“Joy Division”

June 15th, 2008

“Joy Division”, de Grant Gee - Cotação 4/5

Na temporada em que o mundo redescobriu Ian Curtis, dois longas ilustram a trajetória do mártir pós-punk: “Control”, de Anton Corbijn, aposta no preto e branco tendo como base o livro de Deborah Curtis, viúva do cantor. “Joy Division”, de Grant Gee, finca-se apenas no preto ouvindo todos os demais “envolvidos”, menos Deborah (embora seu livro seja citado em vários trechos do filme). Enquanto o primeiro filme dramatiza a história do vocalista, o segundo tenta documentar o período, num esforço interessante de contar a história da banda.

Grant Gee, que tem no currículo no excelente “Meeting People Is Easy” (documentário que flagra os traumas do Radiohead pós “Ok Computer”), coloca seus “personagens” na parede e os deixa falar, falar e falar. Optando por esse formato convencional de documentário, Gee acaba por hiperbolizar a história da banda, que por si própria tomou dimensões estratosféricas após o suicídio de Ian Curtis, em maio de 1980, às vésperas da primeira turnê norte-americana do grupo.

Esta nova mitificação do mito serve para colocar várias peças em seus devidos lugares, principalmente entre os três integrantes do Joy Division: Peter Hook, Bernard Sumner e Stephen Morris abrem o coração para o cineasta em um mea-culpa composto por “50% de tristeza, 50% de raiva” (palavras do baterista) em relação ao ato final do amigo. “Nós só fomos prestar atenção às letras quando Deborah as publicou em um livro. Pensamos: era disso que ele estava falando?”, diz um entrevistado.

Sumner fala pausadamente; Morris fala desajeitamente, rindo – aparentemente de nervoso – nas lembranças mais dolorosas; Hook é um tosco que virou baixista e faz questão de deixar isso bem claro, mas é responsável por uma das declarações mais fortes do documentário: “A única coisa que me arrependo em minha vida foi não ter ido ao funeral”. Boa parte do valor do documentário está nas declarações destes três homens que evitaram durante anos falar sobre o assunto.

Gee, ainda, conseguiu reunir peças importantes para recontar a história de uma das bandas mais importantes de Manchester: o jornalista e empresário Tony Wilson, o designer Peter Saville, o fotógrafo Anton Corbijn, o músico Pete Shelley (Buzzcocks) e a jornalista (e amante/namorada) de Ian Curtis, Annik Honoré, entre outros nomes. Também reuniu um acervo de imagens raras da época de registros de shows em vários lugares, cuja baixa qualidade apenas aguça a curiosidade do espectador.

Não espere, no entanto, descobrir algum fato novo em “Joy Division”. O documentário se presta muito mais a imortalizar o mito com declarações oficiais – as primeiras – do que esmiuçar a história. Quase todos os temas abarcados já foram dramatizados em filmes como “A Festa Nunca Termina” e “Control” além do livro “Touching From a Distance”, de Deborah, e os motivos que cercam o suicídio continuam nublados (depressão x coração dividido x epilepsia), embora Gee (e seus entrevistados) acredite numa junção de vários fatores enquanto Corbijn, em “Control”, pareceu focar apenas no desastre romântico do vocalista.

São dois filmes imperfeitos, mas que juntos (e com a companhia de “A Festa Nunca Termina”) jogam luz sob um dos grandes poetas do rock britânico, e embora a fotografia e as boas atuações credenciem “Control”, Grant Gee pula a frente por flagrar os personagens reais dessa epopéia recontando conquistas e dramas. Funciona como a versão oficial de um dos momentos marcantes da história da música pop e é perfeito tanto para jovens que estão descobrindo o Joy Division agora tanto quanto para fãs de anos e anos que, pela primeira vez, vão poder ver os próprios personagens remexendo o baú da memória. Pena que o personagem principal não esteja vivo para contar a sua versão. Pena mesmo.

Leia também:
“Control”, por Marcelo Costa (aqui)
“A Festa Nunca Termina”, por Marcelo Costa (aqui)

“Antes que o Diabo Saiba que Você está Morto”

June 14th, 2008

“Antes que o Diabo Saiba Que Você Está Morto”, de Sidney Lumet - Cotação: 3,5/5

Você já (ou)viu essa história neste ano. Ou quase a mesma história. Dois irmãos em meio a uma enrascada financeira cometem um crime que envolve diretamente toda a família. Sim, sim, parece “O Sonho de Cassandra”, de Woody Allen. Os dois filmes foram rodados quase simultaneamente e praticamente estrearam juntos. O argumento semelhante pede uma comporação, e Woody Allen sai perdendo: “Antes que o Diabo Saiba Que Você Está Morto” é tudo que “O Sonho de Cassandra” poderia ter sido.

Na verdade, o 45º filme de Sidney Lumet, (diretor de clássicos como “Doze Homens e Uma Sentença”, “Um Dia de Cão” e “Sérpico”) também não é essa coca-cola toda. Porém, mesmo tendo contra si atuações fracas de Ethan Hawke (fazendo o único papel que sabe fazer: jeca), Philip Seymour Hoffman (ele pode muito mais) e Marisa Tomei (em um personagem constrangedor da gostosa burra que não convence), surpreende pela maneira como o diretor conta a história e fisga o espectador desde o início.

