Faixa a faixa: Alvaro Lancellotti apresenta seu disco “Arruda, Alfazema e Guiné”

texto de Renan Guerra
faixa a faixa por Alvaro Lancellotti

Alvaro Lancellotti tem uma ampla carreira musical. Foi um dos fundadores e produtor musical do Fino Coletivo, banda com quatro álbuns de estúdio bem recebidos por crítica e público. Em trabalho solo lançou “O Tempo Faz a Gente Ter Esses Encantos”, em 2012 e “Canto de Marajó”, em 2016. Em seus trabalhos como compositor, cantor e produtor musical, Álvaro já teve canções gravadas por Marcos Valle e Maria Rita, entre outros, além de uma série de parcerias ao lado de nomes como Rogê, Wado, Davi Moraes, Domenico Lancellotti (seu irmão), Roque Ferreira e Mateus Aleluia, além de seu pai, Ivor. Agora, Álvaro celebra o lançamento de “Arruda, Alfazema e Guiné”, disco que parte de um processo amplo do artista em busca de uma conexão ampla com seus processos religiosos, conforme ele explica: “Toda essa safra de canções do disco foi composta durante um período em que intensifiquei minha busca por autoconhecimento. Fiz minha iniciação na religião de Ifá e uma formação em instrutor de yoga, me aprofundando nos estudos dos textos Védicos. Ao mesmo tempo, também estava construindo o show do ‘Pra Gira Girar’ em celebração a obra dos Tincoãs. Essa vivência de aprender a cantar como os Tincoãs cantavam, mergulhando na obra do grupo, foi também muito inspiradora”.

Nos últimos anos, Alvaro foi um dos idealizadores e produtores do projeto “Pra Gira Girar”, uma celebração a’Os Tincoãs. O espetáculo que canta a obra do grupo baiano vem se apresentando desde 2019, ao lado de músicos e colaboradores como o produtor e baixista Kassin e o cantor e pianista Zé Manoel. Além disso, em solo português, onde Alvaro hoje reside, idealizou o projeto “Roda de Santo”, show de celebração em formato de roda, onde canta pontos de Umbanda e também cantigas autorais. O projeto tem residência em Lisboa e percorre a Europa levando essas cantigas em formação que conta apenas com tambores, vozes e intervenções eletrônicas, sem acompanhamento harmônico. Todos esses caminhos desaguam em “Arruda, Alfazema e Guiné”, disco de sonoridade embalada pelas cantigas de terreiros, com fortes referências ao disco “Krishnanda, Tropicália Experimental”, de Pedro Santos, em seu único trabalho de estúdio, lançado em 1968, resultando em uma safra de doze canções diversamente ligadas à espiritualidade afro-brasileira. Outros discos citados por Lancellotti como referência são “Terreiros e Atabaques” (1957), de J. B. de Carvalho; “Candomblé” (1969), de Joãozinho da Goméia; e o “Heitor dos Prazeres e sua Gente” (1955) de Heitor dos Prazeres.

Contando com as participações de Mateus Aleluia, Zé Manoel, Michele Leal e Alan de Deus, “Arruda, Alfazema e Guiné” é uma experiência sonora que dialoga com todos os processos pessoais de Alvaro Lancellotti e que transforma isso em canções universais sobre o sagrado e o terreno. Para desvendar esses processos do disco, Lancellotti preparou um faixa a faixa detalhando esse disco para o Scream & Yell. Confira abaixo:

01) Abre Caminho – Faz parte de uma safra de canções em que faço uma levada cíclica de violão, que costumo apelidar de mantra-canções. Arruda, Alfazema e Guiné é feito e estruturado a partir dessas levadas, desse tipo de composição. Na faixa estão praticamente todos os músicos que estarão presentes ao longo do disco. E aqui já se nota a interferência estética do Mário Caldato que permeia o disco todo. Essa letra se refere ao dia da minha iniciação em Ifá.


02) Maneira de Ver – Fiz essa canção a caminho do primeiro dia de gravação do disco. Inclusive foi a primeira que gravamos as bases. Na alegria de ir para o estúdio me veio essa composição. Na letra estou cantando sobre sensações que vieram com os ensinamentos e a prática de yoga. Destaco o arranjo lindo de sopro feito pelo Diogo Gomes inspirado no Tábua de Esmeralda, de Jorge Ben. Ele escreveu arranjos para instrumentos de sopro de madeira para se aproximar dos arranjos de cordas do Tábua. Os arranjos do Diogo para esse disco são magníficos.


