Entrevista: Los Hermanos

por Martín Fernandez

Texto publicado originalmente no Scream & Yell em 26/02/2002

A escalação do show era bizarra: uma dupla sertaneja mirim, uma banda de baile e outra dessas gauchescas. Pra fechar a noite, Los Hermanos. O cartaz e o material de divulgação também eram, no mínimo, estranhos. Sobre uma foto antiga da banda carioca, estava lá a frase, em letras garrafais: “Ô Anna Júliaaaaaaa”. Até um jornal de São Bento do Sul (SC), ao noticiar o show, disse que estaria na cidade o grupo autor do sucesso “Ô Anna Júliaaaaaaa”. Bizarro.

Entrevista a uma rádio local. O locutor chama Marcelo de Rodrigo e pergunta: “O que a banda fez depois de Anna Júlia?”. Camelo, com uma paciência descomunal, explica que a banda gravou outro disco, que está viajando pelo país, que tem outras músicas tocando em rádios e tal . “A gente tá acostumado a esse tipo de pergunta”, explicaria depois.

O novo disco em questão, “Bloco do Eu Sozinho”, foi lançado depois de algumas turbulências: saída de um dos integrantes e tentativas de interferência da gravadora no conteúdo do disco. Para gravá-lo, a banda isolou-se por dois meses num sítio no interior do Rio de Janeiro. A Abril Music não gostou do resultado e tentou mudar a concepção de “Bloco”, sucessor do álbum “Los Hermanos” (1999), que vendeu 300 mil cópias, puxado por “Anna Júlia”, música mais tocada pelos trios elétricos baianos no carnaval do ano 2000. Os Hermanos não cederam às pressões, e o disco acabou saindo do jeito que a banda queria. A critica incensou (na votação Melhores de 2001 do S&Y a banda foi a grande vencedora) e o público parece ir descobrindo aos poucos.

Em São Bento do Sul a banda fez um set pequeno, com 17 músicas – a maior parte de “Bloco do Eu Sozinho”. Das 4 mil pessoas presentes, a metade provavelmente nem sabia que a banda tinha lançado outro disco, a exemplo do locutor da rádio. E só se mexeram mesmo quando a banda tocou “Anna Júlia”. Uma pena. “É uma situação complicada pra nós, porque não queremos menosprezar o sentimento do público por essa música”, comentaria após o show Bruno Medina. “Queremos que ela seja apenas nosso maior sucesso, e não sinônimo de Los Hermanos”.

Antes do show, Rodrigo Amarante, Marcelo Camelo, Bruno Medina e Rodrigo Barba conversaram com o S&Y sobre o problema com a gravadora, a saída do baixista Patrick Laplan, o novo disco, a nova turnê e o futuro da banda.

O que aconteceu no episódio com a Abril Music?

Bruno Medina: Quando a gente se reuniu pra fazer o segundo disco, decidimos alugar um sítio no interior do Rio e levar todo o equipamento pra lá. A gravadora não gostou porque ficaria longe do processo. Mas fomos mesmo assim, o disco foi surgindo do jeito que é e não vimos motivos pra mudar nada. Fizemos o disco à revelia. Quando eles viram o resultado, não gostaram, disseram que os arranjos estavam confusos e pediram que a gente regravasse com outro produtor. Como não regravaríamos de jeito nenhum, chegamos a uma medida conciliatória e aceitamos remixar o disco com o produtor que eles sugeriram. A gente participou do processo inteiro, foi no estúdio todos os dias. Não foi tão desagradável quanto achamos que seria.

O disco ficou mais para o lado da banda ou da gravadora?

Medina: Certamente pra nós, não tem a menor dúvida. Então isso foi a maior perda de tempo, porque acabou ficando como nós queríamos. Mas eles acabaram ficando felizes, porque tiveram a última palavra. Foi meio por causa de birra, coisa de falar que não aceitam, querer impor, dizer que “a gente é que manda” e tal.