Tudo começa com um assalto. Um homem encapuzado entra em uma joalheira, rende a senhora que toma conta da loja, e enquanto saca o dinheiro dos caixas e as jóias do cofre, se distrai e leva um balaço nas costas. Essa cena – e tudo que aconteceu nos quatro dias anteriores e na semana posterior – delimitará o tempo/espaço do filme, e fará com você não se mexa na poltrona enquanto a trama se desenrola. É impressionante o controle que o diretor tem sobre a história.

Philip Seymour Hoffman é Andy, o irmão mais velho. Trabalha em uma grande imobiliária, em que cresceu profissionalmente, mas que está prestes a ver sua ruína. Andy é casado com Gina (Marisa Tomei), e está tentando reconstruir o casamento sem saber que a mulher o está traindo. O outro lado da moeda é Hank, irmão caçula, um loser com todas as letras piscando na testa. Ele tem uma filha, está separado da mulher, e deve três aluguéis de pensão. A joalheria assaltada é da própria família de Hank e Andy. Tente montar o quebra-cabeça.

Sidney Lumet já recebeu mais de 50 indicações ao Oscar por seus filmes e ganhou o prêmio de Conjunto da Obra em 2005, e mostra estar em plena na forma com “Antes que o Diabo Saiba Que Você Está Morto”. A culpa é um dos temas caros ao diretor, e chega a impressionar a semelhança de seus irmãos com os irmãos de Allen em “O Sonho de Cassandra”, mas Lumet consegue incomodar enquanto Allen distancia o espectador. Problema de ambos os filmes, no entanto, o fechamento rápido deixa um pouco a desejar.

Não deixa de ser interessante observar que ambos os filmes analisam o sentimento de uma pessoa após cometer um ato imoral. Os dois diretores parecem dualizar a culpa dividindo-a entre dois personagens, um que sabe lidar com esta culpa e faz o que precisa ser feito, e outro que tropeça no próprio ato de continuar respirando após o ato cruel. Allen e Lumet (e a sociedade) condenam os personagens de forma tão profunda que não permitem nenhuma forma de perdão. E o perdão realmente existe? Uma questão para se pensar após um grande filme.

“O Sonho de Cassandra”

May 23rd, 2008

“O Sonho de Cassandra”, de Woody Allen - Cotação: 3/5

“A única coisa que importa é a família. O mesmo sangue”, diz um personagem em certo momento de “O Sonho de Cassandra”, trigésimo sexto filme da carreira de Woody Allen, terceiro consecutivo filmado em Londres. O cineasta norte-americano retorna ao território dos soberbos “Crimes e Pecados” (1989) e “Match Point” (2005) apoiado em tragédia grega e Dostoievski para contar a história de dois irmãos que passam por problemas financeiros.

Ian (Ewan McGregor ótimo) é o irmão mais esperto, aquele que a família acreditava que iria se dar bem na vida, e que está sempre planejando algo para dar um salto de classe social. Terry (Colin Farrell excelente), por sua vez, é mais contido. Trabalha numa borracharia, é viciado em jogos de apostas (cavalos, pôquer, o que for) e usa mais a cabeça para sustentar os cabelos do que para pensar. Num paralelo roqueiro, seria como se um fosse o Noel Gallagher e, o outro, o Liam.

Apesar de pobretões, os dois irmãos foram muito bem criados por seus pais (ele, um dono de restaurante; ela, irmã de um proeminente médico), não se desgrudam e acabaram de comprar um velho barco, o qual deram o nome de “O Sonho de Cassandra”. Ian é gerente do restaurante do pai, mas fingi ser um ricaço (passeando nos carros poderosos que o irmão lhe empresta da borracharia), apaixona-se por uma jovem atriz e precisa de dinheiro para colocar em prática os seus sonhos. Terry, por sua vez, perde uma fortuna no pôquer. Os dois estão enrascados.

É nesse momento da trama que surge Howard (Tom Wilkinson), o tio médico milionário, que também está em uma enrascada, e precisa da ajuda dos dois sobrinhos em troca de uma boa quantia de dinheiro. O servicinho não é dos mais simples, e os dois irmãos entram em crise chocando a necessidade do dinheiro com a crueldade do ato encomendado pelo tio. Como sempre, nestes momentos, surgem atenuantes que procuram justificar a validade do ato a ser consumado (”Se não fizermos isso, este homem irá acabar com a vida do nosso tio”, diz Ian) e a frase que abre este texto.

Woody Allen conduz a história com suavidade na primeira meia hora da história. Apresenta os personagens, faz com que o público os admire, e começa a injetar suspense apenas na segunda metade, quando Ian deixa de lado a garçonete do restaurante de seu pai pela jovem atriz, e Terry perde em uma noite três vezes mais  tudo o que havia ganhado no dia anterior. É uma pequena ruptura na simplicidade da vida familiar, cujo passa poderá mudar a vida dos dois rapazes. “Se fizermos isso, não terá volta”, prevê Terry em certo momento.

