Por que “todos os shows” acontecem em novembro no Brasil?

texto  de Marcelo Costa

O fim do ano se aproxima e com ele, para o fã de música, o cada vez mais temido mês de novembro, período em que se acumulam diversos shows imperdíveis em um espaço apertado de 30 dias. Em 2025, a situação soa calamitosa, pois com festivais como Primavera Sound São Paulo hibernando, e outros, como o Popload Festival, transferidos para o primeiro semestre, a falta de agrupamento em um único evento faz com que muitas produtoras optem por shows solo, o que desenhou o seguinte retrato:

Dia 31/10 – Refused (Terra SP, ingressos)
Dia 31/10 – Otoboke Beaver (Cine Joia, ingressos)
Dia 31/10 – Imagine Dragons (Estádio do Morumbi, ingressos)
Dia 31/10 – Masterplan (Fabrique, ingressos)
Dia 01/11 – Capitão Fausto e convidados (Cine Joia, ingressos)
Dia 01/11 – Imagine Dragons (Estádio do Morumbi, ingressos)
Dia 02/11 – The Wailers (Espaço Unimed, ingressos)
Dia 02/11 – Black Veil Brides, Underoath, Senses Fail e Set My Friends on Fir (Vibra, ingressos)
Dia 02/11 – Weezer + Bloc Party + Mogwai + Otoboke Beaver + Judeline (Ibirapuera, ingressos)
Dia 04/11 – L’Impératrice (Audio, ingressos)
Dia 04/11 – Nicole Johänntgen (Blue Note SP,  ingressos)
Dia 04/11 – RY X (Teatro Renault, ingressos)
Dia 05/11 – Tash Sultana (Audio, ingressos)
Dia 06/11 – La Inquisicion (La Iglesia, ingressos)
Dia 06/11 – Owen (Jai Club, ingressos)
Dia 06/11 – Poppy (Cine Joia, ingressos)
Dia 07/11 – Damiano David (Tokio Marine Hall, ingressos)
Dia 07/11 – Helado Negro (Casa Rockambole, ingressos)
Dia 07/11 – Irma (Blue Note SP, ingressos)
Dia 07/11 Anna of the North – cancelado
Dia 07/11 – Banks (Cine Joia, ingressos)
Dia 07/11 – Rakaa (City Lights Hall, ingressos)
Dia 08/11 – Cap’ n Jazz (Cine Joia, ingressos)
Dia 08/11 – Billy Idol (Vibra, ingressos)
Dia 08/11 – Selofan (Madame, ingressos)
Dia 08/11 – Linkin Park (Estádio do Morumbi, ingressos)
Dia 08/11 – HammerFall (Vip Station, ingressos)
Dia 08/11 – Buena Vista Social Orchestra (Teatro Celso Furtado, ingressos)
Dia 08/11 – Seun Kuti (Sesc Pompeia)
Dia 09/11 – Seun Kuti (Sesc Pompeia)
Dia 09/11 – Irma (Blue Note SP, ingressos)
Dia 09/11 – Balaclava Fest com Stereloab + Yo La Tengo + Geordie Greep… (Tokyo Marine Hall, ingressos)
Dia 10/11 – Yo La Tengo acústico (Cine Joia, ingressos)
Dia 11/11 – Primal Scream (Audio, ingressos)
Dia 11/11 – Sister Nancy (Cine Joia, ingressos)
Dia 12/11 – Morrissey (Espaço Unimed, ingressos)
Dia 12/11 – Polo & Pan (Audio, ingressos)
Dia 12/11 – Nilüfer Yanya (Cine Joia, ingressos)
Dia 13/11 – James (Audio, ingressos)
Dia 13/11 – Massive Attack (Espaço Unimed, ingressos)
Dia 14/11 – Grave Digger (Carioca Club, ingressos)
Dia 14/11 – Motorama (Hangar 110, ingressos)
Dia 15/11 – Molchat Doma (Tokyo Marine Hall, ingressos)
Dia 15/11 – Dua Lipa (Estádio do Morumbi, ingressos)
Dia 16/11 – Seun Kuti (Bourbon Street, ingressos)
Dia 16/11 – Glenn Hughes (Vip Station, ingressos)
Dia 16/11 – Gloryhammer (Carioca Clube, ingressos)
Dia 16/11 – Rotten Sound (Burning House)
Dia 18/11 – Boyce Avenue (Audio, ingressos)
Dia 20/11 – Ko Ko Ko! (Tendal da Lapa, gratuito)
Dia 21/11 – Carminho (Teatro Cultura Artística)
Dia 21/11 – Andrea Bocelli (Estádio do Pacaembu)
Dia 22/11 – Andrea Bocelli (Estádio do Pacaembu)
Dia 22/11 – bbno$ (Cine Joia, esgotado)
Dia 22/11 – Oasis (Estádio do Morumbi, esgotado)
Dia 23/11 – Oasis (Estádio do Morumbi, esgotado)
Dia 25/11 – Bôa (Cine Joia, ingressos)
Dia 25/11 – Ichiko Aoba (Teatro Liberdade, ingressos)
Dia 28/11 – The Brian Jonestown Massacre (Espaço Usine, ingressos)
Dia 29/11 – T.S.O.L. e Adolescents (Cine Joia, ingressos)
Dia 29/11 – Mayra Andrade (Casa Natura Musical, ingressos)
Dia 29/11 – Avantasia (Vibra, ingressos)
Dia 29/11 – Buena Vista Social Orchestra (Carioca Club, ingressos)
Dia 30/11 – Boris (Fabrique, ingressos)
Dia 30/11 – Mayra Andrade (Casa Natura Musical, ingressos)
Dia 02/12 – Ichiko Aoba (Teatro Bradesco, ingressos)
Dia 03/12 – Cultivedub meets Mad Professor (City Lights, ingressos)
Dia 05/12 – Haddaway & Double You (High Club, ingressos)
Dia 05/12 – Marron 5 (Bud Live, infos)
Dia 05/12 – Napalm Death (Hangar 110, ingressos)
Dia 06/12 – Caliban (Fabrique, ingressos)
Dia 06/12 – Christopher Cross (Vibra, ingressos)
Dia 06/12 – Jack & Jack (Cine Joia, ingressos)
Dia 10/12 – Skatalites (Cine Joia, ingressos)
Dia 12/12 – The 5.6.7.8’s (Cine Joia, ingressos)
Dia 13/12 – Destroy Boys (Fabrique, ingressos)
Dia 13/12 – Zaho de Sagazan (Cine Joia, ingressos)
Dia 13/12 – P.O.D. e Demon Hunter (Carioca Clube, ingressos)
Dia 14/12 – Rhapsody Of Fire (Carioca Clube, ingressos)
Dia 14/12 – Shonen Knife (Cine Joia, ingressos)
Dia 20/12 – Information Society (Suhai Music Hall, ingressos)
Dia 20/12 – Limp Bizkit, YUNGBLUD, 311, Ecca Vandal, Slay Squad e Riff Raff (Allianz Parque, ingressos)

