Entrevista: Don L lança “Caro Vapor II” e diz que o Brasil precisa “voltar a pensar como um país soberano”

entrevista de Thiago Sobrinho

Don L mira um mapa-múndi e o vê de cabeça para baixo. Afinal, já faz tempo que para o rapper cearense o Sul Global é seu guia. Em “Caro Vapor II – qual a forma de pagamento” (2025), esse giro decolonial se traduz na estética e na ideologia, especialmente quando o artista de 44 anos reivindica dialogar mais com o Brasil e a América do Sul do que com Estados Unidos ou Europa.

Em entrevista ao Scream & Yell, o “último bom malandro” explica que suas escolhas nasceram de uma recusa de elementos musicais estrangeiros: “Falava para (os produtores) Nave e Iuri: ‘Não quero batidas gringas nesse disco, tem que ser batida nacional, ou África, ou América Latina. Vamos conversar aqui entre nós, com a nossa rítmica’”, ressalta Don L.

Exemplo disso é a faixa “Para Kendrick e Kanye”, referência direta a Kendrick Lamar e Kanye West. A evocação a “Para Lennon e McCartney” não é à toa. Assim como Milton Nascimento homenageava seus ídolos na década de 1970; agora, em 2025, Don L dialoga e provoca os dois dos principais rappers da atualidade ao reafirmar sua crítica ao imperialismo no cenário musical.

Ao longo das 15 faixas que compõem o álbum, essa inquietação se traduz numa tentativa de recuperar uma autoestima brasileira. Isto é, uma satisfação e alegria que já se cristalizou musicalmente no passado. “A gente conversa muito pouco entre nós (entre países latino-americanos e do Sul Global), que somos tão parecidos. Queremos conversar com nossos algozes muito mais. E a conversa é sempre subserviente. Ela não é de igual pra igual”, destaca.

Nas redes sociais, porém, esse é um papo que ainda não foi assimilado por todos. “No Twitter, quando faço uma crítica a um rapper gringo vem gente questionando quem é o Don L para falar do Rick Ross, um cara que tem 50 milhões na conta. Para ele, a métrica sobre uma peça de arte é o sucesso comercial. É um bagulho meio ridículo, mas isso é um pensamento muito comum”, critica.

Agora, com o novo disco lançado, Don L planeja os próximos passos e adianta que eles podem convergir com a linguagem audiovisual: “Tenho um curta-metragem que queria ter lançado junto com o disco, mas não consegui fazer. Eu tinha um pré-roteiro que mandei pro Geovani Martins (‘O Sol na Cabeça’ e ‘Via Ápia’), que é um grande escritor contemporâneo brasileiro lá do Vidigal, no Rio de Janeiro”.

“Eu o chamei, e ele aceitou. O que é uma honra muito grande pra mim, porque ele é um cara muito requisitado hoje em dia. E a gente está tentando fazer. Espero que em algum momento isso esteja na rua”, conclui o “rapper favorito do seu rapper favorito”. Confira a entrevista completa abaixo:

Como foi esse seu processo criativo de retorno ao “Caro Vapor”? Como você chegou a esse resultado?
Bom, eu já tinha o plano de fazer o “Volume II”, desde sempre. Já tinha esse plano, mas passou muito tempo. Só que esperei chegar ao momento certo. Acho que não só por uma questão de criação artística, às vezes de condição mesmo. Então, tipo, eu quero produzir um disco de um jeito específico e, às vezes, preciso de uma condição financeira pra isso também. Uma tranquilidade pra que você consiga pagar as pessoas pelo menos o mínimo. Nunca produzi nenhum disco com a condição ideal. Sempre foi numa condição mínima, sabe?

E, tipo, precisava disso e aí chegou o momento. Eu já tava com a ideia do que eu queria, em termos de sonoridade. Essa onda de não ter nada gringo no disco. Nada gringo no sentido do Norte, da América do Norte, da Europa e tal. Óbvio que estou dialogando ali com a África, com a América Latina. Pensando mais em Sul Global, que eu acho que é uma conversa que a gente tem que ter cada vez mais, do que com o Norte, que a gente sempre teve uma postura de subserviência. Eu tentei fazer isso, achei que estava na hora. Então tem toda essa confluência de elementos, de momentos da vida, do que que eu tô vivendo, do que que eu tô sentindo, de como as coisas que acontecem no mundo estão me atravessando e o que eu tenho a dizer sobre isso.

Que tipo de Brasil você buscou retratar ao longo desses quase 56 minutos de álbum?
Tem dois Brasis aí, um Brasil imaginário, que é o Brasil que está mais em falta. E tem um Brasil real, que é o Brasil colonizado, o Brasil que está rebaixado, decadente. E tem a briga entre eles dois. Então é uma disputa, na verdade, entre uma ideia de Brasil que deixou de ser imaginada e o Brasil real. E esse Brasil real se curva a uma ideia de colônia mesmo. É uma coisa que ultrapassa o espectro político reduzido que a gente vive… de esquerda, que é uma esquerda liberal, e uma direita que tem muitos sonhos com Miami, com Nova York, Paris, entendeu? E olha pouco pra Istambul, pra Argel, Teerã, sabe? Ou (olha pouco) pra própria América Latina, pra Buenos Aires, pra Cidade do México, pra Cuba.

