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Category — Cinema

Trilogia das Cores, de Kieslowski

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Escrevi este texto em 1998, e deve ter sido um dos primeiros textos sobre cinema que publiquei, ainda na terceira edição da versão on paper do fanzine Scream & Yell. Eu havia rabiscado algumas coisas antes, e publicado aqui e ali (havia um site em Taubaté na segunda metade dos anos 90 que aceitava colaborações, mas guardei pouca coisa do que publiquei lá). Logo que o Scream & Yell veio para a internet, em 2000, puxei ele do jeito que estava na versão em papel, e republiquei. Ontem à noite, vasculhando vídeos do Youtube, encontrei os três filmes na integra e legendados (assista abaixo), e resolvi recuperar o texto (do jeito que escrevi 15 anos atrás – com direito a erros, vícios, inocência, desconhecimento e utopias).

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Importante dizer: a “Trilogia das Cores”, de Krzystof Kieslowski, é bastante acessível em DVD. Primeiramente saiu uma edição caprichadíssima da Versátil em 2006, com um box contendo os três filmes e extras interessantíssimos (como o quarto vídeo deste post). Questão de dois ou três anos depois, os três filmes apareceram em edições mais simples (e mais em conta) via Spectra Nova, e você pode encontrar as duas edições em sites como Submarino e Mercado Livre (com preços entre R$ 10 e R$ 15 cada DVD no relançamento da Spectra, e R$ 30 e R$ 40 no da Versátil). Ainda que você opte por vê-los nos links abaixo, recomendo fortemente ter os DVDs em casa, pois estes três filmes são obras primas que merecem serem vistas e revistas. Sempre.

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Trilogia das Cores, de Krzystof Kieslowski
por Marcelo Costa
1998/1999

Talvez você, assim como muita gente, não goste do cinema europeu por achá-lo chato demais. E, na maioria das vezes, é chato mesmo. Mas, se toda regra tem uma exceção, Krzystof Kieslowski, cineasta polonês, é a exceção desse caso. Kieslowski filmou um total de 23 filmes, dentre os quais se destacam “Amator” (1979) – que conta a história de um cineasta abandonado pela mulher – e o “Decálogo” (1988 – feito para tv), dividido em dez partes contando cada uma, um mandamento bíblico. O destaque é o sexto mandamento, “Não Amarás”, que conta a história de um jovem (”Entre o amor platônico e a violência do desejo”, conforme anuncia o cartaz) que corta os pulsos ao ser rejeitado por uma mulher mais velha.

Mas sua obra-prima ainda estava por vir. Morando em Paris e desiludido com a política, Krzystof resolveu filmar as dores do mundo. A Trilogia das Cores, inspirada nas cores da bandeira francesa, e em seus significados, é um dos momentos mais poéticos do cinema nessa década.

“Bleu, A Liberdade é Azul” (1993) é o primeiro e é um drama. Julie (a bela Juliette Binoche de “O Paciente Inglês”) perde o marido (famoso compositor) e a filha pequena em um acidente de carro. Tenta se matar, mas não consegue, pois se acha fraca até para fazer isso. Fica só. Livre. E ser livre é, muitas vezes, difícil. Um flautista de rua lhe diz que é preciso se agarrar a algo, mas ela já não quer mais nada, pois bens, recordações, amigos, vínculos são tudo armadilha. Gostaria mesmo é de pular no espaço, no céu azul, mas no fundo sabe que não se pode renunciar a tudo. Kieslowski transforma dor em sublimação. “Bleu” é um filme silencioso, mas todos os sentimentos são para qualquer um tocar. Cada um é livre para fazer o que quiser embora a liberdade maior seja estar vivo. A fotografia é linda e a trilha sonora, do inseparável Zbigniew Preisner, sinfônica e imponente.

“Blanc, A Igualdade é Branca” (1993) é o segundo e o mais perto que Kieslowski chega de uma comédia. Para Karol Karol (Zbigniew Zamachowski), estar vivo não é nada fácil. Polonês de Varsóvia, ela vai à Paris e é humilhado. Sua mulher, Dominique (a linda Julie Delpy de “Antes do Amanhecer”), pede o divorcio, pois diz que Karol Karol não “consumou” o casamento – o que já é comédia demais, afinal, imagina ser impotente com uma mulher linda como Julie, que, diz em francês algo tipo “Se digo que te amo, você não entende”. Em Paris, tudo dá errado, desde seu cartão de crédito ser cancelado até ser alvo de um tiro certeiro de um pombo. Acaba sem dinheiro, sem passaporte e sem esposa. Consegue voltar para a Polônia dentro de uma mala, mas, ao chegar lá, a mala é roubada (sujeito de sorte). Quando, enfim, consegue chegar a sua casa, está todo arrebentado. Volta a trabalhar normalmente e com o tempo arquiteta um plano para montar uma fortuna que o possibilite aplicar as mesmas peças na ex-esposa, afinal, a igualdade é branca, como um véu de noiva, como a neve, como pombos voando e como um orgasmo. “Blanc” é cômico, mas não chega a ser uma comédia. Kieslowski fez um belo filme que, se não fica a altura de “Bleu” e “Rouge”, com certeza alegra coração e alma. A trilha de Preisner é pontuada por tons melancólicos extraídos de clarinete com suavidade e, ás vezes, silêncios. Ah, já ia me esquecendo. A profissão de Karol Karol no inicio do filme era cabelereiro…

“Rouge, A Fraternidade é Vermelha” (1994) é o terceiro e último e é simplesmente sublime. Parece mais uma poesia sem palavras amparada em uma fotografia magistral e no rosto de Irene Jacob (musa de Kieslowski que havia feito com ele, dois anos antes, o misterioso “A Dupla Vida de Verónique”) flutuando em tons vermelhos de carros, sinais fechados, bolas de boliche, outdoors, cerejas e sangue. Irene é Valentine, modelo suíça vivendo em Paris, longe do namorado ciumento. Sua história é interligada a de um jovem que estuda para ser juiz. Certa noite, Valentine atropela uma cadela e ao leva-la ao endereço da coleira, conhece um estranho senhor que passa seus dias ouvindo ligações telefônicas dos vizinhos. Desse encontro surge uma amizade iniciada em repulsa, mas que, aos poucos, modifica a vida dos dois personagens. Kieslowski brinca e se diverte com os acasos, com destinos marcados para se cruzar, pois a inevitabilidade existe, embora cada um tenha que viver a sua própria vida. Para ele não é difícil adivinhar os caminhos da vida. Basta se comunicar. Olhar nos olhos. “Rouge” é arrepiante e sua cena final, uma pequena surpresa, mas só para quem assistiu aos outros dois. Ravel passeia com seu Bolero em várias cenas e é a base da excelente trilha sonora de Preisner. “Rouge” transborda poesia e possibilidades, em silêncios comoventes, mesmo quando caí um cinzeiro, mesmo quando vidraças se quebram, mesmo quando um alarme de carro dispara. É tudo como se incendiássemos gelo. Água que escorre entre os dedos e deixa, por fim, as mãos molhadas…

Consagrado internacionalmente após a trilogia, em 1995, Kieslowski abandonou as câmeras dizendo que estava achando tudo muito chato e preferia viver ao invés de fazer cinema. E não fez mesmo. Não teve mais tempo. Morreu de enfarto, aos 55 anos, em março de 1996. “A Liberdade é Azul” ganhou o Leão de Ouro em Veneza como melhor filme e melhor fotografia, tendo ainda Juliette Binoche como melhor atriz. Binoche também ganhou o Cesar que também foi concedido ao filme nas categorias melhor montagem e melhor som. Para fechar, três indicações ao Globo de Ouro: Melhor filme estrangeiro, melhor música e melhor atriz. “A Igualdade é Branca” deu o Urso de Prata em Berlim para Kieslowski como melhor diretor. “A Fraternidade é Vermelha” ganhou Cannes como melhor filme, o Cesar por melhor trilha sonora e foi indicado ao Globo de Ouro como melhor filme estrangeiro e ao Oscar como melhor direção, melhor roteiro e melhor fotografia.