Ao contrário de “Match Point”, cuja história trafegava nos altos círculos das castas inglesas, “O Sonho de Cassandra” é todo classe trabalhadora. Se o pano de fundo da história muda, o sentimento que Woody Allen analisa é o mesmo de “Crimes e Pecados” e “Match Point”: como lidar com a culpa de um assassinato. No primeiro, o marido encomenda a morte da amante, e apesar de ter que lidar com o fantasma dela, vai deixando o remorso de lado enquanto a vida passa.  “Match Point” ainda discute a sorte, mas prevê que a culpa (e o fantasma dela) perseguirá o assassino até o fim de seus dias.

Em “O Sonho de Cassandra”, porém, não há tempo para o futuro. Ian tenta esquecer o que fez enquanto faz planos com a namorada. Terry enlouquece. Se vê queimando no inferno, passa noites em claro corroído pela culpa e planeja se entregar a polícia. A simplicidade da vida cede lugar à tragédia grega. Allen só poderia ter caprichado mais no desfecho rápido e cortado, que remete ao conto “Venha Ver o Por do Sol”, de Lygia Fagundes Telles, com crianças brincando de roda (no filme, namoradas fazendo compras) enquanto a tragédia se anuncia. A família é o que importa. Será mesmo?

Leia também
- Entrevista com Woody Allen, da Folha Online (aqui)
- Três filmes para se amar Woody Allen, por Marcelo Costa (aqui)
- Scoop, por Marcelo Costa (aqui)
- Match Point, por Marcelo Costa (aqui)
- Melinda e Melinda, por Marcelo Costa (aqui)
- Igual a Tudo na Vida, por Marcelo Costa (aqui)
- Dirigindo no Escuro, por Marcelo Costa (aqui)
- O Escorpião de Jade, por Marcelo Costa (aqui)
- Trapaceiros, por Marcelo Costa (aqui)

“Três Vezes Amor”

May 8th, 2008

“Três Vezes Amor”, de Adrian Brooks – Cotação: 3/5

Will está passando por um processo de divórcio. Em meio a papelada que marca o fim jurídico do relacionamento, Will tem que lidar com a insatisfação de um emprego que não o faz feliz e com os questionamentos de sua filha sobre sexo, pênis invadindo vaginas (isso mesmo) e o milagre muitas vezes não esperado da procriação. Maya, a filha, passa dois dias da semana com ele, e está decidida a saber o que motivou sua vinda ao mundo. Deste argumento batido nasce uma das melhores comédias românticas em muito, muito tempo.

Maya (a “Pequena Miss Sunshine” Abigail Breslin em excelente atuação) não poupa Will (Ryan Reynolds bastante convincente) e quer dele a verdade sobre a natureza de seu nascimento. Will, por sua vez, propõe uma brincadeira para a filha: ele irá contar detalhadamente suas principais desventuras amorosas trocando os nomes das protagonistas para que a filha descubra quem é sua verdadeira mãe em meio aos romances que abalaram (e ainda abalam) seu coração.

Voltamos para 1992 e entram em cena Emily (namorada da faculdade que ficou no interior quando Will foi batalhar a vida na Big Apple), April (amiga que trabalha no mesmo lugar que Will, o escritório em Nova York da campanha do então candidato presidencial democrata, Bill Clinton) e Summer (amiga de Emily que mora em Nova York e namora seu orientador de tese – Kevin Kline em uma ponta inspiradíssima). Estas três mulheres (os três amores do clichezado título nacional) valem o filme. Ok, três mulheres e meia.

Emily (Elizabeth Banks) não consegue acompanhar os sonhos do namorado, e por insegurança acaba por cometer um clichê romântico. April é apenas a menina da copiadora, que está ali porque pagam bem, não por Bill Clinton (o que já rende ótimas gags). Além, é sempre a mulher certa na hora errada. Já Summer (um looooooongo suspiro para Rachel Weisz) é o tipo de mulher deslumbrante que Will nunca imaginaria namorar, quiçá casar. Nosso herói irá passar poucas e boas nas mãos destes três deliciosos arquétipos do sexo feminino.

Um dos grandes trunfos de “Três Vezes Amor” é a esperteza do roteiro. Escrito e dirigido por Adrian Brooks (que assinou o segundo Bridget Jones), “Três Vezes Amor” constrói pequenos núcleos narrativos que se intercalam a perfeição durante os 105 minutos do filme. Will conta a história para Maya, que vai anotando tudo. A grande sacada do roteiro é não glamurizar os personagens. São pessoas comuns vivendo histórias de amor comuns. O pano de fundo (da eleição presidencial de Clinton até o caso Monica Lewinsky) serve como uma deliciosa metáfora para a história, que ganha profundidade sem perder a simplicidade.

A trilha sonora também é bem cuidada. O título original lhe diz alguma coisa: “Definitely, Maybe”? Não há nenhuma música do Oasis na trilha, mas o primeiro nome de pessoa que surge na tela é o da professora Gallagher. Não pode ser à toa. Como voltamos para 1992, R.E.M. e Nirvana entram de trilha sonora (”Quem é Kurt Cobain?”, pergunta o politizado Will em certo momento para uma amiga), mas há também espaço para Otis Redding, Massive Attack e Sly and The Family Stone.

