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Três Filmes: Camila, Raul e Xingu

“Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” (2012)
Adaptado da obra homônima de Marçal Aquino, colaborador frequente dos diretores Beto Brant e Renato Ciasca, “Eu Receberia” opta por aprofundar o olhar do espectador não só no romance, mas na função da mulher em uma história de amor clássica, uma musa com homens girando em sua órbita e lutando por sua posse tal quais mitos gregos – a tragédia, então, surge como elemento obrigatório na trama. Assim é Lavínia, musa tanto de um pastor (que vê nela seu poder de salvação) quanto de um fotógrafo (numa alusão óbvia e não menos interessante). Ela é casada com o primeiro, amante do segundo, e se essa frase já entrega o ponto de partida do drama, o que brilha na tela (mais que a nudez de Camila Pitanga) é a forma com que os diretores investigam o âmago dos personagens – ainda que, em momentos, de forma exagerada (como quando tentam dramatizar a Amazônia, outra musa). Difícil ficar alheio ao filme, e num mundo em que a grande maioria das histórias de amor já foi contada, recontada, vivida, lida e/ou vista por quase todos, “Eu Receberia” tem a virtude de pegar o espectador pelos ombros, chacoalha-lo, e obriga-lo a olhar para si próprio. E para sua própria musa. Muitos devem desviar o olhar.

“Raul — O Início, o Fim e o Meio” (2012)
Não me lembro se foi Robby Krieger ou John Densmore, mas consta que um deles, frente ao túmulo de Jim Morrison no Pere Lachaise, teria dito: “Ele não pode estar ai. Ele era grande demais para caber neste túmulo”. Foi a primeira coisa que pensei deste documentário sobre Raul Seixas: como resumir uma persona tão ampla e complexa quanto Raul numa tela de cinema? O diretor Walter Carvalho cumpriu com méritos a árdua tarefa, e ainda abriu outras questões interessantes para discussões de mesa de bar. Do começo, com um cover de Raul pilotando uma moto ao som de “Blue Moon / Asa Branca” (que resume a paixão de Raulzito por Elvis e Luiz Gonzaga), Carvalho segue uma ordem cronológica preenchida por diversas entrevistas (o trabalho investigativo é excelente) que tentam dar ao espectador uma centelha do mito em passagens deliciosas (seja com Os Panteras, seja com Paulo Coelho e o episódio da mosca, seja com os satanistas, seja com as ex-mulheres, ou mesmo o polêmico trecho final, com Marcelo Nova) que colocam “Raul — O Início, o Fim e o Meio” ao lado de outros grandes (e obrigatórios) documentários recentes nacionais – como “Loki”, sobre Arnaldo Baptista, “Música Para os Olhos”, sobre Cartola, e “Ninguém Sabe o Duro que Dei”, sobre Wilson Simonal.

“Xingu” (2012)
A história dos irmãos Orlando, Leonardo e Cláudio Villas Bôas é conhecida por muitos, mas ainda assim menos do que deveria. Filhos da classe média paulistana, o trio deixou a cidade juntando-se à “Marcha para o Oeste” num misto de busca por aventura e pelo desconhecido. Acabaram “descobrindo” o universo indígena, tornaram-se ferrenhos defensores da causa (tanto na floresta amazônica quanto em Brasília) e, num paralelo a Oskar Schindler (empresário alemão que salvou a vida de mais de mil judeus durante o Holocausto), salvaram milhares de vidas idealizando o Parque Nacional do Xingu, que foi criado em 1961, com projeto assinado pelo antropólogo Darcy Ribeiro. Desta forma, “Xingu”, o filme, tem como grande mérito amplificar a ação dos Villas Bôas (e tem cara de Oscar – o paralelo com a “A Lista de Schindler” não é à toa), o que torna a película mais interessante pela ação dos irmãos do que por seus próprios méritos cinematográficos. O roteiro é apressado e, ainda assim, funcional (apesar de abusar de estereótipos). A fotografia é belíssima, as atuações convincentes, mas é tudo tão excessivamente produzido que, algumas vezes, soa irreal (quando, talvez, devesse ser mais documental). Um filme excelente pela causa, mas apenas ok pelo cinema.
Abril 30, 2012 3 Comments
Três Filmes: Billy Wilder 1944, 1957, 1966

“Pacto de Sangue” (“Double Indemnity”, 1944)
Uma obra prima. Baseado em uma história real acontecida em 1929, em que uma esposa planeja o assassinato do marido após ter comprado uma apólice de seguro com cláusula de indenização em dobro, Billy Wilder e Raymond Chandler escreveram um roteiro brilhante em que o vendedor de seguros Walter Neff (Fred MacMurray) se vê seduzido pela loura Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck) e, por ela, decide cometer um crime. Um dos primeiros filmes noir da história, e um dos melhores (não só noir, mas da história do cinema), “Pacto de Sangue” distribui diálogos geniais (a cena do primeiro encontro entre Walter e Phyllis é sensacional) e destaca algumas curiosidades como a cena em que Phyllis se esconde atrás da porta da casa de Walter (uma porta que abre pra fora, truque esperto para aumentar a tensão de em uma passagem clássica). Indicado a sete Oscars, Billy Wilder saiu de mãos abanando e foi atropelado por “O Bom Pastor”, de Leo McCarey, que dos 10 prêmios a que fora indicado, levou nada menos que 7. Em sua biografia, Billy Wilder relembra o primeiro encontro que teve com o escritor Raymond Chandler: “Foi ódio à primeira vista”. O resultado improvável da parceria foi um dos melhores filmes da carreira de Billy Wilder.

“Um Amor na Tarde” (“Love in the Afternoon”, 1957)
Três anos antes, em 1954, Billy Wilder havia feito “Sabrina” com Audrey Hepburn, um filme que já antecipava a queda do diretor pela inocência da atriz (dividida, no filme, por dois galãs, William Holden e Humphrey Bogart). Em “Amor na Tarde”, Wilder vai ainda mais longe em uma comédia romântica que só podia ter como pano de fundo… Paris. É na capital romântica do amor (os minutos iniciais são irresistivelmente deliciosos) que um milionário conquistador é salvo de um marido ciumento por uma jovem violoncelista. Ariane (Audrey), a violoncelista, é filha de um detetive, e fuçando nas fichas de casos solucionados pelo pai, se interessa pelo Don Juan Frank Flannagan (Gary Cooper), e arquiteta um plano para fisgar o homem – que é bem mais velho que ela. Audrey é a típica heroína que valida vários temas de Billy Wilder: a esperteza do jovem contra a experiência da idade; o amor que consegue vencer o vício e a mulher (aparentemente inocente) que, usando de esperteza, conquista o homem. Outras duas cenas memoráveis: Audrey procurando sapato rastejando-se no chão, e a comovente cena final, na estação de trem. “Amor na Tarde” é uma comédia romântica menor, mas ainda assim muito boa. E tem “Fascinação” na trilha (impossível esquecer da música no filme)…

“Uma Loura Por Um Milhão” (“The Fortune Cookie”, 1966)
Um câmera de TV que vai parar no hospital após ser atropelado por um jogador de futebol americano em pleno jogo é convencido por seu cunhado, um advogado sem escrúpulos, a fingir ter lesões muito maiores, para assim dividirem uma rica indenização. O ponto de partida desta comédia esperta estrelada por Jack Lemmon e Walter Matthau (Judi West, a loura do título, apesar de bonita é deixada de lado na trama tamanha a química dos dois atores), que rendeu um Oscar (merecido) de ator coadjuvante para o segundo, é uma análise séria da indústria de charlatões (ainda que apoiada na deliciosa verve cômica da dupla de atores) tanto quanto uma valorização da amizade e da responsabilidade (na relação do jogador Luther “Boom Boom” Jackson com Harry Hinkle, o personagem vivido por Lemmon). Com roteiro assinado por Billy Wilder em parceria com I.A.L. Diamond (os dois também são responsáveis por “Amor na Tarde”, “Seu Meu Apartamento Falasse”, “Quanto Mais Quente Melhor” e “A Primeira Página”), “Uma Loura Por Um Milhão” é dividido em capítulos e poderia ser um pouco mais ágil e curto (assim como “Um Amor na Tarde”, que também ultrapassa as duas horas de duração), mas ainda assim diverte.
Leia também:
- Três listinhas “in progress”: Fellini, Truffaut e Wilder (aqui)
- Uma estranha reunião de fantasmas do cinema (aqui)
Abril 28, 2012 3 Comments
Sobre Scorsese e filmes que salvam almas

