Boteco: 11 países, 22 cervejas

por Marcelo Costa

INGLATERRA
Abrindo com duas inglesas da Meantime, de Greenwich, Londres. A primeira delas é a London Pale Ale, uma English Pale Ale que choca o lúpulo britânico English Goldings com as variedades norte-americanas Cascade e Cluster (mais um blend de maltes Pale Ale, Crystal e Munich). Na taça, uma cerveja de coloração alaranjada exibe um creme branco levemente alaranjado de boa formação e média alta permanência. No nariz, mais lúpulo do que malte (o que para um britânico faz diferença!) em sugestões herbais (pinho suave e resina distante) e cítricas (laranja e limão) sobre uma base de malte que traz caramelo e pão doce. Na boca, textura cremosa e frisante. O primeiro toque traz rápida doçura maltada atropelada no segundo seguinte por notas herbais e cítricas que entregam o bebedor a um amargor moderado, que descortina um conjunto refrescante e saboroso que valoriza o cítrico e o herbal sem extremismos. O final é maltadinho e herbal. No retrogosto, leve acidez, caramelo e pinho. Delicinha.

Segunda da sessão, a Meantime India Pale Ale é uma English IPA que se baseia no encontro dos lúpulos locais Fuggle e Goldings com o malte Maris Otter. Não espere os exageros que fizeram a fama da escola made in USA, porque aqui a pegada e mais delicada, ainda que não menos interessante. De coloração âmbar entre o alaranjado e o acastanhado com creme bege claro de boa formação e média retenção, a Meantime India Pale Ale apresenta um aroma que equilibra doçura caramelada com suaves sugestões de gengibre e doce de laranja. Na boca, a textura é levemente picante. O primeiro toque traz doçura caramelada com pegada cítrica (a sensação de doce de laranja se cristaliza) seguida de picância leve e amargor médio baixo, abrindo as portas para um conjunto saboroso e interessante, que pode surpreender muitos que desdenham a escola IPA inglesa. O final é levemente amargo com traço de gengibre. No retrogosto, caramelo, amargor suave, gengibre e distante doce de laranja. Boa.

BRASIL
Dos mesmos cervejeiros vencedores do prêmio Eisenbahn com a São Sebá nasceu a Ogre Beer, cuja lema, “cerveja sem frescura”, já passou por este site com a excelente Über Lager. Agora, a turma de São José dos Pinhais, no Paraná, marca presença primeiro com a Chaparrita, uma Belgian Witbier com pimenta chilli (uma das variedades potentes da malagueta). De coloração dourada levemente turva com creme branco de baixa formação e rápida dispersão, a Ogre Chaparrita apresenta um aroma mais de Weiss do que Witbier, com banana em primeiro plano acompanhada de cravo, caramelo e suave sugestão de pimenta. Na boca, a textura é picante (de pimenta mesmo!). O primeiro toque, no entanto, traz doçura frutada (caramelo e banana) seguida de amargor médio e uma pancada de pimenta, que aumenta seu ataque conforme o liquido rasga a garganta. O final é doce e apimentado. No retrogosto, pimenta chilli e calor. Interessante.

Minha terceira Ogre (a segunda desta sequencia) é a Django Cigano, uma Belgian IPA que, segundo o rótulo, é uma Belgian Ale com adição de lúpulos “antes, durante e após a fervura” (um blend de Cascade, Ella, Sorachi Ace e Fuggles). De coloração alaranjada com forte turbidez e creme branco levemente alaranjado de média baixa formação e permanência, a Ogre Django Cigano apresenta um aroma com intenso frutado cítrico (tangerina, laranja, maracujá, mamão) sobre uma base que oferece doçura (caramelo) e leve resina além de sugestão de defumação. Na boca, a textura oferece mais acidez que picância (que era o esperado, mas não vem). O primeiro toque confirma a pegada cítrica adiantada pelo aroma seguida de amargor potente (eles dizem 75 de IBU, mas 60 parece mais justo) abrindo as portas para uma cerveja saborosa, ainda que o lado belga tenha ficado em segundo plano encoberto pela porrada de amargor e notas cítricas. O final é doce, cítrico e amargo, intercalado. No retrogosto, cítrico, doçura e um traço de amargor. Delicinha.

