Os destaques do Festival Transborda

por Tiago Agostini

O visual da Praça do Papa, em Belo Horizonte, impressiona de cara. No alto do bairro das Mangabeiras, o local, que em 1980 recebeu a visita de João Paulo II, traz uma visão ampla da capital mineira, com as luzes dos prédios se perdendo na linha do horizonte. Cenário perfeito para o show do rapper Criolo, que fechava a segunda edição do Festival Transborda.

Nome mais comentado na música brasileira em 2011, Criolo chegou a Belo Horizonte com o peso de ser o headliner de um festival com poucos nomes de projeção nacional e boas apostas locais. Para a missão, foi escudado por uma banda estrelada que incluía Curumin na bateria, Marcelo Cabral no baixo, Guilherme Held na guitarra, Daniel Ganjaman nos teclados e Thiago França no saxofone. Com um time destes fica difícil fazer um show ruim.

Mais do que um show, no entanto, a apresentação parece um ritual. Criolo sobe ao palco com um pano dourado escondendo o rosto, cabeça baixa, vestindo uma bata bege com detalhes em verde que cobre todo seu corpo. Ajoelha-se perante o público, faz uma reverência e só então mostra a face, antes de se virar para a banda e repetir o gesto. É a senha para o início de fato do espetáculo.

Há certo messianismo em sua performance – e isso incomoda. Tal qual um pregador – a imagem é reforçada pela roupa – seus movimentos de braço são parte central do show, constantemente sendo levantados para o alto, como que abençoando o público. Ele acerta em alguns momentos chave, como quando canta à capela sua boa reinvenção de “Cálice”, de Chico e Gil, mas a repetição em demasia do discurso sobre igualdade acaba prejudicando a unidade e o ritmo do show.

Quando se concentra na música, Criolo traz os melhores momentos da noite entre todos os shows, com uma interpretação tão intensa quanto emotiva. O ponto alto da apresentação são as enérgicas “Grajauex” e “Bogotá”, além do balanço discreto de “Subirodoistiozin”. É no repertório variado que surge o segredo do cantor: mais do que um rapper, ele se tornou um intérprete versátil.

“Não Existe amor em SP”, o hit que alavancou o sucesso do álbum “Nó na Orelha”, é, previsivelmente, o momento mais celebrado pela plateia que lotava a Praça do Papa. A participação do público não se restringe a ela, porém: mesmo músicas menos conhecidas, como “Sucrilhos” e “Mariô”, tem seus versos cantados por uma parcela significativa do público. Sinal de que o fenômeno Criolo está ultrapassando a barreira do hype.

O domingo foi o dia do Transborda com a maior e mais diversificada programação em um só local. Perto das 19h, o Violins, novamente com duas guitarras e soando ainda mais pesados do que no show do início do ano no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, finaliza um bom show. Em seguida foi a vez da local Chakal comemorar 25 anos de thrash metal em cima do palco.

Com a programação atrasada, os pedidos de bis dos metaleiros foram ignorados e Dibigode entrou em cena misturando samba, rock e toques de jazz em músicas climáticas e intensas, de uma forma não óbvia. Um bom nome da música instrumental para se prestar atenção. O Cérebro Eletrônico demorou alguns minutos para entrar no palco até acertarem o som. Prejudicados pelo atraso, tiveram que cortar três músicas do setlist e, ainda com alguns problemas no som, fizeram um show bom, mas frio. Destaque para a sempre ótima “Cama”. Antes de Criolo encerrar a noite ainda haveria o show do Frito na Hora, espécie de orquestra percussiva circense e rebelde que nem merece nota.

Se o domingo concentrou muitas apresentações na Praça do Papa, o sábado foi o oposto, espalhando os shows por centros culturais nos bairros da capital mineira. No São Bernardo, ao ar livre, Lurdez da Luz enfrentou alguns problemas técnicos (a energia acabou durante o show) para fazer um show curto e direto. Mostrando ser um dos bons nomes do rap nacional no que diz respeito a cantar, Lurdez merecia um público maior. Apesar da descentralização dos shows teoricamente favorecerem a presença de pessoas das comunidades, apenas cerca de 50 pessoas assistiram ao show. Pouco, tendo em vista a qualidade de Lurdez.

