriam explodido. Houve bandas que fizeram discos emblemáticos, coisas que eu ouço e falo: meu, de onde os caras tiraram isso? Eram coisas que mudavam sua vida. Era uma coisa que a cena punk, no início, no Brasil, não tinha esse cuidado. Tem uma outra particularidade dessa cena, que foi ter pessoas que vieram do metal, mais velhas. Isso eu estou falando do pessoal que no começo dos 90 já estava com 23, 24 anos, já era um pessoal adulto. Esse pessoal que absorveu metal nos 80, conseguia tocar muito melhor nos 90, sabe? Mas teve, por exemplo, bandas que não tiveram essa vivência, gente muito mais nova, mas que os shows eram arrebatadores. Os exemplos são inúmeros, gigantescos. Esse pessoal teve a preocupação de evoluir musicalmente. Foi uma coisa não planejada, aconteceu naturalmente.
Quando a gente fala de anos 90, não era uma banda de hardcore, mas é impossível não pensar no Nirvana e na explosão que aconteceu naquela época. Quando penso no Nirvana, penso em uma banda que juntou muita gente, de diversos gostos musicais. Trazendo isso pra cena de vocês. como você falou de receptividade, como era a recepção de pessoas que curtia outro tipo de som? Por exemplo, um headbanger colando nos shows.
Marcelo: Eu tenho uma visão muito particular disso tudo, porque depois de fazer o doc e como passou muito tempo, muita coisa vai flutuando pela sua cabeça a respeito do assunto. O George falou algo interessante e eu queria reforçar uma coisa: a geração da década de 90 começa a ver transformações tecnológicas, tanto no plano de fazer música, quanto de lançar disco, que tem uma aceleração muito maior do que a geração dos anos 80, por exemplo. O surgimento de selos independentes vindo de pessoas da cena mesmo para esse tipo de produção, é uma coisa que aconteceu no decorrer da década. Se no início dos anos 90 o forte da produção é a demo tape, que é um formato analógico ainda, do meio para o final o CD tem seu auge e seu declínio também, no meio dos anos 2000, então é uma época muito intensa.
Outra coisa, essa geração é uma geração que quando o Rock in Rio de 85 estourou, foi uma geração que pensou “bom, eu não preciso mais ouvir a música dos meus pais, não preciso ouvir Beatles, por exemplo”. A década de 90 com todas essas transformações, os muitos planos econômicos, a diversidade que começa a chegar aqui. Nos anos 90 a gente tem Helmet, tem Rage Against The Machine. o próprio Nirvana mesmo. Se você olhar a diversidade musical que essas bandas produziram, é muito reflexo disso também. Tipo, o Cólera, o Olho Seco, o Restos de Nada e o próprio Ratos de Porão, têm muito a ver entre si com o período que eles existiram, mas a mesma coisa não acontece com as bandas da década de 90, é muito mais diverso, muito mais amplo. A gente tem também um quesito de um aprimoramento musical, que tem também que existir uma abertura de uma aceitação maior para as diferenças e o que estava acontecendo no tecido social do momento, e aí é inevitável, Nirvana é a grande explosão dessa década, principalmente dos cinco anos iniciais, tem tudo a ver.
Basta você pensar que quem veio do skate estava ali, influenciado tanto pelo hardcore melódico, quando esse hip hop mais gangsta do começo dos anos 90. Quem veio do anarcopunk não ouvia mais só Crass, que era uma coisa mais elementar, estava ouvindo crust mesmo, não era só mais aquela coisa do Discharge, já estava vindo a segunda ou terceira onda do crust. A cena straight edge tinha coisas mais melódicas, mas também influenciadas por metal, então tudo isso que acontecia nas cenas mundiais, na Inglaterra, Suécia e no próprio Estados Unidos, refletia aqui e gerava um produto com a cara do Brasil. Basta você pensar nos anos 90: a gente tem Dominatrix, tem Mukeka di Rato, tem D.F.C, tem Paura, o No Violence, o Point of No Return, nenhuma dessas bandas tem alguma coisa a ver com a outra, todas elas têm características sonoras e ideológicas muito próprias.
George: Esse “boom” do Nirvana cai bem na época que existiam algumas casas noturnas aqui em São Paulo em que rolavam show. A explosão do Nirvana foi uma coisa tão grande, mas tão grande, que eu achava insuportável, eu detestava (risos). Mas não era a música, não eram os caras, mas é que em toda a esquina tinha um carro tocando Nirvana, todo lugar que você entrava estava tocando Nirvana. Foi um bagulho muito grande. Em São Paulo, na primeira metade dos 90, você tinha o Der Temple, na Augusta, o Urbânia no Anhagabaú, o Retrô, que era do final dos anos 80 e ainda existia, e tinha um lugar no Jardins que chamava Vitória Pub, que rolava pouco show. Aí tinha uns lugares um poucos maiores, um local na Consolação chamado Woodstock, e o AeroAnta, que era o maior de todos, e o Blackjack na zona sul. Esses bares, quando tinha meio show, meio festa, tocava-se de tudo. Por exemplo, o No Violence e o IML, que são bandas bem do início dos anos 90, as mais antigas do doc, eles tocaram muito com banda de metal, muito, inclusive na porta da Woodstock.