BÉLGICA
Com receita desenvolvida por uma cooperativa e produzida pela De Proefbrouwerij, em Lochristi, na Bélgica (fábrica responsável por cervejas da Mikkeller, To Øl e Omnipollo entre outras), a Gageleer é uma cerveja orgânica certificada desde 2003 que se inspira na ancestral escola medieval Gruit através do uso da erva Myrica Gale, um pequeno arbusto que não substitui o lúpulo, mas busca rememorar a cerveja que era bebida no passado. Na taça, uma cerveja de coloração dourada caramelada exibe creme branco de boa formação e retenção. No aroma, muitas notas herbais sugerindo gengibre e eucalipto sobre uma base doce de caldo de cana e caramelo além de condimentação (alecrim suave). Na boca, a textura é sedosa, quase licorosa. O primeiro toque é bastante herbal (gengibre, mas sem tanta picância) seguido de forte doçura caramelada. Os 7.5% de álcool impulsionam o amargor, ainda assim médio. Dai pra frente uma cerveja diferente e bem interessante, que resgata uma história e oferece um sabor diferenciado sem soar exotismo barato. O final é melado e o retrogosto reforça essa sensação herbal e de caramelo. Bem interessante.

De Halen, cidade belga de quase 10 mil habitantes próxima de Gent surge a minha segunda Halen da Brouwerij Anders: a primeira foi a Dubbel, agora é a vez da… Quadrupel da casa. De coloração preta com creme bege meio escuro com ótima formação e média alta permanência, a Halen Mariënrode Quadrupel exibe, assim que a tampa é sacada da garrafa, a potência de seus 12% de álcool, perfumando o ar. Passada essa fase inicial, deliciosas notas sugerindo doçura de frutas escuras (calda de ameixa) e baunilha, em primeiro plano, seguidas de café suave e chocolate. Na boca, a textura é levemente licorosa e picante (de álcool). O primeiro toque junta calda de ameixa caramelada com álcool e baunilha. O amargor é baixo, mas a porrada alcoólica pode te dar outra impressão. Dai pra frente, respeitando os 10 graus que ela deve ser degustada, a Halen Mariënrode Quadrupel consegue equilibrar a contento a notas de doçura frutada com o álcool, perceptível, mas nem um pouco agressivo. O final é calda de ameixa com álcool. No retrogosto, aquecimento alcoólico, calda de ameixa e sorrisos.

LIBANO
De Mazraat Yachoua, cidade a cerca de meia hora da capital Beirute, surge a quinta cerveja da 961 a figurar neste espaço (conheça as demais), a American IPA da casa com jeitão de English. De coloração âmbar alaranjada com creme suavemente alaranjado de média formação e rápida dispersão, a 961 American IPA apresenta um aroma extremamente tímido para o estilo, com sugestões maltadas (cereais e pão branco) à frente da lupulagem, discreta, que oferece leve herbal, escondido atrás da doçura de caramelo. Na boca, a textura é suave. O primeiro toque traz caramelo rápido seguido de cítrico e herbal suaves, sem profundidade, e de um amargor baixo. Dai pra frente, uma cerveja que equilibra malte e lúpulo tal qual as English IPAs antigas, mas peca por carregar o nome American no rótulo. O final, assim como o retrogosto, é maltadinho e esquecível. Decepção.

Seguindo com a 961, agora com a Black IPA, que melhora a experiência em relação a anterior (principalmente pelas notas derivadas do malte torrado, que dão uma força ao conjunto que a American IPA não tem) ainda que esteja bem abaixo de outras do estilo. Na taça, um líquido de coloração preta meio baunilha (próxima da Coca-Cola) apresenta um creme bege de baixa formação e rapidíssima dispersão. No nariz, café intenso em primeiro plano (e praticamente só café). Com paciência é possível notar leve chocolate e herbal distante. Na boca, textura suave, quase cremosa. O primeiro toque, como era de se esperar pelas notas de aroma, traz café, muito café. E só café. O amargor é mais de torra do que de lúpulo (o que decepciona quem esperava um leve herbal ou cítrico) e o conjunto que se descortina na sequencia traz… café. Ok, herbal distante. E só. Pra quem esperava uma Black IPA, outra decepção.