Entre idas e vindas, “Três Vezes Amor” convence com seu charme sonhador, seu roteiro pontual e sua dose de açúcar no ponto certo. Críticos sérios e aficionados por cinema costumam desdenhar comédias românticas sem se atentar que mesmo os grandes diretores (Billy Wilder à frente) já se renderam – e criaram pequenos clássicos – ao estilo. Porém, duas décadas de Meg Ryan serviram para traumatizar grande parcela do público (se fossem só “Harry & Sally” – a comédia romântica definitiva – e “Sintonia de Amor”). Dica: deixe o preconceito de lado e encare de frente está “arid comedy” estilizada, um dos melhores filmes do gênero desde o divertidíssimo “O Casamento do Meu Melhor Amigo”. E aprenda: o amor não é uma questão de quem, mas sim de quando.

“Um Beijo Roubado”

April 12th, 2008

“Um Beijo Roubado”, de Wong Kar-Wai – Cotação 2,5/5

“My Blueberry Nights” (”Um Beijo Roubado”) narra à história de Elizabeth (Norah Jones emprestando fraqueza a um personagem que sobrevive disso), uma jovem que foi trocada por outra mulher na vida de um homem. Ela não aceita. Procura vasculhar os detalhes interrogando o dono de um café localizado na esquina da casa do ex-namorado.  Jeremy (Jude Law em atuação discreta), o dono do café, como quase todas as pessoas que já passaram dos trinta anos, coleciona histórias de amor que não terminaram bem. Da última restou um molho de chaves e o desejo do esconderijo atrás de um balcão.

Elizabeth e Jeremy tornam-se grandes amigos. Inspirada pela decisão de cercear o ex, Elizabeth passa a freqüentar o café todos os dias, devorando tortas de blueberry e ouvindo as histórias do amigo. Afundada no desespero do fim de relacionamento, e pressentindo a aproximação romântica do amigo, Elizabeth deixa Nova York para trás e parte em busca de sanidade do coração entregando-se ao trabalho e ao cansaço em mundos que a desconhecem. Nessa epopéia romântica, é jogada no centro de histórias de perda, que colocam sua dor em segundo plano.

Lizzie parte, mas não deixa de manter contato com Jeremy. Através de postais (um hábito tão demodê em tempos de internet, e tão romântico), ela vai contando ao amigo de suas aventuras e desventuras na estrada. Ele, por sua vez, sai a caça dela ligando para todos os restaurantes de Memphis procurando por uma Elizabeth, pela sua Elizabeth, mas não a encontra. Mais de mil quilômetros os separam, e eles estão muito mais próximos – romanticamente – do que centenas de casais que dividem a mesma cama todas as noites em lugares tão díspares quanto São Paulo, Pequim ou Nova York.

“My Blueberry Nights” dura 90 minutos apenas, mas parece muito mais (interessantemente) extenso pela maneira que Wong Kar-Wai explora as histórias secundárias. Norah Jones e Jude Law não inspiram compaixão, mas se a história de amor de Arnie Copeland com Sue Lynne (David Strathairn e Rachel Weisz excelentes) não lhe deixar sem ar, é melhor consultar o doutor William Butler Yeats, pois a chance de seu coração ter perdido o ponto cardíaco romântico é grande. São nos fragmentos secundários que Kar-Wai exercita sua crença nos desencontros, e consegue alcançar (por mais rápidas que sejam as passagens) a beleza de “Amor à Flor da Pele” e “2046″.

A rigor, o diretor ainda conta suas histórias com delicadeza, calma e segurança, iluminando a tela com imagens que se sobrepõe umas as outras valorizando os tons verdes e vermelhos. A crença no desamor permanece, e as vidas semi destruídas dos personagens secundários, que precisam recomeçar do zero após terremotos emocionais, rendem bons momentos na tela (Natalie Portman, abandonada no fim do mundo, está sensacional com sotaque texano), mas não chegam a dar unidade ao filme, o que não chega a comprometer a película, mas a diminui em comparação direta com a obra anterior do cineasta.

Hollywood parece ter amolecido a crença do chinês Wong Kar-Wai nos desencontros românticos. Após duas obras dramáticas e sublimes de temática dolorida, Kar-Wai estréia na língua inglesa com um drama romântico que mantém em grande parte do tempo sua característica de bom contador de histórias trágicas de amor envolvidas em belas fotografias, mas cede as convenções do mercado norte-americano, ao premiar seu personagem principal com a oportunidade de recomeçar após ser jogado no reino dos corações partidos. Poderia ser entendido como uma segunda chance do cineasta aos românticos, se as entrelinhas não fossem notadamente cruéis. Mas você tinha dúvida disso, caro leitor?

