texto, fotos e vídeos de de Bruno Capelas
Embalado pelo lançamento recente do livro “O Evangelho Segundo Odair” (Editora Barbante), em que Leonardo Vinhas desbrava a feitura do disco “O Filho de José e Maria”, Odair José veio ao Sesc Pompeia, na última sexta-feira de janeiro, para a primeira de duas apresentações especiais. No palco da Comedoria, o goiano não só apresentou na íntegra o repertório do álbum de 1977, como também recuperou faixas censuradas pela Ditadura Militar na época e incluídas em trabalhos posteriores, como “Agora Eu Sei” e “Forma de Sentir”. Mais que isso: ele apresentou as canções na ordem da narrativa original, dando à ópera-rock não só um sentido mais completo e conexo do que acontece no disco, como também mostrando seu vigor e atualidade.
Foi um feito quase inédito: lançado pela RCA Victor quando Odair estava no auge de sua popularidade, após uma sequência de sucessos pela Polydor, “O Filho de José e Maria” pretendia ser uma virada na carreira do compositor goiano, que, inspirado por nomes como Peter Frampton, buscava voos mais altos e uma apreciação crítica. Mas o fatiamento da obra pela censura, a incompreensão do público e até ameaças de excomunhão fizeram o disco se tornar um “fracasso de vendas” (“Ele vendeu 100 mil cópias, mas para quem esperava vender 1 milhão”, contou Odair ao Scream & Yell) e contribuir para a decadência – comercial e criativa – do artista nas temporadas seguintes. “Depois de 1980 para frente, eu deixei a gravadora tomar conta (…) e quando isso acontece, meu trabalho deixa de ser interessante”, lembrou o compositor ne mesma entrevista.
Produzido por Hyldon e com a participação do Azymuth, “O Filho de José e Maria” passou décadas envolto em aura de mera curiosidade, até ser recuperado na era da internet e virar cult. Tão cult que uma apresentação igual às do Sesc Pompeia no último final de semana só aconteceu anteriormente uma vez, na Virada Cultural de 2013, no nobre palco do Theatro Municipal. Outros espetáculos do disco, feitos ao longo da última década ao lado dos remanescentes do Azymuth, não contaram com as canções extra, além de terem desagradado ao irrequieto artista por divergências quanto aos arranjos originais.

Tratado durante décadas como maldito na carreira de Odair, a ópera-rock que traz um Jesus filho de pais divorciados e explorando a sexualidade homoafetiva soou, em um dos palcos mais célebres da cidade, talvez ainda mais atual do que na época de seu lançamento. O frescor da obra em pleno 2025, levando a um lugar além de mero interesse casuístico, põe em conta não só o retrocesso conservador do País nas últimas décadas, mas também o ímpeto de Odair em mostrar sua obra e a boa escolha de timbres da banda que acompanhou o artista – com destaque para os sintetizadores e para dupla de metais que deu colorido especial a arranjos como “O Casamento”, “Nunca Mais” ou a excelente balada-folk “Não Me Venda Grilos”.
“Já na época de Jesus havia preconceito, hoje não deveria ter, mas a gente está aqui para quebrar esse preconceito”, disse o artista, aplaudidíssimo em uma plateia mista não só no gênero ou na composição etária, mas também nas tribos – de jovens indies ou fãs de progressivo a senhoras de idade vestidas com pompa e circunstância, muitos com as letras na ponta da língua. “Esse é um disco feito para jovens”, arrematou o músico a certa altura, para aplausos dos presentes, incluindo a dupla Tim Bernardes e Maurício Pereira.
Novidade também presente no show eram as projeções do fundo do palco, com ilustrações feitas com inteligência artificial trazendo o cantor em meio a motivos bíblicos e em cenas de sua própria criação. Se à primeira vista as imagens podem ser criticadas pelo método com que foram geradas, é preciso ressaltar que elas davam um efeito kitsch muito propício ao momento. Além disso, vale ressaltar que a tecnologia é tema central no último disco de Odair, “Seres Humanos e a Inteligência Artificial”, lançado em 2024 pela Monstro Discos, fazendo assim uma conexão curiosa entre passado, presente e futuro.
Tal ligação foi amplificada ainda pela presença de “Desejo”, faixa do trabalho recente, que apareceu em meio ao segundo ato de “O Filho de José e Maria”. “Esse bloco tem o nome de revelações. É o que o ser humano tem que fazer: revelar-se, para ele saber de verdade quem ele é”, bradou o goiano.

Cheio de bom humor e do alto de seus 76 anos, Odair reconhecia que o momento era especial. Emocionado, ele chegou a errar e esquecer alguns versos durante o espetáculo, pedindo desculpas tanto ao público quanto à banda. Por outro lado, ele tentava se concentrar o máximo o possível na missão de recontar aquela história obscurecida durante tanto tempo, buscando ignorar pedidos de alguns incautos para tocar aquele que é seu maior sucesso, “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar”. “Se der tempo, depois a gente toca”, disse de passagem, muito focado em sua missão principal.
Dos três atos, o mais interessante foi o terceiro, chamado “Viagem” – que trazia não só a faixa homônima de 1975, comumente ligada às canções do disco posterior, mas também a trinca “De Volta às Verdadeiras Origens”, “Nunca Mais e “Que Loucura”. Vale ressaltar que a segunda foi a mais celebrada no repertório do disco, talvez pela presença no tributo de 2006 que ajudou a revalorizar a obra de Odair, “Vou Tirar Você Desse Lugar”. Mais que apenas dar fim ao “projeto”, como disse várias vezes o cantor, as três faixas também serviram de bela introdução para um gran finale com outras três canções, mas que poderia ter se estendido por pelo menos meia hora a mais.
Primeiro, veio “A Noite Mais Linda do Mundo” – e com ela, um dos achados poéticos mais bonitos da carreira desse operário da música que parece longe de se aposentar: “a felicidade não existe/o que existe na vida são momentos felizes”. Depois, em um teclado com cheiro de picanha no alho e alguma auto ironia no ar, a mais-que-pedida “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar”. Para fechar, totalizando pouco mais de uma hora de show, teve ainda o inabalável hit “Cadê Você”, cantado a plenos pulmões na Comedoria do Sesc Pompeia, enquanto a chuva grossa caía lá fora. Uma noite emocionante, pra deixar os traumas para trás e tirar de vez “O Filho de José e Maria” desse lugar de álbum incompreendido. Amém.
– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.

