Bush ao vivo no Rio: desse arbusto não sai coelho

texto de Marco Antonio Barbosa
fotos de Alessandra Tolc / T4F

O Bush é uma banda com 33 anos de carreira, nove álbuns lançados (e mais um a caminho), mais de 20 milhões de discos vendidos e zero ideias originais. Tornaram-se famosos graças à improbabilidade de sua trajetória: um grupo britânico com som americano, desprezados na terra natal, mas estourados nos EUA, ocupando o vácuo deixado pela morte de Kurt Cobain. Igualmente improvável é o fato de o quarteto, que retomou atividades em 2010, ter empreendido uma tour brasileira em pleno ano da graça de 2025. Quem são os fãs do Bush no Brasil hoje? O grupo andou para a frente ou para trás desde a volta? Gavin Rossdale aplicou botox ou não? Fomos ao Vivo Rio conferir, na quarta-feira (02/04).

Dos tempos de sucesso nos anos 1990, só sobrou Rossdale na formação. O vocalista hoje se vira com o apoio de Chris Traynor (guitarra), Corey Britz (baixo) e Nick Hughes (bateria) – trabalhadores braçais do rock, com longa quilometragem em palco e estúdio – (Britz era o baixista do horroroso The Calling). Ao vivo, a formação atual tem competência suficiente para recriar os hits, escorando-se mais no volume do que em qualquer pirotecnia instrumental. Mas também não é como se os arranjos originais apresentassem qualquer grande desafio.

O ponto de interrogação recai sobre o frontman. Na (fraca) performance no último Lollapalooza, muita gente nas mídias sociais questionou não apenas a capacidade vocal de Rossdale; também houve a desconfiança do uso de playback. No show no Rio, a sensação foi parecida. O volume da voz oscilava bastante entre uma música e outra, subindo nos números em que o cantor deixava a guitarra de lado e baixando em outros. Como em diversos momentos houve a aplicação de efeitos nos vocais, fica difícil cravar com certeza. De resto, Rossdale até que ainda dá pro gasto. O Dinho Ouro Preto do pós-grunge envelheceu dignamente – exceto nos momentos em que dança desengonçado no palco. E foram muitos…

Voltando à trajetória do Bush, em 1996 o grupo conseguiu me enganar por exatos 61 minutos e 43 segundos. É a duração do álbum “Razorblade Suitcase”, no qual a banda (produzida por Steve Albini) apostou em um som mais sujo e menos diretamente decalcado da galera de Seattle. Pena que o setlist do show no Vivo Rio seguiu à risca o apresentado no Lolla e em Curitiba, tocando só duas músicas do melhor LP. “Greedy Fly” ao vivo soa bem mais parecida com Nirvana do que no disco. Infelizmente, na hora de apresentar o hit “Swallowed” – um dos melhores decalques dos Pixies – eles optam por uma bizarra versão eletrônica, com Rossdale cantando sozinho no palco sobre uma base pré-gravada de teclados atmosféricos. Surreal e frustrante.

De resto, o show serviu para mostrar que o Bush segue perseguindo o mesmo som que faziam em 1994. As músicas de “The Art of Survival”, o LP lançado em 2022, seguem o mesmo template do repertório de “Sixteen Stone”, o primeiro disco. E são esses os álbuns que dominam o setlist. Do mais recente, “Identity” desperta mais uma vez a desconfiança sobre playback, e “Heavy Is the Ocean” ao menos cumpre a promessa de peso de seu título. “Machinehead”, “Little Things” e “Everything Zen”, do álbum de estreia, convencem mais pela aclamação popular que pela performance.

Há um certo clima burocrático na apresentação. O guitarrista Traynor, mascando chiclete o tempo todo, não se esforça para disfarçar o tédio. Para o público, tudo bem. Afinal, tem que ser muito fã de Bush para encarar um show em plena quarta-feira e com ingressos caríssimos (o que certamente influiu na baixa lotação do Vivo Rio). Apesar de Rossdale ter dito que era “mágico e transcendental” voltar ao Rio, a impressão que fica do show é a de falta de fôlego, após um set de pouco mais de uma hora. Para fazer o espetáculo chegar a 1h17 de duração, o grupo precisou esticar bastante a última música, “Comedown”; nesse ponto, a barragem de distorção já deixara de ser empolgante para soar apenas cansativa.