Terminei “Conversas com Scorsese”, de Richard Schinkel (lançado pelo CosacNaify – aqui), na semana passada (meu quarto livro em 2012 – que o ritmo perdure), e fiquei bastante comovido e feliz com suas últimas 50 páginas (de mais de 500). Schinkel, que é jornalista e documentarista, optou por um capítulo sobre a infância de Scorsese para abrir o livro, e depois ele e Scorsese passaram a decupar filme a filme do cineasta em relatos interessantes que, por dezenas ou centenas de vezes, esbarravam em algum filme antigo, que Scorsese se inspirou ou citou em determinada passagem.
Ainda há capítulos sobre cores, música, filmagem, estúdios, cortes e ângulos, mas no final, logo após os dois falarem sobre “Ilha do Medo” (2010), o último filme decupado (na época Scorsese filmava “Hugo Cabret” e finalizava o documentário sobre George Harrison), Schinkel questiona sobre a preocupação do diretor com a restauração e conversação de filmes antigos (Scorsese é dono de mais de 4 mil filmes em rolos) e seu trabalho com a Film Foundation (organização sem fins lucrativos dedicada à preservação de filmes fundada pelo diretor em 1990 - http://www.film-foundation.org/), no que ele conclui: filmes (livros, quadros e/ou músicas) podem salvar vidas.
Os artefatos da história nos filmes são incrivelmente importantes. O pior filme do mundo conterá pistas de como vivíamos, como nos vestíamos, como falávamos.
Era isso que eu apontava em 1979. Havia um chamado “The Creeping Terror” (de Vic Savage, 1964), um filme idiota de ficção cientifica filmado no Meio Oeste. Levaram todo mundo para alguma cidade para fazer. Então se via realmente como as pessoas se vestiam. E via-se como se comportavam na vida cotidiana. Estavam “representando”, mas na verdade não estavam. A trama não interessava. O que me interessava era o que revelava sobre os Estados Unidos e sobre a nossa cultura. Era muito comovente.
Transformou-se num registro valioso
Realmente.
No entanto, sinto que isso não basta para você. Por mais que você contribua com seu trabalho para a Film Foundation, está sempre dizendo que sente que não dá tanto quanto deveria ou do jeito certo.
É o conflito entre abnegação e egoísmo. Você pode preencher um cheque para filantropia e se sentir melhor. Mas preencher um cheque não adianta nada. Você tinha de estar lá, se realmente se importa.
Você é muito severo.
Tem razão. E isso vindo de uma pessoa que foi um fracasso em dar durante muitos anos.
Espere um pouco: por tudo que você fez pela Film Foundation, a quantidade de trabalho que põe nela… não deveria se sentir mal de apoiar a preservação de filmes. É uma coisa válida.
Eu acho que é válida. Acho que alimenta a alma de alguma forma.
Sem dúvida alimenta a sua alma.
Um amigo meu me disse recentemente: “Vamos vender a Capela Sistina para um empresário, assim os pobres podem comer por um dia com os lucros”. Mas e depois? Eles comeriam por um dia, mas nós ficaríamos sem a Capela Sistina. E a Capela Sistina pode ser de maior valor para as pessoas ao longo dos próximos dez séculos.
Salvar um filme glorioso que corre o risco de se perder ou ser destruído também pode sustentar almas.
Eu sei que sim.
(…)
Acredito num universo de acaso. Acredito que quando morrer estarei morto, não vou para nenhum lugar melhor – o que lamento amargamente, claro.
Vamos sentir falta, sabe? Vamos sentir muita falta. A não ser, seguindo a lógica do nada, que a gente não saiba.
Tenho um amigo que diz: “O que mais detesto nessa história (de morrer) é que pedem para você ir embora da festa, mas a festa continua”.
E vai continuar sempre.
Vão estar fazendo filmes…
Vão fazer filmes, escrever peças, livros. E eu vou sentir falta de tudo isso. Não é justo.
“Acabou para o senhor, senhor Scorsese” (imita a voz do juízo final)
Ah, espere um pouco, tenho mais uma coisa a dizer.
Eu me pergunto: Qual o propósito do que faço? Não tenho a menor ideia. Acho que é assim para a maioria das pessoas.
As pessoas pensam de formas diferentes. Mas você abre portas. Essa é a chave, acho. É igual a influência que um padre teve sobre mim quando eu era criança e ele dizia: “Olha esse livro. Vá ver esse filme. Escuta essa música”. E de repente as pessoas tomam rumos que nunca pensamos. Faz alguma diferença.
Faz com que pensem de jeito diferente, se comportem de jeito diferente, então acho que cumprimos o nosso propósito. Não sei por que estaríamos aqui se não fosse por isso. Como você diz, todo o texto é ego.
É, o resto é ego. “Sindicato dos Ladrões”, de Elia Kazan, significou muito pra mim. As pessoas efetivamente afetam outras pessoas. Tanta gente vai a Bob Dylan e diz: “Seu trabalho mudou a minha vida”. O que ele pode dizer para elas? Não pode dizer: “Não foi minha intenção”, porque você quer que isso aconteça. Em meu trabalho, venho desenvolvendo ao longo dos últimos dez anos uma compaixão alimentadora, acho. Algumas pessoas dizem que é culpa católica, nada mais. Mas culpa sempre. Parece que estou o tempo todo lidando com essa área. Não falo de culpa por atrasar na missa ou por ter pensamentos sexuais. Falo da culpa que vem do simples fato de estar vivo.
Leia também:
- Martin Scorsese, eu e a morte, por Marcelo Costa (aqui)
Abril 11, 2012 No Comments
Três Filmes: Scorsese 1977, 1981 e 1993

“New York, New York” (1977)
Sempre fugi desse filme, por vários motivos. Uma por ser um musical, gênero que comecei a admirar de poucos anos pra cá (e ainda assim alguns poucos passam pelo crivo). Dois por ter Liza Minnelli, que sei lá qual motivo, eu não ia com a cara. E três pelo próprio filme ser uma ovelha negra dentro da cinematografia do Scorsese, uma película que o próprio diretor admite ter sentimentos negativos. Agora aos fatos: “New York, New York” choca musical com romance (o que, inclusive, explica sua duração exagerada: 2 horas e 43 minutos – o próprio Scorsese diz que deveria ter sido mais conciso), e isso soa bastante interessante. Dois: Liza dá um show. Ok, não há química dela com De Niro, mas a culpa é mais dos personagens antagônicos (dificilmente existiu no cinema um casal tão diferente um do outro, ela doce, ele mala). Por fim, “New York, New York” soa exageradamente exagerado (de modo até tolo), o personagem de De Niro é chato até não poder mais (o que prejudica a aproximação do espectador), o romance pesado (movido a ciúmes, disputas e brigas) não flui, mas há uma boa ideia (e mesmo um bom filme) atrás de tudo isso. Só é preciso ter muita paciência…

“O Rei da Comédia” (“The King of Comedy”, 1981)
Eis outro filme do Scorsese que sofria de pré-conceito aqui em casa, e eu nem sei explicar o motivo. Só fui deixando, deixando e deixando para trás sem saber que estava menosprezando um dos melhores filmes do diretor (agora Top 5 fácil). Nesta afiadíssima comédia de humor negro, Jerry Lewis faz o papel de Jerry Langford, um famoso e consagrado comediante de sucesso (um misto de Jô Soares com Silvio Santos) que é sequestrado por uma fã e um psicopata pretendente a humorista. A fã (daquelas loucas que sabem tudo sobre o astro) deseja ser groupie – em papel ótimo de Sandra Bernhard. O psicopata (vivido por um De Niro estupendo) quer… fama e reconhecimento. O roteiro esperto de Paul D. Zimmerman vasculha (e critica) com sobriedade o universo das celebridades, e nas mãos de Scorsese se transforma em um filme absolutamente brilhante, sarcástico, irônico, “aterrorizante” (grifo do próprio cineasta) e, num mundo dominado por paparazzis, atualíssimo. Um retrato ao mesmo tempo realista e absurdo do mundo moderno. “O Rei da Comédia” é, talvez, o filme definitivo sobre o vazio da indústria de celebridades. E uma pequena obra prima de humor negro.

“A Época da Inocência” (“The Age of Innocence”, 1993)
Um dos filmes mais bonitos de Martin Scorsese (não à toa, levou o Oscar de Melhor Figurino), e um dos mais doloridos, “A Época da Inocência” se passa na Nova York de 1870, e é crudelíssimo, um daqueles romances clássicos, retrato de uma época em que era obrigatório seguir as convenções da sociedade. Ou, como diz o encarte que acompanha o DVD, é uma história de violência em que a etiqueta substitui as balas: “Não é o sangue que espirra, mas almas”. Em certas passagens remete a “A Letra Escarlate”, de Win Wenders (1973), sendo que a marca que Ellen Olenska (Michelle Pfeiffer) carrega é invisível. Também mantém um paralelo com “Desencanto” (1941), de David Lean, o romance engasgado no peito dos amantes. “A Época da Inocência” soa ainda mais cruel, pois é possível acompanhar a derrocada lenta de Newland Archer (Daniel Day-Lewis), e a acomodação do personagem, obrigado a sufocar o romance. O corpo sofre a ausência, a falta do toque, a distância, mas o amor sobrevive ao tempo – em completo silêncio. “A Época da Inocência” é a vitória da razão sobre o desejo, muito embora mesmo a razão esteja completamente apaixonada. Cruel.
Leia também:
- Martin Scorsese, eu e a morte (aqui)
- Bob Dylan, Martin Scorcese e a História Universal (aqui)
- “O Aviador” é filmaço, mas não é o melhor Scorsese (aqui)
- “Shine a Light”: belo registro de show, documentário fraco (aqui)
Abril 3, 2012 No Comments
Três Filmes: Hawks 1940, 1952 e 1953

“Jejum de Amor” (“His Girl Friday”, 1940)
A peça da Broadway “The Front Page” ganhou sua primeira versão para o cinema em 1931 através de Howard Hughes (“O Aviador”, de Scorsese, lembra?), mas em 1940 estava de volta às telas, desta vez com Howard Hawks e uma mudança fundamental no roteiro: o papel de Hildy Johnson, escrito para um homem, passou para a ágil Rosalind Russell, e isso colocou o romance entre Hildy (Rosalind) e o editor Walter Burns (Cary Grant sensacional) em primeiro plano (e transformou o filme em uma comédia romântica deliciosa – com mais comédia que romance) deixando o afiado retrato dos primeiros anos do jornalismo na retaguarda. Acreditando estar sendo boicotada por Hawks, que, segundo a atriz, havia separado as frases mais afiadas do roteiro para o personagem de Cary Grant, Rosalind Russell contratou um roteirista para abastecê-la de frases – apoiada no incentivo de improvisação do diretor –, o que talvez explique a força narrativa do filme. Richard Schinkel, especialista em cinema americano e responsável pelo livro “Conversas com Scorsese”, julga essa como “uma das melhores de todas as comédias românticas”. É muito boa, mas ainda assim acho o adjetivo exagerado. “The Front Page” voltou aos cinemas em 1974 com Billy Wider, mas sem a pega romântica de “His Girl Friday”. Vale comparar.

