entrevista de Alexandre Lopes
Lançado em 1994, “Whiskey for the Holy Ghost” é um daqueles discos que assombram quem se permite atravessar sua névoa espessa de espiritualidade torta, letras enigmáticas e instrumentação melancólica. Segundo trabalho solo de Mark Lanegan, o álbum quase não viu a luz do dia, sabotado por recaídas, bloqueios criativos, sessões interrompidas por falta de verba e o perfeccionismo exaustivo de seu autor. Mas é justamente essa turbulência que lhe confere uma força crua, confessional e impossível de ignorar.
Concebido como um desdobramento das ideias minimalistas de seu trabalho de estreia solo (“The Winding Sheet”, de 1990), “Whiskey” elevou as ambições sonoras e poéticas do vocalista do Screaming Trees. Cercado por amigos como J Mascis (Dinosaur Jr.), Dan Peters (Mudhoney), Tad Doyle (TAD) e Mark Pickerel (ex-Screaming Trees), o cantor apostou em arranjos sutis, teclados e instrumentos acústicos, mergulhando ainda mais fundo no blues, folk e em imagens religiosas distorcidas – com influências assumidas de Van Morrison e da literatura de Cormac McCarthy. Mas o que deveria ser uma gravação rápida se estendeu por quatro anos, entre mudanças de estúdio, obsessões pelos takes perfeitos e períodos de instabilidade emocional. Em um dos momentos mais extremos, um Lanegan frustrado com os registros tentou jogar as fitas master do disco em um rio – e só foi contido graças à intervenção do produtor Jack Endino.
É esse universo que o jornalista Leonardo Tissot (também colaborador do Scream & Yell) se propõe a explorar em “Uma Dose para o Santo – Deus e o diabo nas gravações de Whiskey For The Holy Ghost” (disponível aqui). Mais do que um relato de bastidores, o livro é também uma reflexão sobre o legado artístico de Lanegan: um músico cuja obra transcende o rótulo imposto de “grunge” e continua a ecoar décadas depois. Com ilustrações do quadrinista Diego Gerlach (que também já colaborou com o Scream & Yell), o título sai pela Editora Barbante e está em pré-venda no site da editora.
A obra integra a coleção Sound + Vision, dedicada a mergulhos narrativos e visuais em álbuns essenciais da música moderna, e é o primeiro livro a se concentrar exclusivamente no conturbado “Whiskey for the Holy Ghost”, revelando novos detalhes sobre sua gênese. Tissot costura entrevistas exclusivas com personagens centrais da trajetória de Lanegan, como o multi-instrumentista e produtor Mike Johnson, além dos engenheiros de som Jack Endino e John Agnello e Gary Lee Conner, ex-guitarrista do Screaming Trees. Nas entrelinhas, investiga as camadas de fé, culpa, dor e redenção que atravessam as canções do disco.
Nesta entrevista ao Scream & Yell, Leonardo Tissot fala sobre o processo de pesquisa, os bastidores do livro, a importância (ainda subestimada) de Mike Johnson na fase inicial da carreira solo de Mark Lanegan e o desafio de revisitar uma das obras mais densas e inquietantes da música alternativa dos anos 1990. Confira a entrevista abaixo!
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Antes de tudo, como nasceu sua ligação com o Mark Lanegan e, mais especificamente, com o “Whiskey for the Holy Ghost”?
Leonardo Tissot: Acho que, como quase todo mundo nos anos 90, conheci primeiro o trabalho dele com os Screaming Trees. Os clipes do “Sweet Oblivion” rodavam bastante na MTV, mas era difícil achar o disco na minha cidade. Acabei conseguindo comprar o CD (uma cópia importada) ali por 1997 ou 1998. Nem sei se esse disco saiu em edição nacional. Deve ter saído, mas em quantidade bem limitada. Só fui saber sobre a carreira solo dele um pouco depois, pesquisando na internet. Lembro que o título “Whiskey for the Holy Ghost” me atraiu imediatamente, mas de forma meio inexplicável. Alguma coisa me dizia que um disco com esse título só poderia ser muito bom. Consegui baixar na internet, provavelmente no Napster ou algum outro software da época (foi mal, Mark!). Achei o álbum incrível e comecei a ir atrás dos outros trabalhos solo dele. Mas eu já comprei o disco oficial, viu? Não me processem.
O livro é o primeiro a focar diretamente em um disco específico do Lanegan, mesmo depois de duas autobiografias escritas por ele próprio. Considerando que o processo de gravação dele foi bem tortuoso, errático e deixou poucos registros literais disponíveis, quais foram os maiores desafios de investigar um disco assim? Houve alguma apuração mais complicada ou descoberta inesperada ao longo do caminho?