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Abril 24, 2013   2 Comments

Três filmes: François, Rodriguez e Grohl

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“My Way”, 2012
Claude Antoine Marie François nasceu no Egito em 1939. O pai, francês, era casado com uma italiana, e trabalhava no Canal de Suez. Com a crise no canal em 1956, a família foi obrigada a se mudar para o principado de Mônaco, e Claude François, contra a vontade do pai, começa a sua carreira de músico, que irá transforma-lo em um dos maiores nomes da música francesa. Sim, é verdade. “My Way – O Mito Além da Música”, ótima cinebiografia assinada por Florent Emilio Siri, está ai para contar com um delicioso toque francês a história de um artista obcecado pela fama, ciumento com suas mulheres (entre elas a lolita France Gall, jovem cantora que tinha menos de 18 anos quando começou a sair com o músico, e estourou em 1965 com uma canção de Serge Gainsbourg, “Poupée de Cire, Poupée de Son”) e sonhador compulsivo. E compositor de “Comme d’Habitude”, que Frank Sinatra gravou como “My Way”, e se transformou em um dos maiores sucessos da história. Porém, esqueça esse “detalhe” e concentre-se em uma história tipicamente francesa, com exageros românticos (a maneira como Claude “conquista” sua terceira esposa é peculiar), musicais (homens chamavam Claude de “bichinha” por suas performances extravagantes enquanto ele dormia com algumas das mulheres mais lindas da França – e da Inglaterra) e econômicos. Eis um filme para entender a França (e com uma das mortes mais ridículas do showbusiness).

Ps. Jérémie Renier, o ator escolhido, é idêntico ao cantor. E ótimo.

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“Searching for Sugar Man”, 2012
Vencedor do Oscar na categoria Melhor Documentário, o filme de Malik Bendjelloul conta a história de dois fãs sul-africanos obcecados por um artista norte-americano que era maior do que Elvis na África do Sul e completamente desconhecido nos Estados Unidos. Sixto Rodriguez lançou dois álbuns no começo dos anos 70 – “Cold Fact” (1970) e “Coming from Reality” (1971) – que, cinicamente segundo o diretor de sua gravadora, venderam seis cópias. Um exemplar cruzou o Atlântico e caiu em na África do Sul vitimada pelo Apartheid, e passou de mão em mão, foi copiado em cassetes, lançado por três selos e vendeu milhares de cópias colocando Rodriguez como uma dos porta-vozes da liberdade e do anti-establishment sul-africano. Porém, quem era Rodriguez? As informações eram desencontradas e terminavam, quase todas, em um suicídio sobre o palco na frente de dezenas de fãs. “Ele tirou um revólver e estourou os miolos”, diz um; “Ele colocou fogo no próprio corpo”, diz outro. Bendjelloul fragmenta a história com excelência enquanto vai jogando no colo do público pistas sobre o compositor: Ele trabalha em construções? Ele vive em Detroit ou Amsterdã? Ele ainda toca? Mais do que um documentário sobre uma busca de dois fãs, “Searching for Sugar Man” é um filme que revela não só um grande artista, mas a capacidade do mundo, dessa bolotinha azul repleta de sofrimento, cansaço e dor, ainda nos surpreender com uma história real com toques de mágica e sonho. Daqueles filmes obrigatórios.

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“Sound City”, 2013
No começo dos anos 90, três moleques pés-rapados enfiaram seus instrumentos em uma van que poderia quebrar a qualquer momento e partiram em direção a um sonho: Sound City. O estúdio que estampava dezenas de discos de ouro na parede (Fleetwood Mac, Neil Young, Rick Springfield, Tom Petty) foi casa do Nirvana por 16 dias, que gravou ali “Nevermind”. O sucesso do álbum deu sobrevida ao estúdio – que havia sido deixado de lado devido à revolução tecnológica dos anos 80 com sintetizadores e baterias eletrônicas à frente – que após “Nevermind” recebeu gente como Metallica, Artic Monkeys, Frank Black, Queens of The Stone Age, Slipknot, Weezer e Rage Against The Machine, entre outros. A chegada do Pro-Tools, no entanto, foi fatal para o estúdio, que não acompanhou as evoluções tecnológicas e ficou a margem do mercado, fechando as portas em 2011. Dirigido por Dave Grohl, o documentário “Sound City” conta, em sua primeira parte, a história emocional do estúdio através de seus personagens, músicos e funcionários. É quase como se colocar uma câmera no cerne de uma família, que começa a rememorar fatos e histórias. Com o estúdio fechando as portas, Dave Grohl comprou a mesa Nieve responsável pela sonoridade de dezenas de discos clássicos, e a colocou em seu próprio estúdio, o 606. Começa então um segundo filme em que Dave chama músicos para gravarem no novo estúdio. O que poderia descambar para uma narrativa publicitária revela boas discussões sobre o uso da tecnologia na música (com Trent Reznor arrasando em opiniões certeiras) e sobre o componente humano na música, aqui representado por Paul McCartney, o rockstar número 1 vivo, que grava “Cut Me Some Slack” com Pat Smear, Dave e Krist Novoselic. Um belo olhar sobre a alma da música.

Abril 3, 2013   No Comments

Três filmes: Billy Wilder 1964, 1972, 1974

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“Beije-Me, Idiota” (1964)
O clímax da carreira de Billy Wilder aconteceu no começo dos anos 1960, quando “Se Meu Apartamento Falasse” bateu “Psicose”, de Hitchcock, no Oscar saindo da cerimônia com cinco estatuetas (um ano antes, é bom lembrar, ele havia feito “Quanto Mais Quente Melhor”). “Irma la Douce”, de 1963, foi seu último grande sucesso, e as coisas começam a complicar no ousado “Kiss Me, Stupid” (1964), que envolve uma troca de casais em que a esposa se passa por prostituta, e vice-versa. Condenado pela Igreja, “Kiss Me, Stupid” fracassou nos cinemas, mas não dá para culpar apenas os padres – a maioria nem viu o filme. A trama é esperta, mas falta agilidade: dois músicos amadores tem a chance de mostrar suas composições para um cantor de sucesso, Dino (Dean Martin), que também é um conquistador voraz. Para proteger sua esposa, o músico Orville (Ray Walston) força uma briga e manda a esposa para a casa da sogra. Com o ambiente livre, entra em cena a prostituta Polly, The Pistol (Kim Novak), que irá se passar pela esposa de Orville e tentar conquistar Dino fazendo-o com que ele compre alguma canção da dupla. A maioria das piadas não funciona a contento e Dean Martin parece desconfortável no papel. Já a dupla Kim Novak e Felicia Farr brilham (principalmente a última, esposa de Jack Lemmon de 1962 a 2001, quando o ator morreu) em um filme que parece longo demais e pouco inspirado, mas que ainda carrega algum charme.

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“Avanti – Amantes À Italiana” (1972)
Dois anos após o fracasso de “Beije-Me, Idiota”, Billy Wilder conseguiu dar um Oscar de Ator Coadjuvante para Walter Matthau com o mediano “Uma Loura por um Milhão” (1966), mas “A Vida Íntima de Sherlock Holmes” (1970) passou batido por todos. Foi então que decidiu filmar sua próxima história na Itália e, novamente, a trama se supera: o filho (Jack Lemmon) de um milionário precisa ir para a Costa Amalfitana, na Itália, buscar o corpo do pai, que sofreu um acidente fatal de carro. O mesmo destino leva uma pobre garota inglesa, “baixinha e gordinha” (embora Juliet Mills não fosse gordinha nem em um desfile da Victoria Secret), a ir enterrar a mãe. Billy Wilder e IAL Diamond desfilam um número delicioso de piadas sobre costumes (a siesta italiana, o sol raro na Inglaterra) enquanto o fotógrafo Luigi Kuveiller enquadra belíssimas paisagens da baia de Sorrento, cidadezinha próxima a Nápoles que serviu de locação (embora a história seja situada na ilha de Ischia, poucas cenas, como a do necrotério, foram filmadas na ilha), mas 2h20 de filme soa um exagero para uma leve comédia romântica (mesmo de Billy Wilder). Com 40 minutos a menos (sem, por favor, cortar a cena de Juliet Mills na rocha), “Avanti” poderia ter tido melhor sorte, mas merece atenção pela brincadeira com sotaques (o inglês americano de Lemmon, o britânico de Mills e o inglês italiano de Clive Revill, excelente como o gerente de hotel Carlo Carlucci).