ALEMANHA
A escola bávara marca presença com a Städtisches Weizenbrauhaus (Cervejaria de Trigo Municipal), cervejaria de 1672, primeira a produzir cerveja de trigo em Nüremberg. Em 1806, o Reino da Bavária anexou o território de Nüremberg, e a cervejaria passou a se chamar Königliches Weizenbrauhaus (Cervejaria de Trigo Real). 50 anos depois, a família von Tucher comprou a cervejaria, mudando seu nome para Freiherrlich von Tucher’sche Brauerei (Cervejaria do Barão von Tucher). Essa Tucher Helles Hefe Weizen é uma tradicional German Hefeweizen, de coloração amarela levemente turva com creme branco espesso de ótima formação e longa retenção. No nariz, notas clássicas: banana, cravo, tutti fruti, caramelo. No paladar, textura cremosa e levemente picante. No primeiro toque saltam as notas clássicas (banana e cravo) seguidas de caramelo e amargor baixo, mas eficiente. Dai pra frente, uma cerveja de trigo tradicional e respeitável. O final e frutado e condimentado. No retrogosto, um replay saboroso do final. Muito boa!

A segunda da cervejaria atualmente denominada Tucher Bräu Fürth (que, desde 2004, passou a ser administrada pela Oetker Group) é a Tucher Kellerbier Naturtrub, uma cerveja de cor âmbar caramelada clara, com sutil alaranjado, de creme branco espesso de boa formação e longa permanência. No nariz, predomínio do malte com notas tanto adocicadas (caramelo e mel) quanto maltadas (pão doce), mas o lúpulo também marca presença com suave aceno herbal. Na boca, a textura é suave com leve picancia. O primeiro toque traz suave doçura de caramelo, mas também forte presença tostado, exibindo toffee. O amargor é médio baixo, e, dai pra frente, destaca-se um conjunto que se equilibra com delicadeza entre dulçor maltado, leve herbal e a presença assertiva de notas derivadas da tosta. O final é levemente maltado enquanto o retrogosto oferece caramelo e toffee. Boa.

EUA
De Healdsburg, no condado californiano de Sonoma, a segunda Bear Republic a passar por este espaço (a primeira foi a Hop Rod Rye) é a premiada Big Bear Black Stout, uma Imperial Stout mais pra Stout do que para Imperial (ainda que com 8% de álcool e 55 de IBU). De coloração marrom bastante escura, quase preta, e creme bege escuro espesso de excelente formação e longa permanência, a Bear Republic Big Bear Black Stout apresenta um aroma delicioso, com notas que remetem a chocolate, baunilha, caramelo e alcaçuz além de percepção láctica em primeiro plano e café e frutas escuras delicadamente na base. Na boca, a textura é sedosa. O primeiro toque traz agradável chocolate seguido de baunilha e amargor marcante, turbinados tanto pela lupulagem (Centennial e Cascade) quanto pela torra do malte e pelo álcool. Dai pra frente uma bela cerveja, quase um (delicioso) cappuccino gelado. No final, amargor de torra. Já o retrogosto traz um fio de amargor em meio a chocolate, aveia e alcaçuz. Bem boa.

Seguindo no território das Imperial Stout com uma poderosa versão da Ballast Point, de San Diego, na Califórnia: Sea Monster, com 10% de álcool e 65 de IBU. A receita tenta suavizar as notas potentes derivadas da torra do malte com aveia e dar um colorido a mais com o uso dos lúpulos Colombus e Amarillo. De coloração marrom escura praticamente preta e creme bege de ótima formação e média retenção, a Ballast Point Sea Monster apresenta um aroma com domínio de malte torrado (café em primeiro plano e chocolate amago) e potencia alcoólica avisando já no nariz que está na área. Na boca, textura sedosa e picante de álcool. O primeiro toque traz doçura achocolatada que logo se transforma em chocolate amargo, passa pra café (sem açúcar) e se resolve numa pancada alcoólica de amargor, como que avisando: vá devagar. Dai em diante, chocolate amargo apaixonadamente revestido em álcool. O final é… quente, com um pouco de café. No retrogosto, amargor, chocolate (amargo) e café. Baita.

