texto de Bruno Capelas
Quantos festivais cabem num festival? No caso do Lollapalooza 2026 – ou seria “lequepallooza”? –, são muitos. Há um evento só para quem é fã de divas pop. Outro só para quem gosta de rock, ou só de rap, ou até mesmo do k-pop recém-chegado ao Lolla. Um terceiro, frequentado por menos gente, começa com um sol de rachar e tem algumas das melhores bandas independentes do Brasil. E há, claro, quem esteja ali por apenas um ou dois shows e prefira passar o dia colado na grade ou, ainda, numa fila de uma ativação – isso para não falar em quem vai só para dar close com um lookinho ou compra o ingresso para passar o dia dançando no palco eletrônico.
Para quem faz parte de algum desses grupos, a experiência de viver um evento múltiplo pode ser curiosa. Os otimistas podem olhar pelo viés de louvar a diversidade e a convivência debaixo de sol forte. Os pessimistas, por sua vez, podem apontar a disparidade na curadoria, a distinção de públicos (pode um fã de k-pop curtir a Papangu?) e a falta de identidade do festival. Mas, em sua 13ª edição, talvez a identidade do Lollapalooza seja justamente a falta de identidade, com atrações que se intercalam como num feed algorítmico, sempre com alguma publicidade no meio.

A menção insistente ao marketing não é à toa. Todo mundo precisa ganhar dinheiro, é verdade, mas a existência de não uma, mas duas “praças de ativações” torna a jornada de um Lollapalooza ainda mais cansativa para quem se dispõe a trocar de palcos em busca das melhores atrações, num sobe-e-desce-ladeira incessante. Mais que isso, os estandes de marcas também são obstáculos num cenário em que o fluxo de pessoas já é um desafio natural. Mas se quem paga o táxi é quem manda no show, faz parte do processo conviver com isso no capitalismo tardio.
Em termos de estrutura, é preciso dizer ainda que este foi um Lollapalooza de muitos acertos. Os banheiros são, em geral, limpos, bem distribuídos e bem montados. A estrutura é confortável, ainda que pese a falta de sombra num festival que começa às 12h. Há hidratação gratuita – claro, a qualidade da água poderia ser melhor, mas só sua existência evita o pior. Há uma grande variedade de opções de comida e bebida – o ponto negativo na média é apenas a existência da cerveja Flying Fish (uma radler, com limão siciliano, recém-lançada por aqui pela Ambev) como alternativa às american lagers de cada dia. E, querendo ou não, o Lollapalooza ainda segue sendo um dos festivais mais acessíveis para quem usa o transporte público, ainda que problemas de escoamento tenham acontecido nos três dias.

Ao falar de música, também há aqui acertos e erros. Há anos, há quem fale em uma crise de headliners, mas o Lollapalooza 2026 provou que há novas opções disponíveis no mercado para encher pistas afora. Talvez soe estrambótico pensar em Sabrina Carpenter e Chappell Roan para um festival que tem origens no rock alternativo, mas esse movimento já havia sido feito anteriormente por outro evento que carrega a marca de ditar tendências: o Primavera Sound espanhol de 2025, que tinha as duas novas divas ao lado de Charli XCX como cabeças de cartaz.
Com resultados variados, como se verá a seguir, a presença das artistas pop (e também de Tyler, the Creator) é uma boa notícia para quem não aguenta mais ver uma variação entre Strokes, Metallica, Arctic Monkeys e… The Killers no topo dos lineups. Mas vale o aviso: pela multidão que atraiu no secundário palco Samsung, Lorde claramente teve sua popularidade sobredimensionada (talvez por culpa dos baixos números de seus trabalhos mais recentes).

Em 2026, o Lollapalooza também acerta na programação de artistas brasileiros: a escalação contendo “novatos” como Jadsa, Papangu, Oruã, Varanda e Cidade Dormitório dá frescor ao festival e justifica que muita gente chegue cedo em Interlagos, enquanto a presença de nomes como o Mundo Livre S/A dá certa justiça histórica a grandes bandas do rock nacional.