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“A Primeira Página” (1974)
Dois anos após “Avanti”, Billy Wilder acatou uma sugestão de seu produtor Paul Monash aceitando refilmar “The Front Page”, uma antiga peça da Broadway que ganhou sua primeira versão para o cinema em 1931 através de Howard Hughes e depois foi recontada (de forma mais brilhante) por Howard Hawks em 1940 em “His Girl Friday” (no Brasil, “Jejum de Amor”). A grande sacada de Hawks foi transformar o personagem masculino Hildy, um jornalista, em Hildy, uma jornalista, e colocar pitadas de comédia romântica na história. Billy Wilder, no entanto, ignorou essa escolha e voltou à trama original escalando dois atores brilhantes para o papel de Hildy (Jack Lemmon) e do diretor de jornal Walter Burns (Walter Matthau) e transformando a história em um retrato não muito lisonjeiro do jornalismo. Seguindo o caminho provocativo de seus filmes anteriores, Billy Wilder recheia a trama de palavrões, reúne em cena um casal gay e ataca políticos e policiais sem aliviar para jornalistas e prostitutas. Ou seja, Wilder desfere socos de direita em praticamente todo mundo em uma comédia que Woody Allen deve ter amado devido aos longos, mordazes e acelerados diálogos. A química entre os atores é excepcional, mas, ainda assim, “The Front Page” escorrega na teatralidade excessiva (de atuação e cenário) e num certo exagero que, ainda assim, não põe o filme a perder, mas o impede de brilhar ao lado dos melhores filmes do diretor.

Leia também:
- Três Filmes: Billy Wilder 1944, 1957, 1966 (aqui)
- Três Filmes: Howard Hawks 1940, 1952 e 1953 (aqui)
- Uma estranha reunião de fantasmas do cinema (aqui)
- Três listinhas “in progress”: Fellini, Truffaut e Wilder (aqui)

Março 17, 2013   No Comments

Três docs: Sound City, Itamar e Johnston


“Sound City”, de Dave Grohl (2012)


“Daquele Instante em Diante”, de Rogério Veloso (2010)


“The Devil and Daniel Johnston”, de Jeff Feuerzeig (2005)

Fevereiro 16, 2013   1 Comment

Charlotte Gainsbourg e Lars von Trier

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Segundo imagem divulgada de “Nymphomaniac”, novo filme de Lars von Trier, com previsão de estreia para setembro no Brasil. Charlotte interpreta Joe, uma ninfomaníaca, e Von Trier avisou que o nível de pornografia do filme (que será dividido em duas partes) será ditado pelos patrocinadores. “Nymphomaniac” deverá ter duas versões, uma mais suave e outra sem cortes. 

Fevereiro 9, 2013   2 Comments

Download: doc sobre Itamar Assumpção

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O excelente documentário “Daquele Instante em Diante”, sobre Itamar Assumpção, dirigido por Rogério Velloso, foi disponibilizado oficialmente para download gratuito no Vimeo. Baixe aqui. Vale muito a pena.

Leia também:
- A simplicidade provocante de Itamar Assumpção, por Mac (aqui)

Fevereiro 4, 2013   No Comments

Baixe: 22 roteiros incluindo O Mestre

Clique na imagem e salve o arquivo em PDF

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Quem já assistiu ou ainda vai assistir a “O Mestre”, novo grande filme de Paul Thomas Anderson, pode comparar o filme com essa versão do roteiro, que é completa, mas não é a versão final, e traz razoáveis modificações na trama (incluindo nomes de alguns personagens além de retirada e inclusão de cenas).

Além deste roteiro você pode baixar neste link outros 20 roteiros originais incluindo “Amor”, de Michael Haneke, “Moonrise Kingdom”, de Wes Anderson e Roman Coppola, “Lincoln”, de Tony Kushner, “As Vantagens de Ser Invisivel”, de Stephen Chbosky, e “Ted”, de Seth MacFarlane, entre outros. Baixe aqui.

Ps. O roteiro de “Django Livre”, do Tarantino, pode ser baixado aqui

Janeiro 27, 2013   1 Comment

Três filmes que eu tinha receio de ver

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“360” (360, 2011)
Minha expectativa em relação ao novo filme de Fernando Meirelles não era das melhores. Vários amigos e conhecidos de redes sociais haviam criticado duramente o filme, mas eis que “360” surge como uma bela surpresa. A assinatura principal, no entanto, é do roteirista Peter Morgan (“A Rainha” e “Frost/Nixon”), que costurou várias histórias que poderiam ter o subtítulo de “O Mundo é um Ovo”. “360” começa em Viena, com uma jovem garota eslovaca (Lucia Siposová) posando para um cafetão sob o olhar reprovador de sua jovem irmã (Gabriela Marcinkova). O primeiro cliente de Blanka é Michael (Jude Law), um empresário britânico casado com uma diretora de galeria de arte, Rose (Rachel Weisz), que tem um caso com o fotógrafo brasileiro Rui (Juliano Cazarré), que namora Laura (Maria Flor), que descobre a traição e foge para o Brasil encontrando pelo caminho o pai alcoólatra de uma garota que desapareceu (Anthony Hopkins) e um recém liberto ex-criminoso por abuso sexual (Ben Foster). A trama não para por ai, e Peter Morgan pula de uma história para outra com leveza, abandonando personagens e focando apenas no acaso. A vida, como sabemos, segue. Eis um filme que não soa pretensioso - apesar de ser. Recomendo.

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“A Viagem” (Cloud Atlas, 2012)
Um dos filmes indies mais caros de todos os tempos tornou-se um dos grandes fracassos da temporada (custou 100 milhões de dólares e arrecadou 27 milhões) muito pela dificuldade do trio de diretores, os irmãos Andy e Lana Wachowski (“Matrix”) e o alemão Tom Tykwer (“Corra, Lola, Corra”) em adaptar a contento o complicado romance “Cloud Atlas”, de David Mitchell (lançado em 2004). E era realmente difícil. “Cloud Atlas” compila seis histórias paralelas em períodos diferentes de tempo – que começam em um navio no Pacifico em 1850 e seguem até um período futurista pós-apocalíptico. A reencarnação une cada um dos personagens, e, por isso, vários atores tiveram que se dividir em diversos papeis. Tom Hanks, por exemplo, é um senhor no mundo futurista, um gerente de hotel no período pré-Segunda Guerra Mundial, um médico leviano no final do século 19, um péssimo escritor em 2012 (numa das cenas impactantes do filme – principalmente se você for um crítico – risos) e por ai vai. O texto utópico e sonhador aliado a critica forte ao capitalismo comovem em vários bons momentos, mas maquiagens terríveis, um demônio verde ridículo e trechos piegas fazem de “Cloud Atlas” uma montanha russa de altos e baixos. Não desista. É ruim, mas é bom (e tem Halle Berry!)

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“Jogos Vorazes” (The Hunger Games, 2012)
Dos três filmes deste post é bem provável que este tenha sido o que tenha me causado mais receio em ver. Aliás, muitos amigos deixaram passar, e perderam uma boa história que desperdiça passagens (e personagens) com bobagens futuristas (tal qual como “Cloud Atlas”, embora até este tenha bons momentos neste quesito), mas cujo saldo final é positivo. Inspirado no primeiro livro da trilogia lançada pela escritora norte-americana Suzanne Collins a partir de 2008 (ou seja, vêm mais adaptações pela frente), “Jogos Vorazes” flagra uma nação pós-apocalíptica chamada Panem constituída por 12 distritos que são governados por uma Capital, que para mostrar seu poder, realiza anualmente um “jogo” onde são escolhidos um menino e uma menina de cada distrito, e estes 24 jovens entre 12 e 18 anos precisam lutar pela sobrevivência – e matar seus adversários. A adaptação correta de Gary Ross valoriza a crítica de Suzanne Collins (que assina o roteiro junto com o diretor e Billy Ray) ao mundo Big Brother que vivemos. Em uma das grandes cenas do filme, o canal que transmite os jogos (semelhante a um BBB) manipula imagens (e os próprios personagens do jogo) para conseguir mais audiência. Jennifer Lawrence está ok e a trilha sonora, com músicas inéditas de Decemberists e Arcade Fire, merece atenção em um filme correto (e piegas) para ver e pensar.