E esse outro Brasil é o que eu vivo. É o que eu sinto na pele, é o que me atravessa, é o que eu preciso falar também, é o que eu preciso me comunicar. E eu também estou sujeito. A gente às vezes também está sujeito a se autocriticar. Então o disco todo também é um questionamento a mim mesmo e até onde eu consigo. Acho que tinha uma ideia de Brasil que a gente deixou pra trás, quando a gente tinha mais autoestima, quando a gente achava que realmente a gente ia ser o país do futuro e que a gente tinha todos os recursos naturais e culturais.

Isso está localizado em que tempo, Don?
Eu acho que nos anos 60, até antes, nos anos 50, até os anos 80. No meio dos anos 80 pra frente começou a ficar esquisito.

É a ascensão do neoliberalismo também, né?

Porque é a ascensão do neoliberalismo no Brasil. Foi quando caiu a ditadura e o que se colocou. A queda da ditadura foi aquele jeitinho brasileiro… Acertado, né? Lenta e gradualmente. E teve uma galera que desistiu mesmo. Porque cansa. Eu sei que cansa. Então grandes nomes da nossa imaginação artística e política se conformaram um pouco. Depois veio o rap. E ele veio, tipo, questionando também muita coisa. Mas também cansa, porque é complicado, saca? Mas a gente foi deixando, foi deixando, foi deixando… E aí eu tentei trazer uma outra imaginação, porque também não é aquela, é outra agora. É outra coisa.

De que maneira essa reinvenção que você e outros artistas fazem, utilizando samples de artistas brasileiros do passado, são importantes para a construção de novas identidades culturais no Brasil de hoje?
O Marcelo D2, quando veio com aquele disco “Eu Tiro É Onda” (1988), foi um marco na história da música brasileira mesmo, porque vem do gueto, da periferia. Não é exatamente norte-americano. E acho que foi um jeito que eu já fiz também, mas que é diferente. Que é você usar samples brasileiros dentro de uma estrutura rítmica gringa. Óbvio que ele também colocava o samba ali, no ritmo. E aí eu queria ir um passo além. Queria, tipo, tirar as batidas gringas do disco. Então foi outro passo porque eu queria propor algo novo também. Acho que essa linguagem de fazer sample com boom bap já foi feita, tá ligado? De samplear a música brasileira e botar um boom bap em cima. Eu acho massa, mas queria uma coisa realmente nova.

Partindo da ideia que há um Brasil que precisa ser redescoberto e que você aponta caminhos para isso, as suas letras abordam temas como migração e deslocamento pessoais e coletivos. Como as suas experiências dialogam com esses fenômenos migratórios globais e essas ideias de fronteiras, que podem ser físicas, culturais ou digitais?
Essa contradição que está ali – de um Brasil real colonizado ao extremo, e um Brasil possível – muitas vezes é muito sutil. Essa coisa de você navegar por esses mares. Às vezes o que estou propondo está muito mais em uma forma de dizer, do que eu não quero. Porque é importante saber o que você quer e o que você não quer. A partir daí a gente pode começar a conversar. E estou propondo um caminho sonoro, uma forma de se enxergar no mundo. Pra gente conseguir criar algo, criar um sonho.

Essa coisa do imigrante é uma coisa muito doida, porque depois que saiu o disco, estourou mais ainda do que já está estourado, né? A gente está num mundo que isso conversa muito com a minha própria experiência, porque dentro do Brasil eu sou um imigrante. Sou um nordestino em êxodo pra São Paulo, como muitos já foram e construíram essa cidade e muitas outras no Brasil. Então converso a partir da minha própria experiência, mas enxergando também essas outras experiências de um mundo cada vez mais onde as pessoas tentam fugir do reflexo do colonialismo. Você vê que a Europa agora está descobrindo que, porra, de repente fez merda. Mas pra mascarar essa constatação tem uma parcela toda política que chega e diz que o problema da merda que está acontecendo são os imigrantes. Mas o que são os imigrantes invadindo a Europa? É o reflexo da própria colonização que eles praticaram.

E essas são respostas muito fáceis para questões muito complexas. E, às vezes, apesar de complexas, não são tão difíceis de entender. Porque você imagina que se você é um francês, deve imaginar que a França colonizou a Argélia, certo? Não é possível que você não saiba disso. E você não pode imaginar que, porra, de repente a Argélia podia estar melhor. E a galera está com tanta vontade de ir pra França porque está tão ruim e está ruim porque a gente fez essa merda lá. Aliás, aqui está melhor porque a gente roubou deles. É complexo, mas também não é tão difícil de entender.