 Leia também:
“2046″, de Wong Kar-Wai, por Marcelo Costa

“Em Paris”

April 11th, 2008

“Em Paris”, de Christophe Honoré - Cotação 4/5

Jonathan acorda. É de manhã. Do lado esquerdo da cama, uma mulher. Do lado direito, um homem. Ele se desenrola do lençol e salta sorrateiramente, nu. Coloca uma samba-canção, sai do quarto, encontra o pai dormindo sentado na sala, beija-lhe levemente a face, e vai para a sacada do apartamento. Ali ele encontra o espectador, e trava um monólogo com a pessoa sentada à frente da tela procurando explicar o que se viu minutos atrás, e preparar o terreno para o que virá a seguir encerrando o bate papo entre personagem e público com uma pergunta: “É possível pular de uma ponte por amor?”.

Com este início pouco usual e deliciosamente interessante, o jovem diretor Christophe Honoré joga as cartas na mesa acerca de seu terceiro longa, o drama romântico familiar “Em Paris”. Paul (Romain Duris da dobradinha “Albergue Espanhol”/”Bonecas Russas”) acabou de sair de um relacionamento, e está como quase todo mundo fica ao sair de um relacionamento: um bagaço sentimental. Ao sair da casa da ex, optou por voltar a casa do pai, deslocando o irmão Jonathan (Louis Garrel de “Os Sonhadores”) para uma cama improvisada na sala.

O cenário é de caos familiar. Paul está naquele momento em que a melancolia quer afundar a pessoa dentro de um buraco inacessível a todo e qualquer ser-humano. Ele não come, não ri, passa o dia inteiro na cama de pijama ouvindo compactos franceses antigos. Jonathan, por sua vez, está detonado. Chegou no meio da madrugada da balada, se ajeitou desajeitadamente na sala e foi acordado nas primeiras horas da manhã pelo pai, Mirko (Guy Marchand em belíssima atuação), que só desiste da tarefa de fazer o filho levantar quando este pula da cama improvisada no sofá, nu novamente.

Christophe Honoré usa esse núcleo familiar caótico formado por três homens para fazer um elogio à amizade, ao amor e a Paris. O pai procura de uma forma afavelmente descontrolada tirar o filho do poço fundo da tristeza. O irmão vai por outro caminho, evitando tocar no assunto que desencadeou todo o drama, e enquanto luta para mostrar a Paul que a vida vale a pena, caminha pelas ruas da cidade-luz apaixonando-se a cada esquina e demorando mais de doze horas para completar um percurso que deveria demorar apenas trinta minutos.

Lidar com destreza com a ocupação do tempo na tela é um mérito de Christophe Honoré. O argumento de “Em Paris” – o valor da amizade e da vida – poderia render um filme piegas (e na maioria das vezes rende), mas o diretor francês acerta em quase todas as suas escolhas bastante pessoais, como a abertura que traz um dos personagens conversando diretamente com o público, convidando-o a sair da cadeira do cinema e a adentrar a história como observador. Durante o filme, Jonathan olhará para o espectador mais algumas vezes ressaltando a cumplicidade.

Chega a ser surpreendente como o diretor traduz de forma sublime a melancolia (”Subestimamos a tristeza dos outros”, diz Paul em certo momento, mostrando delicadamente a maneira correta de se agir perante um afogado em desilusão), o amor familiar (quando o pai desfere um tapa no rosto do filho, que ri, mas não por desrespeito, e sim por entender o quanto aquilo que ele falou bateu forte no peito do velho) e os romances desfeitos (em um emocionante dueto ao telefone de Paul com Anna – Joana Preiss –, sua ex) em um filme que teria tudo para se tornar uma bobagem na mão de muitos outros diretores, mas que nas mãos de Christophe Honoré torna-se grande arte.

Ps. Sobre a resposta a pergunta do primeiro parágrafo, bem, é óbvia, não é mesmo.

Leia também:
- “Os Sonhadores”, por Marcelo Costa (aqui)
- “Bonecas Russas”, por Marcelo Costa (aqui)

“Shine a Light”, o filme

April 6th, 2008

“Shine a Light”, de Martin Scorsese – Cotação: 2/5

Os Rolling Stones são a melhor banda de rock de todos os tempos. Polêmico, né. Na verdade, lendo essa frase, acho que nem eu acredito nela, pois o rock é um gênero tão abrangente que dar a apenas uma banda tal título seria injustiça com, no mínimo, mais umas cincoenta outras bandas. Porém, se é complicado – por diversos motivos – dizer que os Stones são a melhor banda de todos os tempos, por outro lado é muito fácil cravar que ninguém bate Mick Jagger e cia em cima de um palco, mesmo hoje em dia. “Shine a Light”, filme quase documentário de Martin Scorsese, prova isso nas três primeiras músicas. E ainda traz mais quinze… de “bônus”.

Gravado em dois dias (29/10/06 e 01/11/06) no histórico Beacon Theatre, um pequeno teatro nova-iorquino, o que por si só já atiça a curiosidade de qualquer fã de rock acostumado a trombar com o grupo em estádios lotados quando não praias, “Shine a Light” registra uma apresentação atípica dos Stones na turnê “A Bigger Bang”. Enquanto os shows da turnê – incluindo o que passou pelo Brasil – traçavam um painel histórico de quarenta anos de rock and roll através de um repertório balanceado que reunia canções de 1965 a 2005, “Shine a Light” não. A música mais “nova” do repertório escolhido é “She Was Hot”, do álbum “Undercover”, de 1983, ignorando completamente material mais “recente”.