Esses são APENAS os shows internacionais em novembro EM SÃO PAULO. Não estão listados shows de Marisa Monte com Orquestra no Ibirapuera (08 e 09/11), Black Alien na Audio (14/11), Planet Hemp no Allianz (15/11), Capital Inicial no Espaço Unimed (14 e 15/11), Roberto Carlos no Suhai Music Hall (15/11), Djonga (19/11) e Caetano no Espaço Unimed (29/11), nem Maglore & Vanguart na Audio (30/11). Dai muita gente se pergunta: por que todos os gringos decidem descer para fazer shows na América do Sul em novembro??? A resposta, sem se aprofundar muito, é simples: porque é outono / inverno no hemisfério norte. Mas vamos entender isso melhor.

O Hemisfério Norte é a metade da Terra a norte da Linha do Equador, abrigando a maior parte da massa terrestre e da população mundial. Ele inclui os continentes inteiros da América do Norte, Europa, a maior parte da Ásia, uma porção da América do Sul e duas regiões da África. O Hemisfério Sul é a metade do globo terrestre que se situa ao sul da Linha do Equador, contendo toda a Antártida, Austrália, a maior parte da América do Sul e um terço da África.

Dai que na Europa, que possui um mercado de shows consolidado, de pequenas casas a grandes festivais (que pagam um cachê maior), a agenda superlota de abril a setembro. São os meses de primavera e verão, de calor, em que, principalmente das ilhas britânicas pra cima, sair para um festival (às vezes apenas para utilizar o camping, sem necessariamente ir ver shows) é uma rotina tradicional. Naturalmente, circula muito dinheiro e muito público, e muitos artistas se planejam para circular em festivais e casas na Europa nessa época.

