Entrevista: Felipe S fala de seu trabalho mais pessoal, “Espelhos”

entrevista por Bruno Lisboa

O cantautor pernambucano Felipe S tem como principal referência de sua carreira a função de vocalista da Mombojó, banda que tem em sua discografia cinco álbuns de estúdio, sendo o mais recente deles a trilha sonora do filme “Deságua” (2020).

Porém, movido pela inquietude, Felipe distribui suas atenções em diversas iniciativas e projetos que vão desde a Del Rey, grupo que tem o conterrâneo China como integrante e cujo repertório festeja Roberto Carlos, e uma elogiada carreira solo iniciada em 2017, época em que lançou “Cabeça de Felipe”. Quatro anos mais tarde Felipe retoma o formato com o lançamento de “Espelhos” (2021).

Fruto de uma campanha de financiamento coletivo, “Espelhos” é o resultado de dois anos de gravação em São Paulo no estúdio Trampolim em que, ao todo, 13 canções foram registradas para que Felipe chegasse num formato final com oito músicas presentes no álbum.

Espelhos” conta com a participação de Juçara Marçal na música “Umbigo Digital”, Otto (que assina a composição com Felipe) em “Atlântico Várzea”, Barbarelli em “Liberta” e do slammer Lucas Afonso cantando em “Sujeição”. Quem gravou as percussões do disco foram Mestre Nico e Homero Basílio enquanto Felipe Pacheco gravou todas as cordas sozinho em sua casa.

Os músicos que me acompanharam Felipe S na criação e gravação dessas músicas foram Arquetipo Rafa e Habacuque Lima (Ludov), que assina a produção do álbum. A mixagem ficou por conta de Arthur Dossa (The Raulis) e masterização por Arthur Joly. O projeto gráfico foi concebido por Renan Costa Lima. O álbum será lançado em vinil pelo selo Zenyatta Records ainda este ano.

Na conversa abaixo, Felipe fala sobre o novo disco, a escolha do novo repertório, os músicos que ajudaram a conceber o trabalho, o uso da tecnologia na contemporaneidade, a diferença entre os universos das gravações e apresentações ao vivo, a conciliação de diversos projetos, planos futuros e muito mais. Leia abaixo!

“Espelhos” é seu segundo disco solo. Há quem o diga que cada manifestação artística é, inevitavelmente, especular ao seu tempo e ao artista. Desta feita, o que este novo disco representa de/para você?
Minha carreira solo é um espaço para mostrar minhas composições no intuito de ter alguma canção minha gravada por outros artistas. Eu também gosto dessa experiência de guiar as decisões artísticas. Enriquece muito para produzir coisas para outras pessoas. “Espelhos” é um retrato da minha insatisfação com os rumos que o país tomou. É também uma autocrítica ao meu vício com celular. Uma tentativa de através da música melhorar a minha relação com o uso de internet. Acho que é o meu trabalho mais pessoal.

Segundo consta no release, durante o processo de gravação foram produzidas 13 faixas, mas 8 delas deram o ar da graça no novo álbum. Nesse sentido, como se deu a escolha do repertório?
Tentei criar uma identidade musical através das músicas. Queria lançar o disco na íntegra, mas por conta da campanha de financiamento colaborativo acabei optando por lançar as duas primeiras músicas antes. Foi um processo longo (2 anos) e super produtivo, aprendendo na prática que nesse caso a pressa era inimiga da satisfação. A música “Vento e Fogo” eu compus depois das primeiras gravações. Fiz pensando no disco. “Liberta” quase não entrou, pois eu já tinha masterizado tudo e depois achei que precisava mudar. Ela tinha sido gravada na primeira leva de músicas, mas depois foi preterida e acabou no finzinho retornando.

Como adepto da era do disco físico e da experiência que a audição completa de um álbum pode proporcionar, um dos pontos que mais sinto falta nesta era do streaming musical é a de poder saber quais foram os músicos envolvidos no processo de criação e gravação do disco. Ainda mais num disco tão belo e cheio de camadas como “Espelhos”. Desta feita quem foram os seus parceiros que ajudaram a confeccionar este novo trabalho.