“O Inventor da Mocidade” (“Monkey Business”, 1952)
Primeiro filme de Howard Hawks com Marilyn Monroe, mas ela só é coadjuvante (destilando charme e libido). À frente do elenco estão Ginger Rogers (absolutamente excelente) e Cary Grant, novamente sensacional em um papel bastante exigente. Nesta tradicionalíssima screwball comedy (de argumento inspirado em um outro sucesso de Hawks, “Levada da Breca”, de 1938, com Katharine Hepburn e Cary Grant), um cientista (Cary) está buscando uma fórmula que torne as pessoas mais jovens. Ele já está velho, não enxerga bem e se esquece de algumas coisas (a cena inicial, que começa na verdade nos créditos, é simplesmente brilhante). Sua esposa (Ginger) é afetuosamente apaixonada, mas tudo foge do convencional quando o cientista decide provar uma nova versão de sua fórmula, que acaba por ser “batizada” por Esther, um dos macacos de testes, que sozinho no laboratório prepara uma fórmula que é jogada no bebedouro (sem que os cientistas percebam), ponto de partida para uma divertida comédia, que parece um pouquinho mais longa do que o necessário (só tem 97 minutos, mas com 85 seria perfeito), mas serve de trampolim para um show de Cary Grant e Ginger Rogers.

“Os Homens Preferem as Loiras” (“Gentlemen Prefer Blondes”, 1953)
No ano seguinte, lá estavam Hawks e Marilyn juntos novamente, e impressiona como a atriz cresce de um papel para o outro. Aqui ela vive a dançarina de bordel Lorelei Lee, uma moça apaixonada por dinheiro, homens ricos e, principalmente, diamantes (o grande momento do filme, e um dos grandes momentos da história do cinema, é o número musical “Diamonds Are a Girl’s Best Friend”, com Marilyn lindíssima), que tem em sua amiga Dorothy Shaw (a bela morena Jane Russel) a amiga perfeita, mas de temperamento contrário: para ela não importa se o homem tem dinheiro, se é homem basta (a cena em que ela se passa por Lorelei em um tribunal é impagável). Intercalando ótimas gags cômicas (com boas pitadas de sexo) e números musicais eficientes que não tiram o ritmo da trama, “Os Homens Preferem as Loiras”, ao contrário do que o título possa sugerir, não tem nada de masculino: aqui os homens não escolhem nada, e sim são meros joguetes nas mãos de duas mulheres que sabem o que querem e o que precisam fazer para conseguir, num exemplo de liberdade feminina que deve ter chacoalhado algumas mulheres no começo dos anos 50, muito embora boa parte da trama se resolva em Paris (recado implícito: “Isso não acontece nos EUA, mas na França…”).
Leia também:
- Sobre “Conversas com Scorsese”, de Richard Schinkel (aqui)
- Sobre “Uma Aventura em Martinica”, outro Howard Wawks (aqui)
- Faltam atributos que façam de “O Aviador” um clássico (aqui)
Março 25, 2012 No Comments
Três Filmes: Fellini 1969, 1970 e 1978

“Satyricon” (“Satyricon”, 1969)
Baseado livremente e lisergicamente na obra homônima de Petrônio, um cortesão romano que viveu durante o reinado de Nero no século I, “Satyricon” narra as desventuras românticas de Encolpio e seu amante Gitone em uma Roma amoral e decadente. O filme começa em uma sauna romana, local em que Encolpio enfrenta o amigo Ascilto, que vendeu seu amante para um ator de teatro. É o ponto de partida para uma série de pequenos contos surreais que juntam cenas passadas em um bordel, palco de dezenas de passagens sensuais, segue-se em um Museu de Arte, onde um poeta critica o capitalismo, depois em um enorme (e nojento) banquete/bacanal servido por um homem rico, que corteja duas crianças sob o olhar reprovador da esposa. Encolpio, o amigo Ascilto e o amante Gitone são presos pelos soldados do imperador e levados em um barco. Um comerciante, Licas, seduzido pela beleza de Encolpio, decide-se casar com o rapaz, em cerimonia abençoada pela esposa Trifena. Calma, não terminou: ainda há um conto com uma hermafrodita e outro em que Encolpio ganha Ariadne como prêmio, e deve copular com ela frente a todo um estádio (e não consegue). Onírico e de difícil digestão, “Satyricon” parece um conto de fadas adulto e soa como o ponto de partida para a Trilogia da Vida, que Pasolini começaria a filmar em 1971.

“Os Palhaços” (“I Clowns”, 1970)
Produzido originalmente para a televisão italiana, “Os Palhaços” é metade documentário, metade fantasia, sobre um tema que sempre seduziu o cineasta italiano. Na primeira bela cena do filme, um menino observa um circo se erguer em frente a sua casa. A mãe coloca medo no menino: “Se não se comportar, vou dizer a esses ciganos que te levem com eles”. Começa assim, com memórias autobiográficas, a relação de Fellini com o universo circense, em bonitas cenas de picadeiro, que se juntam a entrevistas dispersas com velhos palhaços em asilos, todas conduzidas pelo próprio cineasta, que em cena é acompanhado de um câmera, um assistente e uma secretária (todos atores). Heróis do passado relembram outros ícones do picadeiro, numa mistura de nostalgia e tristeza. Um estudioso de clowns os divide em dois grupos – o branco (elegante e inteligente) e o augusto (atrapalhado e bagunceiro) – mas acredita que os palhaços estão mortos. Fellini junta os dois tipos de palhaço em cena para uma homenagem, mas falta intensidade e corpo ao filme (que tem uma ponta de Anita Ekberg), que inteiro perde para a cena de circo de “8 e Meio”, muito mais lírica e contemplativa.

“Ensaio de Orquestra” (“Prova d’Orchestra”, 1978)
O cenário: uma antiga capela do século 13, túmulo de três Papas e sete Bispos, de sensacional acústica, usada agora para o ensaio de uma orquestra. Os personagens: um grupo de músicos italianos regidos por um maestro alemão. Uma equipe de TV, comandada por Fellini (com voz em off), está no local para entrevistar os músicos, e isso já serve como ponto de partida para uma revolta trabalhista (“Vou perguntar ao Sindicato se devo ganhar um bônus para a entrevista”, diz alguém) tanto quanto para uma análise sarcástica do ego de cada músico tendo como foco seus próprios instrumentos. No auge da crise na orquestra, após uma greve (tempo hábil para que um dos músicos transe com a pianista embaixo do piano enquanto ela devora um sanduíche – ela não se importa nem com o sexo, nem com a música), o grupo decide trocar o maestro por um enorme metrônomo. A revolta aumenta, a história sufoca o espectador, e em certo momento, o cenário único e o caos que se instala remetem a “O Anjo Exterminador”, obra prima de Buñuel (o filme de Fellini é bem inferior), mas a crítica aqui é política: troque a capela pela Itália, os músicos pelo povo e o maestro por Hitler. Eis uma metáfora brilhante da força do poder sobre a individualidade.
Leia também:
- “Roma”: Fellini destrói a cidade, e a acaricia (aqui)
- Três Filmes: Fellini 1952, 1954 e 1955 (aqui)
- Top Fellini / Truffaut: uma lista “in progress”, por Marcelo Costa (aqui)
Março 18, 2012 1 Comment
Três filmes: o espião, a hacker, o jornalista

“O Espião Que Sabia Demais” (Tinker, Tailor, Soldier, Spy, 2011)
Londres, início dos anos 70: em tempos de Guerra Fria, o Serviço de Inteligência do Reino Unido atua entre duas potências, Estados Unidos e União Soviética, e suas agências de segurança CIA e KGB, tentando esfriar os ânimos para que nenhum chefe mais esquentado aperte o botão e comece uma guerra nuclear. Tudo é informação, e muitas vezes ela vale mais do que dinheiro – e do que a própria vida. Qualquer peça movimentada de forma errada pode causar um imbróglio internacional, e é neste cenário de jogos de interesses que o diretor sueco Tomas Alfredson tenta dar foco a um roteiro “espertinho”, baseado no romance de John Le Carré, que quase coloca o filme a perder. A culpa é da dupla de roteiristas Bridget O’Connor e Peter Straughan, que quis dar ao filme aquela sacadinha cool, mas causa mais bocejos que admiração. O tédio aumenta com o trabalho do fotógrafo Hoyte Van Hoytema, que passa boa parte do filme exercitando zoons lentos. Ainda assim, Gary Oldman se destaca (nada que justifique um Oscar), mas Colin Firth é subaproveitado em uma história que mais parece um jogo lento, chato e arrastado de xadrez que, após duas horas e sete minutos, termina empatado.

“Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres” (The Girl with the Dragon Tattoo, 2011)
Primeiro filme da adaptação hollywoodiana da trilogia literária milionária escrita pelo jornalista Stieg Larsson, morto em 2004, “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” soa o projeto perfeito para a grife David Fincher: um suspensão movido a assassinatos brutais, mensagens cifradas da Bíblia e personagens incomuns numa paisagem exuberante. Daniel Craig interpreta Mikael Blomkvist, um jornalista investigativo que cai em desgraça após perder um processo por calúnia e difamação, e acaba aceitando um estranho trabalho em uma ilha na costa sueca: desvendar o desaparecimento de uma garota, 40 anos antes. Calma, tem mais: Rooney Mara, que se transmuta da namoradinha nerd de Mark Zuckerberg em “A Rede Social” para a hacker Lisbeth aqui, um personagem tão complexo e tão repleto de detalhes que vale ver o filme apenas para acompanha-lo (e torcer para que ela leve o Oscar – não deve ter mais espaço na casa da Meryl Streep). A trama de 2 horas e 38 minutos alterna momentos fortes com passagens desnecessárias destacando uma bela fotografia, um roteiro que poderia ser mais enxuto e uma montagem que deveria ser (ainda) mais ágil. O resultado é apenas ok, mas David Fincher ainda terá mais duas chances para superar “Seven”. Pelo visto aqui ele dificilmente conseguirá…

“As Aventuras de Tintim” (“The Adventures of Tintin: The Secret of the Unicorn”, 2011)
Outra franquia que deve tomar as salas de cinema (normais e 3D) durante os próximos (15, 20) anos, “As Aventuras de Tintim” é o primeiro episódio da série que narra em película às histórias do jovem repórter belga criado por Hergé, em 1929. Não espere ambientação. Logo no começo do filme, em uma belíssima valorizada pelo 3D, Tintim pega um retrato seu desenhado por um artista de rua, e esta será sua apresentação, e também a de Milu, seu cão fiel. Daí em diante, Steven Spilberg faz o que sabe muito bem: jogar seu personagem para cá e para lá em dezenas de cenas aventureiras que não desperdiçam momentos de perseguição, pitas de comédia e boas cenas de luta. Desta forma, Tintim parece a versão jovem do professor de arqueologia Indiana Jones, essa simplificação soa grosseira e desrespeitosa com o personagem de Hergé, pois Spilberg se concentrou nas aventuras, mas esqueceu de dar alma ao personagem, que, arremessado de lá pra cá numa correria desenfreada em busca de um tesouro qualquer, não seduz nem causa admiração, parecendo um filme de Walt Disney dos anos 50. Se tivessem deixado nas mãos da Pixar… (em tempo: Peter Jackson já foi escalado para o próximo. Alguma esperança?).
Fevereiro 23, 2012 3 Comments
Três Filmes: Scherfig, Van Sant, Almódovar

“Um Dia” (“One Day”, 2011)
Madrugada de 15 de julho de 1989: Emma (Anne Hathaway), uma nerd com tendência a poetisa, óculos fundo de garrafa e insegurança, leva pra casa um “amigo” de faculdade, Dexter (Jim Sturgess), o pegador da turma, misto de playboy e babaca, que dormiu com quase todas as garotas da sala, e nunca prestou atenção nela, mas nada como o alcoolismo às 5 horas da manhã. Corte: 15 de julho de 1990, 1991, 1992, 1993 (…), 2000: com o passar da data (o filme – e o livro homônimo no qual foi inspirado – se passa nesse dia de todos os anos), os personagens invertem os papeis: Emma constrói uma carreira segura enquanto Dexter, que continua babaca e perdido, entra numa espiral de decadência e decepções que confere um pouco de sentimento prum personagem carente de personalidade. Copia descarada de “Harry e Sally” (1989) e “Cidade dos Anjos” (1998), e outros menores, “Um Dia” é previsível, sem alma, melodramático e raso, e defende com soberba que todo mundo merece o amor (mesmo os tolos e babacas). Lone Scherfig, que havia estreado bem com “Italiano para Principiantes” (2000), mas ganhou fama com o moralista “Educação” (2009), fez um filme asséptico, que mais parece a adaptação de um romance da série Julia. Decepção.

“Inquietos” (“Restless”, 2011)
Garoto que perdeu os pais em um acidente de carro se apaixona por uma paciente terminal de câncer. O resumo em uma linha de “Inquietos” pode afastar alguns possíveis espectadores, mas Gus Van Sant cria uma atmosfera tão delicada em torno de seus dois personagens que as tragédias que os perseguem não conseguem transformar “Inquietos” em um dramalhão choroso. Annabel Cotton (Mia Wasikowska, de “Alice no País das Maravilhas”, 2010) tem apenas três meses de vida, e não pretende passar estes 90 dias desperdiçando momentos. Enoch Brae (Henry Hopper, filho da lenda), que após a morte dos pais e um pequeno período de coma, passou a receber visitas regulares de um fantasma de um soldado kamikase japonês e começou a visitar velórios como se estivesse indo a padaria, primeiramente se assusta com a disposição de Annabel, mas depois se entrega a esta relação improvável. O cineasta Gus Van Sant conduz as cenas de forma lenta sem tornar a história enfadonha, e extrai poesia do relacionamento improvável pintando um quadro delicado, de extrema beleza e sensibilidade, que ao contrário de vilanizar o destino inevitável, opta por valorizar o que existe, mesmo que de forma limitada: a vida.

“A Pele Que Habito” (“La Piel que Habito”, 2011)
O doutor Robert Ledgard (Antonio Bandeiras) é um notável cirurgião plástico que tem a obsessão de recriar a pele humana em experimentos não aprovados pela comunidade cientifica, desde que sua esposa sofrera graves queimaduras após um acidente de carro. Operando em sua própria casa, e assombrado pelos fantasmas da esposa e da filha, enferma mental que se suicidou, Robert Ledgard inicia um processo absurdo e surreal que consiste em transformar um homem em mulher, primeiro através de uma operação de vaginoplastia e, posteriormente, no experimento de uma nova pele. O argumento surreal de “A Pele Que Habito” saiu do livro “Mygale”, de 1995 (publicado depois sob o título “Tarântula”), do escritor francês Thierry Jonquet, mas poderia facilmente ter saído da mente maluca do diretor, que transforma o livro em um excelente filme de suspense tão repleto de camadas que merece ser visto três, quatro, cinco vezes, se possível. Canastrão como sempre, nem Banderas consegue estragar o ritmo do filme, que ganha em cores fortes enquanto discute estupro, vingança, sexo e personalidade de forma esplendida – alternando doses de tensão com boas passagens de ironia (como a brilhante cena final, tão absurda quanto genial, um momento raro de beleza do cinema atual).
Leia também:
- “Educação”: cheio de lições de moral para a vida (aqui)
- “Italiano para Principiantes”: intimismo e simplicidade de (aqui)
Janeiro 30, 2012 4 Comments
Três Filmes: Darin, Damon e Clooney

“Um Conto Chines” (“Un Cuento Chino”, 2011)
A comédia de costume é um gênero que nunca sai de moda. Talvez por lidar com pessoas comuns que, colocadas em um ambiente diferente, causam uma série de desencontros hilários. Desta forma, “Um Conto Chines” não traz nenhuma novidade. Assim que o espectador senta na cadeira no cinema, já sabe tudo que irá acontecer: Roberto (Ricardo Darín novamente excelente) é um cara de meia idade que toca a loja de ferragens do falecido pai (a mãe morreu no parto). Ele é o mal-humorado típico, sem paciência para pessoas em geral (e babacas em particular), fechado no mundinho metódico que criou para si mesmo. Surge em cena Jun (Ignacio Huang), um chinês que tomou um cano de um taxista argentino e está perdido em Buenos Aires sem falar uma palavra em espanhol. Ele tem no braço o endereço de um tio, e só. O encontro destes dois personagens tão reais quanto particulares permite ao diretor e roteirista Sebastián Borensztein olhar com delicadeza a relação humana, e se segue a risca o manual do estilo (Roberto irá amolecer durante a trama como margarina no sol) incomodando em certas passagens por soar extremamente óbvio, tem a seu favor o esperto manuseio da narrativa: não há legendas para os trechos falados em chinês, o que faz de boa parte público cúmplice de Roberto. Nada de novo, mas ainda assim interessante.