03) A Calma – Comecei a fazer essa canção já imaginando a presença de seu Mateus. Foi incrível tornar isso realidade e vê-lo cantando aquilo que imaginei ele fazendo enquanto dedilhava os primeiros acordes mântricos. Também é de uma safra de letras muito inspirada nos ensinamentos da yoga. Na parte instrumental acontece a fusão que eu tanto gosto, um “sincretismo musical”. Além disso, seu Mateus criou outros arranjos de vozes que somaram-se aos arranjos do Pedro Costa. Ele recitou um poema em Iorubá com toda a força que tem a sua presença.


04) Canção de Paz – Minha primeira e única parceria com Fernando Temporão até aqui. Fiz a melodia desse afoxé e mandei pra ele letrar porque queria gravá-la no disco e gosto muito da maneira que o Temporão escreve. É uma canção de amor. Destaco a presença de Davi Moraes nessa faixa. Sua levada de guitarra inconfundível, a conversa que ele criou entre guitarra elétrica e guitarra portuguesa, e ainda as levadas percussivas que ele fez batucando no corpo de um violão são incríveis. Davi é um dos grandes músicos do Brasil.


05) As Folhas Secas do Pajé – Uma inspiração que veio do fascínio que tenho pelos rituais da Umbanda, especificamente pelo ritual da defumação e suas cantigas. Sempre me encantou ir aos terreiros e sentir o cheiro da defumação junto com os cantos e tambores. Guto Wirtti além de tocar baixo elétrico e acústico no disco todo, nessa faixa tocou piano, e ficou lindíssimo. Ele é um músico extraordinário.


06) Templo de Luz – Essa é uma parceria com Alan de Deus. Foi com Alan, Michele Leal e Pedro Costa que estudei a obra dos Tincoãs para criar o show do Pra Gira Gira, em celebração aos Tincoãs. Essa faixa e esse arranjo tem inspiração em Tincoãs. Pedro Costa é meu grande companheiro de aventuras musicais desde o primeiro disco solo em 2013. Produz os meus discos comigo, toca vários instrumentos, cria arranjos, faz edição. A participação dele nessa faixa e em todo disco é muito grande.


07) O Canto lá da Pedra – Assim como Pedro Costa, o Adriano Sampaio é outro parceiro, dedicado aos tambores desde o meu primeiro disco também. Gosto muito da construção percussiva que ele criou para essa faixa, assim como em todo disco. Essa é mais uma da safra de mantra-canções feita a partir de uma levada de violão dedilhada. Escrevi sobre minha vivência no bairro onde fui criado, no Leme (RJ). É sobre minha ligação com o mar, com a praia, com a pedra… Um lugar de onde é difícil querer sair. Abro a faixa fazendo a respiração vitoriosa (Ujjāyī Prāṇāyāma), muito usada nas práticas de Ashtanga e que sonoramente lembra o som do mar.


08) Eru – Eu já tinha essa levada de violão e a melodia pronta. Mandei para o Bruno Capinan fazer a letra. Fiquei fã dele quando escutei o disco “Divina Graça”. Bruno escreveu sobre esse caboclo chamado Eru, entidade das matas de Diamantina na Bahia. Para o desfecho da letra convidei meu irmão Domenico.


09) Diambas e Dendê – Escrevi a letra com intenção de usar um vocabulário de palavras que se fazem presentes no nosso dia a dia, mas que não são palavras de origem portuguesa. A maior parte da letra vem de línguas africanas. Gosto muito da sonoridade e do swing presente nesse vocabulário. O arranjo de Diogo para os sopros é muito bonito e marcante.


10) Poço Negro – Mais uma que conversa com as cantigas de Umbanda. Fiz essa canção a caminho da cachoeira brincando com meu filho Valentino e minhas afilhadas Tete e Nina. Convidei a Michele Leal pra cantar comigo. Ela foi fundamental para o amadurecimento do meu canto durante o processo de estudo dos Tincoãs. É uma cantora incrível!


11) De Luanda a Aruanda – Canção minha e do meu parceiro mais constante, meu irmão Domenico. Aqui também tive o privilégio de gravar com esse artista maravilhoso da minha geração, o Zé Manuel. Nos conhecemos também no projeto Pra Gira Girar. Quando Zé aceitou meu convite não quis que nada mais fosse gravado na faixa. O Zé e o piano dele não precisam de mais nada.


12) Ando de Bando – Canção minha e do meu pai Ivor lancellotti. É um desfecho pro disco, o resumo de tudo aquilo que vem antes. Agradecendo e saudando as entidades que guiam minha caminhada e me guiaram também para construir esse disco. Meu pai e meu irmão Domênico (que tocou percussão, bateria e MPC nesse disco) são a minha escola de música mais importante.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava



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