O pecado, porém, está no miolo, na escolha de bandas médias internacionais que ajudam a transformar um show ou dois numa experiência festivaleira de fato. São três erros, na verdade. O primeiro é apostar em bandas que estão mais que cansadas de vir ao País e não têm muito o que apresentar de novo – e o Interpol é o melhor exemplo. Outro é trazer nomes interessantes sem contexto – caso do Cypress Hill, que funcionaria melhor no mesmo dia de Tyler. E o terceiro é apostar mais nos números de streaming ou em hits do TikTok do que no que se faz no palco, o que resulta em shows fracos como os de Men I Trust, TV Girl ou Lewis Capaldi.

Pode parecer exagero, mas a verdade é que a irrelevância de um artista pesa no valor do ingresso – ainda mais para um festival que se dispõe a cobrar R$ 500 por uma meia-entrada diária ou R$ 1340 no pacote de estudante para os três dias. Não está fácil para ninguém e os custos de realizar um festival só pioram num universo de conflitos e incerteza global, mas cada um pode fazer sua parte.
Ainda assim, quem foi ao Lollapalooza pode ser feliz em Interlagos – especialmente se não esqueceu de passar protetor solar. Ao longo de três dias, não foram poucos os bons shows, especialmente para quem se dispôs a sair de sua bolha e encarar algo diferente. Seria humanamente impossível assistir a tudo que o Lollapalooza oferece. Por isso, o que o Scream & Yell traz na cobertura a seguir são polaroides de alguns dos principais shows (para o bem e para o mal) entre os dias 20 e 22 de março. São amostras de um festival que já está marcado no calendário do fã brasileiro de música, mas que ainda pode evoluir muito. Pé na tábua.
Lollapalooza 2026: convidados apontam os melhores shows do festival

Viagra Boys – sexta-feira, 15h50 – Palco Samsung
Deve haver algo na água da Suécia que faz o país gerar bons frontmen – algo que os brasileiros sabem bem, dada a quantidade de vezes que Pelle Almqvist e os seus Hives têm passado por aqui. Se depender do que fizeram no Lollapalooza, os compatriotas do Viagra Boys já podem preparar os documentos para tirar seu CPF. Em sua primeira passagem pelo Brasil, após cancelarem a vinda no Primavera Sound 2022, o sexteto fez uma apresentação enérgica, conduzida pelo vocalista Sebastian Murphy. Ele pode não ter o humor de Almqvist, mas compensa com uma presença corporal intensa: sem medo de exibir o torso tatuado (e gastar litros de protetor solar nos trópicos), Murphy é o dínamo que conecta a usina sonora da banda à energia da plateia, como se nota em “Man Made of Meat” ou “Slow Learner”. Tal como outro grande sueco – Dennis Lyxzén, do Refused –, o vocalista do Viagra Boys também pede “Palestina livre” e canta contra “os malditos fascistas” que estão no mundo em “Troglodyte”. O público responde com uma roda punk que se equilibra entre o pogo e a pista, às vezes mais lembrando um carrossel do que um liquidificador. Faz sentido: às vezes, importa mais o contato entre os corpos do que o impacto. Além disso, é notável que a verve punk do grupo vem ganhando contornos dançantes, graças à flauta e ao saxofone de Oskar Carls, que brilha na grudenta “Uno II”. É com Carls como protagonista, aliás, que o show vira um “poperô do demônio” em sua reta final, com uma execução de treze (!) minutos de “Research Chemicals” (assista a um trecho acima). Não é que esse remédio faz bater uma onda forte?