DINAMARCA
Minha vigésima segunda To Øl é a novíssima Weist The Redeemer, uma Sour Smashed IPA que tenta unir os dois estilos radicais (Sour e IPA) dentro da mesma garrafa. De coloração âmbar alaranjada com turbidez aparente e creme bege claro de boa formação e média permanência, a To Øl Weist The Redeemer apresenta um aroma provocante com notas de caramelo e de mel atoladas em cítrico, acidez e efervescência sutilmente salgada. Há, ainda, algo de vinho branco. Na boca, textura cremosa, levemente picante e acética. O primeiro toque traz efervescência e salgado seguido de rápida doçura (caramelo) atropelada por cítrico, amargor potente e acidez insinuante, tudo isso em questão de segundos. O residual subsequente exibe azedume cítrico (toranja) finalizando levemente azedo e salgado. No retrogosto, amargor suave, salgado e leve azedinho. Uma cerveja surpreendente.

A To Øl número 23 da sequencia é a Releaf Me, uma Belgian Blond Ale cuja receita maluca une malte Pilsner, aveia, trigo, os lúpulos Nelson Sauvin e Citra além de adição de casca de limão Tahiti, o que bagunça divertidamente o conjunto. De coloração amarela com turbidez aparente e creme branco de ótima formação e média alta permanência, a To Øl Releaf Me apresenta notas cítricas claras de limão assim que a garrafa é aberta. Na taça, o delicioso aroma de limão recebe o acréscimo suave de notas florais. Na boca, a textura é cremosa e levemente picante. O primeiro toque, como era de se esperar, traz forte sensação de casca de limão seguida de amargor suave e um conjunto saboroso e altamente refrescante, que continua com o limão domimando, mas deixa um delicioso azedinho pelo caminho até o final, amarguinho. No retrogosto… limão. Num dia de praia deve ser sensacional.

CANADÁ
Minha nona Dead Frog, cervejaria da pequena Aldergrove, cidade de pouco mais de 12 mil habitantes na fronteira do Canadá com o estado de Washington, nos Estados Unidos (a menos de 50 minutos de Vancouver e 1h50 de Seattle), a Citrus Wit é da linha The Seasonal da casa, e segue o padrão norte-americano de witbiers delineado pela Blue Moon. De coloração âmbar alaranjada com creme branco de baixa formação e curta retenção, a Dead Frog Citrus Wit equilibra no aroma notas suavemente cítricas (casca de laranja), condimentação (cravo) e doçura de trigo. Na boca, textura suave e levemente metálica. No primeiro toque, bastante cravo seguido de leve cítrico e amargor baixo abrindo as portas para um conjunto refrescante que lembra bastante a Blue Moon (até é possível imagina-la com uma fatia de laranja na borda da taça). O final é suave e condimentadozinho. No retrogosto, trigo, casca de laranja e cravo.

A segunda canadense é outra da Dead Frog, a Rocket Man Interstellar ESB, que paga tributo ao clássico estilo britânico numa receita que combina os lúpulos Galaxy, Centennial e Apollo com o malte Maris Otter. De coloração âmbar acastanhada turva com creme bege claro de boa formação e permanência, a Dead Frog Rocket Man Interstellar ESB exibe notas tropicais no aroma (laranja e maracujá) acompanhadas de doçura caramelada, biscoito e suave sugestão herbal (pinho) além de um toquezinho resinoso. Na boca, a textura cremosa com leve picância. O primeiro toque confirma a força dos lúpulos sobre o malte (algo raro no estilo) com forte acento frutado cítrico seguido de herbal e resinoso pontuais, mas eficientes, e amargor médio abrindo as portas para um conjunto que tenta equilibrar malte e lúpulos oferecendo cítrico e biscoitos. O final traz biscoito e resina, leves. No retrogosto, caramelo, resina, casca de laranja e biscoito. Gostei.