Tudo bem, poderia ser pior. Poderia ser o Nickelback.

– Marco Antonio Barbosa é jornalista (medium.com/telhado-de-vidro) e músico (http://borealis.art.br). 

4 thoughts on “Bush ao vivo no Rio: desse arbusto não sai coelho

  1. Bah, fui em Curitiba e senti o mesmo que ti (e olha que sou super fã das épocas de adolescente, hoje o Rossdale não me encanta mais). O local aqui, a lendária Ópera de Arame, foi acertado, bonito, razoavelmente confortável, aconchegante, boa visibilidade, pequeno e realmente o cara interage bastante com as quarentonas (como eu) que sonham em ganhar um beijinho do Rossdale tiozão, encharcado de suor (não, obrigada). Porém, sobre ingressos caríssimos e uma coisa que, creio não ser exclusiva de Curitiba, mas muito evidente aqui, são os “VIPs” nos melhores lugares e ganhando pulseirinhas quando é claríssimo que mal sabem quem são os músicos, mas ganharam pulseirinhas porque são amiguxos do promoter maltrapilho do evento que, enquanto isso, exige aos berros comprovantes de meia entrada dos clientes pagantes (sim, isso aconteceu comigo e outras pessoas e sim, tenho como comprovar meu direito). E não é o primeiro show que vejo isso, gente que nem devia estar ali, que nem liga pra quem está tocando, ali incomodando (porque ficam conversando como se estivessem num bar, gritando pra chamar os miguxos), só porque ganhou pulseirinhas. Enfim, o mundo é assim mesmo, fazer o que.
    Quanto ao repertório, sim, pelo preço e por ter sido basicamente um pocket show, fraco, curto por demais e é bastante evidente no mínimo um “efeito” na voz do Rossdale de vez em quando (sim, a falta das guitarras em Swallowed me incomodou também). O guitarrista tava quase dormindo, o baixista é competente e estava animado, mas sabemos que eles são contratados e não têm relação emocional com as canções. O Gavin dançando e fazendo o sexy é duro de aguentar, mas eu sou exceção, as tias vão à loucura e deve ser por isso que ele faz essa vergonheira. No demais, se eles voltarem mais uma vez, não vou mais, já deu pra mim.

  2. O fato de apenas uma música do Razorblade Suitcase figurar no setlist de uma chamada “Greatest Hits Tour” e o uso playback me decepcionaram bastante.
    Guardarei as lembranças do show de 2019.

  3. Dizer que “Razorblade Suitcase” é mais pesado, que Greedy Fly lembra Nirvana (em qualquer contexto), que Swallowed lembra Pixies, são diferentes variações de delírio, mas vá lá.

    Agora, uma pergunta: o que é verdade? “a baixa lotação do Vivo Rio” ou a foto da plateia que ilustra a matéria? São coisas mutuamente excludentes.

  4. Discordo que a banda “segue perseguindo o mesmo som que faziam em 1994”. Temos que reconhecer que o Bush dos anos 90 e inicio dos 2000 não existe mais. Mesmo com o Rossdale à frente, eles viraram outra banda, sem aquele som de garagem de guitarras sujas e linhas de baixo marcantes. Estão mais para um “nu metal” fraquíssimo agora. Quanto ao show, estive no de Curitiba e mesmo com as partes negativas (a falta de folego e as dancinhas do Rossdale, a presença das músicas da última década em detrimento de clássicos do passado, a versão a cappella de Swallowed, o set curto etc), achei o show bem divertido. As músicas antigas funcionam muito bem ao vivo e criam uma energia bem bacana com o público, algo que até uma banda cover (meio que o que eles são agora) conseguiria atingir.

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