Depois do lançamento, houve alguma retaliação da gravadora, no sentido de não divulgação?

Marcelo Camelo: Não dá pra encarar como retaliação. A gravadora pega o resultado final, o disco, e diz: “com isso aqui dá pra fazer isso e isso”, o que realmente aconteceu. Nós achamos que foi pouco. O disco teve pouca divulgação, só teve uma música de trabalho até agora (“Todo carnaval tem seu fim”). [dias depois da entrevista “Fingi na hora rir” entrou na programação de algumas rádios]

De acordo com o contrato, há mais um disco a ser lançado pela Abril. Esse episódio pode sinalizar alguma mudança?

Camelo: É uma questão sutil cheia de meandros e dependente do momento. A gente sabe o que gosta de fazer, e vai fazer isso. Eles investem mais ou menos de acordo com os critérios deles.

Medina: De repente o próximo disco preenche as categorias, os critérios da gravadora pra medir compasso, refrão e sei lá o quê. Quem sabe eles não gostam de novo?

O que vocês levaram para ouvir durante os dois meses no sítio?

Rodrigo Amarante: A gente tava ouvindo muito Beatles naquela época.

Camelo: Cada um levou algumas coisas que tinha comprado, que estava curtindo na hora. Ouvimos música juntos assim: cada um mostrando coisas que os outros nunca tinham ouvido. O Barba (bateria), por exemplo, mostrou Fun Lovin’ Criminals. Eu levei uns discos do Tom Zé, os outros também levaram algumas coisas. Mas dessas influências não tem nada de exclusivo, concreto ou maior. Por mais genérico que possa parecer, é verdade.

Como foi a saída do baixista Patrick Laplan?

Camelo: Foi um lance de caminhos estéticos mesmo. O disco começou quando ele saiu. Porque esse disco tem uma harmonia muito grande entre os instrumentos, dependem muito um do outro. E com um baixista que pensava muito diferente era difícil dar o primeiro passo nos arranjos. Foi preciso entrar um baixista que se entendesse melhor com a gente pra começarmos a fazer o disco.

Medina: Ele está tocando com o Rodox (nova banda de “hardcore cristão” de Rodolfo Abrantes, ex-Raimundos), pra ver o caminho musical que ele queria seguir.

E como vocês fizeram sem baixista “oficial”?

Amarante: Nós quatro somos a banda, não tem isso de cargos. Quem gravou conosco foi o Alexandre Kassin (Acabou la Tequila), amigo nosso de longa data. E quem viaja é o Gabriel “Bubu” Neves (Carne de Segunda), também amigo nosso e justamente indicado pelo Kassin.

Camelo: É legal ter um baixista pra poder fazer os arranjos do modo como vão sair no show, porque se o Amarante tocar baixo no show ele vai ter que deixar de tocar guitarra… O que acontece é que temos uma linguagem muito particular. A gente já toca junto há tanto tempo que as coisas que falamos um pro outro são muito sensoriais, muito particulares a nós. É tipo: “Barba, faz uma bateria de bandinha de farmácia”, ou “Bruno, faz um teclado pôr-do-sol”. São cosias típicas da nossa maneira de comunicar. E é difícil falar isso pra alguém que não conviva tanto conosco.

O segundo disco é bem diferente do primeiro. Vocês encaram como uma evolução?

Amarante: Essa diferença fica mais gritante porque, quando uma banda faz sucesso no primeiro disco, todo mundo espera que ela repita a fórmula no segundo. A gente simplesmente não tem esse compromisso. O que mudou foi que nós envelhecemos um pouco e isso determina a diferença, as coisas que aconteceram, os discos que a gente trocou, essas coisas.

Camelo: Acho que é uma evolução no sentido de que veio depois do outro. Não porque é melhor. Sem o outro não teria esse. Nos orgulhamos dos dois.

