Otto lança um dos grandes discos do ano

por Marcelo Costa

Henry Miller escreveu, certa vez, que a melhor maneira de esquecer uma mulher é transformá-la em literatura. Se ele fosse músico, provável que aconselharia o mesmo adaptando a regra ao seu novo mundo: “Para curar a dor do amor, faça um disco”. O cantor pernambucano Otto segue essa linha imaginária repleta de dor, lembranças, despedidas e naturezas mortas em “Certa Manhã Acordei De Sonhos Intranqüilos”, seu quarto álbum de estúdio e, disparado, o melhor de sua carreira.

Embora tente despistar em entrevistas dizendo que a demência do mundo foi sua inspiração para o disco (“Se fosse só amor, não seria a vida”, comenta ele aqui), é praticamente indiscutível que grande parte de “Certa Manhã Acordei De Sonhos Intranqüilos” sugere tratar do fim do relacionamento do músico com a atriz Alessandra Negrini. O casamento, que durou sete anos, terminou em 2008, e pelo jeito aflorou a veia artística do compositor, que pariu um disco amargo, denso e sofrido.

Acompanhado de Fernando Catatau (guitarra), Dengue (baixo) e Pupillo (bateria e percussão), Otto abre “Certa Manhã Acordei De Sonhos Intranqüilos” com “Crua”, em que o personagem da letra coloca na mesa a realidade do fim de um relacionamento: “há sempre um lado que pese e um outro lado que flutua”. O lado abandonado reclama que a lembrança dói enquanto o lado que flutua já partiu para outra. Ele canta, desesperado: “Mas naquela noite que eu chamei você fodia. fodia”.

A climática “O Leite”¸ segunda música do disco, conta com a participação da cantora Céu, e permite análises subjetivas. “Quando eu perdi você, ganhei a aposta”, canta Otto, como se ele já soubesse desde o começo da história de amor que não iria durar. Veja bem: Alessandra Negrini povoa o imaginário masculino desde sua participação na minissérie global “Engraçadinha” (1996). Numa entrevista a Jô Soares, Otto contou que ligou pra mãe para contar que tinha ficado com a atriz. E a mãe, claro, não acreditou.

No mesmo bate papo, ele lembrou um episódio em que estava no taxi, e o taxista passou frente a um outdoor com uma imagem da atriz. “Que mulherão, hein. Mas não é pro nosso bico”, teria dito o motorista enquanto ele se beliscava tentando acreditar que tinha aquela mulher do outdoor em sua cama. Parece que ele realmente colocou suas fichas no fim do relacionamento, e ganhou a aposta. A mesma “O Leite” ainda cobra, ressentida: “Num dia assim calado você me mostrou a vida / E agora vem dizer pra mim que é despedida”. Ele vai, bate a porta e sai morrendo de desejo de ficar.

“6 Minutos” é o momento grandioso do álbum com o amargo da dor rasgando a voz do cantor num duelo com os solos da guitarra espacial de Catatau. Ela quis ir embora, e a opção de quem fica é riscar a pessoa do universo. Ela desaparece. Preste atenção nos versos: “Não precisa falar / Nem saber de mim / E até pra morrer / Você tem que existir”. A paisagem fica turva: “Nasceram flores num canto de um quarto escuro / Mas eu te juro, são flores de um longo inverno”. Os planos, a casa com varanda, os momentos únicos, isso é pra morrer. Se você nunca sentiu isso, caro leitor, você nunca viveu um fim de relacionamento verdadeiro.

A cantora mexicana Julieta Venegas participa das duas próximas canções, que continuam pegando pesado. A primeira, uma parceria de Jorge Mautner e Nelson Jacobina gravada por Gal Costa e perfeitamente ambientada no álbum, já diz a que veio logo no título – “Lágrimas Negras” – e na primeira frase: “Na frente do cortejo / O meu beijo”. A faixa seguinte, “Saudade”, usa a metáfora do barco no mar (sendo levado sem destino) no refrão enquanto “Filha” desenha, talvez, o painel perfeito de um coração despedaçado que permanece batendo: “Aqui é festa amor / E há tristeza em minha vida”.

