texto de Alexandre Lopes
fotos de Guaya
vídeos de Bruno Capelas
Num tempo em que boa parte dos festivais brasileiros parece montada por planilhas – os mesmos nomes, os mesmos patrocinadores, os mesmos tipos de bandas – o festival paulistano 5 Bandas segue apostando em algo cada vez mais raro: descoberta. No último domingo (26) de abril, a Casa Rockambole recebeu mais uma edição do evento e reafirmou sua função de radar da cena alternativa nacional, misturando apostas recentes, veteranos cultuados e artistas que ainda circulam longe do óbvio.
Sem firula, sem pirotecnia e sem necessidade de parecer maior do que é, o 5 Bandas (organizado pelo site Minuto Indie com apoio do Selo Rockambole e, nesta edição, com parceria do festival goiano Bananada) entende que festival também pode ser simples e efetivo: cinco shows bons, um público curioso e a sensação de que algo legal está acontecendo agora.

A abertura ficou com Vera Fischer Era Clubber, quarteto de Niterói formado por Crystal Duarte (voz), Malu (baixo), Pek0 (beats) e Vickluz (teclas). O nome já entrega uma parte da proposta: humor, zoeira, som de pista. Entre synthpop dançante, pulsação meio soturna e ironia pop com muito sotaque carioca, a banda mostrou repertório tresloucado e presença de palco imediata. Crystal conduziu a pista improvisada da Rockambole como quem sabe exatamente o efeito que causa, enquanto refrões como o de “Quero Que Se F*da” surgiam prontos para o coro coletivo. Foi engraçado ver a plateia se acotovelando no calor da pistinha depois do show curto de no máximo 45 minutos, enquanto evocava frases das músicas tocadas. Se ainda existe hype justificável, pode ser que esteja por ali. Vamos ver o que vem no próximo lançamento, prometido ainda para este ano.

Às 17h03, entrou em cena a Raça, presente na primeira edição do festival, em 2019, e agora de volta em clima de despedida: a banda anunciou recentemente o encerramento das atividades. O grupo de Popoto Martins Ferreira (vocal, guitarra, teclado), Thiago Barros (baixo, vocais), Novato Calmon (guitarra) e Santiago Mazzoli (bateria) fez show de quem entende o próprio repertório e sabe o peso do momento. Trocas de instrumentos, arranjos tortos e canções que sempre pareceram frágeis na mistura de emocore, indie e rock triste costuraram a apresentação. “Cores de Cabelo”, “Dez”, “Sossego”, “É pra Copiar?”, “Simpatizo”, “Mal, Mal”, “Animais”, “Pálida”, “Azul” e “Hoplias” lembraram por que a banda ocupou um lugar no coração de uma parcela dos indies paulistanos. Quando Popoto perguntou quem ali já conhecia o grupo e percebeu que uma boa parte estava ali pela primeira vez, resumiu sem querer o espírito do festival: reunir antigos cúmplices e novos convertidos.

Depois veio o Taxidermia, duo de Jadsa e João Milet Meirelles, responsável talvez pelo show mais imprevisível e impressionante do dia. Entre névoa, luzes verdes e vermelhas, vozes processadas, graves densos e ruídos orgânicos, o projeto transformou a Rockambole num clube estranho e hipnótico. Dub, house, funk e percussões orgânicas apareciam em colagens e manipulações sonoras quase surreais e dançantes de João, enquanto Jadsa brincava com a voz e o microfone carregado de delay, como se fosse uma Chaka Khan psicodélica com gingado baiano. “Autobatuque”, “Glass Eye”, “3 P.M.”, “Clarão Azul”, “Aguenta”, “Lava” e “Tremedêra” soaram como música eletrônica feita por quem ainda gosta de experimentar e surpreender. O transe era tão intenso que Jadsa só parou para dar uns goles de cerveja e explicar a formação do duo no finalzinho do set.
Antes do quarto show, Fabrício Nobre subiu ao palco para falar do retorno do Festival Bananada em Goiânia e reforçar pontes entre cenas – gesto coerente para um festival que sempre pareceu interessado em circular boas ideias, não só atrações.

“Boa noite, nós somos o Black Drawing Chalks, de Goiânia! Bem vindos ao Martim Cererê de São Paulo”. Com essa apresentação, os goianos assumiram o palco com o set mais roqueiro do festival. Talvez por aí também a plateia tenha mudado: surgiram rostos mais velhos e a energia de quem reencontra uma fase inteira da vida que se perdeu ali há uns dez anos. Victor Rocha (guitarra, vocal), Braz Torres Neme (guitarra), Denis de Castro (baixo, vocais) e Douglas de Castro (bateria) aproveitaram para despejar garage rock, stoner e urgência em pedradas como “Rising Sun in the Purple Sky Morning”, “The Legend” e outros clássicos do repertório. “Casa cheia e tocar no meio da festa é o trem mais bom que tem”, resumiu o vocalista. Era a frase certa para um show que lembrava que guitarras altas ainda significam algo para muita gente.

Mas se ainda faltava alguma grande catarse no festival, ela veio com Sophia Chablau. Velha conhecida do 5 Bandas, a artista retornou após tocar em 2024 com a Besouro Mulher e encontrou uma plateia já posicionada esperando por ela muito antes do horário marcado. Às 20h32, subiu ao palco de óculos escuros, acompanhada pela banda Uma Enorme Perda de Tempo (Téo Serson no baixo, Theo Ceccato na bateria e Vicente Tassara na guitarra e teclados), para conduzir um set que unia letras bem sacadas, romances tortos e ansiedade geracional.
“Fora do Meu Quarto”, “Idas e Vindas do Amor”, “Pop Cabecinha”, “Delícia/Luxúria” e “Segredo” foram cantadas como repertório de banda clássica, embora pertençam ao presente. Entre uma taça de vinho aos pés do palco e comentários irônicos, Sophia contou que entra em estúdio em três semanas para gravar disco novo, previsto somente para 2027. Ao avisar que o show estava acabando, ouviu vaias birrentas e um espontâneo “teu cu, Sophia” vindo de um adolescente na plateia. Difícil imaginar uma resposta melhor. Às 21h22, tentou terminar oficialmente a apresentação. Mas na prática, não conseguiu: o público pediu bis. Sophia voltou ao microfone e puxou novamente o refrão de “Segredo” à capela antes de sair de cena, deixando a casa inteira cantando sozinha.
No fim das contas, o Festival 5 Bandas segue valioso por insistir no que tantos eventos desistiram de oferecer: contexto, curadoria e algum grau de risco. Enquanto boa parte do circuito se acomoda entre nomes seguros, reuniões de catálogo e nostalgias previsíveis, o 5 Bandas ainda prefere olhar principalmente para o presente e para a frente. Em tempos de line-ups montados para não desagradar ninguém, isso virou quase um gesto de ousadia.
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.