O primeiro disco é permeado pela mistura de ska e hardcore, estilos quase desaparecidos no segundo disco…

Amarante (rindo): Vamos fazer um hardcore pra você.

Camelo: No início da banda a ideia era misturar letras de amor com hardcore. O peso da melodia e a leveza das letras. Foi o mote inicial, por isso o primeiro disco tem essa cara. Mas à medida que começamos a viajar juntos, trocar discos, conversar mais sobre música, isso foi se dissipando. É inevitável que o som mude. Depois de tanto tempo de convívio, tocando juntos, é natural que essa fórmula hardcore, ska, reggae, esteja cansativa. Assim como no terceiro vamos tentar uma coisa diferente. Isso é meio que um cerne da banda, tentar sempre coisas diferentes.

O quê, por exemplo?

Camelo: As ações é que vão dizer. O clima que a gente estiver, o som que tivermos ouvindo, o estado emocional de cada um, os lugares onde estivermos. Sem objetivos fixos.

O que não mudou foi o tema das letras: amor, relacionamentos. Isso não pode se esgotar?

Amarante: Não sei. Nós não escrevemos para agradar alguém ou só para escrever sobre amor. As letras tratam de relacionamentos, que podem ser entre namorados, irmãos, amigos, pai e filho. Escrevemos sobre histórias que presenciamos, que vivemos. Talvez um dia vamos escrever sobre outras coisas, sem problema algum. No mais, “Bloco” já tem músicas que não falam sobre relacionamentos, como “Todo carnaval tem seu fim” e “Cadê teu suín”. Se você pegar o primeiro disco, a maioria das letras tem a estrutura do samba-canção, as rimas, os versos. Agora no segundo, não. As letras no encarte já estão em forma de prosa, o que pode sinalizar uma mudança. Não vamos virar uma banda panfletária, por exemplo, de uma hora pra outra. Mas mudar é conosco mesmo.

“Bloco” teve pouca divulgação. Vocês estão fazendo menos shows por isso?

Amarante: Tocamos pouco mesmo. Em janeiro nada, em fevereiro pouco e agora estamos começando a turnê desse disco. Além disso, estamos numa crise meio invisível, e o primeiro mercado que sofre é o nosso, do entretenimento.

Vocês têm tocado em lugares menores, não?

Camelo: Esse disco não é pra ser tocado em lugares grandes, até porque não teve uma música que tocou pra caramba em rádio e tal. E isso é legal. Embora com pouco tempo de estrada, temos muita experiência ao vivo. Já experimentamos todos os tipos de palco nesse pouco tempo. É bom voltar a tocar em lugares pequenos, para um público que conhece a banda, canta as músicas, vai no site, vê a banda como um todo. A gente passou muito tempo tocando pra públicos grandes, na excursão do primeiro álbum, em que tentávamos convencer as pessoas. E é bacana estar de volta a plateias mais próximas, sem ter que convencer ninguém.

Amarante: Essa é a vantagem de se divertir tocando, de se fazer o que gosta: se tem pouca gente no show, não tem problema. Se tiver só uma pessoa ali, cantando as músicas, fazemos o show só pra ela.

O que falta para o Los Hermanos se firmar definitivamente no cenário nacional?

Medina: Eu gostaria que nossa música pudesse transpor definitivamente as barreiras do preconceito de sucesso, de pouca idade, de não pertencer a nenhum movimento ou panelinha, enfim que pudéssemos ser julgados apenas por nossos discos e ponto final. Acho que isso por si só garantiria uma vendagem e número de shows significativos para que pudéssemos viver de música com tranquilidade.

Camelo: Falta tempo mesmo. Falta a gente conseguir viver um tempo fazendo bons discos. Conseguindo estar vez ou outra na mídia com um disco bom, tocando bem, músicas bonitas, é isso. Constância.

E daqui pra frente? Outro disco nesse ano?

Amarante: A gente continua compondo como sempre, fazendo músicas novas e tal. Mas isso não quer dizer nada sobre o próximo disco. Estamos trabalhando nesse ainda.