Deixando o desamor de lado, e entrando no território da demência do mundo, Otto faz uma ode a Iemenjá em “Janaina”, canção em que um orixá aconselha levar mimos pra sereia nesses tempos maus. “Meu Mundo”, com participação de Lirinha, é uma comemoração, um momento de “tranqüilidade na clareira do caos”. Há, ainda, “Agora Sim” e “Naquela Mesa”, está última uma regravação de uma canção que Sergio Bittencourt compôs em homenagem ao seu pai, Jacob do Bandolim, e que conta com Lafayette no órgão e foi gravada para a trilha do filme “Árido Movie”, de Lírio Ferreira.

“Certa Manhã Acordei De Sonhos Intranqüilos” (cujo título é a primeira frase do clássico livro “A Metamorfose”, de Franz Kakfa) foi lançado primeiramente no mercado norte-americano pelo selo independente Dublu (veja o release em PDF aqui), já que o contrato que a gravadora Trama ofereceu ao artista não foi convincente. Otto bancou a gravação na marra com a ajuda dos amigos músicos e o resultado é um daqueles discos difíceis de esquecer após a primeira ouvida.

Recém lançado no país pelo selo carioca Rob Digital, “Certa Manhã Acordei De Sonhos Intranqüilos” (que poderia ter como subtítulo “A Força de um Pé na Bunda”) vem colhendo elogios nos Estados Unidos e sendo saudado como “uma viagem emocional” pelo jornal The Boston Globe (aqui) e Otto chamado de o “Moby do Sertão” em perfil no New York Times (aqui). Um dos grandes discos do melhor ano da música brasileira nas duas últimas décadas, “Certa Manhã Acordei De Sonhos Intranqüilos” exorciza o fim de relacionamento com uma mulher (e que mulher) e o transforma em música. Muito boa música. Henry Miller estava certo.

Marcelo Costa é jornalista, editor do Scream & Yell e assina o blog Calmantes com Champagne

27 thoughts on “Otto lança um dos grandes discos do ano

  1. sensacional. e que triste. quem não sabe o que é isso e essa dor toda, não amou. foda o texto. foda a vida. nossa vida mundana. as dores que vivemos. pelo menos vivemos antes da dor. os planos que nao realizamos. oh, vida. oh, vida. otto é o cara. eu lembro da versão que ele fez pra música do ronnie von, no início do casamento com a alessandra.. AABRA OS BRAÇOS PRA EU ME ENTREGAR, QUE AOS POUCOS EU VOU LHE DAR, COMEÇO MEIO E FIM, E A MINHA CUCA RUIM.. é a vida. suja, mundana e agressiva. henry miller, e pessoas viscerais.

  2. o texto é ótimo mesmo, e me faz até querer, por alguns instantes, deixar o meu preconceito contra o mala do Otto (que pra mim sempre pareceu uma mistura mal resolvida de Chorão com Chico Science) de lado e baixar/ouvir o disco.
    juro que vou tentar.

  3. Muito bom o texto, muito boa a análise do disco. Pra mim a carreira do Otto sempre foi cheia de altos e baixos. Sempre gostava de duas, três músicas de um disco e não suportava o restante. Dessa vez ele acertou em cheio. To ouvindo há um tempão esse disco. Acho que a imprensa musical brasileira teve que esperar os elogios do NYT e de outros veículos da imprensa gringa pra começar a falar de um disco que está rolando na internet há um tempo. Mas isso não vem ao caso. Discaço!
    Bjo.

  4. “Há sempre um lado que pese e um outro lado que flutua”. Isso é muito Kundera tb! Adoro álbuns com referências literárias inteligentes.

    André, emo ou não, querido, não importa. Amor sempre rima com dor.

    um abraço!

  5. Grande texto, grande disco. E, vamos separar as coisas, André: amor nada tem de emo. Este sentimento sempre foi combustível para a boa arte. Se tem sido maltratado por essa ladainha adolescente, essa exposição rasa, a culpa é de quem??????