Janeiro 25, 2013   3 Comments

Uma seleção de gifs do Globo de Ouro

 Balanço dos premiados…

—- CINEMA —-

- Melhor filme (Drama): Argo
- Melhor filme (Musical ou Comédia): Os Miseráveis
- Melhor Ator (Drama): Daniel Day-Lewis - Lincoln
- Melhor Atriz (Drama): Jessica Chastain - A Hora Mais Escura
- Melhor Ator (Musical ou Comédia): Hugh Jackman - Os Miseráveis
- Melhor Atriz (Mus/Com): Jennifer Lawrence - O Lado Bom da Vida
- Melhor Ator Coadjuvante: Christoph Waltz - Django Livre
- Melhor Atriz Coadjuvante: Anne Hathaway - Os Miseráveis
- Melhor Diretor: Ben Affleck - Argo
- Melhor Roteiro: Django Livre - Quentin Tarantino
- Canção Original: Skyfall - Adele
- Trilha Sonora Original - As Aventuras de Pi
- Filme de Animação: Valente
- Filme Estrangeiro: Amor, de Michael Haneke (Áustria)

—- TV —-
- Melhor Série (Drama): Homeland
- Melhor Série (Musical ou Comédia): Girls
- Minissérie ou Filme feito para TV: Game Change
- Melhor Ator de Série (Drama): Damian Lewis - Homeland
- Melhor Atriz de Série (Drama): Claire Danes - Homeland
- Melhor Ator de Série (Musical ou Comédia): Don Cheadle - House of Lies
- Melhor Atriz de Série (Musical ou Comédia): Lena Dunham - Girls
- Melhor Ator: Kevin Costner - Hatfields & McCoys
- Melhor Atriz: Julianne Moore - Game Change
- Melhor Ator Coadjuvante: Ed Harris - Game Change
- Melhor Atriz Coadjuvante: Maggie Smith - Downton Abbey

—- PRÊMIOS EXTRAS —-
- Melhor discurso: Jodie Foster (Prêmio pelo conjunto da Obra)
- Discurso mais brega: Kevin Costner
- Melhor Piada da noite: a tortura do casamento de Kathryn Bigelow
- Troféu Anorexia: Anne Hathaway
- Melhor cara de inveja: Taylor Swift
- Momento pro ex ficar babando: J.Lo vestida de rendas
- Melhor troco da noite: Ben Affleck dedicando prêmio para Jennifer Garner (J.Lo Fuck Yourself)
- Melhor filme não indicado: “As Vantagens de Ser Invisivel”
- Tomara que seja assim no Oscar: Lincoln com só uma estatueta
- Maior mancada: Homeland levar prêmio e Mad Men nem ser indicado

Janeiro 14, 2013   3 Comments

Três filmes: Irmãos Coen 1984, 1987 e 1991

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“Gosto de Sangue” (Blood Simple, 1984)
Em seu filme de estreia, os Irmãos Coen apostam no gênero suspense e partem de uma premissa batida, mas não menos impressionante / interessante.  Um homem, Marty (Dan Hedaya), dono de um bar em uma cidadezinha do Texas, manda um detetive investigar a esposa, Abby (Frances McDormand), que, ele acredita, está o traindo. Loren (M. Emmet Walsh), o detetive, consegue fotos incriminatórias, mas de uma primeira noitada de Abby com Ray (John Getz), empregado no bar de Marty. Com todas essas peças na mesa, os Coen criam uma pequena fábula de erros que começa na decisão de Marty em matar os pombinhos, e segue num levanta e tropeça típico do cinema dos irmãos, e que encontraria uma fórmula perfeita no clássico “Fargo” (1996), mas que aqui ainda soa um tiquinho óbvio, embora os diálogos matadores recomendem uma olhadela com carinho. Para o lançamento especial em DVD, os Coen provocaram: a Edição do Diretor (Director’s Cut”), ao invés de ser mais extensa do que a exibida na época (praxe no mercado de egos), é alguns segundos mais curta, o que só aumenta o brilho de uma estreia vigorosa (preste atenção ao sotaques dos personagens, objeto de fascinação no cinema dos Coen), o melhor dos filmes da primeira fase dos irmãos.

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“Arizona Nunca Mais” (Raising Arizona, 1987)
Em seu segundo filme, os Irmãos Coen tentaram dar uma aura mais alegre para o produto final. A narrativa permanece no Sul dos Estados Unidos, desta vez no Arizona, local em que um assaltante trapalhão, H.I. McDonnough (Nicolas Cage), é preso tantas vezes que acaba seduzindo a policial responsável por registrar sua foto para a ficha criminal. Ela se chama Ed (Holly Hunter), e decide se casar com H.I. e mudar-se para um trailer. O casal tenta muito ter filhos, até descobrir que Ed não é fértil. Paralelamente, a mídia divulga a cobertura do nascimento dos cinco bebês de um famoso comerciante local (tipo Silvio Santos). É quando surge a ideia de Ed e H.I. sequestrarem um dos cinco bebes. “Eles tem muitos e nós não temos nenhum. Eles não vão sentir falta”, justifica o casal. Cartas na mesa para mais uma trama de erros que traz um Nicolas Cage bastante dedicado, mas pouco confortável no papel (houveram muitos desentendimentos entre o ator e os Coen durante a produção). No balanço final, uma boa comédia de sotaques (mais uma vez irresistíveis), que se não entra para o rol dos grandes filmes dos Coen, funciona como um bom passatempo de sessão da tarde.

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“Barton Fink” (Barton Fink, 1991)
Em seu quarto filme, os Coen continuam no Sul, mas desta vez sobem para a ensolarada California, terra que abriga um jovem roteirista, Barton Fink (John Turturro), que, após fazer fama na Broadway, é contratado pela Capitol para escrever roteiros de cinema e se muda para Los Angeles. Talvez um dos filmes mais difíceis e cheios de significados dos Coen, “Barton Fink” fracassou nos cinemas, mas ganhou a Palma de Ouro em Cannes, em 1991, e teve três indicações ao Oscar (primeira vez que os Coen participam da maior cerimonia da indústria), uma delas para Michael Lerner, como ator coadjuvante pelo sensacional papel de Jack Lipnick, diretor da Capitol. É tudo basicamente ilusório (e o subtítulo nacional entrega de bandeja a trama: “Delírios de Hollywood”), sem ligação aparente, embora repleto de significados – até no final, absolutamente enigmático. Os Coen encavalam citações de Shakespeare, Faulkner, Keats e a Bíblia, entre outros, além de filosofia e ironia, e mais confundem o espectador do que explicam. Aqui reside a força do filme: muitas pessoas (críticos principalmente) veneram o que não entendem (eles e seu público). “Barton Fink”, pra mim, é um pesadelo cômico (eis a vida de um roteirista). Não passa disso – e nem é tão bom assim.

Leia também:
- “Um Homem Sério”: Os Irmãos Coen retornam a Minessota (aqui)
- “Onde os Fracos Não Têm Vez”: um ensaio sobre criminalidade (aqui)
- Lista: de “Fargo” em primeiro até  “Queime Depois de Ler” em 13º (aqui)

Janeiro 12, 2013   No Comments

Três filmes: entre Paris e Buenos Aires

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“Intocáveis” (Intouchables, 2011)
Filme francês mais visto na história com mais 32,5 milhões de espectadores na Europa (e mais de 1 milhão de público no Brasil), “Intocáveis” é a adaptação do livro “O Segundo Suspiro” (lançado no Brasil pela Editora Intrinseca), de Philippe Pozzo di Borgo, ex-executivo da casa de champanhe Pomery que ficou tetraplégico após um acidente de parapente. A direção correta de Eric Toledano e Olivier Nakache valoriza a química entre os excelentes atores François Cluzet (Philippe) e Omar Sy, este no papel do desempregado Driss, um senegalês que necessita de um carimbo dizendo que participou de uma seleção de emprego para continuar recebendo o auxilio desemprego francês. Philippe decide contratar Driss, o que causa uma reviravolta em sua vida de tetraplégico. De origem humilde, Driss trata Phillipe como uma pessoa comum (quando a tendência é a pena) e uma forte amizade surge num mundo de diferenças. Driss gosta de música negra (a cena ao som de “Boogie Wonderland”, do Earth, Wind & Fire, é ótima) enquanto Phillipe ama música clássica. Apesar de não existir um clímax na trama, o relato é comovente e a leveza da inocência conquista.

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“Elefante Branco” (Elefante Blanco, 2012)
Apelidado erroneamente como “Cidade de Deus argentino”, o sétimo filme de Pablo Trapero adentra a favela de Villa Lugano, na região periférica de uma Buenos Aires não europeia, para mostrar o cotidiano de dois padres e uma assistente social na tentativa de melhorar a vida dos cidadãos locais, a grande maioria vivendo em um edifício gigantesco projetado nos anos 1920 para ser o maior hospital da América Latina, mas que, abandonado, tornou-se uma imensa ocupação habitacional. Semelhante ao filme de Fernando Meirelles só a favela e suas ruas estreitas. Trapero não cede ao humor de seu vizinho brasileiro, o que de certa forma acaba cansando em “Elefante Branco”. Seus personagens (Ricardo Darin como Padre Julian, o belga Jérémie Renier como Padre Nicolás e Martina Gusman como a assistente social Luciana) vivem uma constante tensão que aponta para um único fim. Em seu filme mais direto (seguindo uma porta aberta por “Abutres”, de 2010, que ainda trazia jogos de cena e as cartas na manga inexistentes aqui) e praticamente sem nuances, Pablo Trapero tenta focar culpa católica, dever social, narcotráfico, responsabilidade e politicagem, mas não consegue acrescentar nada a nenhum destes temas batidos.