Em sua noite mais enxuta, o Transborda ainda recebeu o Graveola e o Lixo Polifônico para a abrir a noite no Granfino. Abrindo de cara com uma música nova, a ótima “Farewell Love Song”, o grupo provou porque é apontado como um dos principais nomes da fértil cena mineira. Amparada pelos diálogos entre as guitarras, a música do Graveola exala lirismo sem medo de passear por baladas e ritmos latinos. Uma festa completa.

O relógio marcava quase 3h da manhã quando, ao som de “Olhos da Cara”, de Romulo Fróes, um redivivo Vanguart subia ao palco para lançar seu segundo trabalho, “Boa Parte de Mim Vai Embora”. Sem tempo para papo, o grupo atacou de cara “Mi Vida Eres Tu” e espantou os desavisados: era uma banda de sertanejo que estava no palco? Os fãs, à beira do palco, não deram bola e cantavam todos os versos. Uma versão matadora de “Cachaça” veio na sequência e botou fogo de vez no local.

O Vanguart sempre foi bom ao vivo, mas parece que a longa temporada tocando Beatles como Vangbeats aperfeiçoou a banda de uma forma que o show foi perfeitamente redondo. Afiados, os músicos estão tocando cada vez mais alto e melhor. E se em estúdio a voz de Hélio Flanders soa forçada, ao vivo há poucos momentos incômodos. Some á equação o violino de Fernanda Kostchak e o trompete em algumas faixas, como a intensa “Nessa Cidade”, e o resultado é uma apresentação exemplar.

A decoração mezzo brega do local – incluindo um enorme lustre de cristal bem na frente do palco – acabou encaixando perfeitamente com o show dos cuiabanos. “Boa Parte de Mim Vai Embora” é declaradamente um disco de amor (e não amor) rasgado. A sonoridade, descrita por muitos como uma aproximação com o country norte-americano, resvala, mesmo que sem querer, no sertanejo de nomes como Chitãozinho e Xororó ou outros artistas que embalam noites insônes em caminhões Brasil afora.

É bom ressaltar que essa aproximação com o brega não cool brasileiro é um ponto forte da nova fase da banda. “Mi Vida Eres Tu”, por exemplo, pode servir de trilha sonora para qualquer puteiro barato de beira de estrada, com tudo que isso tem de bom. Ao compor o disco como se estivesse em um divã, o Vanguart deixou aflorar os sentimentos mais primais de forma simples e aberta. Pena que poucos vão entender.

Até por isso, talvez fosse o momento de o Vanguart fazer uma turnê por lugares pequenos e mais populares. Uma série de shows em muquifos lotados com a transpiração da plateia latente no ar parece o ambiente perfeito para o processo de renovação da banda. “Boa Parte de Mim Vai Embora” é um disco difícil por sua carga emotiva, mas serviu para a banda espantar os fantasmas que quase acabaram com o Vanguart. O show, mais até que o disco, mostra que o grupo está vivo e a ponto de bala. Por enquanto é o suficiente.

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– Tiago Agostini (@tiagoagostini) é jornalista, colaborador da Rolling Stone e editor do Discos da Vida. Fotos 1, 2 e 3 e vídeo (Criolo, Violins e Vanguart) por Tiago Agostini. Foto 4 (Cérerbro Eletrônico), por Luciana Lima, do Coletivo Pegada. Foto 5 (Vanguart) por Fora das Bordas, do Coletivo Pegada. Mais fotos aqui

Leia também:
– Vanguart: “Boa Parte de Mim Vai Embora” deixa uma sensação estranha aqui)
– Criolo: “Nó na Orelha” faz conexão entre estilos de ouvintes diferentes (aqui)
– Cérebro Eletrônico ao vivo no Auditório Ibirapuera (aqui)
– Entrevista: “Acho que a gente fez o que pôde”, diz Beto Cupertino, do Violins (aqui)
-Graveola e o Lixo Polifônico: boa surpresa musical vinda de Minas Gerais (aqui)

23 thoughts on “Os destaques do Festival Transborda

  1. O Criolo tem pose messiânica, mas tem conteúdo. A mim não incomoda.
    É uma coisa dele, não vejo forçação de barra.
    Faz parte do show – em todos os sentidos – do cara.