Meus pontos de partida foram justamente os livros escritos pelo próprio Lanegan, especialmente o “I Am the Wolf” e o “Sing Backwards and Weep”, nos quais ele fala um pouco sobre as gravações do “Whiskey”. Mas são livros, especialmente o segundo, que falam muito da vida pessoal dele, da vivência com as drogas e tal. E eu queria fugir um pouco disso. Queria fazer um livro mais focado no trabalho dele, na criação musical. Também li outros livros escritos sobre ele que ainda são inéditos no Brasil e revirei a internet atrás de material sobre o disco, como críticas e reportagens da época, em arquivos de revistas como Rolling Stone e Spin. A partir do momento em que esgotei essas fontes, fui atrás de pessoas que trabalharam com ele na produção do álbum. Eu já havia entrevistado o Mike Johnson, que assina a produção do disco com o Lanegan, em 2023, e ele contribuiu bastante com informações sobre essa época em novos contatos que fiz com ele. Também consegui conversar com os engenheiros de som Jack Endino e John Agnello, que trabalharam bastante no disco. Eu queria muito ter conseguido conversar com os outros dois engenheiros de som que trabalharam no álbum, o Terry Date e o Ed Brooks, mas infelizmente eles não deram retorno às minhas tentativas de contato. Mas acho que o material que consegui foi suficiente para não desistir de fazer o livro. Se um dia eles toparem falar, a gente lança uma edição ampliada (risos). Em relação a descobertas, duas coisas me intrigavam muito: a obsessão do Lanegan com imagens religiosas – que aparecem muito ao longo do disco, desde a capa até as letras – e alguns títulos de música em espanhol, como “Borracho” e “El Sol”. Não posso afirmar com 100% de certeza que desvendei esses mistérios – até porque só o Lanegan poderia confirmar e, com o falecimento dele, essa possibilidade não existe mais. Mas acho que cheguei muito perto.
Ao longo da pesquisa, teve algum depoimento ou detalhe que te fez enxergar o Lanegan de outra forma? Alguma ideia ou entrevista interessante que não coube no contexto e teve que ficar de fora do livro?
Lanegan sempre foi muito admirado pela voz, mas acho que passei a valorizar ainda mais o trabalho dele como compositor. As letras desse disco são um tanto herméticas, em comparação com o restante da discografia dele. É muito difícil afirmar que ele está falando de alguma coisa específica, a não ser em canções como “House a Home”, que são um pouco mais óbvias. Mas, ainda que o sentido literal das composições seja incompreensível ou que as letras sejam abertas a interpretações variadas, as imagens que ele pinta por meio das palavras são muito bonitas. Ele era um leitor voraz, o que explica o gosto por livros complexos como “Meridiano de Sangue”, do Cormac McCarthy, uma das fontes de inspiração admitidas por ele nas composições de “Whiskey”. Não chega a ser surpresa que ele tenha se tornado um compositor de mão cheia, usando referências desse nível. Sobre o material que ficou de fora, acho que usei as informações mais relevantes apuradas com as fontes. Mas algumas coisas escaparam. Por exemplo: eu consegui contato com uma das cantoras que fazem vocais de apoio no disco, a Krisha Augerot. Num primeiro momento ela topou falar comigo, mas depois parou de responder aos meus contatos. Não entendi a razão. Também tentei levantar a quantidade de cópias vendidas do álbum com a gravadora Sub Pop, mas não tive retorno.

O livro também valoriza o papel do Mike Johnson na construção do som dessa fase inicial da carreira solo do Lanegan. Você concorda que as contribuições dele ainda são subestimadas pelo grande público na discografia do cantor?
Sem dúvida. Acho que podemos afirmar com tranquilidade que a carreira solo do Lanegan não teria seguido o mesmo caminho sem o Mike Johnson. Cheguei a falar pra ele que o mais justo seria que esses discos tivessem sido lançados com o nome da dupla na capa, porque o Lanegan não teria conseguido gravar seus cinco primeiros álbuns sem esse apoio. Ou teria gravado algo bem diferente. Quando ouvimos os discos solo do Mike, fica muito evidente que a sonoridade dos discos do Lanegan vinha muito dele. Acredito que o ouvinte mais casual não se liga muito nisso, mas o mérito do Mike Johnson é inegável.
Como surgiu a parceria com a Editora Barbante e a coleção Sound + Vision? Como foi o processo de colaboração com o Diego Gerlach nas ilustrações?