Desta forma, das dezoito canções reunidas no filme, o álbum mais privilegiado foi “Some Girls”, que completa trinta anos em 2008, representado por quatro canções. Detonado na época de seu lançamento e atropelado pelo movido punk, “Some Girls” aparece em “Shine a Light” através da faixa título, “Shattered”, “Just My Imagination (Running Away with Me)” (um cover do Temptations) e do country “Far Away Eyes”, que rende um dos grandes momentos do filme, quando Keith, viajando em um solo de guitarra, esquece de voltar ao microfone para fazer a segunda voz, e é resgatado por Mick Jagger, que divide com ele o microfone.

Mais do que qualquer outra coisa, “Shine a Light” serve para corroborar aquilo que todo mundo está careca de saber: Mick Jagger coordena tudo nos bastidores. É ele quem acerta os detalhes de gravação com os auxiliares de Martin Scorsese. É ele quem decide o repertório, chegando ao ponto de Ron Wood, a meia hora de começar o show, não ter a mínima idéia do que vai tocar. “Estou curioso para saber qual vai ser o repertório de hoje”, comenta em certo momento. Keith, por sua vez, encarnou de vez o Capitão Jack Sparrow, com broche pirata, moedas amarradas em seus fios de cabelo e aquele jeitão desconcertado que fez a fama do personagem de Johnny Depp. 

O show é impecável. A iluminação é deslumbrante e as dezesseis câmeras espalhadas pelo pequeno teatro conseguem dar a sensação de que o espectador está na beira do palco. Sem contar a grande sacada de Scorsese, um recurso simples que faz o filme/show crescer muito: no momento em que algum instrumento está em close, o som dele pula na frente dos demais, e ganha destaque. Soa estranho nos primeiros minutos, mas funciona de forma brilhante na seqüência, dando ao espectador a perfeita noção do que o músico está fazendo naquele momento dentro da canção.

Musicalmente, a banda é um arraso. Mick parece um garoto de dezoito anos, correndo, pulando, rebolando. E cantando muito. “Jumping Jack Flash”, “Start Me Up” e “Brown Sugar” rendem ótimos momentos, mas são as participações especiais fazem a diferença. Jack White parece uma criança de tão feliz ao dividir violões e vocais com Mick Jagger em uma pungente versão de “Loving Cup”, do clássico “Exile on Main St.”. Christina Aguilera  não fica atrás em “Live With Me”, mas o grande momento acontece em “Champagne & Reefer”, única canção inédita do show, uma cover dos Stones para o original de Muddy Waters. Buddy Guy entra com guitarra e um vozeirão que arrepia. No fim, ganha a guitarra de Keith Richards. Aliás, outro grande momento do show é do guitarrista, que assume o vocal em “You Got the Silver” (de “Let it Bleed”) e “Connection” (do “Between the Buttons”).

Se como show, “Shine a Light” soa sensacional, como filme, no entanto, deixa a desejar. Martin ocupa-se primeiramente de dar ao espectador os bastidores da produção, e essa opção funciona até o momento que Bill Clinton entra em cena. Um dos motivos da realização do show no teatro era levantar fundos para uma ONG à qual Clinton é ligado. Ele se apresenta para a banda, diz que seus sobrinhos vão assistir ao show, tira fotos com o grupo, e atrasa a apresentação esperando pela presença da sra. Dorothy, mãe de Hillary. Quando ela chega, Mick não perdoa e a brinda com sarcasmo: “Que bom que você chegou, Dorothy”. Keith também sacaneia: “Bill deu uma de Bush”. Então o ex-presidente vai ao microfone, e diz que está abrindo um show dos Stones pela segunda vez. A primeira foi quando fez um discurso atentando para as preocupações climáticas (!?!). Al Gore perdeu mais uma.

Nos intervalos entre uma canção e outra, Scorsese resgata entrevistas com a banda em imagens dos anos 60 até hoje em dia. Drogas, prisões, o futuro da banda, as mesmas perguntas de sempre e até um debate de Jagger, nos 70, com dois bispos, um advogado e um juiz servem apenas como curiosidade, mas não acrescentam nada ao filme. Dezenas de livros contam sobre as prisões da banda. O despreparo dos jornalistas e a vida extenuante das turnês já foi retratada com muito mais eficiência em outros filmes (citando dois: “Meeting People Is Easy”, do Radiohead, e “No Direction Home”, sobre a vida de Bob Dylan, este último dirigido pelo próprio Scorsese). Se como registro de um show, “Shine a Light” é perfeito, como documentário é fraco. Scorsese conseguiu colocar o público praticamente dentro do palco dos Stones, mas não quebrou a redoma de vidro que cerca o grupo. E por mais que as imagens e o som sejam sensacionais, show de rock é para se ver ao vivo, não no cinema.

