Entrevista: Labirinto

Por Marcelo Costa

Os anos 00 definitivamente derrubaram vários mitos entre o público de rock. A música instrumental, ignorada pelos grandes meios de comunicação, aproveitou-se da facilidade de divulgação pela internet e uma cena cada vez mais forte se faz presente no país. Sem contar que a rede mundial de computadores, como define uma emissora de TV, aproxima as pessoas. Muita gente que se julgava sozinha encontrou pares e referências na internet. Um novo mundo se abre.

O Labirinto surgiu nesse momento, e está sabendo aproveitar as vantagens de se estar vivo e tocando no novo milênio. “Étereo”, novo EP do grupo, traz as duas canções da banda que fazem parte da elogiada coletânea “DIS1″ e mais uma faixa inédita, a delicada “Silêncio Póstumo”, com um lirismo que irá surpreender aqueles que esperavam as guitarradas que marcam passagens de “Arcabuz” e “Temporis”. O novo EP pode ser baixado gratuitamente no novo site do Labirinto (http://www.labirinto.mus.br/) e  o leitor também pode acompanhar o dia a dia das gravações do novo disco do grupo, “Anátema”.

Em conversa por e-mail com o Scream & Yell, o guitarrista Erick Cruxen fala sobre a nova cena instrumental brasileira, lista uma série de discos clássicos que não podem faltar numa discoteca de post-rock e cobra bons lugares para shows: ”Bandas instrumentais boas e público ávido existem”, avisa. Confira o bate-papo abaixo:

Novo EP na área. Mudou algo no som da banda entre o primeiro trabalho (o split “Pseudo-Segurança Compensatória”, em 2005) e este “Étereo”?
Sim, principalmente em relação à construção e ao desenvolvimento das harmonias, dinâmicas, arranjos e efeitos das músicas, que se tornaram mais complexas, minuciosas e longas. Novos instrumentos foram agregados (violoncelo, violino, piano, sintetizadores analógicos) e novos músicos fazem parte do Labirinto.

Como está a formação da banda agora?

A formação atual é composta por Erick na guitarra e efeitos, Muriel na bateria, Joaquim na guitarra e sintetizadores, Daniel na guitarra e piano, Matheus nos tambores, além de participações especiais no baixo, violino e violoncelo nos shows e em gravações.

A banda foi formada em 2003. Como surgiu a idéia de montar uma banda instrumental? Faltam bons vocalistas ou o instrumental se basta?
A idéia do Labirinto sempre foi ser instrumental. Contudo, utilizamos as vozes como mais um instrumento, não como um conceito principal. Usamos vocoders, mellotrons, e vozes com efeitos para produzir uma sonoridade experimental. Mas são poucas as bandas com vocais que realmente gostamos no Brasil. Creio que seja o “instrumento” mais complicado para se ter numa banda. Já vi várias bandas boas, com instrumentais afiados, padecerem desse “mal”.

O cenário instrumental, principalmente rock, cresceu bastante no Brasil nesta década. Como vocês se vêem neste ambiente?

Certamente cresceu e tornou-se mais “acessível”, principalmente em relação ao público. Quando começamos, havia preconceito em relação às bandas instrumentais com estrutura de rock. Graças à internet, que ajudou a disseminar centenas de bandas gringas de postrock, e às próprias bandas instrumentais que surgiram no Brasil, diversas pessoas passaram a curtir esse tipo de som. O nosso público cresceu bastante, assim como as bandas experimentais sem vocais. O que ainda não está satisfatório são os espaços e eventos destinados a esse “novo” público. Bandas instrumentais boas e público ávido existem.

Vocês tocaram no Festival PIB (Produto Instrumental Bruto). Como foi o show e o festival para vocês?
Tocamos nas duas edições do festival. Na primeira como banda concorrente, e na segunda como banda madrinha.  O evento foi muito bacana nos dois anos, ajudando a divulgar diversas bandas instrumentais. Um defeito que o festival apresenta em sua fórmula é o de ser em formato de competição, podendo gerar polêmicas desnecessárias

Como funciona o método de composição na banda?
Inicialmente alguém da banda apresenta uma idéia básica de música, que depois é trabalhada e aprimorada em conjunto. Efeitos, dinâmicas e arranjos são estudados, até que a música realmente nos comova e incite. Normalmente tocamos várias vezes uma música nova antes de apresentá-la em algum show.

Os ensaios fazem parte do trabalho composição então?

Sim. Os ensaios são imprescindíveis para a composição das músicas. Algumas vezes a banda nem precisa estar completa para o fazermos. Tentamos construir melodias, arranjos e dinâmicas, como uma paisagem sonora. Uma pluralidade de timbres, efeitos e texturas se mesclam para desenvolver uma idéia, uma cena ou um sentimento que pretendemos materializar.