Blood Orange – sexta-feira, 16h55 – Palco Budweiser
Escalado para substituir Lola Young, Blood Orange também estreou no Brasil graças ao Lollapalooza – a rigor, o début aconteceu na véspera, no Cine Joia, para uma plateia repleta de fãs. Não foi o que ocorreu em Interlagos: com a pista tomada por aficionados por Sabrina Carpenter, Dev Hynes fez um show climático, grooveiro e cool, talvez até cool demais para empolgar os ouvintes da americana. O inglês bem que tentou: virtuose, em menos de 15 minutos ele já tinha passeado por guitarra, baixo, piano e violoncelo – neste último, trouxe o momento mais surpreendente da apresentação, em uma releitura pungente de “How Soon Is Now?”, dos Smiths. Na sequência, Hynes se “recolheu”: evidenciando a faceta de produtor, o britânico abriu espaço para Eva Tolkin e Ian Isiah soltarem a voz, num resultado mais exatamente bonito do que impactante. Ainda assim, foi mais interessante do que boa parte do dia. Afinal, naquela tarde o Scalene já havia feito uma apresentação tétrica no palco Flying Fish. Já o Interpol, que tocou após Hynes em sua sétima (!) passagem pelo Brasil, apostou no mais do mesmo: das 13 canções apresentadas em Interlagos, dez vieram de “Turn On The Bright Lights”, “Antics” e “Our Love to Admire”, a trinca inicial do grupo. Seria OK, não fosse o fato de que há dois anos, os nova-iorquinos tocaram aqui celebrando os dois primeiros discos, já bastante marcados por uma dinâmica repetitiva. Até mesmo na estética a banda segue igual, com Paul Banks sustentando o topete de sempre – embora a passagem do tempo pareça lhe aproximar de um Josh Homme sem whey protein.

Deftones – sexta-feira, 20h10 – Palco Samsung
Entre os frequentadores do Lollapalooza, a diversidade de públicos é uma das características mais apreciadas – tal como o Norvana, o festival parece querer unir todas as tribos. Mais ou menos: de um lado, é uma boa ideia mercadológica para lotar o Autódromo. Do outro, a proposta pode gerar uma curadoria cheia de disparidades sonoras, além de contribuir para certo senso de falta de identidade. Na sexta-feira, o choque é perceptível do ponto de vista cromático, entre o preto dos ouvintes de Deftones e os tons pastéis dos fãs de Sabrina Carpenter, com figurinos entre o rosa-bebê e o azul-calcinha. Questões estéticas à parte, fato é que o Deftones fez um show impressionante no palco Samsung. Muito desse efeito se deve ao vocalista Chino Moreno: ele é incapaz de se manter parado e está disposto a se conectar com qualquer infeliz que esteja distraído durante o show, como bem definiu o ficcional Jeff Bebe de “Quase Famosos”. Até mesmo quando precisa ficar imóvel, ao tocar guitarra, ele é capaz de comandar dezenas de milhares de pessoas a bater palmas. Tão interessante quanto observar Moreno, porém, é contrapor o “novo” e o “velho” Deftones, num repertório que deu espaço tanto para o “shoegaze contemporâneo” do recente “Private Music”, de 2025 (quarto disco mais votado do Melhores do Ano Scream & Yell), quanto para canções pesadas dos clássicos “Around the Fur” e “Diamond Eyes”. É curioso: apesar da faceta mais contemplativa ter sido abraçada pela juventude do TikTok, é nela que residem os momentos menos engajados do público – diferentemente do que acontece nos momentos mais metal, com ampla participação popular. Não foi um show para iniciantes, mas pouco importa: só estava ali quem queria ver o Deftones mesmo.