Pois é, também compartilho dessa opinião. Eu fiz a ficha técnica para o vinil, mas ele está atrasado na fábrica então vou até fazer uma versão da ficha técnica para as redes sociais. Mas vou postar aqui:

Umbigo Digital
• voz, violão e guitarra ->Felipe S
• Baixo, synths e programações de bateria -> Habacuque
• Bateria -> Rafa Cunha
• Voz -> Juçara Marçal

Amigo Máquina
• voz e guitarra -> Felipe s
• Synths, programação de bateria e samplers -> Habacuque

Violento Monumento
• Voz e guitarra -> Felipe s
• Tímpanos, piano elétrico, samplers -> Habacuque
• Bombo, surdo, tarol, gonguê, porca -> Mestre Nico
• Bateria -> Rafa Cunha
• Backings -> Fabio Barros

Atlântico Várzea
• voz e gtr -> Felipe s
• Baixo -> Habacuque
• Bateria e voz -> Rafa Cunha
• Alfaia -> Mestre Nico
• Xequerê e agôgô -> Homero Basílio
• Voz -> Otto

Vento e Fogo
• voz e violão -> Felipe s
• Synths e samplers -> Habacuque
• Cordas -> Felipe Pacheco

Sujeição
• voz, violão e gtr -> Felipe s
• Baixo, piano elétrico, synths e samplers -> Habacuque
• Bateria -> Rafa Cunha
• Voz -> Lucas Afonso

Liberta
• voz e gtr -> Felipe s
• Baixo -> Habacuque
• Bateria -> Rafa Cunha
• Percussão -> Homero Basílio
• Voz -> Barbareli

Pela Janela da sala
• voz e gtr -> felipe s
• Baixo -> Habacuque
• Bateria e agogô -> Rafa Cunha
• Percussões -> Homero Basílio
• Gtr solo final-> Arthur Dossa

Faixas como “Umbigo Digital” e “Amigo Máquina” promovem reflexões pontuais a respeito ao advento da tecnologia e sua intervenção direta nas nossas vidas. Em tempos nos quais ela se torna mais presente, de forma perigosa e invasiva, qual é a sua visão para que o futuro nos reserva?
Eu torço que haja uma mudança para um uso mais consciente, mas imagino que não vai ser rápida. A internet surgiu muito sem regras e naturalmente várias coisas que poderiam ser usadas para o bem acabam, inevitavelmente, sendo capturadas pelo capitalismo. Esse vício que temos atualmente não é à toa. É tudo altamente calculado por quem desenvolve. Me dá tristeza entrar num ônibus e ver todo mundo olhando para uma tela de celular. As vezes penso que no futuro vai haver problemas do tipo que as pessoas terão lesões na mão por conta de segurar o celular de forma errada e, quem sabe, as mãos das próximas gerações começarão a ser diferentes.

Outra faixa que merece atenção é “Atlântico Várzea” parceria sua com o conterrâneo Otto. Me parece uma homenagem à Recife através de um olhar intimista, pessoal e cinemático. Como nasceu esta parceria e quais são inspirações geográficas que contribuíram para a gestação desta composição?
Essa música tem mais influência política do que geográfica, mas como sou pernambucano inevitavelmente acabo deixando rastros. A minha parte da letra eu fiz bem antes da parte de Otto. Foi antes de Lula ser preso. Ficava viajando em ouvir pessoas falando que se Lula fosse eleito deixariam o Brasil. Em cima dessa reflexão comecei a construir a letra. Nela eu faço um paralelo entre essas pessoas que sairiam do país se Lula fosse eleito e do meu ponto de vista. Quando eu falo: “não se esforçar, não alimenta seus desejos” eu falo de mim. Quando eu falo: “se der merda eu vou embora” eu falo dessas pessoas.

Uma das minhas faixas prediletas do disco é “Sujeição”, que soa para mim como um retrato cru e direto de um Brasil que sangra, mas que segue em luta por dias melhores. Para você qual é a importância de se posicionar artisticamente em tempos como os nossos?
Estamos vivendo tantas perdas de direitos que para mim é urgente se posicionar pra deixar claro o meu ponto de vista. Realmente, o Brasil está sangrando e nós estamos lutando para isso não ser totalmente silenciado. Lucas Afonso que escreveu e canta comigo teve uma participação espetacular. Me fez chorar ao ouvir a sua gravação. Ele não me mostrou nada com antecedência. Preparei tudo e botei pra gravar sem saber o que viria. Foi algo que me marcou muito. Adoro essa faixa também.