  2. O som da casa não ajudou o Graveola no inicio, mas não conseguiu comprometer a bela apresentação dos meus conterrâneos.
    Ah… Vanguart!
    A produção do Transborda deveria ter marcado o horário certo de cada show na Praça do Papa, os shows foram muito curtos.
    O festival cresceu e melhorou do ano passado para esse ano. Espero o do ano que vem.

  3. Tiago, messianismo é parte da música negra: Fela Kuti, James Brown, George Clinton, Chuck D, Mano Brown, Marcus Garvey, Itamar Assumpção, Tim Maia, Gil-Scott Heron, Bob Marley, todos em algum momento da carreira (ou mesmo durante a carreira inteira) exerceram papéis messiânicos, com mais ou menos dramaticidade no palco. Sem falar em líderes além da música como Martin Luther King, Rosa Parks e especialmente Malcolm X.

    Não vejo no que isso diminua o show dele. Pelo contrário, tentar descartar isso como maneirismo ou algo que o valha é negar a própria história da música negra.

    Abraços,

    Mateus.

  4. Potumati,

    Talvez eu tenha me expressado mal na primeira frase daquele parágrafo. Não nego a importância do messianismo na música negra e nem dá para esperar que um artista com a história e representatividade atual do Criolo se comporte de outra maneira. Mas, durante o show de BH, especificamente, achei que os temas ficaram repetidos demais. Para mim a questão não é o conteúdo do discurso, e sim a forma, tanto que ressalto no texto a versão de “Cálice”, que achei um momento contundente do show – um dos pontos altos, inclusive.

    E isso não diminui o show, que foi bem bom, um dos dois melhores do festival – “Grajauex” e “Subirusdoistiozin” em especial. A conexão que ele conseguiu com o público foi impressionante. A plateia cantar com sentimento todas as músicas do disco foi uma surpresa pra lá de agradável.

    Abs,

    Tiago

  5. Artigo bem escrito pelo jornalista Tiago Agostini, MAS, que não coincide com o sentimento vivido por quem estava na platéia do show do Criolo naquele dia. Escuto rap desde os 14 anos e sempre estive presente em movimentos em que cantores como Racionais, Thaide, Mv Bill entre outros tocaram, e fizeram ótimos shows, mas o show do Criolo me surpreendeu pela essência com que o cara canta e se expressa no palco. Surpreso todos ficaram, por que há muito tempo o rap não via alguém com tamanha aceitação por parte de tantas outras tribos. Na minha humilde opinião, o show foi um cartão de visitas do Criolo, que concerteza conquistou um espaço muito maior na cena musical dos Belo Horizontinos. Portanto, respeito a opinião do Tiago, MAS, discordo plausivelmente do trecho em que cita o Criolo.

    Abraço!

  6. Tiago,

    Então você precisa se expressar melhor ali mesmo, porque isso inclusive está na chamada da matéria e está circulando a internet dessa forma. “Temas repetidos” é bem diferente de messianismo. E você tanto como eu sabe o que está rolando em relação ao Criolo, algumas pessoas atacando a parada sem falar uma linha que preste de crítica. Do jeito que o seu texto e a chamada na home do site está, parece que você está querendo causar uma polêmica nessa linha (e, como essas pessoas têm feito, polêmicas completamente absurdas, que você como eu sabe quais são). Não entra nesse jogo, eu te conheço e sei que você é interessado no assunto.