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“Paris Manhattan” (Paris Manhattan, 2011)
Em seu filme de estreia, a diretora e roteirista Sophie Lellouche decidiu mostrar seu amor pelo cinema de Woody Allen. Em “Paris Manhattan”, Alice (Alice Taglioni) é daquelas mulheres bonitas, ricas e solteiras que só existem em filmes. Além de tudo isso, ela é uma farmacêutica apaixonada pelos filmes de Woody Allen (que muitas vezes receita filmes do diretor ao invés de remédios). Lellouche brinca com Allen numa divertida recriação de “Sonhos de Um Sedutor”, em que o personagem do cineasta recebia conselhos de um Humphrey Bogart imaginário. Em “Paris Manhattan” é Alice que recebe conselhos imaginários de Woody, muitos deles as melhores tiradas do filme. Apesar da boa ideia, Sophie Lellouche transforma sua comédia romântica francesa e um filmezinho óbvio cujo final está escrito na testa de todos os personagens (principalmente daquele que age e fala coisas como se fosse Woody). Assim como sua personagem principal, que amava Woody Allen, mas parecia não transpor as coisas que via na tela para a vida real (e poucos cineastas são tão reais quanto Woody), Lellouche mostra que também como não aprendeu nada com o cineasta norte-americano. Uma pena. Melhor rever qualquer outro do próprio Woody…

Leia também:
- Woody Allen de 0 a 10, por Marcelo Costa (aqui)

Janeiro 7, 2013   No Comments

007, Frankenweenie e Aqui é o Meu Lugar

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“007 - Operação Skyfall” (Skyfall, 2012)
Saudado pela crítica estrangeira com tiros de escopeta e adjetivos elogiosos, a 23ª encarnação de James Bond não é essa coca-cola toda que estão tentando vender, mas tem lá seus muitos méritos. Terceiro e melhor “episódio” da série com Daniel Craig no papel de 007 (relembrando, os anteriores foram o ótimo “Casino Royale”, de 2006, e o ok “Quantum of Solace”, de 2008), “Skyfall” é aquilo tudo que o fã da série idolatra: perseguições sensacionais de tirar o fôlego, beldades de deixar homens e mulheres apaixonados e o cinismo inabalável do personagem. O ponto alto de “Skyfall”, porém, é seu vilão, não um maluquete qualquer que deseja “conquistar o mundo” (ufa, ainda bem), mas sim um ex-agente motivado por vingança, que ganha um colorido digno de indicação de Oscar na interpretação hilária de Javier Bardem (a cena de introdução do personagem é, fácil, Top 3 do ano). Mesmo com toda adrenalina e diversão (e com Adele), “Skyfall” continua sendo excessivamente entretenimento para ser esquecido assim que se sai da sala de projeção, como uma Montanha Russa em um parque de diversões. Neste ponto, a saga Bourne entrega mais (do capítulo “Quando a cópia supera o original”).

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“Frankenweenie” (2012)
Nova investida de Tim Burton no formato de animação em stop-motion, “Frankenweenie” é uma declaração de amor em forma de cinema. Primeiramente ao cinema b preto e branco dos anos 30 e 40 (citações de “Frankenstein”, “Drácula”, “Lobisomem”, “Godzilla” e “Múmia” – entre outros – se acumulam durante a projeção); depois ao próprio universo Burton: “Frankenweenie”, cuja ideia original surgiu do curta-metragem homônimo – e com pessoas reais – que o cineasta realizou em 1984, também soa como uma releitura de “Edward Mãos-de-Tesoura” (1990) – e a participação de Winona Ryder reforça a premissa. Um universo de personagens infantilmente sinistros volta à ativa em “Frankenweenie”, provocando a nostalgia que invade o espectador e o faz buscar, em suas memórias, seu primeiro bichinho de estimação e seu provável primeiro contato com a perda e a morte – assim como seu primeiro filme de terror. Burton questiona instituições como Escola, Família e Estado (o discurso do professor de ciências é corrosivo) num filme (bonito, mas excessivamente) reverente, sonhador e leve, que não tenta podar o sonho infantil – o final feliz atesta.

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“Aqui é o Meu Lugar” (“This Must Be The Place”, 2012)
Paolo Sorrentino integra a nova safra de cineastas italianos e surpreende nesta sua boa estreia em língua inglesa. Com titulo retirado de uma canção do Talking Heads (David Byrne, inclusive, participa de um momento chave da trama), “Aqui é o Meu Lugar” tem como personagem principal Sean Penn, em excelente atuação, como um roqueiro norte-americano, gótico e decadente, que sofre com fantasmas de suicidas, o envelhecimento e o custo do abuso do uso de drogas. Ele vive num exilio voluntário em Dublin, na Irlanda, casado com uma bombeira (Frances McDormand), e sua fala é arrastada e frágil – assim como sua postura, que só se acomoda perante o espectador com cerca de meia hora de filme –, embora as palavras sejam, geralmente, diretas. A MTV planeja um comeback, mas ele decide ir ao encontro do pai – e, bingo, de si mesmo – numa road trip pelos Estados Unidos que acaba se transformando numa caça a um nazista. Sorrentino trata a passagem da adolescência (adultescência) para a maturidade com didatismo visual, o que corrobora uma visão moralista: o que é estranho e diferente é imaturo. Uma pena: “Aqui é o Meu Lugar” é um bom filme até o minuto final, quando escorrega e põe quase tudo a perder. Ainda assim, tem seus méritos (como a boa trilha).

Novembro 19, 2012   No Comments

Três docs: Cartola, Festivais, Brasília


“Cartola, Música Para os Olhos”, Lirio Ferreira (2006)


“Uma Noite em 67″, de Ricardo Calil Renato Terra (2010)


“Rock Brasília - Era de Ouro”, de Vladimir Carvalho (2011)

Setembro 23, 2012   No Comments

Na integra: Exit Through the Gift Shop

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Um dos filmes mais importantes do novo século, senão “o” filme mais importante, “Exit Through the Gift Shop”, dirigido por Banksy, foi lançado em 2010, indicado para o Oscar de Melhor Documentário, e pode ser assistido (com legendas em espanhol) no vídeo abaixo:

Setembro 15, 2012   1 Comment

Três filmes: Pré-grunge, Metal e Punk

“1991 – The Year Punk Broke” (1992)
Agosto de 1991: o jovem diretor Dave Markey acompanha com apenas uma câmera a turnê europeia de duas semanas e meia (10 shows) em que o Sonic Youth, contratado pela major Geffen no ano anterior e divulgando o brilhante “Goo”, teria como banda de abertura o semidesconhecido Nirvana. “Vimos o Motley Crue tocando um cover de ‘Anarchy in The UK’ na TV e começamos a brincar que o movimento punk tinha deslanchado”, explica Thurston Moore 12 anos depois em um dos  extras que acompanham a reedição comemorativa em DVD lançada em 2011 de “1991 – The Year Punk Broke” (o vídeo acima também integra os bônus). “Nenhuma banda punk estava nas paradas. Era ironia”, reforça Thurston, que foi atropelado pelo furacão grunge – cerca de dois meses depois sairia “Nevermind”, álbum que tiraria Michael Jackson do topo da Billboard – o filme sairia apenas no ano seguinte. “1991 – The Year Punk Broke” flagra a faísca antes do incêncio e além de imagens de bastidores e shows da pequena turnê conjunta (o final de “School”, com Kurt destruindo a bateria e Dave agradecendo sorridentemente a plateia, é histórico) ainda flagra as duas bandas mais Babes in Toyland, Gumball, Dinosaur Jr e Ramones ao vivo no Reading. Nos extras, Thurston sacaneia Black Francis, Perry Farrel e o movimento emo enquanto Courtney é desmascarada: “Ela está apaixonada pelo vocalista do Smashing Pumpkins”, alguém diz, enquanto Kim Gordon tenta colocar panos quentes (aliás, difícil terminar o filme sem se apaixonar pela baixista). Um clássico para ver e mostrar pros filhos.