“Compramos um Zoológico” (“We Bought a Zoo”, 2011)
Seis anos atrás, “Tudo Acontece em Elizabetown” parecia enterrar a carreira cinematográfica de Cameron Crowe. Não que o filme fosse ruim (pelo contrário, há várias belas passagens), mas peca por ser exagerado, como se o diretor quisesse expurgar vários demônios pessoais em um único filme. “Pearl Jam – Twenty”, seu retorno, serviu para mostrar que documentário não é sua praia, mas eis que “Compramos um Zoológico”, baseado em uma história real, recoloca a carreira do diretor nos eixos. Não bate “Jerry Maguire” nem “Quase Famosos”, mas mostra que Crowe não perdeu seus tiques sonhadores, e consegue fazer bom cinema partindo do foco dos derrotados. Em “Compramos um Zoológico”, o derrotado nem é tão derrotado assim: Benjamin Mee (Matt Damon, apenas correto) é um repórter de aventuras que coleciona grandes reportagens, mas está no limbo após a morte da mulher, tendo que dar conta dos dois filhos, a fofíssima Rosie (Maggie Elizabeth Jones) e o desajustado Dylan (Colin Ford). Para afastar as lembranças da esposa (e mãe), a família decide se mudar e acaba comprando um… zoológico. Meio irreal, mas aconteceu (embora seja impossível que a tratadora de animais fosse alguém como Scarlett Johansson) e gerou uma bonita história de redenção, típica de Cameron Crowe. Para ir ao cinema, sonhar, e, depois, visitar o zoológico.

“Tudo Pelo Poder” (“The Ides of March”, 2011)
Mais alguns anos e George Clooney irá mandar em Hollywood. Grande ator, boa praça e diretor eficiente, Clooney conquista cada vez mais espaço na indústria, seja atuando (como em “Os Descendentes”, que lhe rendeu o Globo de Ouro e pode cavar uma indicação ao Oscar – o qual ele venceu com o ótimo “Syriana”, em 2006) ou dirigindo. Poucos diretores podem se orgulhar de ter no currículo três grandes filmes como Clooney: “Confissões de Uma Mente Perigosa” (2002), “Boa Noite, Boa Sorte” (2005) e, agora, “Tudo Pelo Poder” (há ainda “Jogo Sujo”, de 2008, que saiu direto em DVD no Brasil), filme que investiga os bastidores de uma eleição norte-americana com tanta destreza que é impossível não deixar a sala de cinema revoltado. Os closes em excesso (que chegam a incomodar em alguns momentos) não conseguem atrapalhar um roteiro eficaz que consegue distrair o espectador diante das reviravoltas da trama, e muito menos a boa atuação de um elenco estelar: Ryan Gosling, Philip Seymour Hoffman, Paul Giamatti, Evan Rachel Wood e Marisa Tomei brilham, cada um a seu modo, em um filme que parece validar aquela velha máxima de que todo mundo é corruptível: se não por dinheiro, então por poder (e até por utopia). Os fins justificam os meios? Ás vezes sim, como mostra Clooney neste filmaço.
Leia também:
- “O Segredo dos Seus Olhos” dirá muito sobre você, por Mac (aqui)
- “Elizabethtown”, um recorte de várias idéias, por Mac (aqui)
- “Boa Noite & Boa Sorte” merece ser visto com atenção (aqui)
Janeiro 20, 2012 2 Comments
Três Filmes: um pastelão, um garoto e uma ema

“Faça-me Feliz” (”Fais-moi Plaisir”, 2009)
Jean-Jacques (Emmanuel Mouret) quer passar um sábado romântico com a namorada Ariane (Frédérique Bel), e precisa enfrentar uma série de contratempos até conseguir colocá-la na cama para consumar o ato. Quando consegue, o telefone toca. É a… outra. Ou quase isso. Jean-Jacques decide contar a história para Ariane: um amigo descobriu uma maneira de conquistar as mulheres com um bilhete infalível, que Jean-Jacques acaba usando (“de modo cientifico”), e o resultado se mostra eficiente. Ariane, após muita discussão (é um filme francês), opta pela saída inesperada: “Você precisa dormir com ela para que possamos seguir a vida e você não fique fantasiando o resto da vida”. Ela, no entanto, é a filha do presidente da França. Segue-se uma trama rocambolesca que em muitas passagens lembra o pastelão “Quem Vai Ficar Com Mary?”, mas não desista do ator/diretor Emmanuel Mouret: “Faça-me Feliz” é uma deliciosamente tola comédia de erros com momentos dispensáveis, mas um charme francês, uma leveza e um clone adolescente de Carla Bruni (a atriz belga Déborah François, no filme com outras cinco irmãs de suspirar) que fazem valer a sessão.

“O Garoto da Bicicleta” (“Le Gamin au velo”, 2011)
A história é simples: o garoto Cyril (“Thomas Doret”) vive em um orfanato, e passa boa parte da primeira metade da trama tentando encontrar o pai, que ele não acredita que o abandonou. Em uma das fugas, Cyril volta ao apartamento em que morava, agora vazio, e para não ser levado de volta ao orfanato agarra-se às pernas de uma mulher, a cabeleireira Samantha (de “Além da Vida”, de Clint Eastwood), dando início a um laço de amizade que começa de forma caótica, mas vai se ajeitando na vida dos dois personagens de forma natural. Os irmãos diretores (roteiristas e produtores) Jean-Pierre e Luc Dardenne conseguiram o Grand Prinx em Cannes com “O Garoto da Bicicleta” (e duas Palmas de Ouro, uma para “Rosetta”, de 1999, e outra para “A Criança”, de 2005, que também conta com a belga Déborah François, de “Faça-me Feliz”). O roteiro é depurado até o limite deixando para o espectador apenas o essencial. O foco econômico permite aos irmãos desenharem um painel comovente, que apenas narra a história sem julgar e/ou condenar os personagens, sufocando o espectador até seu desfecho (aparentemente) simplista… e lírico.

“Adeus, Primeiro Amor” (“Un Amour de Jeunesse”, 2011)
A francesa Camile (Lola Créton) tem 15 anos e namora Sullivan (Sebastian Urzendowsky), de 19. As cartas do jogo romântico são arremessadas na mesa logo no início da trama: Camile é apaixonada e dependente de Sullivan enquanto o garoto faz pouco caso da garota, aparece quando lhe convém e está prestes a fazer uma viagem que irá separar o casal por 10 meses. Ele insiste para que ela tenha experiências, descubra a vida, e para que eles se reencontrem após o período de afastamento, mas Camile transforma os últimos encontros do casal em um drama romântico de garotas de 15 anos, repleto de choros, caras emburradas e fatalismo. A diretora francesa Mia Hansen-Love não desperdiça os clichês (de tentativa de suicídio a cortes de cabelo), e desenha um retrato coeso da geração emo, uma geração focada demais no (que eles acham ser) romance, sem profundidade e amor próprio. É um retrato coeso, mas absurdamente chato, de roteiro óbvio e arrastado e péssima caracterização de personagens (Camile e Sullivan não mudam nada fisicamente em sete anos). Ainda com todos esses defeitos, ganhou o prêmio do júri do Festival de Locarno. É o emo invadindo o cinema independente. Já fomos melhores.
Janeiro 13, 2012 2 Comments
Três Filmes: Malle, Godard e Rohmer

“Ascensor para o Cadafalso” (“Ascenseur Pour L’Echafaud”, 1957)
Em seu filme de estreia, o diretor francês Louis Malle ousa criar uma ponte histórica entre o fim do cinema noir e o começo do que viria a ser chamado de nouvelle vague. A estética ainda é comportada, mas a trama envolve o espectador invertendo a posição das histórias: o que é principal vira secundário, o que é secundário vira principal. No caso, uma esposa (Jeanne Moreau) planeja com o amante (Maurice Ronet) o assassinato do marido. O plano parece ter sido executado com perfeição, até que o rapaz percebe que cometeu um erro grave: esqueceu uma corda que poderá levantar suspeitas de homicídio ao contrário do encenado suicídio. Ele volta para tentar resgatar a corda e fica preso no elevador. Começa então um segundo filme, muito mais interessante e menos óbvio que o primeiro (os dois notadamente influenciados por Hitchcock): ao voltar para pegar a corda, o amante deixa a chave de seu carro na ignição, e um rapaz pega o carro e sai para passear com a namorada. É apenas o primeiro ato inconseqüente do jovem casal, que passa a ser protagonista do filme, levando a história para um extremo espetacular e um desfecho sagaz. Pontuando várias cenas, o trompete melancólico de Miles Davis cria o clima perfeito para um belíssimo filme (divisor de épocas).

“Acossado” (“À Bout de Souffle”, 1960)
Poucos filmes na história do cinema são tão urgentes, revolucionários e, ao mesmo tempo, retratos de época e atuais quanto a estreia de Godard. “Acossado” é daqueles filmes em que a forma, provocativa e instigante, parece sobrepor-se ao conteúdo, mas Godard, aparentemente nonsense, deixa frases soltas que ficam ressoando por dias. A partir de um argumento de Truffaut, Godard homenageia o cinema b norte-americano (Truffaut havia feito o mesmo com “Atirem no Pianista” também em 1960) contando a história nobre e trágica de Michel (o feio bonito Jean-Paul Belmondo), um malandro que passa o dia aplicando golpes sujos (Marcos, personagem de Ricardo Darin em “Nove Rainhas”, é irmão de alma de Michel), e em um deles acaba assassinando um policial. O cerco se fecha e, paralelamente, há o romance de Michel com a norte-americana Patricia (quantos meninas cortaram o cabelo curto para imitar Jean Seberg na época? Em qualquer sexta no Globo Repórter): ela tem dúvidas se o ama, e ele, apaixonado, está cansado de fugir. A lógica de Godard é simples: “Dedos duro deduram; assaltantes assaltam, assassinos assassinam, amantes amam: é normal”, diz Michel em certo momento. Uma obra prima obrigatória para ser ver, no mínimo, uma vez por ano.