ITÁLIA
Precursora do renascimento das cervejas artesanais na Itália, a Baladin surge representada pela Isaac, primeira receita desenvolvida pelo mestre cervejeiro Teo Musso, que leva o nome de seu primeiro filho. Trata-se de uma Witbier que utiliza 99% de ingredientes italianos (“Só o lúpulo, que usamos em pouquíssima quantidade, é importado”, contou Musso numa palestra): cevada, trigo, levedura, semente de coentro, lúpulo, casca de laranja e xarope de cereais. De coloração amarela com leve turbidez e creme de média formação e rápida dispersão, a Isaac exibe um aroma delicioso com notas cítricas, semente de coentro e casca de laranja. Na boca, a textura é levemente frisante. O primeiro toque traz rápida doçura cítrica (laranja, gengibre e açúcar cristalizado) seguida de acidez leve e amargor baixo abrindo caminho para um conjunto saboroso e refrescante, que finaliza docinho e cítrico. No retrogosto, cítrico suave e doçura.

Minha décima terceira Birra Del Borgo leva o nome de Maledetta e uma Belgian Ale produzida pela turma de Borgorose como uma homenagem ao charuto Club Maledetto Toscano. De coloração âmbar caramelada turva com creme bege claro de boa formação e permanência, a Birra Del Borgo Maledetta apresenta um aroma marcante, com notas ariscas derivadas da levedura (condimentação e acidez cativantes) mais floral e cítrico suaves além de caramelo e leve terroso. Na boca, a textura é cremosa e picante. O primeiro toque traz rápida doçura logo encoberta por condimentação (leve pimenta), doçura caramelada e acidez suaves. O amargor subsequente é médio abrindo as portas para um conjunto deliciosamente provocante, com caramelo, leve toffee e frutado em destaque sobre uma base suavemente picante. O final é seco. No retrogosto, doçura apaixonante, acidez suave e toffee. Uma delícia.

REPÚBLICA TCHECA
A última das quatro escolas cervejeiras clássicas (as demais são Alemanha, Bélgica e Inglaterra) marca presença primeiro com a Templářské Tajemné Pivo Lager, pilsner tcheca cujo rótulo nacional credita sua produção a cervejaria Herold, de Praga, mas que diversos outros lugares (Ratebeer incluso) indicam como pertencente ao império da Nova Paka Brewery, uma das maiores cervejarias do país, sediada na cidade de mesmo nome a cerca de uma hora de Praga. De coloração âmbar alaranjada com creme branco de boa formação e retenção, a Templářske exibe um aroma maltado sugerindo mel com leve presença de notas herbais (grama). Na boca, a textura é leve, quase cremosa. O primeiro toque confirma o que o aroma adianta com mel e caramelo agradáveis e leve presença herbal seguida de amargor baixo, mas eficiente em abrir as portas para um conjunto simples, mas ainda assim saboroso e refrescante. O final é seco e amarguinho. No retrogosto, caramelo discreto, grama suave e refrescância. Corretíssima!

De Třeboň, cidade checa de 8 mil habitantes localizada na região da Boêmia do Sul, a cerca de uma hora de Praga (e duas horas de Nova Paka) surge a Certovka, uma Bohemian Pilsener produzida pela cervejaria Regent para exportação. De coloração âmbar alaranjada com leve turbidez e creme branco de boa formação e média retenção, a Certovka apresenta um aroma maltado sugerindo cereais em primeiro plano seguido de doçura de caramelo e mel. Há ainda leve sugestão floral, campestre e herbal. Na boca, a textura é leve, quase cremosa – um pouco mais que a Templářske. O primeiro toque traz doçura caramelada e herbal. Na sequencia, o amargor, médio, é eficiente e abre caminho para um conjunto refrescante e delicioso, com bastante percepção de cereais, presença suave de notas herbais e florais além de muita refrescância. O final é seco e maltadinho. No retrogosto, cereais, caramelo e refrescância.

COLÔMBIA
Voltando para a América do Sul para fechar esta série de uma seleção de cervejas de países com duas colombianas! A primeira é da Bogotá Beer Company, cervejaria fundada em 2002 que tinha como lema “a maior pequena cervejaria da Colômbia” até que, em 2015, o consórcio Inbev comprou a marca. Essa Chapinero é uma Porter de coloração marrom bastante escura com creme bege claro de boa formação e média retenção. No nariz, as notas clássicas do estilo oferecendo café (derivado da torra do malte) largo em primeiro plano com chocolate amargo aveia bem discretos na base. Na boca, a textura é levemente metálica e cremosa. O primeiro toque reforça o que o aroma adianta: bastante café seguido de láctico (aveia) e amargor moderado (influenciado pela torra). Dai em diante, uma Porter correta e interessante que finaliza com amargor torrado sauve. No retrogosto, mais café e um pouco de caramelo. Boa!