“Metal: A Headbanger’s Journey” (2005)
Logo após a senha ‘666’ encher a tela, um narrador em off começa a descrever um cenário: “Em 1986, aconteceu algo estranho: o heavy metal chegou a ser música mais popular do mundo”. Na sequencia, ele conta que muitos fãs e artistas foram perseguidos por grupos religiosos, associações familiares e até pela Justiça (“Artistas metaleiros foram denunciados por incitar suicídios e até homicídios”), e conclui: “Como sei tudo isto? Porque eu era um deles. Meu nome é Sam Dunn e este sou eu em 1986”. Sam (que assina a direção do documentário ao lado de Scot McFadyen e Jessica Wise) declara sua paixão pelo metal, e diz que queria tanto entender o estilo que se formou em antropologia e foi estudar o fenômeno. O resultado é um filme esperto e interessante que, em tom pessoal, desmembra a árvore genealógica do metal (que viraria uma série de sucesso na VH1 posteriormente) e sai a campo para tentar entender por que tanta gente odeia o estilo. Ele entrevista lendas como Tony Iommi (que, no DVD extra, relembra quando perdeu as pontas dos dedos no último dia em que trabalharia numa fábrica, e que isso fez com que ele tocasse de uma maneira diferente), Alice Cooper (sempre divertido), Ronnie James Dio (simplesmente genial), Bruce Dickinson e muito mais gente bacana do cenário além de bater ponto no festival Wacken Open Air (a meca dos metaleiros), desbravar o temido black metal norueguês (com direito a um aprofundamento nos extras da caprichada edição dupla em DVD) e mostrar que boa parte dos metaleiros tem muito mais neurônios do que julga a TFP. Essencial.

“Botinada: A Origem do Punk no Brasil” (2006)
Ex-VJ da MTV e apresentador do excelente MusiKaos, na TV Cultura, Gastão Moreira colheu durante quatro anos depoimentos de grande parte dos punks que formaram as primeiras bandas no Brasil (principalmente em São Paulo), no final dos anos 70 e começo dos 80, criando com “Botinada: A Origem do Punk no Brasil” um documento histórico. A narrativa recheada de entrevistas com quem viveu a época é costurada com trechos dos documentários raros “Garoto do Subúrbio” (1983), de Fernando Meirelles, “Punks” (1984), de Sara Yaknni e Alberto Gieco, e “Rota ABC” (1991), de Francisco Cesar Filho, e ainda traz algumas imagens mais raras ainda, como a sensacional apresentação ao vivo do Cólera na TV Tupi, em 1980, que não foi ao ar na época (e que traz o apresentador todo sorridente mandando: “Agora vamos ouvir o Cólera com ‘Ela Só Sabia Matar’”), e imagens do polêmico show do Inocentes tocando na casa de grã-finos Gallery, em 1982. Gastão peca apenas por focar sua história excessivamente em São Paulo (algo que o livro “Punk– Anarquia Planetária e a Cena Brasileira”, de Silvio Essinger, lançado em 2000 e hoje raríssimo, abre de forma mais completa), o que de forma alguma desmerece um documentário que, de bônus na edição oficial, traz um CD com 14 clássicos do cancioneiro punk brasileiro, com canções como “John Travolta”, do AI-5; “Nada”, do Olho Seco; “Agressão/Repressão”, do Ratos de Porão; “O Punk Não Morreu”, do Lixomania; “Festa Punk”, dos Replicantes; e “Pânico em SP”, dos Inocentes, entre outras. Para ver e pogar.

Setembro 2, 2012   2 Comments

Três filmes: Costa-Gavras 1969, 2002, 2005

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“Z” (1969)
Eis uma das obras-primas incontestáveis do cinema político na história da sétima-arte, aquele tipo de filme que vale o chavão batido: tinha que ser exibido no primeiro dia de aula tanto no colegial quanto na faculdade tanto quanto ser visto ano a ano para não deixar o cérebro amolecer. Logo no começo, um aviso: “Qualquer semelhança com pessoas ou fatos NÃO é mera coincidência”. O roteiro assinado por Gavras e Jorge Semprún, baseado no romance homônimo de Vassilikos Vassilis lançado em 1966, acompanha a história de um chefe do partido comunista grego, que sofre um atentado após um comício. O juiz responsável pelo caso descobre uma série de irregularidades durante a investigação, auxiliado por um fotojornalista, e o desenrolar da trama é praticamente a história de todas as ditaduras do mundo, em maior e menor grau (incluindo a nossa), e pode deixar muita gente com dores de estômago. “Z” reconstitui a história verídica do político grego Grigoris Lambrakis, morto em 1963 em Thessaloniki por dois integrantes de um grupo de extrema-direita grego apoiado por generais (que logo tomariam o poder no país). Foi indicado ao Oscar nas categorias Melhor Filme (mesmo sendo falado em língua francesa) e Melhor Filme Estrangeiro, levando a estatueta nesta segunda categoria. Daqueles filmes obrigatórios.

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“Amém” (2002)
Baseado em uma peça chamada “O Vigário” (1963), escrita por Rolf Hochhuth com base no relatório verídico de um oficial da SS, “Amém” lança luz sobre a relação da Igreja Católica com os nazistas acusando o Papa Pio XII (e o alto clero do Vaticano) de silenciar ante os relatos de crimes cometidos contra judeus em diversos campos de concentração europeus. O núcleo da trama é conduzido pelo cientista Kurt Gerstein (em ótima atuação de Ulrich Tukur), que vê uma de suas invenções (o cianeto de hidrogênio, desenvolvido para erradicar o tifo) sendo usada para matar judeus. Gerstein é promovido a Oficial da SS e passa a acompanhar a rotina dos campos de concentração, colhendo números e dados que ele mesmo tenta passar a embaixadores de outras nações tanto quanto à Igreja Católica. O oficial consegue sensibilizar um padre (fictício), que leva a informação ao Vaticano, que opta por não se pronunciar sobre o genocídio. A história verídica é assustadora, mas Costa-Gavras não consegue criar tensão no filme (pelo contrário: o cinismo de um dos personagens acaba se sobrepondo à crítica que o roteiro tenta impingir à Igreja Católica). Vale por colocar o importante Relatório Gerstein em pauta, mas o diretor não consegue imprimir a força de, por exemplo, “Katyn” (2007), obra obrigatória e aterrorizante de Andrzej Wajda.

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 “O Corte” (“Le Couperet”, 2005)
O ponto de partida desta pequena epopeia cínica, genial e absurda do mundo moderno é o… desemprego. Após trabalhar 15 anos em uma empresa, que acaba de se fundir com outra, o executivo Bruno Davert é demitido. Ele tem 39 anos, e o argumento do RH é que eles precisam enxugar a folha de pagamento. A vida segue, mas não como ele planejava: após uma sequencia de entrevistas, Davert não consegue se recolocar no mercado, e a tensão começa a tomar conta da família. É neste momento que Davert tem uma grande ideia: montar uma firma fictícia, oferecer uma vaga semelhante a que ele procura, e… eliminar os possíveis concorrentes à vaga que ele também deseja. O roteiro (tão absurdo quanto provável) é inspirado no livro “The Ax”, de Donald E. Westlake, e a escolha de José Garcia para o personagem principal não poderia ter sido mais acertada. O ator consegue criar um personagem tão psicopata quanto idiota, e as cenas absurdas que se seguem servem como um piscar de olhos crítico de Costa-Gavras para o capitalismo desenfreado que tomou conta de boa parte do mundo nas três últimas décadas. Porém, mais do que um filme crítico e de muita importância para se analisar o estado atual das coisas, “O Corte” é uma deliciosa comédia de humor negro que resgata alguns dos melhores momentos de “Z”. Para assistir com o currículo nas mãos…

Leia também:
- “Katyn”, uma porrada tão forte que fica difícil respirar (aqui)

Agosto 20, 2012   2 Comments

Três filmes: Retratos do Submundo

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“Sid & Nancy: Love Kills” (1986)
Antes de entrar no Sex Pistols, John Simon Ritchie já tinha tocado bateria no Siouxsie and the Banshees e sido cotado para ser vocalista do The Damned, mas Alex Cox não está muito interessado em contar história rock and roll em “Sid & Nancy: Love Kills”, preferindo focar suas lentes na degradação do romance entre o baixista e a groupie mal-encarada Nancy Spungen, casal perfeitamente interpretado por Gary Oldman e Chloe Webb. Ainda assim, alguns fatos históricos do punk rock estão presentes, como o dia em que Sid usou o contrabaixo como um taco de beisebol em um jornalista que havia detonado o Sex Pistols ou a cena épica do famoso show no Tamisa (haviam proibido o Sex Pistols de pisar ao vivo no solo britânico, mas a proibição não dizia nada sobre tocar sobre a água), suavizada pelo romance: enquanto dezenas de pessoas apanham da polícia, o casal sai abraçado atravessando a tudo e todos. Eis o principal problema do filme: não é o amor que mata, mas a relação perigosa do casal com as drogas pesadas, e elas são secundarias na trama (muitas vezes exageradamente estilizadas). Alex Cox, que divide o roteiro com Abbel Wool, sentimentaliza um personagem icônico que simboliza uma Inglaterra decadente, e deu sorte de ter acertado na escolha da dupla de atores principais num filme que sugere dor, perigo, descontrole e violência, mas não as exibe.