“O Joelho de Claire” (“Le Genou de Claire”, 1970)
Entre 1963 e 1972, o cineasta francês Eric Rohmer dedicou-se aos Seis Contos Morais, pequena série cinematográfica que começou com dois curtas não exibidos em cinema na época (“A Carreira de Suzanne” / “A Padeira do Bairro”, ambos lançados em DVD no Brasil), e seguidos por “A colecionadora” (1967), “Minha Noite com Ela” (1969), “O Joelho de Claire” (1970) e “Amor à Tarde” (1972). Quinto filme da série, “O Joelho de Claire” explora com fina destreza os percalços de um romance (ou do que poderia ser um romance, ou o que os personagens e o próprio espectador entendem como romance): Jerome está prestes a se casar, mas é instigado por uma amiga escritora a viver um romance com uma jovem, Laura (ah, os franceses). Ele nega a possibilidade se dizendo completo por sua futura esposa, mas se entrega aos caprichos da amiga e, por conseguinte, da garota. Rohmer constrói a narrativa com extrema sensibilidade. A Claire do título é meia-irmã de Laura, e só aparece na segunda metade do filme, quando Jerome (sentimentalmente fragilizado pela primeira história) se vê apaixonado por seus delicados joelhos. Há um delicioso descompasso entre o que os personagens dizem sentir e o que se vê na tela formando um painel interessante e vasto sobre o amor (ou aquilo que imaginamos ser o amor) e, claro, sobre o próprio homem.
Leia também:
- Três filmes: Anna Karina e Jean Luc Godard (aqui)
- Três filmes: François Truffaut 1960, 1964 e 1976 (aqui)
Janeiro 2, 2012 6 Comments
Três filmes: Wilco, Pearl Jam, Foo Fighters
“I am Trying To Break Your Heart, Wilco”, Sam Jones, 2003
Junte os cacos: Jeff Tweedy havia montado com Jim O’Rourke o Loose Fur em maio de 2000 ao mesmo tempo em que abria a guarda para que Jay Bennet se tornasse um colaborador mais presente no Wilco. O momento que Sam Jones liga a câmera (janeiro de 2001) flagra o trecho final das sessões para gravar “Yankee Hotel Foxtrot”. O empresário Tony Margherita está animado e Jay Bennet feliz, mas as coisas desandam na mixagem, Jim O’Rourke é chamado, Jay Bennet demitido e o álbum desagrada totalmente a cúpula da gravadora Reprise Records, que demite a banda, mas permite que o grupo fique com o disco (pelo qual a gravadora pagou 200 mil dólares). A história segue (relembre aqui), e “I am Trying To Break Your Heart” é exemplar por retratar um dos momentos mais importantes da música nos últimos anos. “Yankee Hotel Foxtrot” demorou quase um ano para sair (entregue em junho, vazou em setembro de 2001, mas só chegou às lojas em março de 2002) e alcançou a marca de 600 mil cópias vendidas, mas esqueça os números e concentre-se na história de uma banda que não arredou um milímetro no desejo de manter sua arte intacta, e que no final foi premiada por isso. Não acontece sempre, mas eis uma bela inspiração (para a vida). E um ótimo documentário.
“Pearl Jam Twenty”, Cameron Crowe, 2011
Logo nos primeiros minutos do filme, o jornalista Cameron Crowe está filmando Jeff Ament e Stone Gossard. A cena se passa no final dos anos 80, são os primórdios da cena grunge, e o Mother Love Bone (que tem em sua formação Jeff e Stone) pode estourar a qualquer momento. Corta lá para o meio da fita, quando Kurt Cobain acusa os músicos do Pearl Jam de serem funcionários do rock, wannabes, aproveitadores. Difícil discordar de Kurt, mas isso não tira o brilho da bela carreira que o Pearl Jam construiu ao longo dos anos (e de álbuns emblemáticos como “Vs”, “Vitalogy” e “No Code” – zuzu bem, “Ten”). Boa parte do respeito que o grupo conseguiu através dos anos foi conquistada pelo carisma de Eddie Vedder, que posteriormente assumiu a posição de líder do grupo, transpirando sinceridade rock and roll. “Pearl Jam Twenty” funciona com um retrato interessante da banda, mas poderia ser muito melhor. Cameron Crowe alega ter selecionado o material de 1200 horas de arquivos, mas usou o mesmo cenário de um show na Itália (que já havia rendido um DVD) em cinco ou seis passagens além de repetir dezenas de fotogramas. Há histórias ótimas de uma grande banda no filme, o que vale conferir, mas, como documentarista, Cameron Crowe pode se aposentar. Já a banda tem muita lenha pra queimar (leia aqui).
“Foo Fighters: Back and Forth”, James Moll, 2011
James Moll segue a risca a cartilha do documentarista feliz: coloca os personagens em primeiro plano, ouve suas histórias e depois recorta momentos de época para ilustrar as falas. O filme começa onde realmente deveria começar: no Nirvana. Dave (e Pat Smear, que acompanhou o grupo na turnê “In Utero”) abre o coração ao falar de Kurt, e conta como decidiu se isolar após o suicídio do companheiro. “Nove meses depois decidi gravar algumas coisas que tinha guardado”, relembra o ex-baterista, agora frontman. Seguem-se uma sucessão de histórias interessantes sobre saídas (uma delas, a do primeiro baterista, motivada pelo fato de Dave refazer toda a bateria do segundo disco) e contratação de novos integrantes (acompanhando a discografia da banda) que mostram uma faceta de chefão de Dave pouco conhecida fora da banda. E ele termina o filme dizendo que o Foo Fighters é a junção dele com Nate Mendel (baixista), Taylor Hawkins (bateria), Chris Shiflett (guitarra) e Pat Smear (guitarra), mas ninguém ficará surpreso se um dos quatro deixar a banda nas próximas semanas. Em Wembley, tocando para 85 mil pessoas, o vocalista pergunta para o público: “Como essa banda cresceu tanto?” Nós também não sabemos (leia aqui), mas “Back and Forth” deixa a impressão de que ele(s) merece(m). Será?
Dezembro 11, 2011 No Comments
Pulp Fiction em ordem cronológica
Dezembro 10, 2011 No Comments
Três filmes: Anna Karina e Godard

“Uma Mulher é Uma Mulher” (“Une Femme est Une Femme”, 1961)
Hanna Karin Blarke Bayer chegou em Paris aos 17 anos (1957) e logo o diretor Jean-Luc Godard se viu apaixonado por ela. Ele a queria para “Acossado”, mas a jovem dinamarquesa não aceitou o papel devido a um nu exigido pelo roteiro (que ficou de fora da versão final do filme). Ele não desistiu: casou-se com ela, que passou a ser o principal rosto da Nouvelle Vague. Sua estreia sob as lentes de Godard foi em “Um Pequeno Soldado” (1960), mas é com “Uma Mulher é Uma Mulher” que Anna Karina desponta para o mundo ganhando o Urso de Prata de Melhor Atriz em Berlim. Homenagem singela aos musicais norte-americanos, “Uma Mulher é Uma Mulher” é comédia leve e descompromissada que conta a história da stripper Angela. Ela vive um relacionamento conturbado e apaixonado com Émile (Jean-Claude Brialy) enquanto é cortejada pelo melhor amigo do marido, Alfred (Jean-Paul Belmondo). Angela quer ter filhos, Émile não, e isso é pretexto para algumas situações cômicas do roteiro, como o marido oferecê-la para passantes na rua (“Por favor, você poderia engravidar a minha mulher?”). Destaque para a trilha invasiva de Michel Legrand e para Jeanne Moreau, que faz uma ponta, num bar, contando que está filmando… “Jules et Jim”. Filme simples e eficiente… pra época (que mantém certo charme).

“Viver a Vida” (“Vivre Sa Vie”, 1962)
Em seu quarto filme com Godard (ainda em 1961 eles filmaram “Esta noite ou Nunca” e em 1962 “Sol em Seus Olhos”), Anna Karina vive o papel de Nana, uma garota sonhadora de 20 anos, que deixa marido e filho para tentar ser atriz, mas que acaba precisando se prostituir para sobreviver. Prêmio do juri em Veneza, “Viver a Vida” é dividido em 12 pequenos atos que permitem a Godard fragmentar a história e divertir-se em cenas que trazem seus personagens de costas para a câmera, como a genial abertura, uma longa conversa no balcão de um bar em que Nana termina com o marido. Nana flutua entre o ingênuo sonhador e silêncio contemplativo enquanto Godard explica em detalhes a profissão de prostituta na França (leis, polícia, quanto ganha, quem atender, onde circular, como usar o quarto, etc…) e questiona a importância da verbalização: “Quanto mais falamos, menos as palavras significam”, ela diz. Depois pergunta a um filósofo: “As palavras nos traem?” e ganha como resposta: “Nós nos traímos”. Ela questiona o amor, e o filósofo diz que ninguém com 20 anos pode entendê-lo. O olhar de Nana atravessa a câmera (como se questionando o cineasta). Ela encontrou o amor (Godard também), mas o destino será cruel… no cinema. Um dos melhores Godard da primeira fase (fresco e atual mesmo hoje).

