Uma noite em Jundiaí com Arnaldo Antunes, Gustavo Kaly e Wander Wildner

texto de Leonardo Vinhas

Unir Arnaldo Antunes, Wander Wildner e Gustavo Kaly em um mesmo texto pode soar como licença poética em excesso, já que a única coisa que ligava para justificar a associação era terem se apresentado na mesma noite numa cidade da região metropolitana de São Paulo. Mas, apesar da grande diferença entre os shows e das propostas musicais bastante distintas do primeiro em relação aos outros dois, há pontos de interseção que uma experiência comum como essa permite constatar.

Aos fatos: Arnaldo se apresentou com sua banda no ginásio do Sesc Jundiaí, às 20h, em uma data cujos ingressos se esgotaram em minutos. Duas horas depois, Wander e Kaly acompanhados de Gabriel Guedes (Pata de Elefante), estavam no Rock Powha, pequeno empreendimento familiar em um bairro que seria de classe média operária se ainda houvesse operários nessa época de “liquidificação” do trabalho. A ocupação da casa não superava 30 pessoas, segundo o Instituto DataVinhas de Estatísticas por Olhômetro.

 

Sobre o show de Arnaldo criado para apresentar o álbum “Novo Mundo” (2025), Bruno Capelas já escreveu acertadamente aqui no Scream & Yell e pouco há a acrescentar. Afora a presença de Alê Alencar em substituição a Kiko Dinucci (sem deixar nada a dever ao titular, diga-se), a apresentação manteve os mesmos roteiro, set list e excelência musical, com especial atenção para a vigorosa performance de Vitor Araújo nos teclados e piano elétrico, e para o primoroso design de luzes criado para o show. O que tornou a noite especial foi a relação entre o artista e o público.

Ao contrário do relatado em uma resenha do G1 um ano atrás, o público recebeu muito bem as novas canções. Claro que, como em todo show de um ex-Titã (salvo a possível exceção de Nando Reis), vai ter aquela parcela do público que ignora a carreira solo do artista e está ali à espera de algum hit de décadas atrás – no caso de Arnaldo, pode botar os Tribalistas nessa conta. No caso, foram duas de cada banda (“O Pulso” e “Comida”, e “Já Sei Namorar” e “Passe em Casa”, respectivamente), mas esse público era minoria. Mesmo assim, bem distribuídos no show, os hits garantiram os momentos de euforia necessários para captar a atenção para o novo repertório. Aliás, havia muita gente jovem que provavelmente só soube que Antunes fez parte dos Titãs por causa da turnê Encontro. Era gente que conhecia o repertório e que, desde a primeira música, cantou as letras (longas, em sua maioria) do começo ao fim.

Para quem reside na capital paulista, um show de Arnaldo Antunes pode ser quase alvissareiro. Para quem reside em uma cidade de médio porte, nem um pouco. É o tipo de coisa que, com sorte, acontece a cada dois ou três anos – e isso que o Sesc Jundiaí tem se notabilizado por uma programação rica e ousada, que pode incluir nomes do underground gringo (Jon Spencer, Vapors of Morphine, Geordie Greep), presenças internacionais inesperadas (como os dinamarqueses Smag Paa Dig Selv e a costa-marfinense Dobet Gnahoré) e diversos nomes latinos e nacionais das mais variadas vertentes. Mas cada show acontece e talvez nunca mais se repita, como costuma ser em cidades desse porte.

Assim, quem estava ali sorvia o momento com gosto, e quem estava no palco percebia isso e devolvia em forma de grandes interpretações. O fato de a apresentação acontecer em um palco grande no meio de um ginásio não criava nenhuma barreira entre artista e público.

Já no Rock Powha, essa barreira nem tinha como se instalar. Wander Wildner operava a própria banquinha de merchandising antes do show enquanto Gustavo Kaly circulava pela casa, situada em um lugar que foi um bosque em algum momento de menor especulação imobiliária, e agora era uma pequena clareira de verde em meio a várias casas de meio lote. Na hora da apresentação, um palco baixíssimo, quase um tablado. Umas poucas mesinhas, espaço para circular, cerveja só em garrafas de 600ml (“quem vem aqui para tomar long neck?”, ouvi, depois de ter pedido uma).