    Dito isso, eu acharia muito legal, sim, uma discussão sobre o messianismo. Acho mesmo que esse é um tema que tem uma expressão forte no Criolo. Seria um campo excelente para se explorar. Mas pra fazer isso tem que separar o bebê da água do banho.

    Abraços,

    Mateus.

  7. Mateus, acho que o Mac matou a questão: o fato do messianismo estar presente na história da música negra não invalida o incômodo. No caso do Criolo soa como uma forçada de barra pesada, sem falar no discurso batido e na impressão – talvez errada – dele estar usando o palco para responder as críticas que recebe.

    Artista brasileiro ainda muito desacostumado a receber crítica – culpa nossa, dos jornalistas – que começamos a mimar demasiadamente todo mundo, algo que já mereceu algumas linhas minhas por aí.

    Sem falar que no caso do Criolo esse messianismo parece bastante súbito, já que não fazia parte das suas apresentações no passado. O pacote do disco novo parece incluir esse tipo de postura. Sem dizer que você citou ícones da música negra, infinitamente vasta, e que nem sempre isso está presente e longe de ser algo que n mereça incômodo por quem quer q seja, ainda mais no caso de um artista que, se não principiante, por estar na cena há bastante tempo, estourou agora.

    Tudo soa estranho e gratuito demais. Entendo que você seja amigo do Criolo, a turma toda da Mais Soma, dele, do Emicida, etc, etc e que as críticas pesadas da comunidade Bizz geraram um mal estar. Independente disso, repito, é legítimo que qualquer um se sinta incomodado, com razão, com o que quer que seja. E artistas atuais precisam urgentemente aprender a conviver com críticas, só isso. Parece que qualquer “a” fora do oba-oba vira rancor e ataque pessoal, é “proibido”, “não tem base”, etc. Menos.

    Abs.

  8. Marcelo, me desculpa mas falar que o “messianismo” na música negra incomoda, por si só, é o mesmo que falar que a guitarra do Bob Mould no Husker Du era muito estridente ou que o Stephen Malkmus canta mal. Comentário que o pai de alguém aqui faria, mandando na sequência nego abaixar essa merda.

    Maurício, você não me conhece pra saber quem são meus amigos. E não existe crítica negativa ou positiva, existe crítica bem ou mal escrita. O resto é picardia de adolescente criado em apartamento.

    Abraços,

    m.

  9. E outra, caras, tô comentando aqui porque gosto do Tiago Agostini e admiro o S&Y, que sempre vai aos shows e propõe discussões sobre música. Só levantei essa lebre porque sei que vocês se interessam pelas coisas, musicalmente falando. Não me daria a esse trabalho se achasse diferente.

    Abraços,

    m.

  10. Mas qualquer coisa pode incomodar independente de sua natureza. Tem gente que pode ficar incomodada com a guitarra estridente do Husker Du e com o cantar mal do Stephen Malkmus. E quem vai dizer que essas pessoas estão erradas, que elas não podem achar isso? Elas podem. O fato do messianismo ser intrínseco ao movimento não o impede de ser questionado. O Rio Tietê fede, e esse fedor incomoda (apesar de ser algo intrínseco ao rio). As pessoas não precisam no entando aceitar isso.

    Claro, existem exemplos de rios que não fedem, cantores que não são messiânicos, bandas que não tem guitarras estridentes e vocalistas que não cantam mal. Ou seja: o sapato aperta o pé de quem tem que apertar. O Tiago ficou incomodado, e ele tem direito a isso. É uma constatação em um texto assinado de quem estava ali, in loco, vendo a consumação do fato. E, indo um pouco além: a guitarra estridente e o vocal mal cantado são formas que os artistas citados encontraram para tornarem pessoal sua arte. Eles fizeram essa opção.

    Não vejo o messianismo encaixando-se nessa opção acima. E o argumento de que “as coisas são assim porque são assim” não me convence. Acho o ser-humano dotado de capacidade de escolher a maneira que ele quer se expressar.

