texto de Marcelo Costa

“Um Culto ao Velvet Underground num Salão de Forró da Baixada Fluminense”, de Filipe Albuquerque (Editora Sapopemba)
Companheiro do saudoso podcast O Resto é Ruído e colaborador das revistas Rolling Stone e Billboard, o jornalista Filipe Albuquerque reúne 13 textos seus nesta compilação deliciosa que mapeia mais de 15 anos (de 2009 a 2025) de bons serviços dedicados ao jornalismo pop. Divertido e repleto de momentos impagáveis, “Um Culto ao Velvet Underground” é daqueles livros que podem abastecer “produtores de conteúdo” (aka “copiadores de conteúdo”) de TikTok por meses com cortes e curiosidades, com um diferencial: enquanto o cenário esgota curiosidades sobre MPB e grandes nomes do rock nacional, Filipe foca no underground nacional, principalmente o noventista, para falar sobre uma banda que tinha tudo para ter estourado (produção de Liminha, clipe com Caetano, integrantes que acompanharam a Legião Urbana na estrada, boa rotação na MTv), mas não vingou, ou então conversar com Marco Rimas (em texto publicado na revista TPM), um imitador de Morrissey (“Eu não o imito, eu o represento”, pontua Marco Morrissey), ou, ainda, rememorar uma noite na Boca do Lixo paulistana com Cogumelo Plutão e a Banda Carrapicho (lembra deles?). Tem mais: Filipe conversa com a formação clássica do Ira! sobre um dos melhores discos do rock brasileiro, “Psicoacústica” (1988), reconta com o Pin Ups a história de “Time Will Burn” (1990), seu disco de estreia, e tenta provar, ao lado dos Titãs, que “Tudo ao Mesmo Tempo Agora” (1991) é muito mais que catarro, peido e amor escatológico. O volume de 238 páginas ainda traz aventuras imperdíveis do Joelho de Porco, a história de um vídeo dos Mutantes em Curitiba em 1972, uma entrevista em que Rodolfo Abrantes confidencia que “o vocalista dos Raimundos morreu aos 27 anos” e reflexões sobre bandas como Catedral, Virna Lisi e Low Dream. É uma leitura leve, mas profunda, apaixonada e bem humorada sobre a música feita no Brasil, mais um acerto da Sapopemba, editora (da qual Filipe é um dos sócios e) que lançou uma das melhores biografias sobre os bastidores dos Rolling Stones e, ainda, um livro sobre o Jesus & Mary Chain. Literatura pop da melhor qualidade. Adquira.

“Será!: Crises, Genialidade e um som Poderoso: os Bastidores da Gravação do Primeiro Disco da Legião Urbana Contados por seu Produtor”, de José Emílio Rondeau (Maquina de Livros)
Jornalista que atua na editoria de cultura desde 1977, José Emilio Rondeau ficou mais conhecido pelo público por ter integrado a redação da revista Bizz em seus primórdios, praticamente ensinando toda uma geração a ter prazer em ler – e escrever – sobre música e cultura pop, e, também, por ter produzido os discos de estreia de Picassos Falsos, Camisa de Vênus e Legião Urbana. Rondeau não era um produtor conhecedor do ofício (como demonstra o resultado final – sonoramente muito próximo – dos três discos, tanto que, melhores assistidos, as três bandas iriam evoluir muito nos discos posteriores), mas era a pessoa certa na hora certa, tanto que a Legião já estava de malas prontas pra voltar pra Brasília e desistir do sonho após bater de frente com dois produtores quando Zé Emílio apareceu. “Será!: Crises, Genialidade e um som Poderoso” conta essa e outras histórias dos bastidores da produção do disco que abriria caminho para a Legião se tornar, futuramente, a banda mais importante do rock brasileiro. Ainda assim, o volume de apenas 112 páginas parece ter sido escrito às pressas, com caixas laterais pontuando em cada página o que estava acontecendo no país enquanto a banda gravava o disco (e que estão ali, nitidamente, mais para dar volume do que necessariamente acrescentar algo a narrativa) e entrevistas monótonas e desapaixonadas, feitas mais por obrigação do que paixão. Inevitavelmente, aqui e ali surgem pequenos tesouros (como as fotos de Mauricio Valladares), mas o leitor precisa estar atento na escavação. Parte desse tédio advém, claro, dos músicos da banda: Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá soam desinspirados, como sempre foram, sendo que o primeiro consegue a proeza de errar o nome do guitarrista que o influenciou (Keith Levine, membro fundador do The Clash e do Public Image Ltd, é chamado de Steve Levine em algumas passagens do livro) e o segundo é a grande vítima da narrativa, com produtor e técnicos de estúdio relatando a dificuldade de trabalhar com um baterista tão ruim. Saldo final: melhor um livro fraco sobre a Legião do que livro nenhum, mas as cinzas de Renato Russo não devem estar felizes…