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“Eu Atirei em Andy Warhol” (“I Shot Andy Warhol”, 1996)
Valerie Solanas foi uma importante militante radical, autora do manifesto “Scum”, no qual pregava o extermínio de todos os homens da Terra. Os três tiros que disparou contra Andy Warhol em junho de 1968 são o capítulo final de sua história (com um epilogo marcado por prisões, depressão e internação em hospitais psiquiátricos), e “I Shot Andy Warhol”, que surgiu como um documentário, busca contar sua gênese, com flashs de uma infância difícil e uma passagem destacada pela Faculdade de Psicologia, momento em que Valerie se descobre lésbica e parte em direção ao submundo nova-iorquino, vivendo no mítico e decadente Chelsea Hotel, participando de filmes da Factory, de Andy Warhol, e se prostituindo. A diretora Mary Harron (que quatro anos depois assinaria o genial “Psicopata Americano”) apresenta diversos trechos do polêmico manifesto ao mesmo tempo em que lança luz sobre o desejo desenfreado de Valerie pela fama retratando de forma distante um submundo recheado por drogas, sexo e personagens exóticos. Lou Reed atacou o filme, e não liberou nenhuma canção sua para a trilha, assinada pelo ex-parcerio John Cale (ainda assim o CD da trilha é brilhante com belos covers de Wilco, R.E.M., Luna, Pavement e Yo La Tengo). Destaque para Stephen Dorff, que brilha como o famoso travesti Candy Darling, e Jared Harris (o Lane Pryce de Mad Men) como Warhol em outro filme que tem mais valor histórico do que cinematográfico.

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“Boogie Nights” (1997)
Segundo filme da carreira do prestigiado diretor Paul Thomas Anderson (que, posteriormente, filmaria os obrigatórios “Magnólia” e “Sangue Negro”), “Boogie Nights” é um excelente retrato do submundo da indústria pornô no final dos anos 70, começo dos 80. Um jovem bem dotado é descoberto em uma boate por um diretor, e estreia como ator alcançando fama e dinheiro, e junto cocaína. A inspiração de boa parte da trama é o ator John Holmes, ícone pornô que transou com duas gerações de estrelas pornográficas, de Seka e Marilyn Chambers a Ginger Lynn e Ciccolina, tentou uma carreira paralela em filmes de ação (retratada no filme) e se viu envolvido em um assalto (para obter cocaína) que terminou com quatro mortos (passagem também presente em “Boogie Nights”). Com um elenco brilhante liderado por Mark Wahlberg (como o ator pornô Dirk Diggler), Burt Reynolds (como o diretor Jack Horner) e Julianne Moore (como a atriz pornô Amber Waves), e que ainda conta com participações excelentes de Heather Graham, Don Cheadle, John C. Reilly e Philip Seymour Hoffman (entre outros), “Boogie Nights” é uma típica história de ascensão e queda, de pessoas despreparadas para o sucesso em uma indústria perigosamente sustentada pelo proibido, contada com excelência por Paul Thomas Anderson.

Leia também:
- “Magnólia”, de Paul Thomas Anderson, por Marcelo Costa
- “Sangue Negro”, de Paul Thomas Anderson, por Marcelo Costa

Agosto 6, 2012   1 Comment

Três Filmes: Cinema, Cerveja e Política

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“Um Retrato de Woody Allen” (Wild Man Blues, 1998)
Woody Allen costuma rejeitar comparações com seus personagens, mas basta colocar Jerry, personagem que ele encena em “Para Roma com Amor” (que rememora muitos outros), ao lado do Woody Allen deste documentário para percebermos que a linha que os separa é praticamente invisível. E isso é um dos vários pontos interessantes de “Wild Man Blues”, filme de Barbara Kopple (lançado agora no Brasil pela Flashstar - com uma leva de outros filmes do diretor) que flagra a turnê europeia da banda de jazz de Woody Allen em 1997, passando por 18 cidades em 23 dias: “É típico de mim”, comenta ele em certo momento. “Eu sonhava com essa turnê, e agora que estou nela não vejo a hora de acabar”. O humor afiado do diretor avança sobre prefeitos, fãs e paparazzos, mas o retrato que Kopple faz do cineasta é tão honesto que comove. Filmado logo após o longo processo que Mia Farrow e Woody Allen enfrentaram pela guarda dos filhos, e da união do diretor com a filha adotiva de Mia, Soo-Yi, “Wild Man Blues” expande seu território avançando além da banda (sem perder a boa música de foco) para o novo casamento e até para a relação do cineasta com sua família. Nettie, a mãe, responde na frente da nora que preferia uma filha judia a uma oriental enquanto o pai, já bastante idoso, parece ainda não aceitar a carreira escolhida pelo filho, passagens que mitificam (e explicam) um dos maiores cineastas vivos.

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 “Cerveja Falada” (2010)
Em um momento em que a produção de cerveja artesanal começa a despontar em vários cantos do País, este documentário de 15 minutos dirigido por Guto Lima, Luiz Henrique Cudo e Demétrio Panarotto, da produtora Exato Segundo, resgata com méritos um personagem mítico que ficou a frente de uma das mais antigas cervejarias artesanais do país. Rupprecht Loeffler viveu boa parte de seus 93 anos dedicando-se a produção de cerveja, e é apontado por muitos como um dos mais antigos mestres cervejeiros do país, tocando a cervejaria Canoinhense, de Canoinhas, em Santa Catarina, por mais de cinco gerações (até seu falecimento, em fevereiro de 2011). Fundada em 1908 pelo pai de Rupprecht, a Canoinhense produz cerveja e chope artesanais com receita que segue a Lei da Pureza Alemã. Os tonéis de carvalho foram trazidos da Alemanha há mais de um século. “Meu pai trouxe a fórmula de Munique”, conta Rupprecht, que diz que, na falta de leite, a “piazada” tomava cerveja quando era criança. O mestre-cervejeiro lembra como estocou lúpulo na Segunda Guerra Mundial e conta outras histórias divertidas em um registro carinhoso que já recebeu vários prêmios, e está disponível para download no site Filmes Que Voam (aqui). Ainda assim vale ir atrás do DVD, que traz o ótimo média metragem “Histórias da Cerveja em Santa Catarina”. Bate na porta da Exato Segundo.

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“Ao Sul da Fronteira” (South of The Border, 2009)
Disposto a mostrar ao mundo - e especialmente aos norte-americanos - a verdadeira América Latina (já que nós aqui debaixo conhecemos bem quase todas as histórias presentes no filme), Oliver Stone entrevistou Evo Morales (Bolívia), Fernando Lugo (Paraguai), Néstor e Cristina Kirchner (Argentina), Rafael Correa (Equador), Raúl Castro (Cuba) e Lula buscando mostrar a força de um continente que quer olhar os EUA de igual para igual. Em “Ao Sul da Fronteira”, o diretor busca suavizar a imagem difícil de Hugo Chávez, temido presidente da Venezuela, e tropeça em lacunas e na falta do traquejo dramatúrgico e cômico que transformam filmes de Michael Moore em epopeias mundiais, mas, ainda assim, soa educativo ao mostrar como a mídia norte-americana transforma países que dificultam as relações com os EUA em grandes vilões. “Obama trouxe da reunião com os países latinos um aperto de mão e uma camiseta do Che”, reclama um ancora, que pinta o presidente venezuelano como um monstro. “É tudo por petróleo”, retruca Chávez, que surge abraçando criancinhas, andando de bicicleta (Stone faltou às aulas de populismo barato) e, comicamente, perguntando aos membros da ONU se eles sentiam o cheiro de enxofre no palanque após um discurso de Bush, o demônio. O grande mérito do filme (que está inteiro no Youtube) é explorar com destreza o tema “manipulação da mídia”. A verdade é simples (para TODOS os lados): duvide de tudo que você vê na TV e lê em jornais. Tudo. Se não existe mais bobo no futebol (e existe), a política ainda está com as salas cheias. Uma boa dose de ceticismo faz bem para a razão, mas, se preciso for, viva a América… do Sul.