Para encerrar a série, um rótulo da Cervecería Inducerv, fundada em 2009 e responsável pela linha Apóstol, aqui presente com a sua Bock, uma cerveja de coloração âmbar acastanhada com creme bege clarinho de média formação e persistência. No nariz, um excelente perfil aromático distribuindo notas carameladas que sugerem inicialmente bala toffee e depois calda de ameixa, chocolate meio amargo, leve mentolado e sútil defumado. Na boca, textura sedosa com leve cremosidade. O primeiro toque oferece doçura caramelada (toffee) seguida de leve impressão de defumado, ameixa e mentolado. O amargor é médio baixo, mas eficiente na função de equilibrar a potência da doçura, que se mantém muito bem no conjunto até o final, sutilmente defumado. No retrogosto, caramelo, toffee, ameixa e alegria. Bela cerveja!

Balanço
Começando pela Inglaterra (mais propriamente por Londres) com a Meantime London Pale Ale, uma English Pale Ale com lúpulos norte-americanos, que são acrescentados para dar um sabor diferenciado na medida para o inglês tradicional, soando diferente sem soar agressivo. Delicinha. A Meantime India Pale Ale vai decepcionar quem procurar por American IPA na taça, mas tem tudo para surpreender quem conhece e gosta da escola British IPA, por um conjunto que equilibra a contento doçura, cítrico e amargor suave. Baixe a guarda e experimente. Da Inglaterra para o Paraná com a primeira de duas Ogre, a Chaparrita, uma Belgian Witbier com jeitão de German Weiss atolada em pimenta, que não foi colocada aqui para ser coadjuvante. Achei interessante a proposta, ainda que desvirtue a leveza do estilo. Pelo jeito, a ideia da turma da Ogre é sepultar a escola belga. Se a Chaparrita exibe um perfil alemão, a Django Cigano é uma Belgian Ale com perfil norte-americano. A lupulagem se sobressai a levedura e ao malte, mas não tem como torcer o nariz: é uma cerveja bem gostosa. Do Paraná para os Flandres Orientais com uma cerveja orgânica da De Proefbrouwerij, que sugere relembrar o Gruit medieval, e se sai bem com uma receita bastante herbal, com doçura melada, potência alcoólica e conjunto surpreendente. Vale a pena encarar. A Halen Mariënrode Quadrupel é uma cacetada alcoólica deliciosa com 12% de graduação que dança com o rosto coladinho numa sugestão de calda de ameixa. Há mais pra se explorar, mas essa dança fará você dançar também. Da Bélgica para o Líbano, e começando com uma enorme decepção: a 961 American IPA, que não honra o estilo. Talvez a ideia fosse ir até os Estados Unidos, mas a grana só deu pra voar até a Inglaterra, e até lá há English IPAs melhores que essa 961. Não foi dessa vez e nem da próxima: a 961 Black IPA ignora a parcela IPA do nome e se foca no Black, distribuindo notas de torra que reverberam rememorando café. É uma Robust Porter mais intensa (robusta) que a Porter da casa. O estilo IPA? Bem, parece que ainda não chegou no Líbano. Partindo para a Alemanha com a Tucher Helles Hefe Weizen, tradicionalíssima: quem é apaixonado por cerveja de trigo até já a deve conhecer, e se não conhece fica a dica, ainda que mantenha as características tradicionais do estilo. Já a Tucher Kellerbier Naturtrub é uma Keller simples, que cumpre sua função de oferecer com capricho nuances de doçura e tosta. Atravessando o Atlântico, da Alemanha para os Estados Unidos, e começando com a excelente Bear Republic Big Bear Black Stout, que poderia ser definida como uma Sweet Imperial Stout, pela boa presença de amargor, pela oferta caprichada de chocolate e notas lácticas, e pela maneira exemplar que esconde o álcool. Uma baita cerveja. Melhor ainda é a (American) Imperial Stout da Ballast Point, a Sea Monster, uma cerveja extrema com amargor insistente carregado de café, chocolate amargo e álcool. Uma garrafa de 600 ml para durar horas. Coisa linda! Partindo para o Canadá com a Dead Frog Citrus Wit, uma boa witbier que segue a trilha aberta pela Blue Moon, sem acrescentar novidades. Já a Dead Frog Rocket Man Interstellar ESB consegue soar um tiquinho mais arisca que as ESBs inglesas, o que é um acréscimo bem interessante, tornando-a mais saborosa e profunda do que as cervejas do estilo na terra da Rainha costumam ser. Do Canadá para a Itália, primeiro passando por Piozzo, casa da Birreria Le Baladin, aqui representada por uma Witbier deliciosa, a Isaac, que equilibra doçura, cítrico e especiarias com elegância. De Borgorose, cidade da Birra del Borgo, surge a Maledetta, uma Belgian Ale rebeldezinha e muito interessante. Partindo para a República Tcheca com um bom exemplar da escola Pilsner do país, a boa Templářské Tajemné Pivo Lager, que é como todas as cervejas populares deveriam ser – se não soassem água gaseificada. A Certovka, também checa, me conquistou um pouco mais por sugerir mais cereais e menos caramelo. Partindo para a Colômbia com a minha primeira cerveja do país, e comecei bem porque a BBC Porter Chapinero é bastante correta! Fechando o passeio, a Apostol Bock honra o estilo alemão com uma bela receita.