Sabrina Carpenter – sexta-feira, 21h30 – Palco Budweiser
O Lollapalooza é, inegavelmente, um festival de vocação pop: por mais que sua origem seja no rock alternativo, aqui no Brasil o evento sempre esteve conectado com as “AM e FM do elevador”. Sendo assim, parece tão surpreendente quanto sintomático dos nossos tempos que, até Sabrina Carpenter subir no palco, tão poucos refrões pop tenham sido executados na sexta-feira em Interlagos. Felizmente, a loirinha (como é chamada carinhosamente pelos fãs) veio para corrigir isso em sua enésima passagem pelo país – ela já esteve aqui em 2017, 2019 e duas vezes em 2023 (no MITA e abrindo para Taylor Swift). Musicalmente, o show segue a cartilha de referências do pop clássico: há muito de ABBA, da primeira Madonna (em especial, a de “Material Girl”) e de Dolly Parton no som de Sabrina. Há canções dançantes, há melodias grudentas e até mesmo um momento de voz & Jazzmaster à beira do palco com um guitarrista galã (“Because I Liked a Boy”). É bem-feito, fácil de gostar – e o público adora, chamando-a de “gostosa” (“that means hot?”, responde a cantora) e cantando “Sabrina, eu te amo”. É na estética, contudo, que Sabrina parece pertencer a seu tempo: à primeira vista, a cantora parece apenas revisitar o visual de American Bombshell, com toques ora de cowgirl, ora de pin-up, ora de nostalgia anos 1970 (em especial, pelos vídeos divertidos que ajudam a matar tempo entre uma troca e outra de figurino). Fosse só isso, Sabrina seria uma presa fácil para o olhar masculino – e também um desperdício comercial: afinal, o homem hétero gosta mesmo é de falso nove e escanteio curto, não de divas pop. Assim, o que Sabrina faz é um deslocamento interessante: seja pela ultrafeminilidade (na maquiagem, na cor das roupas e nas coreografias) ou por um jogo de dominância, ela repele os homens – e atrai gays e garotas, que realmente gosta e gastam com o que ela tem a oferecer. Pode parecer discurso acadêmico, mas é fácil de entender quando a cantora solta a voz no delicioso hit “Manchild” – em que diz preferir homens incompetentes – ou, ainda, em “Bed Chem”, quando leva para a cama dois rapazes, mas ambos se beijam antes de atacá-la. E, claro, há até o momento em que os homens são totalmente dispensados: em “Juno”, que parte do roteiro de Diablo Cody para falar de posições sexuais, ela repete o mise-en-scene de algemar uma garota bonita e “prende” a cantora Luisa Sonza – embora a jogada da indústria tenha saído pela culatra, com a gaúcha sendo vaiada por muitos dos presentes. Ao final de 90 minutos, é preciso dizer que trata-se de um concerto que não mudará vidas. Há falhas, claro: Sabrina às vezes parece carecer de ritmo entre uma faixa e outra e o repertório ainda depende muito apenas de dois discos. Ainda assim, pelo caráter deliciosamente pop, é um show que diverte e agrada, tanto quanto chupar um Sundae cheio de calda de chocolate.
Jadsa – sábado, 12h45 – Palco Budweiser
“O que existe é o mesmo ovo de sempre, chocando o mesmo novo. Muito prazer”. Foi assim, citando Itamar Assumpção, que Jadsa subiu ao palco Budweiser para se apresentar a um novo público. A força de Jadsa ao vivo não é exatamente um segredo – em 2025, ela venceu o prêmio de melhor show pela APCA –, mas é inegável que, mesmo tocando cedo, uma aparição no Lolla pode mudar a carreira de um artista de patamar. Com o sol castigando a moleira, a baiana agarrou a oportunidade com unhas e dentes, abrindo o show com algumas de suas melhores canções – “Tremedeira”, “Big Bang” e a deliciosa “Sem Edição”, que chegou com improvisos percussivos, o baixo marcante de Pedro Bienemann e um refrão pronto para a geração Instagram. Os fãs de Chappell Roan, que já tomavam seu lugar junto à grade, aprovaram usando os leques de arco-íris, numa sinestesia digna das texturas coloridas que Jadsa pinta com guitarra e voz. Outro momento marcante foi “Sol na Pele”, cujo apelo cálido conquistou o público. Para quem já conhece Jadsa, nada de novo sob o sol: foi o melhor show do sábado. (Na sequência, quem também fez bonito foi a Varanda, de Juiz de Fora (MG): apesar do choque entre a postura de palco descontraída e as letras introspectivas, o grupo fez um show que começou morno e terminou em alto nível. Destaque ainda para a boa participação de Dinho Almeida, dos Boogarins. Outro concerto bacana da tarde de sábado foi o da Cidade Dormitório: comemorando 10 anos, a banda de Sergipe trafegou entre a psicodelia e o rock triste, sem esquecer do groove à la Alabama Shakes.)
