Três perguntas: Lampião da Esquina

por Renan Guerra

“Não é uma brincadeira de bichinhas. É um jornal!”, decreta Aguinaldo Silva em um dos trechos de “Lampião da Esquina”, documentário que resgata a história do jornal homônimo que influenciou toda uma geração nos anos 70 e 80. Produzido por Doctela e Canal Brasil, o longa dirigido por Lívia Perez entra em circuito dia 18 de agosto, no CineSesc SP.

Marcado pela irreverência, o jornal “Lampião da Esquina” buscava tirar os gays do gueto, trazendo à tona temas como repressão, sexualidade, violência e também um bocado de romance. Formado por intelectuais do eixo Rio – São Paulo, o jornal foi se esgueirando e acabou sendo distribuído pelo Brasil, mesmo sob a repressão ainda reinante no país à época, conseguindo se comunicar com a comunidade gay de forma bastante ampla no cenário da mídia alternativa.

O documentário “Lampião da Esquina” tenta remontar essa história com as falas e histórias de gente como Aguinaldo Silva, Ney Matogrosso, João Silvério Trevisan, Luiz Carlos Lacerda, Glauco Mattoso, Laerte, Leci Brandão e Edy Star. Produzido ainda em 2013, a diretora Lívia reuniu material suficiente para um longa-metragem, mas pelas limitações econômicas, editou apenas uma versão de 30 minutos da história, que acabou ficando na gaveta. Em 2014, com a coprodução do Canal Brasil, o filme ganhou fôlego para sua versão com mais de 80 minutos que chega agora aos cinemas.

Mesmo com a demora de pós-produção, “Lampião da Esquina” não poderia sair em momento mais propício, visto que vivemos um fortalecimento de ideias cada vez mais conservadoras ao redor do mundo (bem representada na bancada evangélica da política brasileira). O Lampa, como era chamado na época, tinha um caráter vanguardista que pode ser notado só ao observarmos algumas das manchetes de capa da publicação: “A volta do esquadrão mata‐bicha”, “Travestis! (Quem atira a primeira pedra?)”, “Latinoamérica: na terra dos hombres, pauladas nas bonecas!”, “Negros: qual o lugar deles?”, “Lesbianismo, machismo, aborto, discriminação: são as mulheres fazendo política”.

“Lampião da Esquina” é um documentário básico para conhecermos mais da história do movimento gay no Brasil, mas também para observarmos a mídia alternativa e as mudanças sociais e políticas do país, especialmente o fato de que os temas tratados há 35 anos pelo jornal ainda se mostram atualíssimos (a coleção completa do jornal em PDF aqui). Nesse sentido, conversamos com a Lívia Perez (foto), diretora do documentário. Confira abaixo:

O Lampião, além de pioneiro, foi por muito tempo quase um filho-único do que poderíamos chamar de jornalismo gay. Atualmente temos na internet uma profusão de sites que buscam esse olhar gay mais contestador e político, como A Coisa Toda, o Lado Bi, Os Entendidos. Você acredita que o filme surge num momento crucial para essa geração que gera conteúdo na rede e que muitas vezes desconhece esse passado da comunidade gay brasileira?
Sim, a reação geral do público, sobretudo homossexual, que assistiu ao filme no festival É Tudo Verdade é justamente a de estar descobrindo um passado incrível da militância e conseguir relacionar certas conquistas à militância criada lá nos anos 1970/80 apesar da ditadura e do contexto conservador. Com a rede e a possibilidade de descentralizar a produção de conteúdo podemos amplificar as vozes e conseguir espaços que antes eram alternativos como na época do Lampião.

Nesse mesmo sentido, vivemos um momento social de conservadorismo político e de embates constantes entre comunidade gay e entidades religiosas. Você acredita que conhecer essa história é um caminho para que essa geração compreenda melhor suas lutas e reivindicações?
Acho que a importância do filme é também mostrar como podemos avançar ainda mais tendo como base este passado. Conhecendo a história do movimento podemos propor lutas ainda mais inovadoras e as várias perspectivas sobre as questões que reivindicamos se ampliam. Importante também termos consciência de que a onda conservadora não surge espontaneamente, ela é uma reação à onda de avanços que a militância – e aí incluo as mulheres e os negros também – conseguiram ao longo destes anos. Não deixaremos a história andar para trás , como diz a Laerte no filme!

Para além do caráter homossexual, o Lampião era um espaço de mídia alternativo e contestador em meio ao conservadorismo da época, por isso, em tempos que se discute a regulação da mídia e o monopólio/manipulação das informações, como você percebe a importância do reconhecimento dessa história para o jornalismo brasileiro?
Acredito que o Lampião pautou muito do que ainda estamos discutindo hoje, temas que ainda enfrentam resistência principalmente com o retorno do conservadorismo. Liberação sexual, movimento feminista, aborto, legalização das drogas, racismo e sobretudo a possibilidade de uma mídia livre que traga perspectivas alternativas aos meios de comunicação de massa que são extremamente concentrados hoje no Brasil. Neste sentido, iniciativas que vemos por aí hoje, principalmente na internet, como Jornalistas Livres por exemplo se parecem muito com a proposta libertária do Lampião.

Renan Guerra é jornalista e colabora com o sites You! Me! Dancing! e Bate a Fita

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