  6. O disco é lindo.
    Disco do ano é ate pouco.
    Faz tempo (anos e anos) que não vejo/ouço nenhum lançamento nacional que equipare a esse disco do Otto.

  7. Sério, o texto do Marcelo me animou em relação ao disco, principalmente pela descrição das músicas em si e pelo fato do cara ter montado uma puta bunda para o disco. Mas não pelo fato do disco ser um desabafo pelo pé na bunda que ele levou. Não aguento mais essa equação Nick Hornby do tipo “ele fala coisas da minha realidade/eu me identifico/então a coisa é boa”. Considero que muitas obras medianas (tipo “500 Dias Com Ela”) são levadas mais a sério do que merecem simplesmente pela questão da “identificação existencial” com o seu público. Acho que a arte transcende a nossa realidade. Ela não precisa criar pontos de identificação com o nosso quotidiano para ser boa. Música/cinema/literatura/quadrinhos são maiores que a gente: nós precisamos deles, não eles da gente.
    O que fiz antes foi apenas ironia, mas não é uma comparação tão disparatada assim. O emo deriva do emocore, variante do hardcore, ou seja, punks que resolveram falar de seus sentimentos. E muita coisa boa saiu disso: Fugazi, Minor Threat.

  8. Fugazi e Minor Threat são bandas fodaças! Lendas. 🙂

    O problema com o rótulo emo é que acabou sendo tomado por uma leva de bandas sem atitude, que vivem pra chorar, e pra isso já temos a música sertaneja.

    A emoção é combustível para milhares de canções de diversos artistas. O diferencial é como lidar com ela. Morrissey tira sarro. Chris Martin chega a ser brega. Ian Curtis era, desde sempre, um suicida escrevendo. Ian Mackaye é revolta pura mesmo quando fala de emoção.

    Talvez o que me incomode nesse movimento emo seja a sensação de comodismo, do cara só reclamar que a menina não quer saber dele, sem prestar atenção no que está acontecendo ao redor (o que, aliás, é o que Otto diz mover o álbum: as desgraças do mundo).

    Dá para explorar melhor essas diferenças acima, mas por enquanto basta dizer que Otto parece autêntico quando chora as pitangas com toda raiva que a voz dele consegue expressar. Ele levou um senhor pé na bunda e fez um puta disco. Se cada emo chorasse menos e se concentrasse em verbalizar o fim num bom disco com sua história, talvez a música fosse melhor. Talvez.

  9. Fugazi e Minor Threat, além do Husker Dü, são identificados como, de certa forma, “criadores” do emo apenas pelo fato de terem expandido a arsenal lírico, usando toda a raiva punk para também expressar sentimentos pessoais e mais introspectivos, ao invés de meramente cuspir letras “políticas”, como de costume no punk. São bandas, como disse o Mac, lendárias, que todos (que não conhecem) deveriam procurar conhecer. Na real, se alguém perguntar pro Mackaye sobre esses rótulos “emo” ou “straight edge”, ele provavelmente vai mandar um sonoro “fuck off “. Nada tem haver com esse “emo” de hoje, peloamordedeus, Mackaye é um dos maiores caras da história da música, militante, crítico, FODÃO, e qualquer confusão neste sentido seria lamentável.

  10. Acho q o Mac falou tudo. A diferença entre um grande disco(Rock and Roll do Ryan Adams, ou este do Otto ) é a autenticidade da coisa toda. Coisa que o EMOCORE não tem. Inclusive acho que houve uma confusão EMO e EMOCORE são coisas diferentes. O EMOCORE virtou “emo” porque é mais fácil de dizer mas não consigo ver relação alguma entre Fugazi e Jawbox com NXZero e genéricos.
    E sobre isto “são levadas mais a sério do que merecem simplesmente pela questão da “identificação existencial” com o seu público” acho que todas as músicas que escutei, livros que li, filmes enfim, tudo faz parte disso, se eu estiver enganado quando a isto vou continuar errando porque é assim q funciona pra mim.
    Arlen…que acabou um relacionamento de 11 anos e não conseguiu escrever uma música decente sequer.

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