“Étereo” foi disponibilizado para download gratuito no site. A livre circulação de MP3 é um bom caminho para as novas bandas?
Não tenha dúvida. Acho muito importante para uma banda que acredite em suas músicas, disponibilizá-las na internet. Principalmente as novas bandas. Esse é um processo irreversível. Contudo, muita coisa que é colocada na internet não recebe um tratamento ou cuidado necessário, sobretudo, em relação à qualidade das gravações e composições. Precisamos saber filtrar o que ouvimos, e mantermos nossos referenciais de qualidade sempre aguçados.

Várias partes do novo site de vocês tem versão em inglês. Há o intuito de conquistar fãs fora do Brasil?
Recebemos mensagens e contatos de muitos admiradores fora do Brasil. Blogs, ouvintes, festivais e bandas se comunicam, procurando saber mais sobre o Labirinto. Para 2010 temos planos para divulgarmos e fazermos shows do novo álbum no exterior.

Algum plano em vista?
Estamos estudando algumas possibilidades de shows no Canadá, EUA e Europa após o lançamento do “Anátema”. Antes faremos um tour pelo nordeste brasileiro, onde temos muitos amigos e admiradores. Não é fácil deslocar a banda. Além de muitos músicos e instrumentos, sempre levamos todo o equipamento.

Impossível falar do Labirinto sem citar a Casa Dissenso. A coletânea “DIS#1″ foi bastante elogiada. Como estão os projetos da Dissenso?
O ano de 2009 foi muito produtivo para a Dissenso, realmente, houve boa repercussão e elogios em relação à “DIS1”. Para 2010, diversos projetos importantes serão materializados. A Dissenso está construindo um dos melhores estúdios de gravação do Brasil, oferecendo serviços destinados a bandas, áudio para cinema, televisão, rádio e web. Também será lançado em 2010 o segundo volume da coletânea do selo, a “DIS2”. Além disso, a Dissenso contará com um novo local para eventos e shows, oferecendo mais espaços para projetos e bandas alternativas

O Mario Bross, do Wry, apontou vocês como uma das bandas atuais de que ele mais gosta. Sei que é difícil o consenso, afinal vocês são muitos músicos, mas o que o Labirinto anda ouvindo no Brasil?
As bandas brasileiras que mais gostamos e ouvimos, atualmente, são bandas de postrock, shoegaze e metal. Entre elas Wry, A Sea of Leaves, National, Ruído/mm, Musicas Intermináveis Para Viagem, Herod Layne, Hopping to Collide With, Hangin Freud, Marfusha, e Torture Squad.

E dos clássicos de postrock? Quais os discos que não podem faltar numa discoteca de postrock?
Alguns essenciais:
- Godspeed you Black Emperor! - f#a#infinity e qualquer outro disco deles
- God is an Astronaut – Far From Refuge
- Explosions in the Sky – Those Who Tell the Truth Shall Die, Those Who Tell the Truth Shall Live Forever / How Strange, Innocence
- A Silver Mt Zion - He Has Left Us Alone But Shafts Of Light Sometimes Grace The Corners Of Our Rooms / Born Into Trouble As The Sparks Fly Upwards
- Do Make say Think - Goodbye Enemy Airship the Landlord is Dead
- Red Sparowes - At the Soundless Dawn
- Clint Mansell e Kronos Quartet  - Trilha  Sonora do filme The Fountain
- Sigur Ros – Agaetis Byrjun
- Mogwai - Mr. Beast / Happy Songs For Happy People
- Bathory - Blood Fire Death (é Black metal, mas essencial)
- Ennio Morricone – Trilhas dos filmes: Once upon a Time in the West / The Good, The Bad & The Ugly (gênio, grande influência).

Vocês acabam de lançar o EP, e já prometem um disco para este ano. Como estão as gravações de “Anátema”? O que vem por ai?
Certamente essa será a nossa maior empreitada, desde o início da banda. Estamos preparando esse álbum há dois anos, dedicando muita atenção e zelo às composições, arranjos, efeitos e à qualidade das gravações. “Anátema” será completamente conceitual, com músicas longas e narrativas e, provavelmente, será lançado no começo de 2010. Estamos preparando algumas surpresas para o seu lançamento.

Dá para adiantar o conceito do disco?
Ainda não dá pra adiantar muita coisa! (risos.) Mas posso já dizer que o disco será a narrativa de uma história que criamos. As músicas farão parte desse contexto.

Leia também:
“DIS 1″, vários, por Marcelo Costa (aqui)

This entry was posted on Domingo, Outubro 25th, 2009 and is filed under Música. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

7 Responses to “Entrevista: Labirinto”

  1. elson

    maior banda do brasil, period.

  2. Johnny - Herod Layne

    EXCELENTE banda! EXCELENTES musicos! Um dia a gente chega lá… :)

  3. Julie

    eeê! bela entrevista! :)

  4. Fabiano

    Banda realmente espetacular. Ansioso pelo novo trampo.

  5. sachalf

    nossos irmãos mais velhos, em caminhos que se cruzam vez ou outra, mas seguimos em direção ao mesmo objetivo. You rock, dudes! =)

  6. Giu!

    Vida longa ao Labirinto! :) Bela entrevista,

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