Foto em Grupo – sábado, 15h50 – Palco Samsung
Imagine o leitor que um acidente nuclear aconteceu no Brasil – nada impossível no país do césio-137. Em vez de uma larga contaminação, o cataclisma foi mais prosaico, culminando no sumiço de todos os registros da MPB. A exceção? Os álbuns da carreira solo de Nando Reis – veja bem: sem Marisa Monte, sem Cássia Eller, sem Titãs, só a carreira solo! Pois bem: o Foto em Grupo é a banda que emergiria depois dessa catástrofe. Formada por Ana Caetano (Anavitória), João Ferreira (Daparte), Pedro Calais e Zani Cardoso (ambos do Lagum), a “superbanda de fofo pop” fez no palco do Lollapalooza uma de suas primeiras apresentações – aliás, foi no anúncio do lineup que o grupo revelou sua existência ao mundo. Um incauto poderia dizer que suas canções são inofensivas, mas é a estética que ofende. De um lado, o grupo almeja a pose de roqueiro radical com uma visão… pueril – em “Te Odeio”, Bolsonaro, Trump e os red pill são equiparados à palheta que cai dentro do violão ou à análise obsessiva de “interações sociais numa noitada”. Do outro, quando busca ser pop, é obviamente açucarado demais. E quando tenta apostar em uma cover esperta (“Top Top”, dos Mutantes), acaba amplificando justamente o que não é – ainda mais pela memória da versão de Cássia Eller em seu “Acústico MTV”. Claro que, em Interlagos, o grupo mostrou domínio de palco: afinal, Ana e Pedro há anos enchem casas de shows pelo país – e ninguém passa tantos anos na profissão sem aprender um truque ou outro. Mas o resultado é vazio, tanto quanto um dos principais versos de uma de suas canções: “morrer deve ser chato demais”. Senhor, por que me abandonaste?
Cypress Hill – sábado, 18h – Palco Samsung
Lembra aquele papo de disparidade estética do Lolla? Pois é: não há prova melhor disso do que a programação do sábado, que contrapunha a diva pop Chappell Roan e o “som FM de dentista” de Lewis Capaldi ao dubstep de Skrillex. No meio disso tudo, como quem foi esquecido no churrasco, estava o histórico grupo de rap latino-californiano Cypress Hill – e a sensação em Interlagos é de que os fãs preferiram conferir os shows solo do grupo em Curitiba, em Porto Alegre e na Audio. Não que a baixa adesão do público tenha intimidado B-Real, Sen Dog, Eric Bobo (percussão) e DJ Lord, substituto em turnê de DJ Muggs. Alternando inglês e espanhol, eles fizeram a plateia jogar as mãos para o alto, apuraram os graves e defumaram o palco com aquela que deixou o Eric bobo, em meio a hinos como “Hits from the Bong”, “I Wanna Get High” e “When the Shit Goes Down”. Os iniciados no repertório até poderiam reclamar que faltaram mais versões direto de “Los Grandes Éxitos en Español” – o que viria bem a calhar em meio à vaga latina que o Brasil vive atualmente. Foi difícil, porém, botar reparo tamanha a energia do grupo, que encerrou sua apresentação com “Bombtrack”, dos amigos do RATM, e o hit “(Rock) Superstar”. (Quando tudo acabou, o palco ao lado foi ocupado por TV Girl, que é um cara, enquanto o Men I Trust, que tocou na sexta, é liderado por uma mulher. Ambos fazem shows bem mornos, e nem uma cover de “Femme Fatale” ajudou o TV Girl. Assim, para completar o clima de baile de favela, a única sequência possível foi conferir o set de Mu540 (lê-se “musão”) no palco Perry: potente, o DJ fez um set que alternou as mais brabas do funk putaria com petardos nostálgicos, incluindo um “aquecimento” funk à base de “Young Folks”, de Peter, Bjorn & John, e citações de “I Follow Rivers” (Lykke Li) e “I Don’t Know Why” (Moony, direto do “Summer Eletrohits 5”). Uma delícia).
