Crítica: “A Única Saída” deixa luta de pobres contra ricos para trás e apresenta “matança” como opção compreensível

texto de Heloísa Lisboa

Park Chan-wook torna uma história que se repete na Coreia do Sul e no mundo em uma tragicomédia com pinceladas de thriller em “A Única Saída” (“No Other Choice”, 2025). Adaptação do livro “O Corte” (1997), de Donald E. Westlake, o filme é dedicado ao realizador grego Costa-Gavras, o primeiro a transportar a obra de Westlake para as telonas (em “O Corte“, de 2005).

No mais novo longa-metragem do diretor de “Oldboy” (2003), distribuido no Brasil pela Mares Filmes em parceria com a MUBI, Man-su (Lee Byung-hun) é o provedor de uma família aparentemente perfeita, com uma esposa capaz de atrair a atenção de jovens rapazes, dois filhos e um par de golden retrievers. O homem que celebra o sucesso em um churrasco com direito a enguia no início do filme está prestes, porém, a ser demitido de uma empresa de papel, comprada por americanos, para a qual trabalha há 25 anos.

Para Mi-ri (Son Ye-jin), esposa que até então podia passar as tardes em quadras de tênis e esbanjar sapatos luxuosos, a solução para o colapso da renda familiar envolve o corte de gastos considerados supérfluos — desde seus cachorros até a assinatura da Netflix — e seu retorno ao mercado de trabalho. Man-su chega a conclusões distintas às da parceira.

Após dedicar um quarto de século de sua vida à indústria do papel, o personagem não pensa em percorrer outra trajetória profissional, nem sequer continuar trabalhando como estoquista em uma loja de departamento. A ideia de vender a casa que foi seu lar na infância também o pressiona para encontrar uma saída adequada. Man-su decide, finalmente, eliminar seus concorrentes para garantir a vaga ideal em uma empresa de papel em ascensão.

No caminho para concluir sua missão assassina, ele dá de cara com homens apaixonados pela celulose, em negação com a dificuldade de reencontrar um lugar no mercado de trabalho e determinados a conquistar um lugar na Moon Paper. É nesse aspecto que “A Única Saída” se diferencia de outras produções que tratam da selvageria provocada pelo capitalismo, a exemplo de “Parasita” (2019) e “Triângulo da Tristeza” (2022). Man-su opta por eliminar homens de classe média, provedores de suas famílias, semelhantes a ele, em vez de protestar no estilo Luigi Mangione. Não se trata, portanto, de uma batalha entre ricos e pobres.

“Se você não pode com eles, junte-se a eles” parece a premissa do trabalhador vivido por Byung-hun. Ele tenta se adequar à nova lógica do capitalismo, apresentando pouca resistência à injustiça do mercado encolhido pela tecnologia. Man-su está disposto a dedicar outros 25 anos a uma nova empresa, desde que também possa manter seu estilo de vida.

Claudia Durastanti não poderia ser mais cirúrgica ao escrever em “A Estrangeira” (2021): “Isso porque do pobre se espera não só que faça a revolução, como se tivesse tempo livre, em vez dedicar toda a sua energia nervosa para entender como obter algo a mais, com todos os meios possíveis, mas que tenha também uma boa educação e se comporte bem”.

Mas, afinal, proporcionar à filha aulas de violoncelo — instrumento que, segundo sua própria professora, é brilhantemente dominado pela criança — e cultivar algumas plantas em uma estufa particular, por exemplo, deveria ser pedir demais? Man-su enfrenta um dilema que exige agilidade (o dinheiro que resta em sua conta permitiria bancar sua família da forma como sempre o fez por apenas três meses) e é capaz de convencer que os assassinatos são a única saída.

Em meio à jornada do protagonista do longa, é possível notar sua masculinidade frágil. Em dado momento, ele frequenta um grupo de apoio repleto de outros homens no qual é incentivado a repetir frases motivacionais que reforçam seu papel como provedor da família — expectativa associada à cultura sul-coreana, mas comum em outros cantos do mundo. É difícil admitir que um homem, por incrível que pareça, também possa ser vítima. Ainda assim, as escolhas de Man-su são questionáveis e lhe acrescentam um quê de anti-herói. Sua revolta e frustração são compreensíveis, mas os fins justificam os meios?

O público também deve enfrentar dilemas ao acompanhar “A Única Saída” — ao menos, mais simples que os encarados por Man-su — com a chance de simpatizar com um assassino. Nada novo no cinema.

Existe certa esperança de que o filme chegue aos ouvidos do Oscar. A essa altura, com pouquíssimas vitórias nas principais premiações de cinema, além de produções como “Valor Sentimental”, “Foi Apenas Um Acidente” e, claro, “O Agente Secreto” na corrida, parece um cenário distante. “Oldboy” continua imbatível na filmografia de Park Chan-wook, embora sua maestria esteja igualmente evidente em “A Única Saída”.

Leia também: “A Única Saída” carrega traços de “Depois de Horas” e “Odds Against Tomorrow”

– Heloísa Lisboa é jornalista com passagens pela Folha de S.Paulo e Rolling Stone Brasil

One thought on “Crítica: “A Única Saída” deixa luta de pobres contra ricos para trás e apresenta “matança” como opção compreensível

  1. Nenhuma surpresa. Park Chan-wook é mestre em provocar incômodo no público com cenas de violência extrema magnificamente filmadas e fotografia impecável.

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