Julho 11, 2012   2 Comments

Três Filmes: Camila, Raul e Xingu

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“Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” (2012)
Adaptado da obra homônima de Marçal Aquino, colaborador frequente dos diretores Beto Brant e Renato Ciasca, “Eu Receberia” opta por aprofundar o olhar do espectador não só no romance, mas na função da mulher em uma história de amor clássica, uma musa com homens girando em sua órbita e lutando por sua posse tal quais mitos gregos – a tragédia, então, surge como elemento obrigatório na trama. Assim é Lavínia, musa tanto de um pastor (que vê nela seu poder de salvação) quanto de um fotógrafo (numa alusão óbvia e não menos interessante). Ela é casada com o primeiro, amante do segundo, e se essa frase já entrega o ponto de partida do drama, o que brilha na tela (mais que a nudez de Camila Pitanga) é a forma com que os diretores investigam o âmago dos personagens – ainda que, em momentos, de forma exagerada (como quando tentam dramatizar a Amazônia, outra musa). Difícil ficar alheio ao filme, e num mundo em que a grande maioria das histórias de amor já foi contada, recontada, vivida, lida e/ou vista por quase todos, “Eu Receberia” tem a virtude de pegar o espectador pelos ombros, chacoalha-lo, e obriga-lo a olhar para si próprio. E para sua própria musa. Muitos devem desviar o olhar.

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“Raul — O Início, o Fim e o Meio” (2012)
Não me lembro se foi Robby Krieger ou John Densmore, mas consta que um deles, frente ao túmulo de Jim Morrison no Pere Lachaise, teria dito: “Ele não pode estar ai. Ele era grande demais para caber neste túmulo”. Foi a primeira coisa que pensei deste documentário sobre Raul Seixas: como resumir uma persona tão ampla e complexa quanto Raul numa tela de cinema? O diretor Walter Carvalho cumpriu com méritos a árdua tarefa, e ainda abriu outras questões interessantes para discussões de mesa de bar. Do começo, com um cover de Raul pilotando uma moto ao som de “Blue Moon / Asa Branca” (que resume a paixão de Raulzito por Elvis e Luiz Gonzaga), Carvalho segue uma ordem cronológica preenchida por diversas entrevistas (o trabalho investigativo é excelente) que tentam dar ao espectador uma centelha do mito em passagens deliciosas (seja com Os Panteras, seja com Paulo Coelho e o episódio da mosca, seja com os satanistas, seja com as ex-mulheres, ou mesmo o polêmico trecho final, com Marcelo Nova) que colocam “Raul — O Início, o Fim e o Meio” ao lado de outros grandes (e obrigatórios) documentários recentes nacionais – como “Loki”, sobre Arnaldo Baptista, “Música Para os Olhos”, sobre Cartola, e “Ninguém Sabe o Duro que Dei”, sobre Wilson Simonal.

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“Xingu” (2012)
A história dos irmãos Orlando, Leonardo e Cláudio Villas Bôas é conhecida por muitos, mas ainda assim menos do que deveria. Filhos da classe média paulistana, o trio deixou a cidade juntando-se à “Marcha para o Oeste” num misto de busca por aventura e pelo desconhecido. Acabaram “descobrindo” o universo indígena, tornaram-se ferrenhos defensores da causa (tanto na floresta amazônica quanto em Brasília) e, num paralelo a Oskar Schindler (empresário alemão que salvou a vida de mais de mil judeus durante o Holocausto), salvaram milhares de vidas idealizando o Parque Nacional do Xingu, que foi criado em 1961, com projeto assinado pelo antropólogo Darcy Ribeiro. Desta forma, “Xingu”, o filme, tem como grande mérito amplificar a ação dos Villas Bôas (e tem cara de Oscar – o paralelo com a “A Lista de Schindler” não é à toa), o que torna a película mais interessante pela ação dos irmãos do que por seus próprios méritos cinematográficos. O roteiro é apressado e, ainda assim, funcional (apesar de abusar de estereótipos). A fotografia é belíssima, as atuações convincentes, mas é tudo tão excessivamente produzido que, algumas vezes, soa irreal (quando, talvez, devesse ser mais documental). Um filme excelente pela causa, mas apenas ok pelo cinema.

Abril 30, 2012   3 Comments

Três Filmes: Billy Wilder 1944, 1957, 1966

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“Pacto de Sangue” (“Double Indemnity”, 1944)
Uma obra prima. Baseado em uma história real acontecida em 1929, em que uma esposa planeja o assassinato do marido após ter comprado uma apólice de seguro com cláusula de indenização em dobro, Billy Wilder e Raymond Chandler escreveram um roteiro brilhante em que o vendedor de seguros Walter Neff (Fred MacMurray) se vê seduzido pela loura Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck) e, por ela, decide cometer um crime. Um dos primeiros filmes noir da história, e um dos melhores (não só noir, mas da história do cinema), “Pacto de Sangue” distribui diálogos geniais (a cena do primeiro encontro entre Walter e Phyllis é sensacional) e destaca algumas curiosidades como a cena em que Phyllis se esconde atrás da porta da casa de Walter (uma porta que abre pra fora, truque esperto para aumentar a tensão de em uma passagem clássica). Indicado a sete Oscars, Billy Wilder saiu de mãos abanando e foi atropelado por “O Bom Pastor”, de Leo McCarey, que dos 10 prêmios a que fora indicado, levou nada menos que 7. Em sua biografia, Billy Wilder relembra o primeiro encontro que teve com o escritor Raymond Chandler: “Foi ódio à primeira vista”. O resultado improvável da parceria foi um dos melhores filmes da carreira de Billy Wilder.

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“Um Amor na Tarde” (“Love in the Afternoon”, 1957)
Três anos antes, em 1954, Billy Wilder havia feito “Sabrina” com Audrey Hepburn, um filme que já antecipava a queda do diretor pela inocência da atriz (dividida, no filme, por dois galãs, William Holden e Humphrey Bogart). Em “Amor na Tarde”, Wilder vai ainda mais longe em uma comédia romântica que só podia ter como pano de fundo… Paris. É na capital romântica do amor (os minutos iniciais são irresistivelmente deliciosos) que um milionário conquistador é salvo de um marido ciumento por uma jovem violoncelista. Ariane (Audrey), a violoncelista, é filha de um detetive, e fuçando nas fichas de casos solucionados pelo pai, se interessa pelo Don Juan Frank Flannagan (Gary Cooper), e arquiteta um plano para fisgar o homem – que é bem mais velho que ela. Audrey é a típica heroína que valida vários temas de Billy Wilder: a esperteza do jovem contra a experiência da idade; o amor que consegue vencer o vício e a mulher (aparentemente inocente) que, usando de esperteza, conquista o homem. Outras duas cenas memoráveis: Audrey procurando sapato rastejando-se no chão, e a comovente cena final, na estação de trem. “Amor na Tarde” é uma comédia romântica menor, mas ainda assim muito boa. E tem “Fascinação” na trilha (impossível esquecer da música no filme)…

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“Uma Loura Por Um Milhão” (“The Fortune Cookie”, 1966)
Um câmera de TV que vai parar no hospital após ser atropelado por um jogador de futebol americano em pleno jogo é convencido por seu cunhado, um advogado sem escrúpulos, a fingir ter lesões muito maiores, para assim dividirem uma rica indenização. O ponto de partida desta comédia esperta estrelada por Jack Lemmon e Walter Matthau (Judi West, a loura do título, apesar de bonita é deixada de lado na trama tamanha a química dos dois atores), que rendeu um Oscar (merecido) de ator coadjuvante para o segundo, é uma análise séria da indústria de charlatões (ainda que apoiada na deliciosa verve cômica da dupla de atores) tanto quanto uma valorização da amizade e da responsabilidade (na relação do jogador Luther “Boom Boom” Jackson com Harry Hinkle, o personagem vivido por Lemmon). Com roteiro assinado por Billy Wilder em parceria com I.A.L. Diamond (os dois também são responsáveis por “Amor na Tarde”, “Seu Meu Apartamento Falasse”, “Quanto Mais Quente Melhor” e “A Primeira Página”), “Uma Loura Por Um Milhão” é dividido em capítulos e poderia ser um pouco mais ágil e curto (assim como “Um Amor na Tarde”, que também ultrapassa as duas horas de duração), mas ainda assim diverte.

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Abril 28, 2012   3 Comments