Voltando a falar das participações, além do Lucas Afonso e do Otto, o disco contém as presenças Juçara Marçal e Barbareli, entre outros. Como se deu a aproximação de vocês e quais foram as contribuições que cada um trouxe para este trabalho?
Em “Umbigo Digital” eu estava buscando alguém para incorporar o personagem que faz um chamado. Encontrei Juçara na fila de uma peça de teatro na Casa do Povo e a convidei repentinamente, e ela super solicita aceitou. No dia da gravação era a semana que minha filha estava prestes a nascer. Eu estava tão louco que nem mandei a música para ela ouvir. Mas ela fez assim mesmo com toda maestria. Otto é amigo do meu pai de longas datas. A gente pegava o mesmo ônibus nos anos 90. Eu voltando da escola e ele indo para Olinda curtir. Sempre me chamou a atenção porque ele ficava no fundo do ônibus batucando e cantando sozinho mesmo com o busão cheio de gente. Ele tinha um cabelão loiro e usava um short bem curto jeans. Eu já fiquei imaginando que devia ser amigo do meu pai porque meu pai é artista plástico e conhecia todos os malucos da cidade. Em “Atlântico Várzea”, ele chegou quando a música estava quase toda pronta, mas tinha um espaço para ele encaixar alguma coisa. E ele fez a letra na hora de gravar, e a cada take ia mudando. Parecia um jazzista improvisando. Lucas, como citei, me fez chorar. Só ouvi o que ele tinha feito na hora que ele foi gravar. Já a Barbarelli, estamos fazendo um disco pra ela juntos. Desde 2018 que estamos trabalhando. Ela tem uma potência vocal absurda, nasceu pra isso. Fico muito feliz de ter cruzado o caminho musical dela. Acredito que ela ainda vai lançar muita coisa. “Liberta” foi a segunda participação da vida dela.

Falando do universo das apresentações ao vivo, o Mombojó é uma das bandas que mais tive a oportunidade de assistir. Sou de Belo Horizonte e todos os shows que vi foram marcados por uma entrega expressiva de energia e performance. Nesse sentido onde você se sente mais realizado: no estúdio ou ao vivo?
Com certeza ao vivo. O estúdio eu sinto que é um eterno aprendizado, principalmente antes de gravar, nas criações. Sou autodidata e hoje sinto que estudar seria muito importante para abrir caminho dentro da minha cabeça. Estou nessa busca. E o palco é sempre um momento que tudo faz sentido pra mim mesmo quando eu erro ou algo não sai como esperava.

Para além do Mombojó e da carreira solo você ainda tem o projeto com a Del Rey, banda que celebra o repertório de Roberto Carlos. Qual o segredo para se dividir em diversas iniciativas tão bem-sucedidas artisticamente?
Não sei dizer se tem um segredo porque foram coisas muito espontâneas. A Del Rey surgiu da nossa amizade com China e da admiração dele por Roberto Carlos. E como nunca tivemos uma agenda extremamente cheia a gente vai conciliando. Deixando nossos projetos autorais como prioridade e o Del Rey mais como diversão.

Com novo disco na praça e apresentações da Del Rey marcadas para dezembro, quais são seus planos futuros?
Eu tô trabalhando no show de “Espelhos”, mas não estou com pressa para realizar. Quero deixar tudo pronto. Convidei Esdras Bezerra para fazer a direção. Ele está pensando um repertório e escrevendo um roteiro para imagens que vou filmar e usar como projeções ao vivo. Preciso fazer um modo bem reduzido porque imagino que as oportunidades não serão fáceis. Então quero fazer algo como um espetáculo que possa ser executado até na casa de um amigo. Convidei também um amigo pra pensar uma cenografia e outro para fazer uma direção corporal. Mas nesse formato eu posso até tocar sozinho. Também estou almejando poder tocar com uma banda e uma variedade de instrumentos assim que houver oportunidade, mas quero acima poder circular o máximo que der.

– Bruno Lisboa  é redator/colunista do O Poder do Resumão. Escreve no Scream & Yell desde 2014.

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