Jazz in Marciac 2025: O jazz de estrada dos ciganos Stochelo & Mozes Rosemberg Trio

texto de Carlos Lopes
fotos de Laurent Sabathé

Porque é Marciac, porque são os melhores jazzistas reunidos, porque o público é intensamente interessado, segunda-feira também é dia de grande concerto na 47 edição do Festival de Jazz de Marciac (JiM).

Nesse dia habitalmente vazio de atrações nos palcos do mundo, entrou em cena o Stochelo & Mozes Rosemberg Trio, grupo de jazz Manouche que não é de lugar algum, visto que enquanto música cigana o Manouche está here, there and everywhere!

Na estrada (palavra jamais tão apropriada) há 35 anos, o S & M Trio já gravou 17 albuns. Como side man, Stochelo, o guitarrista líder, tocou, por exemplo, com o Manhatan Transfer e com Stephane Grapelli. No grupo, o irmão mais novo de Mozes faz a outra guitarra. São músicos refinados. Stochelo é conhecido na Europa por sua virtuose e elegância. Tinha gente ansiosa para vê-lo em cena em Marciac.

Não bastasse o evidente talento dos irmãos ciganos (guarnecidos pelo igualmente brilhante contrabaixista Matheus Nicolaiewsky), eles apresentavam no JiM, pela primeira vez, o conteúdo de um show concebido com composições Manouche de Charles Chaplin. Isso mesmo! Que o gênio do cinema Carlitos também compunha não é novidade (“Smiles”, de sua autoria, tem inúmeros registros por grandes nomes do Jazz), mas para além disso, Chaplin se dedicou, em algum momento de sua rica vida artística, a compor especialmente jazz manouche.

Na abertura da apresentação Stochelo lembra ao público das origens ciganas de Carlitos, reveladas não faz muito tempo por uma de suas netas. É a deixa para a vibrante execução de uma dezena de composições. Entre as quais a própria “Smile”, a valsa “Gipsy” (escrita para o filme “O Ditador”, de 1940, e inédita ao vivo), e “This is My Song”, entre outras.

A velocidade, a jactância de notas e a precisa cama harmônica que o jazz Manouche legou à música estão presentes de forma impecável nas interpretações do trio. Os irmãos Rosenberg partilham momentos solo e base e sua generosidade abre ainda farto espaço para ricas evoluções melódicas do contrabaixista Matheus.

O público que aguardava com grande expectativa o show desse trio fantástico responde à altura em entusiasmo, com demorados aplausos, gritos e assovios. Falta só a fogueira e a caravana, para o clima de acampamento cigano nos contagiar por completo. Findo o repertório dedicado à Chaplin, os três atacam composições de Nino Rotta e do irmão mais novo, Mozes, com igual arrojo, competência e brilho.

Após hora e meia nesse êxtase, o bis é inevitável. Os irmãos estão contentes. É notória e contagiante sua satisfação em tocar em Marciac.

Os ciganos são um povo historicamente mal recebido nas fronteiras do mundo, uma vez que as desconhecem. Sua alegria de viver e seu talento, no entanto, nunca puderam ser barrados em lugar algum.

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– Carlos Jack Dias Lopes é jornalista. As fotos dos shows são de Laurent Sabathé / Jazz in Marciac

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