É preciso destacar também o circuito de casas de shows na Europa, e entender uma particularidade que faz muita diferença: territorialmente são cerca de 10,18 milhões de km² europeus em comparação a 8,515 milhões de km² do Brasil, só que dividido em cerca de 50 países. Dai que um artista, quando faz turnê na Europa, consegue estender a sua agenda por várias cidades e países próximos enquanto no Brasil ele está limitado a pequenos centros – e completamente dependente de outros países da América do Sul para fechar uma turnê completa, o que diminui custos.

Então, no mercado de shows, de meados de abril a meados de setembro, a Europa é o foco principal, com a América do Norte como mercado secundário. Para a América do Sul (e Oceania) sobra março e abril (não é a toa que o Lollapalooza está encaixado nesse período no território) e setembro (quando costumamente rola The Town / Rock in Rio) outubro e novembro. Janeiro e fevereiro, meses excelentes na América do Sul, são meses de férias também para agências e bandas (e de carnaval no Brasil, e é sempre complicado competir com entretenimento gratuito quando um produtor está investindo dinheiro para trazer um show).

Isso quer dizer que não rola fazer shows e festivais em outros períodos do ano no Brasil? Claro que rola, e o C6 Festival e o Popload Festival estão ai para provar. O que acontece é que não só o custo tende a aumentar (para um produtor tirar um artista do circuito de verão europeu ele terá que pagar mais) como, também, há a opção de diversos artistas que estão em fase final de turnê (começaram no período europeu um ano antes, e neste ano não vão fazer o mesmo show por lá, se liberando para vir para o nosso hemisfério), isso sem contar artistas que não estão necessariamente divulgando um disco, e têm uma agenda mais flexível.

Uma outra particularidade apimenta toda a questão: um pequeno números de agências controla muitas carreiras. Veja, por exemplo, o Coachella 2026: 77% de todo o line-up 2026 está dividido entre quatro agências de booking (a Wasserman, sozinha, tem 33% do cartaz). Isso reflete nos pacotes de artistas (você quer fulano no seu festival? Tem que levar beltrano e sicrano também). E isso acaba resultando em menos artistas em circulação no período, afinal o artista A está em turnê, é contratado, e vai levar consigo um ou dois nomes que talvez não estejam em turnê, mas estão interessados em circular, e entram no pacote (os gráficos da imagem acima estão mais aprofundados em posts da Booking Agency Info e da ROSTR).

Dai que quando a agenda europeia começa a descansar, a sul-americana começa a bombar. E os meses que sobram, invariavelmente, são outubro (que muitas vezes é um mês de pausa pra quem rodou o circuito europeu em maio, junho, julho e agosto), novembro (o mês perfeito, não a toa) e a primeira metade de dezembro, e depois no pós-carnaval. Porém, há uma particularidade que se destaca no Brasil em 2025: a falta de um grande festival para juntar um número maior de shows (como citado no primeiro parágrafo) fez com muitos artistas que estão vindo para a América do Sul em festivais cheguem aqui em shows solo.

Por exemplo: do Corona Capital, que acontece de 14 a 16 de novembro na Cidade do México, estarão também em São Paulo em novembro Polo & Pan, Anna of The North, Bôa, Nilufer Yania, Mogwai, Weezer e James. De outro festival mexicano, o Hipnosis, três nomes já confirmaram que descem ao Brasil em novembro: Geordie Greep, Motorama e Molchat Doma. Do chileno Fauna Primavera, que acontece em Santiago dias 7 e 8 de novembro, estão confirmados em São Paulo shows de Massive Attack, Stereolab, Tash Sultana, Otoboke Beaver, Fcuckers, Bloc Party, The Whitest Boy Alive e Yo La Tengo (além de Mogwai, Weezer e James). Ou seja, só de três festivais da América do Sul, 18 artistas confirmaram shows no Brasil.

Por outro lado, no Brasil teremos o Balaclava Fest (com Stereolab, Yo La Tengo, Geordie Greep e Fcuckers) e o “festival do Weezer” (com Mogwai, Otoboke Beaver e Bloc Party). Para muitos, faltam um grande festival para abraçar todos os shows, como o Primavera Sound São Paulo, que após assinar um contrato de 10 anos com a T4F Brasil, entrou em modo de hibernação. Para outros, a oportunidade de ver um artista solo é muito mais interessante do que vê-lo em um festival, principalmente em termos de set list (recentemente, o Teenage Fanclub tocou 13 músicas em um festival em Belém contra 21 no show solo em São Paulo e 22 no show solo no Rio – ou seja, num festival, você vê 2/3 de muitos shows solo), mas o custo final pode ficar muito mais salgado.