    Abraço
    Mac

  11. Acho que muito do que se pode chamar de incômodo ou não, vai do que cada um acredita. Vejam bem, não estou fazendo juízo de valor ou comparação, mas lembro da Rita Lee detonando o Bono por causa de um tal discurso ‘messiânico’ do Bono, Dizia a Rita que isso era apenas jogada de marketing. e logo depois a Rita Lee fez discurso contra a farra do boi, defendendo o vegetarianismo, essas coisas…Era jogada de marketing?
    Vejo que há público para tudo…para o cinismo de gente que criticava o Rappa por ceder parte da grana da banda a ONGs. Ou mesmo de fanatismo de outros que acham que tudo tem de ter uma conotação política…Qual é a liga atual do tal Criolo? Qual o momento em que ele está vivendo? É válido…agora, eu posso ou não entrar na mesma liga dele. E posso achar que isso está sendo bom ou ruim para a música dele, para o show que ele faz. Via gente achar ruim o show do Cordel do Fogo Encantado e gente sair em êxtase. E ambos pelos mesmos motivos: a postura da banda, teatral, intensa, poética e com discursos políticos-sociais. Vai de cada um.

  12. O Ismael falou tudo e mais alguma coisa.
    E como dizia um que era messias para muitos, inclusive pra mim:
    “Não tem certo nem errado/Todo mundo tem razão/ O ponto de vista é que é o ponto da questão” Raul Seixas

  13. Ismael,

    Concordo com você. O Tiago está mais do que no direito de desgostar do que quiser no Criolo, eu só quis separar alhos de bugalhos – no caso, entender exatamente o que ele quis dizer por “messianismo”. Continuo defendendo: desgostar do messianismo na música negra, por si só, é desgostar da própria música negra. Como dizer que música eletrônica é uma merda porque é muito repetitiva: óbvio que as pessoas têm o direito de pensar isso, mas ler isso numa crítica musical é indício de que o autor deveria estar escrevendo sobre outra coisa, porque eletrônica claramente não é a praia dele. Eu já disse lá atrás: achei legal o Tiago levantar essa bola e gostaria que ele explorasse a ideia para além dessa primeira impressão. Mas parar por aí, pra mim, empobrece a análise, que no geral achei bacana.

    E Maurício e Mac, não estou de forma alguma tirando o direito de falarem o que quiserem – nem os absurdos que outros têm falado por aí. Só que esse fenômeno do Criolo tem sido exemplar em mostrar o quanto se tem dito sem um mínimo de reflexão ou pesquisa sobre o assunto. Coisa básica mesmo, Wikipédia. Aí, não é questão de direito, muito menos dessa bobagem de “imprensa contra/ imprensa a favor” que inventaram agora; é uma questão de qualidade, de reportagem, investigação para além de uma fetichização da periferia ou de uma rejeição a priori. Acompanho o S&Y há mais de 10 anos e sei que música negra/rap não é exatamente a praia do site. Não vejo problema nenhum nisso, como também não vejo problema nenhum em vocês abordarem o assunto quando quiserem. Estou comentando aqui como um leitor que quer ver essa discussão evoluir.

    No mais, eu publiquei um texto sobre o assunto que resume bem a minha opinião. Se quiserem, tá aqui:
    http://www.soma.am/review/criolo-ou-explicando-giria

    Abraços,

    m.

  14. Tudo bem, Mateus, mas o que quero saber é: qual a pendenga em relação ao texto então? Ou você está usando este texto como bode expiatório de outros que você anda lendo por ai para levantar uma discussão? Questiono porque, apesar de você dizer que música negra e rap não serem a praia do site (eu mesmo não sei qual é a praia do site), não vejo nenhum problema em relação ao texto, nada que o desvalorize.

