Test e Mr. Bungle no Cine Jóia ou “a melhor segunda-feira à noite possível”

texto de Fabio Machado
fotos de Fernando Yokota

Brasil, Anos 2000, Bairro Sumaré (SP), mais precisamente nos estúdios da MTV: João Gordo “expulsa” do seu programa um certo conjunto carioca em ascensão chamado Los Hermanos, ao descobrir que Marcelo Camelo não é fã de Ramones. Diante da situação, Camelo tenta contemporizar: “Peraí, Gordo, deixa eu ficar! Eu gosto de Mr. Bungle!”. O argumento não funcionou (e você pode conferir a história por conta própria nos registros históricos do Youtube).

Corta para o mesmo Brasil, 2026, bairro paulistano da Liberdade: Os norte-americanos do Mr. Bungle sobem ao palco do Cine Joia e após uma breve intro, fazem uma versão de “Tuyo”, composta por… Rodrigo Amarante, que ganhou notoriedade tocando com os Los Hermanos. E quem estava na platéia? João Gordo (e família). Enfim, se estivéssemos em uma mesa de bar até poderíamos seguir por mais alguns minutos filosofando sobre como o tempo é circular (coisa que outras obras conhecidas da cultura pop já fizeram com muito mais propriedade, como True Detective e Watchmen).

Mas iniciar com essa anedota se faz necessário, porque realmente não é todo dia que se sai de casa em plena segunda-feira à noite para assistir ao Mr. Bungle em sua mais recente e metaleira encarnação – com Scott Ian (Anthrax. S.O.D.) na guitarra e Dave Lombardo (ex-Slayer, Fantômas e muitos outros projetos) na bateria acompanhando os fundadores Trevor Dunn (baixo), Trey Spruance (guitarra) e Mike Patton (vozes, muitas vozes).

Ou melhor: não é todo dia que você tem a oportunidade de assistir ao Mr. Bungle tocar um tema criado por um membro do Los Hermanos de maneira fiel à versão original, com direito ao já citado Dave Lombardo tocando bongô a lá Jô Soares. Isso para não entrar no mérito da escolha da própria “Tuyo” (cover que eles também tocaram no México, na Colômbia e no Chile nessa nova turnê) canção que ficou conhecida por fazer parte do seriado “Narcos”, cujo protagonista é um certo ator baiano que tem aparecido bastante nos círculos internacionais do entretenimento. Mas ok, vamos ao show.

Test

Antes do Bungle, é também necessário falar do Test, que recebeu a missão de fazer a apresentação de abertura. A essa altura, o duo formado por João Kombi (guitarra/voz) e Barata (bateria) já é uma entidade sonora estabelecida no underground que transita tranquilamente por diferentes palcos e cenas: seja fazendo uma apresentação especial numa edição do In-Edit Brasil ou tocando junto com Juçara Marçal e Kiko Dinucci, inexiste qualquer necessidade de provar alguma coisa para quem está na platéia. Tanto que já havia bastante gente interessada em assisti-los naquele momento (o que nem sempre acontece em se tratando de bandas de abertura).

Test

Ao invés de ficarem só na brutalidade típica dos blastbeats, Kombi e Barata optaram por uma condução mais cadenciada na maioria do set, com riffs lentos, drones distorcidos, ritmos esparsos e golpes de caixas pontuando os guturais quase declamados de Kombi. Essa escolha potencializava ainda mais os momentos rápidos que surgiam e sumiam rapidamente, entrecortados pelo silêncio – outro elemento-chave no set da dupla, sem ironia. E com a anuência do público, que como um amigo corretamente observou, parecia estar assistindo a uma ópera, tamanho silêncio e o estado de atenção total na dupla.

Test

Kombi e Barata aproveitaram o momento ao máximo, esticando, repetindo e desconstruindo riffs e criando ali algo que parece ser, por vezes, uma mesma música (mesmo com breves momentos de pausa e aplauso). É interessante que mesmo trazendo algo único a cada apresentação, a estética do Test acaba conversando com muitos elementos que o Mr. Bungle utilizou e utiliza ao longo da carreira, em especial no álbum “Disco Volante” (1995). A exemplo da participação do músico experimental Porres, que se juntou à dupla para uma rápida porém destrutiva participação com elementos de harsh noise, drone e eletrônica fora da casinha. Não é à toa que foram elogiados pelo próprio Mike Patton mais tarde.

Mr. Bungle

Depois da distorção generalizada oferecida pelo Test, uma pequena pausa para a preparação do palco e uma trilha sonora singular, com vários clássicos do soft rock e AOR que transformaram temporariamente o Cine Joia em uma festa temática da Alpha FM. A essa altura, a casa estava mais cheia, com um público que incluía não só headbangers atraídos pela fase mais pesada dos norte-americanos (fora a chance de ver dois integrantes que ajudaram a fundar o thrash metal dos anos 80), mas também fãs mais alinhados ao período anterior e experimental do Bungle (e em certa medida, do próprio Patton). De certa forma, todos seriam contemplados com o que viria a seguir.

