texto de Davi Caro
Quando os membros fundadores e remanescentes do Rush, Geddy Lee e Alex Lifeson, emitiram um comunicado confirmando a reunião da banda canadense 10 anos após seu último show, no último dia 06, a reação foi exatamente a que se esperaria: embora fosse especulado há tempos – pelo menos desde a volta da dupla aos palcos para os dois shows-tributo ao falecido Foo Fighter Taylor Hawkins – o retorno dos gigantes do rock progressivo foi recebido com inevitável surpresa. E as razões são óbvias. Não deixa de ser simbólico que a semente desta volta tenha sido semeada à partir da celebração de um baterista singular que, de quebra, ainda era um dos grandes tributários do imortal Neil Peart, baterista do Rush morto em Janeiro de 2020, vítima de um câncer do qual o músico padeceu à revelia da mídia. A nova turnê, que se inicia em 2026, promete ser também uma maneira de homenagear um dos mais icônicos, inimitáveis, e importantes seres humanos que já se sentaram por trás de uma bateria – um gênio cuja influência se provou capaz de ir muito além do nicho ao qual o trio que integrou acabou sendo atrelado.
Existe, no entanto, um outro detalhe bastante significativo por trás do tal anúncio, que pode passar despercebido por aqueles menos familiarizados: embora não vá decolar até 2026 (que marca o 50º aniversário do clássico supremo “2112”), a nova turnê foi finalmente revelada no ano no qual se completam cinco décadas desde o debut de Peart – carinhosamente apelidado, mais tarde, de “O Professor” – junto ao Rush. E sua estreia fonográfica com a banda, “Fly By Night” (originalmente lançado em fevereiro de 1975 pela Mercury Records) vai muito além de sinalizar uma simples mudança de formação. Pelo contrário: o segundo álbum do Rush é o início de uma série de mudanças musicais, estruturais, estéticas, e temáticas para o trio. Mudanças estas, aliás, que se mostrariam fundamentais na trajetória que o grupo traçaria nos anos subsequentes.

A integração de Peart à banda, embora acontecesse em decorrência da saída amigável de John Rutsey (baterista fundador do Rush, e responsável pela percussão do debut homônimo do trio no ano anterior) não era uma obviedade. Outros instrumentistas chegaram a realizar testes, apesar de nenhum deles ter evocado a dinâmica experimentada por Lee e Lifeson com o jovem nativo de Hamilton, Ontario. A primeira faixa executada pela eventual formação definitiva da banda, inclusive, era uma composição nova, iniciada ainda com Rutsey, que funcionaria como um cartão de visitas da musicalidade agora alcançada pelos três: promovida ao posto de faixa de abertura do então novo disco, “Anthem” reposicionou o Rush no tabuleiro de novas e promissoras bandas, afastando os três do hard rock mais cru do primeiro disco, e já indicando mais sofisticação rítmica e melódica (e inspiração direta, tanto em seu título quanto em sua letra, do livro homônimo de autoria de Ayn Rand).
As audazes acrobacias instrumentais do novo membro continuam na propulsiva “Best I Can”, de longe um dos mais subestimados clássicos desta primeira fase do Rush, e na truncada “Beneath, Between & Behind”. Mais do que simplesmente se destacar por passagens igualmente empolgantes e sutis, Peart impulsiona a dinâmica entre os dois colegas, e o resultado são registros memoráveis de performers que se tornariam referências de seus instrumentos: a guitarra de Lifeson às vezes resvala no proto-metal, sem nunca perder sua vocação harmônica. Lee, por sua vez, usa e abusa dos agudos em seus vocais, tão característicos e inimitáveis, e desfila melodias incríveis em linhas de baixo ao mesmo tempo deslumbrantes e complexas.
Por falar em complexidade: a destreza como instrumentista acabou por não ser a única coisa que Neil Peart traria ao se juntar ao Rush. Além de ficar responsável pelas eletrizantes passagens instrumentais, o baterista ainda se firmaria, desde o primeiro minuto, como o autor das letras das canções que Geddy e Alex compuseram, ocasionalmente trabalhando inclusive em dupla. Leitor voraz (e futuro autor), Peart destilaria sua vocação para a fantasia e a ficção científica – bem como vários outros temas – nos anos que se seguiram. A já mencionada inspiração em Ayn Rand para “Anthem” é apenas uma pista do que se seguiria, uma vez que a escritora voltaria a ser uma referência para o compositor em “2112” (1976).
“By-Tor & the Snow Dog” é, no entanto, sua primeira grande obra como letrista do trio. Faixa mais longa do disco, com mais de oito minutos de duração, a canção é uma suíte dividida em quatro partes (com uma delas subdividida em quatro etapas), revelando, com títulos do calibre de “At The Tobes of Hades”, “7/4 War Furor”, e “Hymn of Triumph”, o nível de ambição lírica com a qual o baterista se dedicava a conceituar as furiosas passagens instrumentais trazidas por seus parceiros. A arrepiante “Epilogue” fica encarregada de encerrar a canção que ocupa a maior parte do lado A do vinil e, em retrospecto, é muito mais do que uma mera antecipação de trabalhos igualmente minuciosos e megalomaníacos (no melhor sentido).