Chappell Roan – sábado, 21h30 – Palco Budweiser
De todas as frases que poderiam ser gritadas no show de uma diva pop, uma das mais improváveis – ao menos até a manhã daquele sábado – era “foda-se o Flamengo”. Mas ela apareceu justamente na boca das jovens fãs de Chappell Roan, em referência a um imbróglio entre celebridades que só mesmo o roteirista do Brasil poderia escrever. Mais que isso: a frase ajuda a expor diversas fraturas que existem no pop contemporâneo. Chappell já ganhou Grammy, já teve música em trilha de novela (“Super Graphic Ultra Modern Girl” era o tema de Maria de Fátima na recente versão de “Vale Tudo”) e tem hits que, não fosse o tempero sáfico, poderiam muito bem tocar em rádios easy-listening de qualquer grande cidade brasileira – como “Good Luck Babe”, que aparece justamente neste contexto no filme “Bugonia”. Ainda assim, e a despeito da posição de headliner num dos maiores festivais do País, Kayleigh Rose Amstutz (seu nome de batismo) era uma ilustre desconhecida para muita gente até o segurança-gate. Ao vivo, não é difícil entender o porquê: se Sabrina Carpenter ainda flerta com o imaginário masculino heterossexual, Chappell está totalmente apartada dele. Sua persona em cena, entre a princesa pop e a drag queen, constrói um universo em que os homens são meramente decorativos. É um clube exclusivo – mas que está longe de ser para poucos: apesar de liderar o único dia sem ingressos esgotados do Lolla, é Chappell quem mais preenche o gramado do palco Budweiser. Ao construir essa atmosfera de intimidade com ares de festa do pijama, a americana acaba deixando alguns buracos no caminho. O palco em formato de castelo, por exemplo, acaba mais por esconder a cantora do público do que dar destaque a ela. A interação com a audiência é ora travada, ora protocolar. Em vez de apresentar a banda no final, para consagrá-la, Chappell o faz já na quarta música, como quem lê uma lista de supermercado. E musicalmente, apesar de ter boas ideias que atravessam o country (“The Subway”, digna de Shania Twain), a new wave, o hard rock e o power pop (“Hot to Go” é puro Cheap Trick coreografado), a execução é feita de forma atabalhoada – seja na salada de ritmos em “Femininomenon”, seja na versão canhestra para o clássico “Barracuda”, do Heart. Os fãs, claro, balançam os leques e correspondem às coreografias, mas há um descompasso entre a devoção que sai da plateia e a entrega que se vê do palco. Pode ser apenas uma circunstância específica, um dia ruim, porém a sensação é que faltou vontade a Chappell. Parece que nem tomou café da manhã direito, pô.
Papangu – domingo, 12h45 – Palco Flying Fish
Depois de dominar as paradas mundiais e ganhar um Oscar, o k-pop finalmente chegou ao Lollapalooza. A estreia oficial foi no sábado, com o Riize, mas a grande expectativa era mesmo pelas Katseye, girl group global formado num reality show, escalado para fechar a noite no palco Flying Fish. Formada por muitas crianças e adolescentes (e alguns pais pacientes), a base de fãs chegou logo cedo a Interlagos e se postou diante da grade com seus indefectíveis leques. Antes do k-pop, porém, o público teve de conhecer o hermetocore da Papangu. Direto de João Pessoa para o mundo, o sexteto viveu no Lollapalooza um momento de transição. De um lado, completava uma volta olímpica após a consagração com “Lampião Rei” – lançado em 2024, o disco levou o grupo a tocar fora do Brasil e chamar a atenção pela mistura de rock progressivo, heavy metal, música nordestina e jazz fusion. Do outro, o show em Interlagos também serviu como pontapé inicial para o ciclo de “Celestial”, trabalho que o grupo lançará em agosto pela Deck – no palco, o primeiro single, “Calado (De Olho)”, apontou um caminho bem interessante. Entre o presente e o futuro próximo, o grupo fez um de seus melhores espetáculos recentes: com tempo contado em 45 minutos, a Papangu limou solos exagerados e fez execuções enxutas e firmes para hinos recentes como “Boitatá”, “Oferenda no Alguidar” e “São Francisco”, sem deixar de lado os vocais guturais, os teclados marcantes e as galinhas de borracha – estas, distribuídas em fartura à plateia. O público retribuiu balançando os leques e gritando “uh, é boitatá!”, num dos coros para ficar na história do festival.
