Entrevista: The Hives em “show” especial para o Brasil

entrevista por Leonardo Tissot

The Hives vai tocar em São Paulo — ou o mais próximo possível disso, dentro do contexto atual. A banda sueca cansou de esperar a pandemia terminar e resolveu fazer uma turnê em formato virtual. The Hives First World Wide Web World Tour é uma sequência de seis shows que começou no dia 21 de janeiro e vai até o fim do mês, com datas marcadas em Berlim, Londres, Nova York, Sydney, Estocolmo e, é claro, na capital paulista, no próximo dia 29, às 20h (horário local).

A ideia da banda é tocar em horários condizentes com os shows que fariam nessas cidades caso estivessem nelas de fato. Além de assistir as apresentações, o público também terá a possibilidade de interagir com o grupo, via mensagens e ligações, e ainda por meio de votações para decidir o repertório. Pessoas de outras cidades também podem comprar ingressos e assistir aos shows. As entradas estão à venda no site oficial do grupo.

Falando nisso, o valor de US$ 17,50 por apresentação (aproximadamente R$ 93,00 mais IOF, dependendo da cotação do dia), parece não levar em consideração o câmbio atual. Se, por um lado, R$ 100 é um valor razoável para um show “normal”, é difícil imaginar que fãs — a não ser aqueles realmente fanáticos pela banda — invistam o mesmo montante para ver uma live na internet, por mais exclusiva que ela seja.

Perguntado a respeito, o guitarrista Nicholaus Arson deixa a modéstia de lado na hora de garantir que o investimento vai valer a pena: “Se você quer ver o melhor show de rock da Terra, compre um ingresso. É simples assim”. Então tá…

Em nosso papo com Arson, ele ainda nos contou como a ideia surgiu, os planos futuros da banda e por que não dá para revelar exatamente de onde as apresentações serão transmitidas.

Como surgiu a ideia para a First World Wide Web World Tour e quais suas expectativas para os shows?
Bem, temos muitas saudades de tocar ao vivo. É algo que está em nosso DNA, sentimos muita falta. E queríamos fazer algo que ficasse o mais próximo possível a um show. Isso significa tocar no mesmo horário em que tocaríamos se estivéssemos em outro país, ter participação do público… Então, na turnê, as pessoas podem enviar mensagens e ligar para a gente. Vai ser meio esquisito, mas também parecido com o que acontece num show de verdade. Frequentemente o Pelle [Almqvist, vocalista da banda e irmão de Nicholaus] conversa com as pessoas e ajuda a levar o show adiante.

O quão importante é não apenas para vocês, mas também para a equipe de vocês, como os roadies, técnicos etc. voltarem ao trabalho nesse momento tão difícil?
A maior parte de nossos roadies têm outros empregos. Falamos com eles e nos certificamos de que eles estavam bem. Mas fizemos só um show e uma live em um ano e meio, então a melhor parte é voltar a vê-los e nos divertirmos juntos. Foi muito bom poder fazer isso, então estou ansioso para repetir a experiência. Além disso, queremos fazer shows do início ao fim, ficar cansados e ter todas as sensações relacionadas a isso. É do jeito que tem que ser.

De onde exatamente vocês vão fazer esses shows?
Não sei se posso falar [risos]. Mas será em um bunker seguro, inviolável, sem chances de a pandemia entrar. Para não termos milhões de pessoas indo até lá, não podemos revelar onde fica. Não é em nenhum estúdio e nenhum lugar onde costumamos ensaiar, é num local preparado especificamente para a turnê.

E vocês terão tudo que um show normal oferece, com luzes, cenários… Ou tem diferenças?
Será diferente. Será tão próximo a um show real quanto possível, mas vimos alguns exemplos em que as pessoas montaram tudo como se fosse um show normal, e o visual não ficou bacana na filmagem. Então, nos inspiramos mais em performances filmadas e clipes.

Como vocês ensaiaram para um show assim? Gravaram um piloto, como fazem os programas de TV?
Estamos ensaiando as canções como se fôssemos tocar em um show normal. É claro, teremos alguns segmentos com participação do público, então vamos ter que descobrir como fazer. Quer dizer, não ensaiamos uma ligação do público durante o show. Mas deveríamos ter ensaiado.