“1985, o Ano Que Repaginou a Música Brasileira”, organização de Célio Albuquerque (Garota FM Books)
Precedido por “1973: o ano que reinventou a MPB” (2014) e “1979 o ano que ressignificou a MPB” (2022), “1985, o Ano Que Repaginou a Música Brasileira” (2025) segue a toada da trilogia investigando discos brasileiros lançados no ano do título do livro. Ainda que os subtítulos “reinventou / ressignificou / repaginou” possam gerar discussão em comparação com outros anos prósperos, o resultado é extremamente elogiável, pois a música brasileira, tão vasta e esplêndida, merecia um volume por ano para ampliar o olhar sobre sua produção. “1985” compila textos de 85 colaboradores sobre 85 discos lançados em 1985, o ano da Nova República, do primeiro Rock in Rio e da chegada da revista Bizz. Na seleção, organizada por Célio Albuquerque, há textos excelentes (e outros abaixo do sarrafo, algo normal em uma produção tão complexa). Chama a atenção, em primeiro plano, os textos de artistas falando sobre suas obras com destaque para Charles Gavin relembrando sua entrada no Titãs em “Televisão” (“Após ter integrado o Ira! por três anos e, na sequencia, ter feito alguns ensaios com o RPM, no final de 1984, recebi um convite de Branco Mello e Sergio Britto”, rememora o baterista), Amelinha escrevendo sobre “Caminho do Sol”, Leoni contando os bastidores de sua parceria com Cazuza em “Exagerado”, Leo Jaime falando sobre seu genial “Sessão da Tarde” e Guilherme Arantes rememorando “Cheia de Charme”. Do segundo time, o da excelência textual, Lorena Calabria se destaca falando sobre o clássico “O Adeus de Fellini”; Thunderbird bate um bolão com “Mais Podres do Que Nunca”, do Garotos Podres; Bento Araújo desencava “Cinema”, da banda Cinema e Luiz Antonio Simas dá aula sobre Bezerra da Silva e o álbum “Malandro Rife”. Há, ainda, muita gente que você, caro leitor, já deve ler aqui e ali: Carlos Eduardo Lima, por exemplo, do excelente Célula Pop, escreve sobre “Educação Sentimental”, do Kid Abelha; Ricardo Schott, responsável pelo essencial Pop Fantasma, analisa “Mudança de Comportamento”, do Ira!, e Silvio Essinger, do jornal O Globo, lança luz sobre “Como é Bom Ser Punk”, do Língua de Trapo. Tem mais: Astrid fala de “Rita e Roberto”, Kamille Viola de “Criações e Recriações” de Martinho da Vila, Jeanne de Castro (mãe de Sophia Chablau) escreve sobre “Trem Caipira”, de Egberto Gismonti e… eu escrevo sobre Tim Maia. A lista completa – de um livro que você pode ler, calmamente, um pouco por dia abrindo-o de forma aleatoria e ouvindo o disco referido – você encontra aqui. Vale muito a pena ir atrás da trilogia…
– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.