Los Hermanos ao vivo
São Paulo – Blen Blen Brasil 20/02/2002
por Marcelo Costa

O mundo seria muito melhor se artigos como honestidade, coragem e sinceridade pudessem ser vendidos em farmácias. Como ainda não encontraram uma maneira de “vender” estes produtos, somos obrigados a sobreviver com o pouco que temos. E, é muito pouco. Entrei no aconchegante Blen Blen Brasil caraminholando essas questões, preparando-me para ver pela primeira vez a banda nacional mais cultuada dos últimos anos em terras brasilis: o Los Hermanos. O prazer foi inesquecível.

Defendendo sua música como quem defende seu próprio nome, o Los Hermanos fez “Bloco do Eu Sozinho”, um disco para ouvir, ouvir, ouvir e ouvir. E ouvir. Triste até onde o âmago permite, “Bloco”, ao vivo, é sinônimo de festa. Festa com serpentinas e papel picado, com pequenos sucessos particulares cantados em coro com a mão no peito, como que segurando para que o coração não saia pela boca. Público e banda, cantando no meio da noite pequenas odes ao amor.

Do inicio, com “A Flor”, até a derradeira “Adeus Você” (demais terminar com “pra que minha vida siga adiante”), os Hermanos mesclaram canções de seus dois álbuns, em praticamente doses iguais. Sim, teve “Anna Júlia”. E também teve “Primavera”, “Azedume” e “Pierrot” do primeiro assim como “Fingi na hora de rir”, “Cade Teu Suin?” e a bela “Sentimental”, do segundo.

Dois bônus inesperados preencheram o set list: “Desce”, de Arnaldo Antunes, parece ter sido escrita de encomenda para os Hermanos, e, principalmente, para “Bloco do Eu Sozinho”. (“Desce do trono, rainha / Desce do seu pedestal / De que te vale a riqueza sozinha / Enquanto é carnaval?”). Clima denso, arrastado, perfeito.

O outro bônus foi uma versão de última hora, especial para um programa de tv. Pense em uma música de Roberto Carlos que pudesse se encaixar no repertório dos Los Hermanos. Pensou? Essa música é “Traumas”, pequena pérola escondida no álbum de 1971 do rei (o mesmo que traz “Detalhes” e “Debaixo dos Caracóis do Seu Cabelo”). A letra que diz “meu pai um dia me falou pra que eu nunca mentisse / mas ele também se esqueceu / de me dizer a verdade” ganhou força na interpretação dolorida de Amarante, e só quem sabe as porradas que essa banda anda levando para ser a grande que é poderá entender “os traumas que a gente só sente depois de crescer”.

O mundo seria muito melhor se existissem mais bandas como essa. Se, pudéssemos, vez por outra, sermos tirado da rotina que vivemos para adentrar o mundo colorido/dolorido de um show que toca o coração, lava a alma e faz a voz se perder em rouquidão. Para que a vida siga adiante.

Leia também
– “Bloco do Eu Sozinho”, um álbum estranho e genial, por Marcelo Costa (aqui)
– “Bloco do Eu Sozinho”: faixa a faixa por Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante (aqui)
– “Ventura”: a consistência e maturidade do Los Hermanos, por Jonas Lopes (aqui)
– “Los Hermanos 4” é um disco sem paralelos na música brasileira, por CEL (aqui)
– Los Hermanos ao vivo em Juiz de Fora, 2002: assista a 13 vídeos (aqui)
– Entrevista: Bruno Medina -> Acho que a renovação de público está ocorrendo (aqui)
– Show: “Seita” Los Hermanos segue firme em SP  (2005), por Juliano Costa (aqui)
– Show: A antepenúltima ceia do Los Hermanos (2007), por Marco Antonio Bart (aqui)
– “Bloco do Eu Sozinho” e “Ventura”, os dois melhores discos dos anos 00 (aqui)

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