Três filmes: “Emilia Pérez”, “Conclave”, “Anora”

textos de Marcelo Costa

“Emilia Pérez”, de Jacques Audiard (2024)
Escrever sobre “Emilia Pérez” no dia de seu lançamento nacional após tudo que circundou o filme nos último 30 dias é… interessante. Primeiro porque a derrocada vertiginosa da obra, com seus equívocos (a transfobia, os estereótipos, o foda-se para a representatividade) sendo saboreados por detratores, facilita a definição: “Emilia Pérez” é uma bobagem (e Selena Gomez forte candidata ao Framboesa de Ouro, o Oscar dos piores do ano). Isso tudo, porém, já foi debatido a exaustão, o que nos permite avançar para um segundo ponto: como um filme repleto de problemas como esse é premiado pelo júri em Cannes? É laureado com quatro prêmios no Globo de Ouro? E indicado a 13 O$car$? Hummm. Não é novidade para ninguém que ser o melhor não garante que você vá levar um prêmio para casa no final da noite. Porque entre a grande atuação e o prêmio existe uma indústria tanto pronta para difamar quanto para depositar fortunas em sua produção – em 1999, a Miramax investiu US$ 15 milhões para “convencer” os membros da Academia de que “Shakespeare Apaixonado” (indicado também à 13 Oscars) merecia o Oscar de Melhor Filme (levou esse e mais seis!), contou Alexandre Inagaki aqui no Scream & Yell. Detalhe: a estrategista de marketing de “Shakespeare Apaixonado” é a mesma de “Emilia Pérez” hoje! Ou seja, filmes são investimentos financeiros em busca do maior lucro possível, algo que uma premiação (mundial) pode ajudar (e muito), mas não deveria se envolver com… Arte. Infelizmente, a fronteira é tênue. Tudo isso faz de “Emilia Pérez” um filme que não deva ser visto? Não, até porque Audiard tem todo o direito de utilizar-se da transfobia, do estereótipo e da falta de representatividade como ferramenta argumentativa para alcançar determinados resultados – o cinema não tem que ser politicamente correto. Suas escolhas, porém, soam rasas, confusas, questionáveis. Audiard empilha cenas desconexas sem conseguir alcançar o amago de sua personagem, deixando-a à mercê de seu próprio vazio – e de seus preconceitos. O resultado é uma bobagem esquecível que, por descuido (e marketing), chegou longe demais.

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Nota: 1


“Conclave”, de Edward Berger (2024)
Não é novidade para ninguém (parte 2) que o cinema anglo-saxão está correndo atrás do próprio rabo há décadas. Vez em quando surge algo instigante, mas a regra geral é a repetição, a diluição, o formulaico, adjetivos que combinam com Edward Berger, diretor e roteirista suíço nascido na Alemanha Ocidental que já têm um Oscar na estante por “Nada de Novo no Front” (2022), um filmaço formulaico, e está em busca de outro com este “Conclave”, que mantém as características vencedoras do filme anterior, para o bem e para o mal. Baseado no romance de mesmo nome do autor Robert Harris lançado em 2016, “Conclave” adentra um dos eventos mais secretos e antigos do mundo: a escolha de um novo Papa, um ritual praticamente inalterado há oito séculos que acontece quando o Colégio dos Cardeais se reúne no Vaticano para uma votação secreta, e assim escolher o novo líder da Igreja. Nesse microcosmo social, quase uma Torre de Babel, o roteiro insere arranjos políticos, manipulação egocêntrica e delitos criminais defendendo que, assim como os demais seres-humanos, nenhum cardeal é santo (uma frase por si só repleta de camadas). Cinemão clássico indicado em oito categorias do Oscar (com atuações destacadas de Ralph Fienes, Stanley Tucci e Isabella Rossellini), “Conclave” cumpre o que se espera dele, ainda que seja barrado no teste “Morris West de qualidade”. Escritor australiano com mais de 60 milhões de livros vendidos em todo o mundo, West dedicou parte de sua literatura a investigar os bastidores da Igreja Católica (em best-sellers como “As Sandálias do Pescador”, “Os Fantoches de Deus”, “O Milagre de Lázaro” – conhecidos como Trilogia do Vaticano – e “Advogado do Diabo”, entre tantos), e o que o espectador observa em “Conclave”, principalmente no terço final, é uma alegoria que tira os pés do chão, sobe aos céus e beira o fantástico de maneira forçada – ainda que as questões que propõe sejam interessantes. West não aprovaria. O saldo final, no entanto, é de um bom filme que só tem espaço no Oscar porque a Academia ampliou a lista de indicados para 10 obras a partir de 2010. Mas que, em um ano conturbado como este, pode surpreender.

Nota: 7,5


“Anora”, de Sean Baker (2024)
Ani é um dos grandes personagens cinematográficos da temporada. E não apenas devido ao fato de Mikey Madison ter agarrado com unhas e dentes (literalmente) o papel de trabalhadora do sexo que as premiações mundo afora tanto amam na história do cinema (da Cabíria felliniana que ganhou Cannes passando por Irma La Douce – Shirley MacLaine foi indicada ao Oscar por sua dama de meias arrastão verdes, mas não levou –, pela Gloria Wandrous de Elizabeth Taylor em “Disque Butterfield 8”, pela Alma Burke de Donna Reed em “A um passo da eternidade” e pela impagável Linda de Mira Sorvino em “Poderosa Afrodite”, entre muitas outras vencedoras), mas porque Anora é deliciosamente complexa em seu histrionismo profissional. Sim, Sean Baker volta a focar o lado dos desafortunados neste filme como fez em trabalhos anteriores (o brilhante “Projeto Flórida” agora tem um concorrente de peso em sua filmografia), delineando com sabedoria questões de classe, mas, sutilmente, a beleza de “Anora” não parece residir na epiderme de sua personagem principal, e sim em seu âmago, sufocado praticamente quase todo o filme por música alta, luzes fortes, berros, capangas de fim de semana e uma obrigação de ser forte em uma profissão que devora os fracos. Assim como magistralmente Woody Allen “usou” em “Vicky Cristina Barcelona” duas deusas de Hollywood, Scarlett Johansson e Penélope Cruz, para tirar o foco do espectador do tesouro de seu roteiro, que era Rebeca Hall, Sean Baker explora com excelência o mito do conto de fadas tradicional do jovem (russo) milionário (Ivan) que vai tirar Ani “desse lugar” (para delírio de Odair José) enquanto constrói, com delicadeza nas entrelinhas, o verdadeiro conto romântico que move seu filme (algo que o reconhecimento – inclusive com indicação ao Oscar de Ator Coadjuvante – da atuação deliciosamente contida de Yura Borisov como Igor, o jagunço favorito da vovó, apenas amplifica). Afinal, até no peito de um realizador atento às mazelas do mundo bate um coração.

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Nota: 8,5

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.





0 thoughts on “Três filmes: “Emilia Pérez”, “Conclave”, “Anora”

  1. Ainda bem que Karla Gascon resolveu arrumar briga com os brasileiros e acabou com a campanha de Emília Pérez. Quase que a academia embarcou no maior delírio coletivo desde aquele ano em que encheu “O Artista” de prêmios (não que filmes meia boca não tenham ganhado depois, mas um francamente tão ruim acho que não).

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