Uma coisa, porém, é certa: se no século passado, Roberto Medina precisou camelar muito para convencer artistas gringos a tocarem no Brasil (as histórias do primeiro Rock in Rio, de 1985, são ótimas) e o cenário de shows foi se ampliando de maneira gradativa nos anos 90, o século 21 viu a consolidação do país como rota de turnês. Hoje, muitos artistas, de nomes de respeito no cenário independente (incluindo gente conhecida apenas em nichos) a estrelas mainstream, fazem questão de incluir o Brasil em suas turnês. Há bastante para evoluir, ainda, a começar por uma descentralização das turnês, já que é um complicado falar que “fulano” fez show no Brasil quando ele só se apresentou em São Paulo, mas se antes, nos anos 70, 80 e 90, fãs reclamavam que “ninguém” vinha tocar no Bananão, o cenário mudou: está vindo todo mundo, e no mesmo mês. Você já tem programa para novembro, caro leitor(a)? Qual o show imperdível de novembro pra você?

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne. A foto que abre o texto é de Liliane Callegari

4 thoughts on “Por que “todos os shows” acontecem em novembro no Brasil?

    1. Então, Rafael, é logistica e investimento, falando de uma maneria rápida. Ou seja, há um custo envolvido no show (cachê, deslocamento, hospedagem) que, muitas vezes, a bilheteria que cobre. Podem existir parceiros envolvidos que podem injetar dinheiro revertido em publicidade e coisas assim, e esse valor entra na balanço do show. Mas o que importa é: o show se paga? Se levar determinado artista para determinada cidade, qual será o número de pagantes?

      Observado o mercado pós pandemia, aparentemente muitas produtoras perceberam que São Paulo é um porto seguro para shows, ou seja, elas vão alcançar o número necessário de público para pagarem as contas e terem determinado lucro.

      Dai que para levar um show para… Fortaleza, por exemplo, o racicionio rápido seria mais ou menos assim: o artista vai fazer um show em SP, e você quer levar ele pra Fortaleza. É preciso encontrar o contratante master do show, ou seja, quem está trazendo o artista para o Brasil, e negociar. Ele vai te cobrar, provavelmente, o cachê que ele está pagando mais uma porcentagem (que você irá pagar à vista, antes do show acontecer) e você ficará responsável pelo deslocamento da banda de São Paulo a Fortaleza (o que inclui as passagens áereas que podem ser de 3 a 10 pessoas – dependendo da formação e da equipe – aqui tb se inclui o excesso de bagagem), hospedagem, alimentação, locação do espaço e do som seguindo as especificações do rider técnico da banda, ou seja, tudo o que eles precisam para fazer um show). E todo custo envolvido nisso “cachê + aereas + hospedagem + alimentação + produção do show” vai ser pago pelo número de ingressos que você vender…

      Pessoalmente, eu acredito que essa descentralização de shows só irá acontecer quando tivermos produtores descentralizados, gente que entenda sua cidade, entenda esses números todos, e esteja interessado em viabilizar isso. Não dá pra esperar um produtor de uma cidade (São Paulo) fechar o show em outra (Fortaleza), porque a gente está falando de shows que podem custar R$ 100 mil (que é menos de 20 mil dolares), R$ 200 mil, R$ 500 mil, e ninguém quer (pode) perder dinheiro. É preciso conhecer seu público, ter uma ideia muito clara de quantas pessoas vão pagar pelo show.

  1. Esse texto é bem interessante.

    E é muito curioso que eu li ele e uma semana depois estou meio que vendo isso em relação ao show do The Cardigans, que vem pra América do Sul, ano que vem…na época de Carnaval, eles próprios, disseram que não tiveram propostas pro Brasil, fico me perguntando se foi devido a isso (embora alguém podia traze-los um pouco antes do Carnaval, dia 10 eles tocam em Santiago e depois vão pra Peru e Colômbia). Uma pena. Marcelo fala pra alguém do mundo da música traze-los plmdd huahua

    Sobre esse super novembro de shows, muita coisa poderia estar em um festival, um Primavera da vida, ou similar, me pergunto, se eles não vão acabar se canibalizando…

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