Mundo Livre S/A – domingo, 14h45 – Palco Budweiser
Todo ano, uma banda instituição do rock brasileiro tem sua vez no Lollapalooza. Em 2026, foi a hora do Mundo Livre S/A, que subiu ao palco com um leve atraso após questões técnicas. Não que isso tenha sido um problema: em quase 60 minutos, Fred Zero Quatro e seus companheiros enfileiraram hits e mais hits. Didaticamente, o grupo abriu os trabalhos com uma sequência do seminal “Samba Esquema Noise” (1994): o manifesto “Manguebit”, “Rios (Smart drugs), pontes e overdrives” e o delicioso balanço de “Musa da Ilha Grande”. Depois, veio a incrível “Pastilhas Coloridas”, agradando tanto à turma do leque que dava até para imaginar, por um instante, que os acessórios arco-íris eram uma homenagem à bandeira de Pernambuco. Com guitarras ao alto, o grupo enveredou ainda por “Compromisso de Morte” e “Computadores Fazem Arte” – esta última surgiu vigorosa, num arranjo punk capaz de retomar o espírito garageiro e a força da mensagem de Fred, décadas antes de qualquer GPT. Ainda no caráter premonitório, outra boa sacada foi a inclusão no repertório de “Um Míssil Desgovernado” – “a gente não tá sendo oportunista não, essa é de 2000”, brincou Fred sobre a canção de “Por Pouco” (2000). Do mesmo álbum, o hit “Meu Esquema” apareceu numa versão leve, com o vocalista enfatizando a influência do aniversariante Jorge Ben e trocando o bolsonarista Rivaldo por “Rebeca Andrade mandando um voo”. O espírito de Ben também veio na suingada “Bolo de Ameixa”, enquanto “O Mistério do Samba” deu uma piscadela a Tom Zé. Na prova dos nove, o Mundo Livre S/A fez um grande show em espírito de festival, agradando os mangueboys e arregimentando novos convertidos para a igreja do Manguebit. Amém!
Oruã – domingo, 16h55 – Palco Flying Fish
O que há numa letra? A banda carioca Oruã sabe bem: apenas um “M” a separa do cantor homófono, filho do traficante Marcinho VP e atual foragido da Justiça. Do anúncio do lineup à hora da apresentação, muita gente confundiu o grupo de Lê Almeida (guitarra), João Casaes (synths), Bigu Medine (baixo) e Ana Zumpano (bateria) com o rapper carioca e preferiu não se aproximar. Azar de quem não foi ao palco Flying Fish: tocando para uma plateia praticamente formada por fãs do Katseye, o quarteto aproveitou a “golden hour” para iluminar o fim de tarde de domingo com seus sons psicodélicos. Portando uma Giannini Jazzmaster, Lê Almeida foi o indie guitar hero que nós merecemos, enquanto Ana traçava ritmos mântricos e Casaes disparava camadas e mais camadas de seus instrumentos. A cena ficava ainda mais divertida ao se olhar para o gramado, onde os jovens ouvintes de k-pop ensaiavam coreografias para mais tarde. Outro toque bacana na apresentação foi a participação de Caxtrinho em “De Se Envolver”, puro Jorge Ben em samba esquema noise. Pouco antes do final, um gracejo de Almeida resumiu o espírito da coisa: “Esse aqui é o nosso episódio em Acapulco” – e quem dera que um show desses pudesse ser tão reprisado no Lollapalooza quanto Chaves na tevê. (Pouco tempo depois, no palco principal, o Turnstile fez uma apresentação potente, cheia de rodas de pogo e sinalizadores, mas que deixou dúvidas: em meio aos experimentos com sintetizadores e as melodias mais pop de “Never Enough”, será que o grupo será capaz de manter sua veia punk? Ou cederá aos apelos da indústria fonográfica? Cenas dos próximos capítulos… em breve).