Em “Para Kendrick e Kanye”, você coloca o Sul Global no centro desse discurso e parece propor um novo olhar para nós. Na sua visão, em que estágio estamos desse despertar e como esse sonho de futuro pode transformar a realidade que vivemos?
Acho que esse sonho, primeiro, tem que valorizar coisas que a gente cria, formas de vida que a gente produz e se organizar coletivamente. Sem organização coletiva a gente não tem como mudar nada. Mas, em primeiro lugar, ter um pouco mais de autoestima. Um pouco mais de cabeça erguida. A gente acredita muito numa narrativa que vem de fora. A gente precisa ter uma autoestima brasileira. Voltar a pensar como um país soberano, e isso inclui tudo: cultura, música, estilo de vida, política, saca? A gente não pode pensar numa chave só, porque não é como se a gente pudesse, a partir de agora, através do consumo, por exemplo, mudar o mundo. O consumo não muda as coisas. Mas se você junta pessoas e procura difundir ideias é, tipo, outra coisa. Então tem uma questão de se organizar coletivamente e também ter mais autoestima, pensar no que vale a pena pra gente.

Mesmo que hoje as gravadoras não tenham o poder que tinham no passado, ainda existe esse filtro elitista delas que decide o que vai ser ouvido ou marginalizado. Essas decisões são feitas por homens brancos e ricos, o que não deixa de ser uma forma de colonialismo dentro da indústria.
E agora eles podem fazer isso de uma forma muito mais sutil através dos algoritmos. A gente não está nem vendo, ele é direcionado, mas também tem um outro lado, que é o financiamento. Então, tipo, tem muita coisa interessante sendo feita, mas tem muita coisa que poderia ser interessante e não consegue ser porque não tem grana suficiente, porque produzir arte é caro também. Então fica aí o questionamento sobre como que a gente vai financiar uma arte, criar uma arte brasileira competindo com uma parada que é super financiada. Às vezes é questionando também quem está no topo e pensar que a gente conseguiu muitas coisas sem financiamento nenhum. Conseguimos chegar muito longe. Muitos ritmos e estilos musicais brasileiros conseguiram chegar lá em cima, ganhar um monte de dinheiro.

Você mencionou a questão dos algoritmos, e a gente está ligado que esse algoritmo não é neutro. As entregas são enviesadas. É o que tem gente que chama de racismo algorítmico, né? Você acha que a partir dessa lógica há o risco de apagamento da memória cultural brasileira e latino-americana?
Cara, o risco sempre há, mas a gente é muito resiliente. Eu sou um exemplo. Eu não gosto de teoria da conspiração, mas a galera sempre fica me mandando mensagem dizendo que é difícil colocar minhas músicas no Instagram. E essas redes tem dono. Esses donos atendem apenas aos seus interesses.

Quando o Twitter mudou de dono, eu não acho que o outro fosse tão diferente, os meus posts começaram a ter muito menos alcance. E a violência através das redes, ela é diária. É subliminar. Ela vai fazendo as pessoas se acostumarem e ficarem insensíveis a um genocídio acontecendo em tempo real, do outro lado do planeta, entendeu? Coisas que, há um tempo, uma imagem dessa chocaria o mundo, mas a repetição delas deixa você insensível. Não só essas imagens, mas a mistura dessas imagens com a sedução e itens de consumo.

Você canta em “tristeza Não” sobre malandragem para não ir de arrasto. Num momento tão difícil no Brasil, em que diferentes formas de se viver são constantemente atacadas, quais são suas estratégias para manter o equilíbrio?
Então, é muito doido o mundo que a gente vive. A gente precisa estar lutando a favor de uma sanidade. Precisamos valorizar mais espaços fora das redes, uma vida offline. Tentar cada vez mais isso. Mas, cada vez mais, isso também é uma forma de privilégio. Hoje em dia, não ter celular ou usar pouco celular é uma distinção de classe. É um privilégio de poucos. Então, a gente tem que pensar e tentar ter alternativas pra isso. Mas solucionar mesmo é lutando por uma outra forma de internet, uma regulação das redes. E a regulação é também um paliativo, né? O ideal seria redes sociais brasileiras, por exemplo. Não estrangeiras. (É ser) Como é na China, como é em outros lugares do mundo. É uma longa batalha que está só começando a ser travada.

Don, me fala mais sobre seu futuro. Como que está o seu planejamento de shows, o que você quer entregar ao público e, também, se você já tá trabalhando nesse meio tempo em outras coisas, em outras participações.

Estamos preparando o show que vai ser uma outra experiência. Trago pro show um bagulho que complementa o disco. Em um sentido de outros elementos, estímulos visuais de palco mesmo e de performance. E uma tiração de onda. Um momento pra você curtir e também se libertar um pouco. Tipo, a música, ela tem esse poder. Por isso que eu quis trazer essa era da música brasileira ali, que era muito associada a algo libertador ao mesmo tempo que tinha coisas profundas sendo ditas nas letras. Mas com uma leveza, com uma coisa que te trazia uma sensação de se libertar mesmo. E é isso que eu quero traduzir pros shows.

– Thiago Sobrinho (fb.trsobrinho) é jornalista do A Tribuna em Vitória, Espírito Santo.

One thought on “Entrevista: Don L lança “Caro Vapor II” e diz que o Brasil precisa “voltar a pensar como um país soberano”

  1. Entrevista necessária demais! Em tempos tomados por diferentes crises é preciso ter sensibilidade para construir um novo que é ancestral tb!

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