Eu já conhecia o trabalho da editora por ter lido o primeiro livro da coleção, escrito pelo editor e sócio da Barbante, Alessandro Andreola, sobre o disco “Lost in the Dream”, do The War on Drugs. Acho que o Alessandro também conhecia meu trabalho como jornalista. Acabamos nos conhecendo pessoalmente em 2023, porque eu ia entrevistar o Adam Granduciel, líder do The War on Drugs, que veio tocar no Brasil. O Alessandro pediu para eu entregar uma cópia do livro pro Adam, o que fiz com o maior prazer. Acabamos assistindo ao show juntos. Também trocamos algumas ideias para o livro de entrevistas do Scream & Yell que vai sair em breve pela Barbante, e que tem um texto meu. Há cerca de um ano, ele me mandou uma mensagem do nada, perguntando se eu teria interesse em escrever um livro da coleção. Na hora confesso que fiquei assustado. Achei que não teria capacidade de assumir um projeto desse porte, mas acabei topando. Depois que decidimos o disco que seria abordado no livro, pensamos em diversos ilustradores, mas concordamos que o Gerlach seria o nome ideal. Eu já acompanho o trabalho dele como quadrinista há algum tempo e achava que o traço dele combinaria perfeitamente com a história que queríamos contar. Gostei muito de “Alvorada dos Corações Macabros” e ali eu entendi que ele também conhecia o universo em que a história do Lanegan estava inserida. Fiquei muito feliz e honrado por ele ter topado o convite e mais ainda com o resultado do trabalho, que ficou incrível. Tentamos interferir o mínimo possível nas ilustrações. Trocamos algumas ideias, mas é tudo criação dele. Até porque não faria sentido chamar um cara com o talento do Gerlach para o trabalho e ficar se intrometendo no processo dele.

Você sente que, com o tempo, o Lanegan passou a ser mais reconhecido fora do universo grunge? Ou ainda existe um desconhecimento sobre a amplitude da obra dele? Como você enxerga esse momento atual de revisitar os legados musicais dos anos 1990 e 2000?
O Lanegan sempre foi muito prolífico, então eu diria que sim. Deve ter muita gente que nem sabe que ele surgiu na época do grunge, até porque a banda mais popular da qual ele fez parte nem foi o Screaming Trees, e sim o Queens of the Stone Age. A parceria dele com a Isobel Campbell, do Belle & Sebastian, também ampliou o público dele. E, por ter uma voz incrível, muita gente de diferentes estilos convidou ele pra cantar, desde o Moby até o Slash e a banda portuguesa Dead Combo. Aqui no Brasil ele criou um público cativo, tendo vindo ao país seis vezes. Algumas pessoas dizem (e eu concordo) que o cenário musical hoje é muito diferente de 30 anos atrás. Hoje o mercado é menos massificado e existem muito mais nichos, o que torna artistas e estilos atemporais, ainda que para grupos menores de pessoas. A minha filha de 14 anos tem amigas da mesma idade que ouvem rock dos anos 90. Então, eu vejo com muita naturalidade essa coisa de revisitar legados musicais passados. Até porque música boa fica pra sempre.
Este é o seu primeiro livro. Houve alguma obra brasileira ou internacional que te serviu como referência em termos de estilo, estrutura ou abordagem para escrever? Existe outro projeto em vista, tipo um artista, disco ou período que você gostaria de explorar futuramente?
Acho que as principais referências foram os próprios livros da Sound+Vision, já que a coleção tem uma estrutura bem específica que os autores devem seguir – a quantidade de capítulos equivale à quantidade de faixas do disco em questão, todos os livros são ilustrados etc. Desses, diria que “O Evangelho Segundo Odair”, do meu xará Leonardo Vinhas, foi minha principal referência. Mas imagino que o texto transpareça outras influências jornalísticas. Minhas escolas foram a revista Bizz e o próprio Scream & Yell. Também sempre gostei de ler biografias de bandas. A minha maior preocupação foi tornar o livro compreensível para o leitor, já que, com essa estrutura que a coleção exige, não foi possível apresentar os acontecimentos em ordem cronológica. Mas eu e o Alessandro, editor da obra, nos esforçamos bastante para que a leitura flua com naturalidade. Outro desafio importante foi tentar não deixar o livro muito chapa branca. É claro que, se eu escolhi escrever sobre esse álbum, é porque gosto muito dele. Mas tentei ao máximo trazer uma visão crítica, sem ficar só elogiando ou puxando o saco. Sobre novos projetos, não tenho nada planejado por enquanto. Antes de decidir escrever sobre o “Whiskey”, eu apresentei outras possibilidades para a editora. Pode ser que alguma delas aconteça no futuro. Mas por enquanto vou manter em segredo.
Para encerrar: qual é a sua faixa favorita de “Whiskey for the Holy Ghost”. E por quê?
Aí tu me complica, Lopes… Eu acho o disco inteiro incrível. Mas gosto muito de “Borracho”, tanto pelo instrumental raivoso quanto pela letra dilacerante. Também tenho um apreço especial por “Pendulum”, por ser a única faixa do disco que vi o Lanegan apresentar ao vivo num show dele em São Paulo, em 2012.
Ouça o álbum de Mark Lanegan na integra abaixo
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.