“Bande à Part” (“Bande à Part”, 1964)
Dois outsiders conhecem uma garota (Anna Karina, aqui de cabelos compridos e postura adolescente não exalando a sensualidade a flor da pele de “Viver a Vida” e “Uma Mulher é Uma Mulher”), que conta a um deles que seu tio tem um fortuna guardada dentro do guarda-roupa (sem tranca, chave, cadeado, nada). Já imaginou o filme inteiro, certo? A forma sobrepõe o conteúdo em “Bande à Part”. Godard usa e abusa do estilismo em várias passagens que ainda soam geniais mesmo sem o contexto de época (repetições de fala, câmera tremida, improvisações e a brilhante cena do literal “um minuto de silêncio” além da dança, que Godard já havia explorado delicadamente em “Viver a Vida”, mas que soa melhor resolvida aqui), mas que se perdem em uma história (quase) previsível: a radicalização/desconstrução visual não tem um complemento textual a altura. Ainda assim, o triangulo amoroso cativa o espectador que fica aguardando o desenlace fatídico. O quase entre parênteses tem seu motivo: por mais previsível que o roteiro (de centenas de filmes francesces) seja(m), Godard consegue fugir do esteriótipo no desencadear da trama deixando para o espectador um final levemente surpreendente.
Leia também:
- The 20 Best Date Movies: “Acossado” (aqui)
- Sobre “Sympathy for the Devil” e “One + One” (aqui)
Dezembro 5, 2011 2 Comments
Doze perguntas para Woody Allen
Leia também:
- “Meia-Noite em Paris”, o veneno como antídoto, por Mac (aqui)
- “Whatever Works”: Allen faz pensar mesmo quando conta piada (aqui)
- “Vicky Cristina Barcelona”: o invisível é o que interessa ver (aqui)
- Os filmes prediletos de Woody Allen: 15 americanos, 12 europeus (aqui)
- Woody Allen de 0 a 10, por Marcelo Costa (aqui)
- “Quem precisa pensar sobre tamanhas bobagens”, Woody Allen (aqui)

“Woody Allen, A Documentary”, de Robert B. Weide, saiba mais aqui
Novembro 27, 2011 2 Comments
Três comédias abaixo da média

“Quero Matar Meu Chefe” (Horrible Bosses, 2011)
Nove entre cada dez funcionários sonham em estrangular seu chefe (é só escolher uma universidade norte-americana qualquer que ela referenda fácil essa pesquisa). Com esse mote, que nem é novidade no cinema, o diretor Seth Gordon conseguiu (em seu segundo filme – o primeiro foi o esquecível “Surpresas do Amor”, de 2008, com Reese Witherspoon e Vince Vaughn) um elenco badalado – Jennifer Aniston, Colin Farrell, Jamie Foxx, Donald Sutherland, Kevin Spacey e Jason Sudeikis – para estrelar uma comédia que parece a todo o momento que vai engatar, mas fica no quase. O núcleo narrativo é formado a partir da junção de três histórias de mesmo teor emocional: três amigos são infernizados por seus chefes (uma ninfomaníaca, um drogado e um psicopata), e chegam à conclusão que a única solução possível seria eliminá-los. O roteiro desperdiça alguns clichês em cena, mas só a história de Jennifer Aniston (uma dentista ninfomaníaca tarada por seu auxiliar – que é apaixonado e fiel à namorada) e a excelente ponta de Jamie Foxx demonstram vitalidade na tela. Vale como passatempo.

“Amor a Toda Prova” (Crazy, Stupid, Love, 2011)
Assim como Seth Gordon (de “Quero Matar Meu Chefe”), a dupla Glen Ficarra e John Requa também é novata na função de direção tendo apenas “O Golpista do Ano” (de 2008 com Jim Carrey, Ewan McGregor e Rodrigo Santoro) precedendo este “Amor a Toda Prova”. Porém, o resultado final, se não é um grande acerto, ao menos aponta algumas qualidades. O foco do roteiro de Dan Fogelman (dos dois “Carros”, da Pixar Disney) é Cal Weaver (Steve Carell), um quarentão que leva um pé na bunda da esposa, que o traiu com um almofadinha da empresa em que ela trabalha. Ele deixa a casa e cai na noite escudado pelo galã Jacob Palmer (Ryan Gosling), que o ensina passo-a-passo como levar uma mulher pra cama. O ex-virgem de 40 anos se dá bem com a mulherada, mas não consegue esquecer a mulher. De mensagem tradicionalista, “Amor a Toda Prova” não acredita no seguir em frente, e decepciona. No entanto, a história paralela (de Emma Stone) garante boas surpresas e revela (não intencionalmente) o moralismo do personagem principal. No final, o saldo é ok, mas poderia ser bem melhor.

“Missão Madrinha de Casamento” (Bridesmaid, 2011)
O sucesso de “Hangover” (2009) não só rendeu uma continuação caricata (mas ainda assim engraçada) como também esta versão feminina, que fez um barulho enorme nos Estados Unidos tornando-se a sétima comédia romântica mais lucrativa de todos os tempos. No entanto, não espere facilidades nem grandes risadas (ao menos na primeira meia hora). As roteiristas Kristen Wiig e Annie Mumolo preferiram focar a história na vidinha de merda de Annie (Kristen Wiig), que viu seu futuro ir pro buraco após a falência de sua loja de bolos e o conseqüente pé na bunda do namorado. Os clichês superlotam a trama, e a dupla de roteiristas mostra que a mulherada também é capaz de “apreciar” o mau-gosto (após almoçar em um restaurante brasileiro baratinho em Chicago, as madrinhas de casamento tem uma dor de barriga que culmina na noiva… ok, veja no cinema), e ainda assim ter bom coração. Só incomoda (um pouco) a semelhança excessiva de alguns personagens com os de “Hangover” (tirando as citações explicitas). Mas se for para rir e esquecer, até que vale perder 2 horas.
Outubro 2, 2011 No Comments
Três filmes que não pretendo ver de novo

“A Árvore da Vida” (“The Tree of Life”, 2011)
Avaliação dos críticos do Guia da Folha: Amir Labaki deu 1 estrela e atacou: “Majestosa presepada”. Pedro Butcher deu 3 estrelas e cravou: “Belo e ambicioso”. As opiniões de Suzana Amaral e Marina Person também são totalmente contrárias e a única certeza que fica é: preciso ver para ter a minha própria opinião. Eu vi e… odiei. Amigos elogiam a beleza do filme, algo que não me comoveu – e olha que sou assíduo espectador da National Geografic (sério, me desculpe, mas “Soy Cuba” é muito mais bonito, e mais cinema, com menos recursos – 47 anos antes). Outros falam em religiosidade (e ando, cada vez mais, caminhando para o ateísmo, graças a Deus). Fazia tempo que eu não via um filme tão chato. Porém, entendo o Festival de Cannes. A Palma de Ouro é uma carta de intenções e o prêmio precisa representar algo. Desta forma, a vitória de “A Àrvore da Vida” ampara jovens cineastas mostrando-lhes que é possível fazer cinema sem se vender para Hollywood – e ainda assim ter sucesso e respeito. Se tivesse no júri, eu também teria votado em Terrence Mallick (a concorrência não ajudava – que fase, amigo). Mas continuaria achando o filme um grande embuste. Eternamente.

“Planeta dos Macacos: A Origem” (“Rise of the Planet of the Apes”)
Christopher Nolan é o culpado por toda essa onda de refilmagens que tomou Hollywood nos últimos anos. Após o brilhante “Batman Begins” (2005), uma torneira (que goteja ouro) foi aberta e a Indústria – de olho em modismos – não perdeu tempo. “Planeta dos Macacos: A Origem” é a nova investida e a receita continua dando certo: em quatro semanas em cartaz nos EUA, o filme já faturou 150 milhões de dólares (contra 93 milhões de orçamento), mas o resultado deixou a desejar. Ok, a parte de efeitos visuais é estupenda: os chimpanzés, orangotangos e gorilas criados via computação gráfica parecem absolutamente reais (e, barbada, já devem ter garantido o Oscar da categoria ao filme). Porém, a história moralista e piegas não está à altura dos efeitos seguindo a risca a cartilha de estereótipos: há um cientista bom que busca uma cura para o câncer e o Mal de Alzheimer; e há um cientista mal que irá arruinar tudo por pensar unicamente no dinheiro. Por mais que existam paralelos reais (aids e ebola surgiram de estudos científicos), “Planeta dos Macacos: A Origem” tropeça feio no moralismo de botequim de esquina. Logo tu, Hollywood, quer criticar a ganância? Bocejo.