O lado B do velho vinil, por sua vez, também não falha em colecionar momentos memoráveis e preciosos. A começar pela incrível faixa-título, testamento ao talento de Lee em escrever refrãos infalíveis. A extensão da linguagem musical dos três, aliás, é um dos aspectos mais embasbacantes de “Making Memories”, canção mais acústica escrita pelo baixista junto de Lifeson, num experimento que não teria sido possível sem a colaboração do Rush com o produtor Terry Brown, que dividiu as tarefas por trás da mesa de gravação com a banda (e que produziria todos os discos deles até 1982).
As inclinações literárias de Peart, no entanto, voltam a ocupar os holofotes na maravilhosa “Rivendell” – com um título que faz alusão à cidade élfica criada por J.R.R. Tolkien) – conduzida apenas ao violão e com alguns efeitos de teclados. O encerramento de “In The End” pode até enganar os menos familiarizados, graças ao início mais alinhado com as duas faixas anteriores. A música muda, no entanto, após seu primeiro minuto, se transformando em uma das impressionantes canções do repertório do grupo até então. Sem falar que é, apropriadamente, a segunda mais longa do álbum, com insuspeitos 6 minutos e 46 segundos que passam mais rápido do que deveriam.
O espetáculo propiciado pelo Rush em seu segundo álbum começa antes mesmo que a primeira faixa seja executada. Isso, graças à estonteante capa, de autoria de Eraldo Carugati, que trabalhou sob um conceito criado pela própria banda. O resultado, nos tons azulados da coruja e nos penetrantes olhos amarelos, deveria ter sido o suficiente para cativar a atenção tanto do público quanto da crítica. Entretanto, embora os primeiros tenham passado a reconhecer, em pouco tempo, o status de clássico do qual “Fly By Night” era merecedor, a mídia especializada foi impiedosa: de comentários equivocados na direção do “obsoleto” formato de power trio defendido por eles, até observações motivadas por (compreensível) estranhamento referente à voz de Geddy Lee, o álbum passou longe de conquistar aclamação. Atingindo o nono lugar na parada de discos canadense, o trabalho amargaria um triste 113º posto na Billboard.
Mais desafiador ainda, inclusive, é pensar que o álbum seguinte do trio, “Caress of Steel”, não apenas seria lançado no mesmo 1975, e não só acenaria uma guinada ainda mais determinada rumo à sonoridade progressiva, como seria agraciado com uma recepção ainda mais fria e implacável. E não deixa de ser chocante o quanto essa dicotomia se tornaria lugar-comum para o Rush nas décadas subsequentes: abraçados e defendidos por seu público, a banda jamais conquistaria das mãos da crítica especializada o prestígio devido.
Não que a extensa fanbase se importe: os mesmos fãs que viram o trio ainda com Peart devem uma vez mais rumar em direção a estádios e arenas no mundo todo, a fim de testemunharem mais uma vez a destreza de Geddy Lee e Alex Lifeson ao vivo – desta vez, com a talentosa baterista alemã Anika Nilles, além de prováveis músicos de apoio ainda não divulgados – em datas que podem ser uma excelente oportunidade de homenagem ao falecido Professor, além de talvez incluírem alguns dos clássicos do repertório de “Fly By Night”.
E tudo parece natural – como se Lee, Lifeson e Peart pudessem ver o próprio futuro ao fim de “In The End”, e de sua primeira grande obra juntos. Talvez, eles já pudessem vislumbrar as fenomenais narrativas de “2112” e “A Farewell to Kings” (1977); o longevo sucesso de “Moving Pictures” (1981) e as experimentações sintetizadas da década de 1980; a ressurgência com a chegada do novo milênio, marcada pelas multidões que cantaram, a plenos pulmões, suas passagens instrumentais mais intrincadas em estádios brasileiros, logo após o lançamento de “Vapour Trails” (2002); e a conclusão apoteótica de sua discografia de estúdio, com o subestimado “Clockwork Angels” (2012), e a concretização do legado lendário que conquistaram mesmo apesar de uma perda trágica. Quer eles pudessem, ou não, ver seu próprio futuro, os três (como hoje o vão fazer Lee e Lifeson) finalmente abriram suas asas, e, tal qual a criatura que estampa sua primeira grande obra, alçaram voo em direção ao infinito.
Leia também: Na máquina do tempo com o Rush, por Thiago Pereira e Terence Machado
Ouça o disco na integra abaixo
– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.
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– “Feedback”, do Rush, é um discão de rock em meros 27 minutos (aqui)


Como admirador do rush desde a primeira metade dos anos 80 fico contraditoriamente infeliz com essa notícia. Neil era tão único, tão singular, que acho não deveria haver esse retorno. Soa estranho. No mais, é bom ler um texto sobre o rush nesse espaço