Lorde – domingo, 20h10 – Palco Samsung
A cada quatro anos, um fenômeno se repete no Brasil. Copa do Mundo? Eleição? Não: um show da cantora Lorde, raro caso de artista que trouxe todas as suas turnês para o país. Não que ela se lembre: logo no começo do show, a neozelandesa simplesmente ignorou o show do Primavera Sound 2022 ao dizer que “tinha muito a contar” para o público desde 2018. “Nós crescemos juntos. Eu era um bebê, agora sou a irmã mais velha”, disse a cantora ao público que superlotou o palco Samsung – a ponto de fazer muita gente considerar, antes mesmo do show começar, que Lorde é quem deveria ter sido a headliner do dia. Parte do “rebaixamento” se deve aos dois últimos discos da cantora: lançados em 2022 e 2025, respectivamente, “Solar Power” e “Virgin” foram pontos abaixo da média para a artista tanto em crítica como em popularidade. Com tempo enxuto, Lorde deu tratamento díspar aos álbuns em São Paulo: as canções de “Solar Power” foram limadas do repertório, enquanto a obra mais recente serviu como espinha dorsal do setlist. À primeira vista, parecia forçação de barra – ainda mais quando a cantora executou apenas uma versão reduzida (e cantada em uníssono) de seu primeiro sucesso, “Royals”. Mas havia um sentido: “aos 29 no retorno de Saturno”, o que Lorde tece ao longo de uma hora e meia é um espetáculo minimalista do ponto de vista visual e sonoro, porém repleto de significado. Longe dos cenários elaborados de Sabrina e Chappell, ela se vale de poucos aparatos (o ventilador de “Buzzcut Season”, a caixa de som em “Man of the Year”, uma cueca Calvin Klein em “Current Affairs”) e arranjos repletos de programação para revisitar sua própria jornada com maturidade. A execução de “Supercut”, em que a cantora canta sobre uma crise obsessiva enquanto corre numa esteira, é um tour de force, numa aula de combinação entre som e imagem – ou como diriam os jovens, é “absolute cinema”. A canção também dá início a uma sequência arrasadora saída de “Melodrama”, com “The Louvre” (“as melhores canções são aquelas que eu escrevi apaixonada por alguém – e essa é uma delas”) e “Liability”. “Tenho medo do mundo que temos – e achei que ia ser diferente quando eu tinha 20 anos. Mas quando sento aqui, vejo muita beleza e tenho fé”, disse a cantora, antes de dar licença ao público para chorar com a canção, talvez uma das melhores baladas deste século de ilusões perdidas. Aplicada estudiosa da teoria do W, Lorde engata duas do disco mais recente com ares performáticos (“Man of the Year” e “If She Could See Me Now”) antes de entregar ao público seu golpe final. Ao interpor o single “What Was That?” com as antigas “Team” (de 2013) e “Green Light” (de 2017), a neozelandesa não está só enfileirando petardos. Ela mostra que se sentir confuso, ansioso, apaixonado ou perplexo não são apenas sentimentos restritos à adolescência, mas que fazem parte da vida de qualquer um, num ciclo fadado a se repetir. Depois de acelerar no sinal verde, Lorde explica mais uma vez porque foi chamada de “o futuro do pop” por David Bowie: ela deixa o palco, abraça o público e sobe numa pequena plataforma no meio da pista para encerrar o show com “Ribs” – e é assombroso pensar que uma garota de 16 anos escreveu um verso como “it drives you crazy getting old” (“te enlouquece envelhecer”). É de arrepiar – e é por causa de momentos como esse que seguimos nos apaixonando pela música e gastando a sola do sapato para ir a shows: pela expectativa de sentir algo como o que se sentiu ali em Interlagos. Por um instante, todos fomos infinitos de novo.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.
Fotos: Equipe Lollapalooza
– Blood Orange, Chappell Roan, Jadsa, Mundo Livre S/A de @diegopadilha;
– Oruã, Papangu de @dopamineblur
– Cypress Hill de @oxidany
– Fotos 2 e 3; Foto em Grupo de @victorcarvalhoph
– Fotos 4 e 5 de @gabrielnafoto
– Sabrina Carpenter de @alfredoflores
– Viagra Boys, Lorde e Deftones, reprodução Youtube