Esses lugares eram uma mescla, você tinha o pessoal do rap, o pessoal do skate, o pessoal mais do indie, que na época não se falava indie rock, falava “guita”. Era o povo alternativo. O No Violence tocou com todo mundo, de A-Z, uma banda que não tinha restrição. Acho que essa mescla de pessoas interessadas e música não comercial fez a diferença. Apesar do meu ódio na época, esses dias eu estava vendo umas coisas do Nirvana, o sucesso deles foi algo que nem eles esperavam. Eles assinaram com uma gravadora grande e um dia estavam dormindo numa van e no outro estavam milionários, o negócio foi muito rápido. Eu acho que o som deles é muito próximo, eles todos passaram pelo hardcore, muito antes de o Dave Grohl entrar na banda. Esse é até um exemplo meio de piada, mas brinco que a maior banda de hardcore do mundo se chama Foo Fighters, porque cada cara do Foo Fighters teve uma banda de hardcore, é uma piada sem graça, mas isso a gente fala entre a gente baixinho (risos).
Antigamente as pessoas tinham mais interesse, acho que era mesmo uma coisa da idade, as pessoas ficavam até 6h, 7h da manhã na rua, indo nesses shows. Até 94, 95, isso ainda não era segmentado. A partir dali cada segmento desse começou a crescer. A cena straight edge cresceu, a cena anarcopunk ficou mais organizada, o pessoal do melódico começou a se organizar melhor. Esse período, por exemplo, é o período que o Dead Fish começa a vir para São Paulo, como banda. Essa segmentação começou aos poucos nos anos 90, aí chegou nos anos 2000, 2000 e pouco, e segmentou mais ainda, chegando num ponto que cada segmento desse tem seu público de 50, 100 pessoas. Antes era tudo somado.
Marcelo: Acho que essa geração se formou muito em cima do trauma da geração anterior, existia uma necessidade de construir umas coisas juntos, de ser colaborativo. Na primeira parte da década, essa coisa agregadora, de juntar todo mundo, era muito reflexo disso. E depois, como era todo mundo novo, é claro que essa geração também vai ter seus próprios dilemas, suas próprias burradas, mas acho também que a gente não pode olhar para isso sem pensar na abertura econômica, as pessoas têm acesso a novos equipamentos, a guitarras, a disco, a revista Thrasher começa a rodar aqui. O cara não está vendo uma coisa traduzida, ele está vendo a própria revista. Por mais que as pessoas não tenham acesso a um segundo idioma com qualidade, a pessoa está em contato com a capa do disco, com lançamento. Tudo isso pesa, é uma mescla do contexto social com suas transformações específicas e econômicas, como também de uma mentalidade de grupo, um novo grupo, novas pessoas vivendo essa experiência. E o bom é que essas pessoas tinham muito claro que elas queriam construir uma coisa nova, e ainda entram as transformações socioculturais do período. O rock estava no rádio ainda, na mídia. A gente tinha a MTV e a MTV meio que formou e educou boa parte de nós dessa geração, sendo do hardcore ou não, estava ali, e querendo ou não, todo mundo que estava em evidência no rock mainstream daquela época, tinha um background no hardcore americano.
Estou em Vila Velha, e aqui e Vitória são duas cidades também conhecidas pela cena hardcore, e eu queria perguntar também, um documentário que faz um retrato fiel de uma geração, mesmo de São Paulo, vocês acham que ele consegue ressoar com pessoas de outras cidades? Pessoas vão olhar e se identificar com aquilo de alguma forma.
Marcelo: Vila Velha Noise Beach, caralho! (risos). Tem uma coisa que cola muito que é o fator da construção da narrativa. Nos teasers, em determinado momento aparece o E.T do Muzarellas, lá de Campinas, uma banda super ativa, que lançou coisas legais, lançou livro, e ele fala: “Cara, em determinado momento eu pensava que era só eu e meus amigos doidos fazendo as coisas aqui, mas não, estava acontecendo em um monte de lugar”. No Nordeste, no Espírito santo, em Vila Velha e Vitória. Engraçado, parece super clichê, mas quando eu penso nessas coisas, eu penso nas bandas. Eu penso no Mukeka di Rato e Dead Fish, quando falo do Espírito Santo, eu penso no Pinheads quando falo no Paraná, e por aí em diante. Isso porque essas pessoas, essas bandas, e os fanzines também, eram os pontos de referência que determinavam aqueles lugares pra gente. A gente fez o esforço de trazer pessoas de outros lugares para a narrativa do doc, justamente por causa disso, porque a gente sabe que não era uma coisa exclusiva de São Paulo, ela ressoava também em outros locais, seja no Rio de Janeiro, Salvador, Aracaju, Fortaleza, Campo Grande, Brasília, Goiânia.