Meantime London Pale Ale
– Estilo: English Pale Ale
– Nacionalidade: Inglaterra
– Graduação alcoólica: 4.3%
– Nota: 3.12/5

Meantime India Pale Ale
– Estilo: English India Pale le
– Nacionalidade: Inglaterra
– Graduação alcoólica: 7.5%
– Nota: 3.12/5

Ogre Chaparrita
– Estilo: Belgian Witbier
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.7%
– Nota: 3,12/5

Ogre Django Cigano
– Estilo: Belgian IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7.3%
– Nota: 3,39/5

Gageleer
– Estilo: Cerveja Orgânica
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 7.5%
– Nota: 3,22/5

Halen Mariënrode Quadrupel
– Estilo: Belgian Quadrupel
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 12%
– Nota: 3,72/5

961 American IPA
– Estilo: American IPA
– Nacionalidade: Libano
– Graduação alcoólica: 6.2%
– Nota: 2,54/5

961 Black IPA
– Estilo: German Lager
– Nacionalidade: Libano
– Graduação alcoólica: 6.5%
– Nota: 2,91/5

Tucher Helles Hefe Weizen
– Estilo: German Hefeweizen
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 5.2%
– Nota: 3.23/5

Tucher Kellerbier Naturtrub
– Estilo: Kellerbier
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3.00/5

Big Bear Black Stout
– Estilo: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 3,61/5

Ballast point Sea Monster
– Estilo: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 10%
– Nota: 3,77/5

To Øl Weist The Redeemer
– Estilo: American IPA
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 7.5%
– Nota: 3,61/5

To Øl Releaf Me
– Estilo: Belgian Blond Ale
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 5.8%
– Nota: 3,42/5

Dead Frog Citrus Wit
– Estilo: American IPA
– Nacionalidade: Canadá
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,01/5

Dead Frog Rocket Man Interstellar ESB
– Estilo: English Special Bitter
– Nacionalidade: Canadá
– Graduação alcoólica: 6.5%
– Nota: 3,12/5

Baladin Isaac
– Estilo: Witbier
– Nacionalidade: Itália
– Graduação alcoólica: 4.5%
– Nota: 3.43/5

Birra Del Borgo Maledetta
– Estilo: Belgian Ale
– Nacionalidade: Itália
– Graduação alcoólica: 6.3%
– Nota: 3.49/5

Templářské Tajemné Pivo Lager
– Estilo: Czech Pilsner
– Nacionalidade: República Tcheca
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,13/5

Certovka
– Estilo: Czech Pilsner
– Nacionalidade: República Tcheca
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,15/5

Bogotá Beer Company
– Estilo: Chapinero Porter
– Nacionalidade: Colômbia
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,12/5

Apóstol Bock
– Estilo: Dunkler Bock
– Nacionalidade: Colômbia
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,22/5

Leia também
– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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