O quão diferente esse show será, comparado a tantas outras lives que temos visto desde março de 2020?
Espero que seja melhor. Será mais como uma turnê real, vamos tocar em fusos diferentes, então teremos privação de sono como numa turnê normal… Com isso, esperamos fazer algo que ainda não foi feito.

Por que vocês escolheram São Paulo como uma das poucas cidades selecionadas para a turnê? E quais suas memórias da cidade (eles tocaram na cidade no Orloff Five Festival em 2008, no Lollapalooza 2013 e abrindo para o Arctic Monkeys em 2014, oportunidade em que conseguiram agendar ainda um show solo)?
Bem, quem não quer tocar em São Paulo? É por isso [risos]. Tivemos ótimos shows aí e em outras partes do Brasil também. Definitivamente queríamos ter um show na América Latina. Fizemos shows muito bons na Argentina, México, Peru… Então, queríamos dar uma passada aí.

Não quero colocar mais pressão sobre você, e sei que você não tem total controle sobre isso, mas os ingressos para a turnê estão sendo cobrados em dólares. Na situação econômica do Brasil e com o câmbio atual, os valores são bem consideráveis. Como garantir que os fãs não vão se arrepender do investimento?
Ehh… Bem, se você quer ver o melhor show de rock da Terra, então compre um ingresso. É simples assim. Não quero entrar na questão financeira de cada um, mas se você acha que não pode pagar pelo ingresso, e em vez disso prefere comprar comida, então deve fazer isso. A comida será melhor que o show do The Hives [risos]. Ou, melhor dizendo, será tão boa quanto. Não posso pressionar as pessoas a comprarem ingressos, mas será um ótimo show.

A revista SPIN já afirmou que vocês são a melhor banda para se ver ao vivo no mundo. Como fazer com que a magia aconteça quando o público não está junto a vocês na casa de shows?
Como falei, nos esforçamos para ter as ligações, teremos o som do público de shows gravados em cidades onde tocamos anteriormente… Com isso, eu espero — e digo isso porque ainda não fizemos o primeiro show da turnê — que todos nós (inclusive o público) possamos ter a sensação de um show normal.

O que vocês pretendem tocar? Sei que estão aceitando sugestões, mas de forma geral, o que planejam apresentar? Algumas músicas novas, talvez?
Sim, tocaremos músicas novas. As pessoas podem votar nas suas canções favoritas e também em algumas músicas novas, que talvez nunca tenham ouvido antes.

É possível que a turnê seja estendida depois de finalizarem os seis shows planejados?
Sim, com certeza. Se tudo der certo, não perdermos todo nosso dinheiro na turnê, e a pandemia continuar se arrastando, com certeza vamos fazer mais shows. Já está sendo divertido e nem começamos a tocar ainda.

Já faz um tempo desde que lançaram seu último álbum, “Lex Hives”. Recentemente entrevistamos o Ben Kweller, e ele falou sobre como as plataformas de streaming têm influenciado os artistas na hora de lançar músicas. Muitas vezes é mais interessante lançar uma música de cada vez, para ter mais chance de entrar numa playlist, do que disponibilizar um disco inteiro. Qual sua opinião sobre isso?
Nem sabia disso. Quer dizer, provavelmente ouvi algo a respeito, mas os Hives sempre fizeram discos. Agora mesmo, temos dois praticamente prontos, só falta gravar. E estamos trabalhando em um terceiro simultaneamente. Queremos lançar nossas músicas como álbuns. Mas se nos reunirmos com a gravadora e eles nos disserem que é melhor lançar uma música de cada vez, talvez façamos isso. Se lançarmos uma música por mês a partir de agora, podemos continuar fazendo isso por quatro anos. Temos muito material.

Quais seus planos em relação a shows no futuro? Já estão pensando nisso ou ainda é cedo?
Temos shows marcados para todo o verão europeu, mas caso não rolem, pode ser que façamos mais shows virtuais. Se tivermos permissão para tocar ao vivo, faremos isso. Pode ser otimismo da nossa parte, mas é o que gostaríamos de fazer.

Para finalizar, alguma mensagem para os fãs de São Paulo?
Sim, será ótimo vê-los novamente. Já faz tempo demais que não vemos alguns rostos paulistas. Sintonizem e façam esse negócio explodir junto com a gente.

– Leonardo Tissot (www.leonardotissot.com) é jornalista e produtor de conteúdo

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