Era curioso como Wander tratava da apresentação como sendo “um show do Gustavo” do qual ele fazia parte, mesmo que o mote fosse a divulgação do disco “Emaranhados em Gambiarras Mal-Ajustadas”, creditado a ambos e à Pata de Elefante. Com Kaly ao centro do palco, e predominância de composições dele no set list, essa fala era reforçada. Wander e Kaly são parceiros de longa data, apesar da diferença geracional, e por mais que a amizade entre os três músicos (Guedes incluído) seja evidente pelas interações, era perceptível a admiração do gaúcho pelo catarinense.

Com Kaly ao violão e seus companheiros nas guitarras, o show ganha uma dinâmica próxima de um punk folk à brasileira, meio rural em certos momentos e bastante sulista quase sempre. O trecho final, aliás, traz canções de compositores gaúchos queridos pelos três (“Dani” e “Sandina”, de Jimi Joe; “Amigo Punk”, de Frank Jorge e Marcelo Birck; e a indefectível “Lugar do Caralho”, de Flávio Basso, com letra adaptada para o momento abstêmio de Wander), e crava com mais força o caráter punk folk.

E, respondendo à pergunta do início, o que liga esses dois shows? Onde esse punk folk se cruza com a MPB de tintas roqueiras (e mais particularmente, pós-punk e new wave) de Arnaldo?

A primeira é a constatação de que carreiras longevas são possíveis tanto no (cada vez mais estreito) midstream como no underground. Claro que há uma diferença muito grande nos resultados financeiros que Arnaldo obteve com Titãs e Tribalistas, que certamente permitiram atravessar períodos menos rentáveis de sua carreira, e a vida dividida em outros trabalhos que Kaly (e, em diferentes épocas, Wander) tiveram que encarar.

Mas Arnaldo e Wander têm, cada um, mais de 40 anos de estrada. Passaram por grandes e pequenas gravadoras, foram totalmente independentes em algum momento, e conduziram suas carreiras nos seus termos. E, passado tanto tempo, podem chegar a uma cidade conurbana, “fora do eixo”, e encontrar um público fiel – mesmo que pequeno, no caso do segundo show. Um público que conhece repertório novo e antigo, que acompanha as novidades, que não está preso ao passado.

O segundo é que as iniciativas musicais que fogem do óbvio ainda têm, sim, espaço para prosperar. Claro que a lógica financeira que rege o Sesc nada tem a ver com a de um pequeno bar: o primeiro não tem fins lucrativos, o segundo se sustenta como pode, e precisa contar com o valor integral de ingressos (não havia meia entrada para a apresentação de Kaly, Wildner e Guedes) para operar no azul e ainda garantir um retorno mínimo aos músicos. Ainda assim, em nenhum dos casos estamos falando do mercado inflacionado e abusivo que se estabeleceu como regra para os shows em São Paulo. E ambos os lugares apostam em uma programação longe dos hits fáceis ou do hype da vez.

(Cabe um parênteses aqui para destacar que o Rock Powha não é uma iniciativa isolada em Jundiaí. Lugares como a Shimbal House, o Bar do Haules e o Sk8te Lab mantém uma programação com bandas e/ou DJs onde há espaço para os artistas realmente independentes, garantindo uma movimentação bem interessante para a cena local – uma movimentação que não acontece em um lugar muito maior como Campinas, por exemplo, ou outras cidades de porte semelhante, como Taubaté ou Bauru, para ficar em duas regiões diferentes do estado.)

A questão é que a tal “cena cultural” sempre foi uma conjunção de fatores, mas não é algo que nasce misticamente. É fruto do acaso apenas em pequena parte: o resto tem a ver com infraestrutura, dedicação, participação do público, coerência do artista, gestão financeira, e diversos outros fatores, muitos dos quais nada têm a ver com criação artística. E, na noite de 24 de abril de 2026, muitos desses fatores se fizeram evidentes numa noite em que o “primo rico” e um dos “primos pobres” daquela cena específica tiveram dois eventos significativos, com nomes que fizeram seu caminho a seu modo, e encontraram espaços para reverberar isso ao longo de décadas.

Não sei vocês, mas acho que esse é o tipo de coisa pelo qual ainda vale batalhar (como agente da cena), apoiar (como público) ou simplesmente curtir.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“.  As fotos de Arnaldo Antunes são de Agatha Gameiro; as fotos de Wander, Kaly e Gabriel são do Rock Powha,

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