Mr. Bungle

Com o tema sinfônico “Also sprach Zarathustra” de Strauss (tornada parte do imaginário coletivo com sua inclusão no filme “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick), os “gringos” finalmente entram em cena com Patton sempre se destacando pela indumentária que mistura elementos de candomblé e street wear. Já falamos bastante de “Tuyo”, então basta dizer que a sequência veio com três sons de “The Raging Wrath of the Easter Bunny Demo” (2020): a climática “Grizzly Adams” seguida pelas porradas “Anarchy Up Your Anus” e “Bungle Grind”, que resumem o momento atual do Bungle calcado no thrash metal/crossover a lá Slayer, S.O.D. e congêneres.

Mr. Bungle

Nada mais natural, portanto, do que chamar o próprio Dave Lombardo para trazer o máximo de fidelidade à proposta com bumbo duplo comendo solto, viradas absurdas e todos os melhores clichês. Melhor ainda quando se tem Scott Ian – cuja velocidade da mão direita deve superar o próprio James Hetfield – ajudando com os riffs. Quem torce o nariz para o metal pode achar que é só fanservice, mas o fato é que é um fanservice extremamente bem executado.

Mr. Bungle

E vale lembrar que Patton, Spruance e Dunn cresceram como fãs do estilo e mostram naturalidade nesse papel. O baixista Dunn encarna a melhor versão possível de Tom Araya nas quatro cordas, Patton emprega as suas tradicionais parafernálias de efeitos e microfones enquanto berra ferozmente e Trey se mostra o mais dedicado; quem o viu em momentos anteriores no país com Secret Chiefs 3 ou Faith no More pode até ter estranhado, porque aqui o foco foi na velocidade, debulhando solos e riffs sem descanso por todo o set.

Mr. Bungle

Outros sons de “The Raging Wrath of the Easter Bunny Demo” representaram a maior parte do setlist, como “Raping Your Mind”, “Eracist”, a singularmente nomeada “Spreading the Thighs of Death” e “Glutton for Punishment”, para delírio das rodas que se formavam na parte mais próxima ao palco. Mas a noite passou longe de ser um show só para metaleiros. O espírito anárquico do Bungle se manifestou em momentos-chave com covers curiosos, como nas indefectíveis baladas “I’m Not In Love” (10 cc) e “Hopelessly Devoted to You” (de John Farrar, parte do musical Grease), além dos momentos punk hardcore com versões de “State Oppression” (Raw Power), “U.S.A” (Exploited) e a própria “Speak Portuguese or Die”, que é uma releitura de “Speak English Or Die” do S.O.D. de Scott Ian, com direito ao urro de Patton no final clamando “FALA PORTUGUÊS…..OU MORRE!!!”

Mr. Bungle

Vale informar, aliás, que o carisma de Mike Patton com o público brasileiro continua o mesmo (embora não tenha falado muito, em comparação a turnês anteriores com outros projetos). Em dado momento, aproveitou um espaço entre as músicas para falar em bom português: “Um momentinho de pausa, não? Para os macumbeiros e macumbeiras”, aproveitando também para agradecer ao Test, e perguntar se o público gosta de Sepultura (já dando uma pista do que viria no final). A voz de Patton também segue intacta, pois além dos urros alienígenas também houve espaço para vocais melódicos e resgate de sons clássicos do Mr. Bungle como “Retrovertigo” (de “California”, lançado em 1999) num arranjo meio rock de arena mas com os vocais de sempre; e a comoção geral com a caótica “My Ass is on Fire” (do disco auto-intitulado de 1991), cumprindo assim a missão de unir todas as tribos.

Mr. Bungle

O encerramento veio com mais covers: “Refuse/Resist”, hino do Sepultura que dispensa apresentações – e veja, não é todo dia que se vê Dave Lombardo tocando Sepultura! Só isso já deveria valer o ingresso, mas o derradeiro final viria logo depois. Após um discurso um pouco difícil de entender de Patton (que mencionou algumas palavras, entre elas “LAROYÊ, POMBAGIRA, CARALHO, SALVE A FORÇA DAS MULHERES), o conjunto emenda uma versão emocionante de outra balada pop: “All By Myself”, de Eric Carmen, com o refrão do título trocado por “TOMAR NO CU”. Parece 100% quinta série agora, mas na hora foi muito bonito ver dezenas de mãos apontando o dedo do meio e entoado o refrão devidamente brasileiro. De alguma maneira, essa dobradinha do final meio que sintetiza o espírito atual dessa encarnação do Mr. Bungle: uma pizza meio headbanger, meio punk e meio rádio FM, curtindo a brisa do passado mas nunca se levando a sério.

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/

5 thoughts on “Test e Mr. Bungle no Cine Jóia ou “a melhor segunda-feira à noite possível”

  1. Cara, quem esteva lá (eu) e ler esse seu texto, faz com que as palavras e imagens se convertam! Mike Patton não precisa de comentários, mas a sintonia da banda estava incrível! O Trey Spruance deixou meu filho hipnotizado e perplexo!!! Além do Dave o do Ian explodindo o charmoso Cine Jóia. Saímos de lá comentando que é um show que valeu cada centavo gasto. Parabéns pelo texto perfeito!

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