Ao vivo no Rio, Barão Vermelho dá a largada de sua turnê de reencontro com hits e canções (dispensáveis) de Cazuza

texto de Manoel Magalhães

O Barão Vermelho completa em 2026 seus 45 anos de banda, nos quais o baterista Guto Goffi é o representante da continuidade de um trabalho com 13 álbuns de estúdio (de 1981 a 2019) e oito discos ao vivo. Talvez o motivo da turnê Barão Vermelho Encontro não seja exatamente esse aniversário, já que depois da reunião dos Titãs o mercado ficou aquecido (e lucrativo), mas, de longe, o que se destaca no show é a força de um repertório construído a partir dos escombros da primeira formação (após a saída de Cazuza) e forjado pelas lutas de sobrevivência no arisco mercado fonográfico brasileiro. O show de abertura da turnê, que vai rodar o país, aconteceu na Farmasi Arena, no Rio de Janeiro, e apresentou os integrantes da formação original (Roberto Frejat, Dé Palmeira, Maurício Barros e Guto Goffi) reunidos oficialmente no palco pela primeira vez desde 1988.

Os músicos que reforçam a banda são o guitarrista Fernando Magalhães (No Barão desde 1985), o percussionista Cesinha (irmão de Peninha, que integrou o grupo de 1987 a 2013), a vocalista Jussara Lourenço, o filho de Frejat, Rafael, que faz vocais e toca violão e guitarra, e ainda um trio de metais formado por Zé Carlos Bigorna (sax), Diogo Gomes (trompete) e Marlon Sette (trombone).

A apresentação começa com apenas os quatro fundadores tocando “Maior Abandonado”, canção que dá título ao terceiro álbum (último com Cazuza). A partir daí o grupo, já completo, executa a melhor sequência do show, com “Pedra Flor e Espinho”, “Pense e Dance”, “Política Voz” e “Tão Longe de Tudo”, canções que cobrem um período de reestruturação da banda, de 1988 a 1992, contemplando os discos “Carnaval”, “Na Calada da Noite” e “Supermercados da Vida”. O material dos primórdios volta em seguida com os sucessos “Bete Balanço” e “Ponto Fraco”. “Meus Bons Amigos”, outra entre as melhores canções da carreira do Barão, e as versões de “Tente Outra Vez”, de Raul Seixas, e “Blues da Piedade”, parceria de Frejat com Cazuza lançada na carreira solo do segundo, encerram uma espécie de primeiro ato.

“Eu costumo dizer que com o Ney a gente não divide o palco, a gente compartilha”, assim Frejat apresenta o convidado especial, Ney Matogrosso, que participa em “Poema”, canção de Cazuza e Frejat e um dos maiores sucessos da carreira do cantor. A canção foi feita em 1998 com base em um poema de Cazuza de 1975, dedicado à avó paterna, Maria José. Em 2021, o Ecad realizou um levantamento das músicas de Ney mais executadas no país desde 2017 e essa era a primeira colocada. É também a mais tocada no perfil do cantor no Spotify, com quase 100 milhões de execuções.

Aqui começa a grande bola fora do show. Uma sequência de canções da carreira solo de Cazuza (“Ideologia”, “Exagerado”, “Codinome Beija-Flor”), sem relevância para o repertório da banda, que parece ter sido inserida por motivos de popularidade com o público, e, talvez, pela necessidade de fazer render a presença do convidado especial da noite. É o momento em que o encontro dançou na corda bamba do saudosismo. Ney Matogrosso teve dificuldade de entrar nas músicas e chegou a errar alguns trechos, mesmo com o auxílio de Frejat dando as deixas. A participação ainda teve “Jardins da Babilônia”, de Rita Lee.

“Blues da Piedade” e “Ideologia”, pelo menos, foram compostas em parceria com Roberto Frejat, mas “Exagerado” e “Codinome Beija-Flor” parecem um excesso de homenagem. “Todo Amor Que Houver Nessa Vida”, essa sim uma das mais relevantes do Barão, teve a participação da voz de Cazuza pelo telão, e teria sido suficiente a sua inclusão junto às canções “O Poeta Está Vivo” (que foi tocada no terço final do show) e “Down em Mim” para que a memória do primeiro vocalista tivesse o devido reconhecimento.

O show segue com músicas dos anos 90 como “Por Você” e a trinca “Amor, Meu Grande Amor”, “Vem Quente Que Eu Estou Fervendo” e “Malandragem Dá Um Tempo”, faixas do disco de covers “Álbum”, sucesso de 1996 que alcançou disco de platina. É uma parte de grande engajamento com a plateia, que acompanha todas as letras aos gritos.