Leia também:
- “Shine a Light - o Disco”, dos Rolling Stones, por Marcelo Costa (aqui)
- “A Bigger Bang”, dos Rolling Stones, por Marcelo Costa (aqui)
- “Rolling Stones in Rio”, por Marcelo Costa (aqui)
- “Live Licks”, dos Rolling Stones, por Marcelo Costa (aqui)

“2 Dias em Paris”

March 31st, 2008

“2 Dias em Paris”, de Julie Delpy - Cotação: 2,5/5

O Brasil leva a fama pelo resto do mundo de ser o país do samba, mesmo que o ritmo esteja longe de ser característico e representativo de capitais dispares como São Paulo, Porto Alegre, Goiânia, Brasília e Rio Branco. A França – no geral, e Paris em particular – carrega a fama de ser a terra dos amantes. Em uma das cenas de “Bonecas Russas” (seqüência de “Albergue Espanhol”), um dos estudantes ingleses, assim que pisa em Paris, pára uma garota na rua e pergunta: “Você quer dormir comigo”. A garota o deixa falando sozinho enquanto ele comenta com o amigo que sempre sonhou fazer isso, afinal, a fama das francesas ultrapassa fronteiras.

Em seu segundo filme como diretora, a atriz (roteirista e produtora) Julie Delpy amplifica essa fama apoiando em duas vertentes do cinema cômico: a comédia romântica tradicional (e tagarela, cujo grande influência de Delpy é “Annie Hall”, de Woody Allen) e a comédia de costumes, mostrando que Paris tem muito a ensinar a Jack (Adam Goldberg), um decorador de interiores que namora uma fotógrafa francesa, mas não sabe falar quase nada de francês. Delpy usa até a cena clássica do estrangeiro que vai pedir um lanche em uma rede de fast foods (tipo McDonalds) para ilustrar a disparidade das línguas e culturas.

Julie Delpy interpreta Marion, francesinha que vive em Nova York e namora o americano Jack. O casal completou dois anos de relacionamento, e decidiu reascender “a chama do amor” fazendo uma viagem a Europa. A primeira parada foi Veneza, mas tudo deu errado. Jack, que é hipocondríaco, teve uma gastrite e o casal passou mais tempo brigando do que namorando. Na seqüência eles decidem passar dois dias em Paris, cidade natal de Marion, e a comédia de erros aumenta progressivamente conforme os minutos passam na cidade francesa. Os pais de Marion são um artista plástico cujas obras têm forte apelo sexual (ou só apelo sexual) e uma ex-hippie que traz no currículo um breve affair com Jim Morrison (os dois, pai e mãe de Delpy na vida real).

Algumas características da personalidade francesa são jogadas no colo do espectador com uma sinceridade e comicidade que encantam. A própria atriz parece rir verdadeiramente em várias passagens de seu filme, como nas brigas homéricas no meio da rua que parecem que vão terminar em assassinato, mas acabam em abraços e risos; a valorização da língua pátria, que causa desconforto em Jack, além de render dezenas de cenas hilárias; as greves e a política além da tal fama de cidade romântica, cuja piada no cartaz do filme já desvenda uma das tramas paralelas da história: “Ele sabia que Paris era a cidade dos amantes, mas não sabia que eram todos dela”.

Como produtora, diretora e roteirista, Julie demonstra que aprendeu muito com a dobradinha “Antes do Amanhecer” e “Antes do Por-do-Sol” (neste último, inclusive, ela assina o roteiro com o também ator Ethan Hawke e o diretor Richard Linklater), e é impossível não relacionar “2 Dias em Paris” com a segunda película, já que boa parte de ambos os filmes tratam de relações/discussões amorosas por ruas parisienses. Porém, por mais que o romance seja o ponto de início e fim de “2 Dias em Paris”, grande parte de sua graça se deve ao choque de culturas, fato valorizado devido a atriz transitar com desenvoltura entre as duas línguas, o que lhe permite “brincar” com Bush tanto quanto tirar sarro da fixação sexual dos franceses.

Quando a comédia de costumes dá o tom do filme, “2 Dias em Paris” diverte e entretém. Porém, quando procura discutir o amor, o filme se perde de tal forma que Delpy precisa costurar tudo no final com uma longa narrativa em off, deixando a impressão de que ela tentou fazer em um filme tudo aquilo que Richard Linklater fez em dois. Falta foco para a cineasta, que tenta desenvolver várias subtramas sem se ater diretamente a uma (o choque de línguas, a dificuldade dos relacionamentos, a liberdade sexual, as questões políticas), mas não consegue uni-las a contento no final. Esse deslize na edição e no fechamento, no entanto, não desmerece “2 Dias em Paris”, que abre a possibilidade de uma boa carreira atrás das câmeras para Julie Delpy, e pode ser tão cômico quanto educativo. Para rir e aprender.

Leia também:
- A França, por Flávia Ballvé
- “Antes do Por-do-Sol”, por Marcelo Costa

“A Era da Inocência”

March 26th, 2008

 “A Era da Inocência”, de Denys Arcand – Cotação 3,5/5

Primeiro, do começo: esqueça a tradução idiota da distribuidora nacional: “L’Âge des Ténèbres”, na verdade, é “A Idade das Trevas”, período histórico que se seguiu às invasões bárbaras que puseram fim ao decadente Império Romano. Ou seja, com “A Idade das Trevas”, o cineasta canadense Denys Arcand fecha uma trilogia informal – sobre a crise da civilização moderna – iniciada em 1986, com “O Declínio do Império Americano”, e que teve continuação em 2003, com “As Invasões Bárbaras”, que levou o Oscar de Filme Estrangeiro.