“Onde Está a Felicidade” (2011)
Terceira parceria de Bruna Lombardi com o maridão Carlos Alberto Riccelli (ela atua e escreve o roteiro, ele dirige), “Onde Está a Felicidade” é bem intencionado, mas tropeça em erros bobos: 1) o filme é uma comédia (que quer ser romântica beirando o pastelão), mas faltam piadas na história. A trama segue serpenteando pra lá e pra cá, mas pouco se ri. 2) Bruna alonga demais a primeira parte, que deveria servir de ponto de partida para a mudança espiritual de seu personagem. Ela tem um programa de TV, foi demitida e descobriu que o marido a estava traindo virtualmente. Não precisava gastar mais de meia hora nisso. 3) Ao invés de causar empatia no espectador, o roteiro faz dos personagens malandros otários, que, claro, são pegos no final. Apesar da cena magnífica da chegada dos peregrinos em Santiago de Compostela, local em que se passa a segunda parte da história, a opção não funciona porque falta profundidade aos personagens. 4) Não é porque um anunciante investiu uma grana no filme, que você vai colocar a perder toda a parte final da história para satisfazê-lo – como eles fizeram fechando o filme no Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí (cujo governo patrocinou a película). Quem sabe o próximo…
Setembro 1, 2011 11 Comments
Três livros bacanas (dois em promoção)

Espero que quando você, caro leitor, estiver lendo esse post, os livros acima ainda não estejam esgotados:
1) “Uma Viagem Pessoal Pelo Cinema Americano”, de Martin Scorsese e Michael Henry Wilson em edição lindaça da Cosac Naify por R$ 9,90 na Livraria Saraiva (aqui)
2) “Como a Geração Sexo-drogas-e-rock’n'roll Salvou Hollywood”, de Peter Biskind, da Editora Intrinseca com tradução fodaça da Ana Maria Bahiana por R$ 9,90 na Fnac (aqui)
Com o frete, cada um dos livros sai mais ou menos por R$ 14. Vale o investimento. “Compre três: dê um para o seu amor e outro para o seu melhor amigo” (aspas adaptadas de André Forastieri escrevendo sobre “Nevermind”, do Nirvana, na revista Bizz em 1991).
No Scream & Yell existem duas resenhas bem bacanas do livro do Peter Biskind (leia aqui), a primeira do Gabriel Innocentini e a segunda do Ismael Machado, repórter especial do Diário do Pará que está lançando “Sujando os Sapatos - O Caminho Diário da Reportagem”. Interessado? Contate o Ismael aqui: ismael.machado@hotmail.com
Agosto 24, 2011 3 Comments
Três Filmes: o ilusionista, o parque e os baianos

“O Ilusionista” (“The Illusionist”, 2006)
Com um intervalo de menos de três meses, o ano de 2006 recebeu dois grandes filmes tendo o mundo da mágica como tema (parece que Hollywood ama auto-sabotagem): “O Ilusionista”, de Neil Burger, e “O Grande Truque”, de Christopher Nolan. Os dois fizeram sucesso (o primeiro arrecadando US$ 87 milhões e uma indicação ao Oscar enquanto o segundo faturou US$ 109 milhões e duas indicações para o prêmio máximo da Academia), mas na época só assisti ao filme do Nolan – até hoje “O Grande Truque” é meu filme preferido do diretor. Não sei o motivo, mas não esperava muito da trama de “O Ilusionista”. A história se passa em Viena na virada do século 19 e o ponto de partida – princesa se apaixona por plebeu e a família da primeira precisa separá-los – é um mito de época que resvala no clichê, e segue tropeçando em um roteiro (adaptado pelo próprio diretor) que não prima pela personalidade. Edward Norton vive o mágico ilusionista, mas quem rouba a cena é Paul Giamatti, excelente como inspetor chefe num filme muito mais realista que “O Grande Truque” – e também mais fraco.

“Férias Frustradas de Verão” (“Adventureland”, 2009)
Após o imenso sucesso com “Superbad” (custou US$ 20 milhões e faturou US$ 170 milhões), o diretor Greg Mottola decidiu também assumir a função de roteirista (cargo que em “Superbad” havia ficado com a dupla Evan Goldberg e Seth Rogen) para contar uma história pessoal de sua adolescência: a falta de grana para fazer um curso lhe levou a trabalhar durante o verão em um parque de diversões. Voltamos para 1987. Jesse Eisenberg (de “A Rede Social”) interpreta (muito bem) James Brennan, o cara nerd e virgem que acaba se apaixonando por Emily “Em” Lewin (Kristen Stewart gracinha pré-“Crepúsculo” – “Adventureland” foi filmado antes da saga de vampiros, mas lançado depois) em um cenário de muitas confusões. A trama básica de uma história calcada no “boy meets girl” sobrevive com certo charme em um filme de trilha sonora arrebatadora escolhida pelo Yo La Tengo (essa cena aqui, em especial, é para fazer o cara se apaixonar) que fracassou nos cinemas, mas que merece muito uma segunda chance (em torrent ou DVD) – principalmente se você gosta de comédias românticas.

“Filhos de João - O Admirável Mundo Novo Baiano” (2010)
Esqueça as regras básicas do cinema documental. Quem for assistir ao documentário de Henrique Dantas esperando uma obra que desbrave a origem de um das míticas formações musicais brasileiras, irá se decepcionar. “Filhos de João” começa tentando contextualizar a formação dos Novos Baianos, mas não apresenta todos os integrantes nem diz como a maioria deles entrou na banda. Pra lá do meio do filme, por exemplo, Pepeu Gomes concede um depoimento. É a primeira vez que aparece em cena, e um desinformado talvez nem saiba que ele era um novo baiano. Dantas parte do pressuposto errôneo que o público conhece tanto sobre o grupo quanto ele (ou não leu mesmo o “Manuel de Documentarista”), e esse tropeço só não lhe custa o filme porque a história dos Novos Baianos é sublinhada por dezenas de causos absurdamente surreais e hilários – alguns deles na presença do mestre João Gilberto – e algumas cenas antológicas de arquivo de época que fazem de “Filhos de João” um filme deliciosamente obrigatório. De quando o conteúdo é melhor que o formato.
Agosto 18, 2011 1 Comment
Três Filmes: Bandidas, Professoras, Dentistas

“Bandidas” (“Bandidas”, 2006)
Sempre duvidei desse filme. Olhava a capa do DVD em promoções, admirava a beleza da deliciosa dupla de atrizes, mas pensava: deve ser uma bomba. Dia desses, num fim de semana preguiçoso debaixo do edredom, eis que o filme começa em um canal a cabo qualquer, e deixei. E não é que o filme surpreendeu. Luc Besson (adoro “O Quinto Elemento” e gosto do cult “O Profissional”) escreveu o roteiro e produziu deixando a direção para os desconhecidos Joachim Rønning e Espen Sandberg. A dupla imprimiu um ritmo bacana à trama que homenageia velhos faroestes enquanto espeta os Estados Unidos: na história, um norte-americano mata o chefão de um grande banco mexicano e ameaça levar a fortuna do país para os yankees. Entram em cena a patricinha Sara Sandoval (Salma Hayek) e a caipira María Alvarez (Penélope Cruz) – a química entre as duas musas é cativante – que juntas formam uma dupla especializada em roubar bancos. Elas são auxiliadas pelo ótimo Steve Zahn (a cena do beijo é hilária) e por Sam Shepard, que ensina às garotas as manhas da arte do latrocínio. Diversão desencanada.

“O Sorriso de Mona Lisa” (“Mona Lisa Smile”, 2003)
Eis outro filme que sempre evitei. Nada contra Julia Roberts, muito pelo contrário. Cheguei ao cúmulo de ver 14 vezes “Adoro Problemas” – com Julia e Nick Nolte – no cinema (conto a história toda em um texto antigo aqui), mas o que me fazia evitar “O Sorriso de Mona Lisa” era essa pretensa aura “carpe diem”, que tem como maior representante “Sociedade dos Poetas Mortos” (1989). Dia desses, no mesmo esquema de “Bandidas” (debaixo do edredom), o filme começou na TV a cabo, e deixei. O diretor Mike Newell não consegue evitar que o filme soe óbvio (professora progressista de história da arte muda vida de grupo de meninas em colégio católico nos anos 50). Julia interpreta Katharine Watson, a tal professora que quer exibir quadros de Jackson Pollock para suas alunas – mais preocupadas em se casar antes dos 20 anos – estereotipadas: Giselle Levy (Maggie Gyllenhaal) é a inconseqüente, Betty Warren (Kirsten Dunst) é a metida à inteligente que acha saber tudo da vida enquanto Joan Brandwyn (Julia Stiles) é a simplória sonhadora. Resultado: não verei duas vezes…

“A Mulher Sem Cabeça” (“La Mujer sin Cabeza”, 2008)
Em seu terceiro filme (após os elogiados “O Pântano”, de 2001, e “A Menina Santa”, de 2004), a diretora argentina Lucrecia Martel radicaliza na simplicidade retirando de cena qualquer objeto que soe supérfluo para a trama. Duas histórias aparentemente distintas abrem “A Mulher Sem Cabeça”: na primeira, alguns meninos brincam em um canal; na segunda, uma mulher se despede das amigas e entra em um carro. O desfecho das duas histórias é óbvio (mas não clichê: Martel aprecia a trivialidade da tragédia), porém o que interessa não é o desfecho deste primeiro cenário, mas como a personagem lida com o ocorrido. A dentista Verónica (María Onetto) entra numa espiral de desespero que, num primeiro momento, faz com que ela se esqueça de tudo (um certo bloqueio). Seu próximo passo é tentar lidar com a situação. Por fim, numa cartada a lá David Lynch, Lucrecia Martel questiona (com genialidade) a realidade dos acontecimentos: pouca coisa acontece no filme, e ainda assim o espectador fica com a sensação que realmente nada aconteceu. Será tudo produto da mente de Verônica? Qualquer resposta encontra um grande filme.
Leia também:
- Julia Roberts, Maggie Carpenter, Anna Scott e Anna Julia (aqui)
- Não há moralismos em “A Menina Santa”, por Jonas Lopes (aqui)
- “A Menina Santa”, uma pequena aula de cinema, por Mac (aqui)
Agosto 17, 2011 1 Comment

