Meu disco favorito de 2021: Japanese Breakfast, por Alessandro Andreola

MEU DISCO FAVORITO DE 2020 #7
“Jubilee”, Japanese Breakfast
escolha de Alessandro Andreola

Artista – Japanese Breakfast
Álbum – “Jubilee”
Lançamento – 04/06/2021
Selo – Dead Oceans

Que grande ano para Michelle Zauner. A cantora/compositora/autora/diretora, que também atende por Japanese Breakfast, lançou um elogiado livro de memórias (“Crying In H Mart“, que foi direto pra segunda posição na lista de mais vendidos do New York Times), compôs a trilha de um videogame (“Sable“) e, entre as duas coisas, entregou o que talvez seja o melhor álbum de 2021. “Jubilee” — ou, como gosto de chamar, “o disco do caqui” — foi um acontecimento pop, pelo menos aqui em casa. Um indie rock com cordas, metais, climões e batidas eletrônicas. É sexy, é romântico, é contemplativo, é feliz. Poxa, pensando bem, isso sim que é Solar Power (desculpa, Lorde!).

O Japanese Breakfast tem tudo no lugar certo. Com vocais doces como os caquis que estampam a capa do disco, Zauner criou uma obra curtinha (37 minutos, que delícia), poeticamente afiada e salpicada com detalhes retrôs o suficiente para agradar velhos corações indies. Isso fica escancarado na candidata a hit do álbum, “Be Sweet”, um synth-pop oitentista com uma pegadinha: soa um pouco como uma banda circa 2005 fazendo uma canção de emulação nostálgica. Se naquela época o revival era justamente o som dos anos 1980, cá estamos nós começando a celebrar os 2000. É o eterno ciclo do zeitgeist cultural, que a cada virada de década revisita a moda de 20 anos antes. Logo veremos uma centena de imitadores tardios dos Strokes, me escutem.

Mas estou me desviando do assunto. O fato é que, independente de minúcias temporais, há muito para ser apreciado com gosto em “Jubilee”. Os metais da abertura-chiclete “Paprika” fazem um belo cartão de visitas para desarmar os desconfiados, enquanto “Kokomo, IN” é uma balada sonhadora deliciosa, daquelas que o Belle & Sebastian fazia tão bem. “Slide Tackle” também tem um pouco disso e é jóia pra ouvir de olhos fechados, enquanto “Posing in Bondage” (uau!) fará a alegria dos fãs do the xx. “Sit” tem um feliz parentesco com o shoegaze e “Savage Good Boy” traz um contraste entre a melodia divertida e a letra crítica que fala em acúmulo de riqueza ao ponto parasitário.

“In Hell” é mais uma balada docinha cheia de teclados. E eu posso estar viajando, mas “Tactics”, curiosamente, me lembra “Rainbow Connection”, a famosa canção dos Muppets (e acredite, isso é um elogio desprovido de ironia). É um exemplo dos poderes de Zauner, que muitas vezes soa como uma compositora à moda antiga.

A coda de “Jubilee” é “Posing For Cars”, uma música de mais de 6 minutos que começa devagarzinha e termina com solinho de guitarra e tudo. Aqui uma coisa importante: é admirável a estrutura do álbum, de canções curtas e diretas para desembocar em um manifesto final mais longo. Não sei se ainda se fazem muitos discos assim.

Vale ainda dizer que o Japanese Breakfast é mais um indicativo desse belo momento em que a música mais interessante do mundo é aquela feita por mulheres. Elas foram responsáveis por alguns dos discos mais incríveis de 2021 (Arlo Parks, Snail Mail, St, Vincent, Juçara Marçal, Wolf Alice, Lucy Dacus, só pra citar algumas), numa proporção que vem aumentando ano após ano. Pois olhe: que sigamos desse jeito.


Alessandro Andreola é jornalista, autor dos livros “Música do Dia” e “The War On Drugs: Lost In The Dream” e um dos responsáveis pela Editora Barbante

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