Isso estava acontecendo em vários lugares, por isso é que eu acho que mesmo que o nosso foco narrativo esteja em São Paulo, por uma questão histórica e do surgimento do punk em São Paulo, ele é um diálogo constante com outras cidades, e é por isso que aparecem pessoas de outras cidades no doc. A gente teve essa preocupação, a gente sabe a importância. Na real, a gente queria falar de tudo, mas por uma questão pura e simples que a gente precisava entregar um filme de 90 minutos, não dava, infelizmente, algumas coisas tiveram que cair. Editar, por si só, é um trabalho prazeroso, mas ao mesmo tempo muito cruel. O George não me deixa mentir, a gente tirou blocos inteiros de coisas que a gente gostava, porque não cabia. A gente teve 12 versões do filme, e a cada versão dessas, vai ficando menor, e deixando algo que seja palatável, que seja compreensível. Eu também não queria fazer um filme que ficasse só a galera do hardcore assistindo, eu queria que fosse um filme que minha mãe visse e entendesse. Essas escolhas acabam sendo meio cruéis, porque não dá para colocar tudo.
George: Eu acho que tem um ponto muito importante dessa época, que é quando a gente fala dos discos e de outras coisas: a comunicação dessa época foi feita estritamente através da correspondência e produção de fanzines. Isso é uma coisa que conectava todo mundo, hoje em dia você quer falar com seu amigo que está na Bahia, você abre o Whatsapp, manda uma mensagem e ele vai te responder daqui um minuto. Naquela época , se você queria falar com um cara da Bahia, você ia escrever uma carta, ir até o correio, postar a carta e esperar a resposta dele. Ele ia ler, escrever e mandar de volta também pelo correio, e você receberia isso de volta. Essa foi a comunicação que se estabeleceu nessa época e que já era uma coisa que já rolava nos anos 80. Essa comunicação estreitou muito as pessoas, a ponto de você se corresponder com as pessoas durante anos e um dia num show, caso você fosse pra Bahia ou pessoal viesse pra cá, ou num ponto em comum, você conhecer a pessoa, isso era um evento, cara!
Por exemplo, a gente postou outro dia um show em Piracicaba, em 93, que tocaram todas as bandas mais extremas desse período, umas 10 bandas. Tocou Rot, Infamy, todas essas bandas mais crust e grindcore. Veio uma mensagem do guitarrista do Rot, o Mendigo, o único cara original, ele escreveu isso: “Nesse show a gente conheceu todo mundo que se correspondia por carta há anos”. Ou seja, as pessoas foram todas para Piracicaba e se encontraram nesse show. A correspondência era uma coisa super importante, porque ninguém tinha celular, ninguém tinha internet, não existia rede social. O mundo naquela época era cor de xerox, se nos anos 70 era preto e branco, nos anos 90 o mundo tinha cor de xerox. O pessoal se correspondia muito com o pessoal aqui e o pessoal no exterior. Mas você só ligava para uma pessoa, se você fosse marcar um show, cara. O bagulho era muito na unha, das pessoas se conhecerem primeiro por carta. Quando começou a ter mais show e essa comunidade se integrar mais, as pessoas começaram a vir para São Paulo, pessoas de todo o lugar.
Marcelo: Basta lembrar que no final dos anos 90, início dos 2000, rolou o primeiro Festival Hardcore de São Paulo, e foi um evento! Era literalmente um evento. E era aquela coisa, tinha uma banda de Minas Gerais, uma banda do Rio de Janeiro, de alguma capital do nordeste e não era só a banda vindo, era uma galera! Ou vinha junto com a banda, amigos, ou vinham pessoas de vários outros lugares, até mesmo cidades que nenhuma banda foi convidada pra tocar, porque era pra estar em contato com as pessoas. A gente leva em consideração que no final da década de 90 a internet começa a chegar na casa das pessoas e essa forma de comunicação se altera e fica mais ágil ainda, o que possibilita muitas coisas. Falando muito no plano afetivo, ir a um festival desses era incrível: converso há meses, anos com o cara por carta, e agora estou vendo essa pessoa ao vivo mesmo. As pessoas vinham não pra ficar em hotel, mas nas casas das pessoas, isso estabelece laços muito profundos.
– Guilherme Lage (fb.com/lage.guilherme66) é jornalista e mora em Vila Velha, ES. Leia outras entrevistas dele!
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