    Você divide a música em gêneros, estilos e cores. Pra mim, tudo é música. Cada uma com suas particularidades, claro, mas… música. É por isso que, em 10 anos, já falamos de Renato Teixeira a Steve Albini passando por 509E, Pavilhão 9, Bluebell, Lambchop e Chico Buarque. Isso causa ruídos? Inevitavelmente. Mesmo assim, estamos aqui para falar de música, qualquer música, com um viés análitico, o mesmo viés de 11 anos.

    Uma coisa é discutir. A outra é posar de paladino, de dono da verdade, de defensor de artista. Porque é isso que parece. “Vocês não sabem nada de música negra e rap, deixa eu ensinar”. Assim, voltamos a questão: messianismo, mesmo sendo intrensico à música negra (apesar de existirem muitos artistas negros que não são messiânicos e muitos brancos que o são), pode incomodar? Acho que é a questão central dessa discussão.

    Abraços
    Mac

  15. Nem tô fazendo de bode expiatório, Marcelo, relaxa aí. Se estamos tendo essa conversa é porque eu considero o site e o Tiago acima das barbaridades que se tem falado por aí. Tanto que eu nunca entrei em fóruns se eu acho que ali não tem nada interessante pra mim.

    E achei que, depois de 4 posts nos comentários, já tinha ficado claro o que eu não entendi no texto: apontar, pura e simplesmente, o messianismo como algo intrinsecamente negativo na música do Criolo. Porque, como eu já disse, se o messianismo por si for incômodo, acho que é um problema com o gênero todo, não com o artista. Como nos exemplos que eu já dei sobre punk e eletrônica.

    Mas, e aí é a minha dúvida, se for algo na forma como o Criolo encarna essa característica, então seria diferente, e gostaria de ouvir mais do Tiago a respeito (até porque ele próprio falou que não se expressou direito). No fim das contas, é isso que eu quero entender: se o Tiago não gosta de messianismo em geral (o que, pra mim, encerra o assunto), ou se ele não gosta da forma como o Criolo expressa isso, por alguma razão (algo sobre o qual eu gostaria de ouvir mais).

    Abraços,

    m.

  16. vamo la entao

    eu nao sou muito afeito a debates pela internet em qualquer forum, acho q as palavras escritas tem um peso bem maior e muitas vezes as pessoas acabam levando pro lado errado. sou muito mais bater papo ao vivo, tipo o bom debate q eu tive com o potumati, o alex antunes e o marcelo damaso ano passado no coquetel molotov. ate por isso fiquei meio de fora, mas bora la tentar explicar um pouco melhor.

    relendo o texto, eu mudaria apenas a primeira frase do quarto paragrafo, ficando “Há messianismo em demasia na performance – e isso incomoda.” o criolo possui uma mensagem para passar, e ele montou um show interessante para utilizar como plataforma. a apresentação é cercada de simbologias bem interessantes, mas q, para mim, somadas e juntas acabaram ficando over. vamos a elas (só quero dizer q é a minha interpretação de cada uma, posso estar errado)

    1 – entrada no palco: criolo entrou no palco com a cabeça abaixada, coberta por um pano dourado. para mim, lembrou a entrada de um boxeador, mais ou menos como eu tinha percebido no emicida la na materia q eu fiz na rolling stone (http://rollingstone.com.br/edicao/56/identidade-secreta), so q de outra maneira. antes de começar a cantar, o criolo se ajoelha perante o publico e faz uma saudação, tira o pano, se vira para a banda, repete a saudação ainda ajoelhado e so entao se levanta. mostra, assim, reverencia tanto com os fas como com a banda, um sinal de respeito. também da para interpretar como um pedido de licença para apresentar sua arte.

    2 – o vestuario: criolo usa uma túnica (ou bata, que foi o que a fernanda couto me disse) bege que lembra o traje de um sacerdote. antes de escrever o texto perguntei para a fernanda (assessora do criolo) se a roupa tinha algum significado especial. segundo ela, nao. mesmo assim, lembra algo ritualistico.