Em momento simbólico, Frejat chama a atenção para a canção “Torre de Babel”, que foi incluída em 1985 no especial musical infantil de ficção científica “A Era dos Halley”, exibido pela TV Globo, e que trouxe justamente essa formação dos quatro fundadores novamente às rádios em um período complicado para a banda, o lançamento de “Declare Guerra”, o primeiro disco sem Cazuza.

“Cantando essa música eu fiquei me tocando, imagina um especial infantil, de noite na Globo, ‘o mundo tá acabando, não vai sobrar quase nada, a nossa hora tá chegando’, cara, que negócio punk”, disse Frejat aos risos.

“Declare Guerra” é justamente a próxima faixa do repertório e uma das mais emocionantes do show. As duas músicas juntas recontam uma fase em que o Barão precisou superar a sombra inevitável do talento de Cazuza. A letra faz alusão direta a todos que abandonaram a banda para seguir o antigo vocalista. Os solos de guitarra de Fernando Magalhães nessa música (apesar da simplicidade) e em “O Poeta Está Vivo” foram os mais marcantes do show. Esse bloco de músicas também teve “Cuidado”, do disco de 2004, último da banda com Frejat.

Cabe ressaltar que o setlist da apresentação é muito parecido com o do álbum “MTV Ao Vivo”, gravado no Circo Voador em 2005, e que já repassou toda a carreira. A versão de “Quando o Sol Bater na Janela do Seu Quarto”, da Legião Urbana, que faz parte do disco “Balada MTV”, de 1999, e “Puro Êxtase”, faixa título do disco eletrônico do Barão de 1998, encerram oficialmente o primeiro show desse reencontro.

No bis, os quatro retornam para fazer “Bilhetinho Azul” de forma acústica em um palco suspenso. É um dos momentos nos quais a produção do espetáculo se destaca, assim como os telões, que, divididos em quatro telas, enfocam os fundadores na maioria do tempo. A execução musical e o cuidado visual fazem juz ao tamanho do evento.

Depois de “O Poeta Está Vivo”, Ney Matogrosso retorna ao palco para o final aguardado, com “Por Que a Gente É Assim” e “Pro Dia Nascer Feliz”, músicas marcantes da primeira fase da banda e principais destaques da apresentação do grupo na primeira edição do Rock in Rio, em 1985. É o ápice do reencontro, que mesmo relendo (e reverenciando) esses momentos históricos, consegue escapar do clima de baile da saudade para quem deseja que o tempo nunca tenha passado.

Uma banda acaba sendo relevante muito mais por sua trajetória, pela relação que constrói com um público mais próximo e fiel, do que apenas por grandes sucessos. O caldo principal pode ser a música que tocou no rádio, mas nem sempre elas tocam. Acredito que a melhor fase do Barão aconteceu entre 1990 e 1992, quando Dadi Carvalho assumiu o contrabaixo e participou do álbum “Na Calada da Noite”, mesmo que a formação do Rock in Rio, com Cazuza, seja inesquecível. A banda foi eleita, por público e crítica, a melhor do Brasil em 1991, assim como foi escolhida a principal apresentação do Hollywood Rock em 1992. Já com Frejat cantando, mais maduros, em um período extremamente complicado para o rock no Brasil, com a explosão da música sertaneja, o Barão Vermelho conseguiu seguir criando e lançando bons discos. Resistiu ao tempo e agora pode celebrar em grandes arenas o seu legado numa turnê que deve engrenar nas próximas apresentações. Vale a pena acompanhá-los.

– Manoel Magalhães (@manoelmagalhaez) é músico, jornalista, documentarista e produtor. Toca na Harmada e dirigiu o curta-documentário “Abreu/Prazeres” e “Nada pode parar os Autoramas“. As fotos são de Pridia / Divulgação

3 thoughts on “Ao vivo no Rio, Barão Vermelho dá a largada de sua turnê de reencontro com hits e canções (dispensáveis) de Cazuza

  1. Entendo a preferência. O barão realmente esteve num ápice ali. Mas minha idade avançada sempre escolhe os dois primeiros discos porque eram aves raras. Não era rock engraçadinho como era moda na época. Fora. Dois discos de rock puro, como um bom uísque. Ali o barão se destacava dos demais. Até a chegada da legião e de cabeça dinossauro. Mas isso é outra história

  2. Para mim, a melhor fase do Barão é um tiquinho mais ampla: começa em 1988 com “Carnaval” (o primeiro disco DISCO mesmo deles, em que eles deixam de ser um cover brazuca de Stones e entregam um baita repertório com som foda e muita personalidade) e vai até “Carne Crua”, de 1994, o último grande álbum de material próprio deles. “Na Calada da Noite” (1990) está no mesmo nível desses dois, pra mim, e “Supermercados da Vida” (1992), ainda que seja um ótimo álbum, está um tiquinho abaixo.

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