Jean-Marc LeBlanc (Marc Labrèche), personagem central do terceiro capítulo desta epopéia dos tempos modernos, é um ouvidor municipal infeliz com a profissão, casado com uma workaholic que não larga o celular um segundo sequer (e com quem ele não transa faz mais de dois anos), com duas filhas que desconhecem sua existência de tão afundadas que estão em games e iPods, vivendo em uma sociedade cujo caos tornou-se a regra através de congestionamentos, abandono político e médico, cerceamento social e epidemias, entre outras pequenas tragédias.

Com exceção de dois amigos do trabalho (ele, negro; ela, lésbica), LeBlanc não pode contar com mais ninguém, por isso se entrega aos sonhos em que encarna um escritor cujo primeiro livro foi premiado, um político, um rei, um carrasco e até um samurai. Nos sonhos, que surgem em qualquer momento (no banheiro, no trabalho, no trânsito), LeBlanc está sempre acompanhado por belas mulheres, seja a repórter voluptuosa que após a entrevista quer sexo “aqui e agora”, seja uma famosa modelo que o visita regularmente, seja a amiga lésbica do trabalho ou mesmo sua chefe, que surge ali para ser punida.

São dois cenários grotescos e deliciosamente interessantes que se intercalam na tela: o primeiro, real e crudelíssimo, exibe um homem que se perdeu completamente da civilização, que por fim perdeu-se de si mesma estampando em manchetes de jornais pessoas que ateiam fogo no próprio corpo enquanto outras falam ao celular sem nem prestarem atenção ao que acontece ao lado. O segundo, irreal e cômico, tenta saciar anseios sexuais, afetivos e de justiça enquanto critica o politicamente correto, a overdose de tecnologia, o “trabalho escravo” voluntário e a busca do verdadeiro eu em fantasias surreais (esta última numa paródia hilária de “O Senhor dos Anéis”). Enquanto a vida real é tratada com tintas de desespero e melancolia, a vida irreal é puro sarcasmo e prazer.

Denys Arcand usa a ironia como se ela fosse um pesado taco de beisebol, e manuseia o objeto com extrema destreza, desferindo fortes pancadas no baixo ventre, na cabeça e, por fim, no coração de seu público. Trafegando entre dois mundos, seu personagem Jean-Marc LeBlanc é um retrato perfeito das contradições da sociedade moderna. O ceticismo de Arcand para com a modernidade – o qual “As Invasões Bárbaras” amplifica de forma sublime apoiado pela desilusão política – encontra momentos de genialidade cinematográfica em “A Era da Inocência”.

O cineasta canadense provoca seu público de forma brilhante tentando arrancar dele algum senso de humanidade enquanto sabota as instituições sociais (família, casamento, trabalho, mídia) e só tropeça no trecho final do filme, quando sugere que a saída da idade das trevas é o recolhimento, um retiro espiritual, a negação da modernidade. E mesmo nesse tropeço (ou principalmente por ele), Arcand consegue dar ao seu público um momento interessante de questionamento: a culpa do caos é pessoal ou social? Há como separar um de outro? Se o social está falhando, o pessoal deve agir pensando em si mesmo? Se sim, qual seria a solução: voltarmos ao passado ou nos prepararmos para o futuro?

Para o canadense e seu personagem sonhador vitimizado, o recolhimento parece ser a solução. Seria uma premissa válida se LeBlanc não fosse tão conformado. Ao perder-se no tempo, no casamento, em sua própria história (optando por sonhos ao mundo real), LeBlanc representa um ser pré-histórico que lê Fernando Pessoa (”Livro do Desassossego”), foi vice-presidente do grêmio no colégio, participou de passeatas, greves, e tentou, mas não conseguiu mudar o mundo. Por fim, calou-se e desistiu até escolher o retiro ao caos, o pessoal ao social, opção umbiguista que revela – por trás de um verniz culto – muito mais medo do futuro do que apreço pelo passado e propõe uma questão crucial : o problema é o mundo ou a pessoa? Por que? Pense bem: a resposta pode traduzir o seu futuro, caro leitor.

Ps. A foto acima é de uma das melhores cenas cômicas de “A Era da Inocência”, compatível a cinco filmes inteiros do Adam Sandler…

Mais uma paixão…

March 13th, 2008

Sou apaixonado desde sempre por Ingrid Bergman (já comentei que vejo “Casablanca” ao menos uma vez por ano desde os meus 15 anos?). Audrey Hepburn é algo mais recente, de uns dez anos pra cá, depois que assisti “Quando Paris Alucina”. A loirinha Jean Seberg, que invadiu meu coração na semana passada, é totalmente novata em meus romances cinéfilos. Essa garota da foto, no entanto, caminha sobre a minha alma já faz uns quinze anos. Fui matar saudade hoje. Ahhhh, as francesas…