    3 – o gestual: além da já citada saudação ao publico e à banda, como escrevi no texto o movimento das mãos do criolo durante o show é muito importante. varias vezes ele levanta elas, estendidas. unido à vestimenta, é algo que pode ser interpretado como uma benção à plateia.

    4 – a interpretação: enquanto canta, o criolo tem expressões faciais e corporais muito intensas, seja quando ele dança ou interpreta uma música mais calma. para usar uma frase bonita, ele deixa que “a música fale através de seus gestos e expressões”.

    5 – a musica: todas as canções tem temas fortes e o proprio criolo faz questao de frisar isso durante o show – depois de “subirusdoistiozin” ele disse algo como “essa música fala sobre um homicídio duplo, só pra deixar claro que ninguém aqui tá amaciando”.

    6 – o discurso: os temas das musicas sao repetidos aqui, nas falas do criolo com a plateia: desigualdade social, drogas, preconceito e tudo mais. como eu disse no outro comentario, devido à historia pessoal do criolo e o genero musical, é esperado que ele toque nesses temas – nao tem problema algum. mas, pra mim, ele se repete demais na hora de falar, algo que, por exemplo, eu nao senti nas mais de quatro horas em dois dias que eu entrevistei o emicida. voltando a meu outro comentario, o problema (pra mim) nao é o conteudo, mas a forma do discurso.

    no fundo, o criolo sabe que o grande veiculo dele é a musica, que tem umas letras poderosas amparadas em bases musicais sólidas – a banda que acompanha ele ao vivo só tem fera – e criou um espetáculo pra amplificar a mensagem do disco. só que, pra mim, quando você junta todos os elementos que eu citei antes – e todos eles são intensos no palco – o conjunto da obra fica over, o show acaba parecendo pregação. e me incomodou isso, assim como incomoda o show do U2 (no desse ano eu achei q eles deram uma diminuida, mas mesmo assim incomoda).

    eu acho que esse conjunto de simbolos que o criolo uniu (o alex antunes vai ter um orgasmo se ler esse comentario com tanta alusão a simbologia) acabam nao ornando. mais uma vez: o problema não é a mensagem, é a forma. para mim, o show ficaria melhor se ele tirasse algumas coisas, diminuisse algumas falas, coisas assim. mas, se ele ta feliz com o que ta apresentando – e, mais, o publico ta respondendo – beleza, segue o jogo.

    alguem falou do otto por ai, e juro q qd eu tava fazendo a resenha eu pensei se nao tava reescrevendo, de alguma forma, meu texto sobre o otto ano passado (http://screamyell.com.br/site/2010/10/27/otto-e-o-palco-como-diva/). as duas performances tem a ver, mas o show do otto me parece espontaneo, enquanto o criolo é calculado. o otto ta fazendo aquelas loucuras no palco pq, enfim, aquele é ele em estado puro. o criolo é ele quando ta interpretando as canções, mas, como eu disse, há um conjunto de simbolos agregados ao show que buscam amplificar essa performance – no otto vc nao tem isso, é ele e a banda, so.

    se alguem aguentou ler isso ate aqui, desculpa se eu fui meio repetitivo, mas tentei esmiuçar a analise ao maximo pra deixar sem duvida alguma. repito: nao nego a importancia do discurso, so acho q a forma é exagerada.

    eu sei q ja ficou meio claro isso na discussão, mas, ja q eu to aqui escrevendo ate duas da manha, so queria aproveitar pra dizer (e acho que eu falo pelo mac também) que esse texto (e o scream) não é veiculo para hype ou anti-hype de nada. é uma analise pessoal, apenas. gosto do cd do criolo, acho “grajauex” uma das músicas do ano e quero ver o show de novo, com uma certa distancia do de bh, pra ver se o criolo me faz mudar de ideia. se isso acontecer, venho aqui e publico algo =)

    dito isso, espero q o proximo debate seja na mesa do bar

    ah, e antes que eu me esqueça, o malkmus canta mal pra caralho =)

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