entrevista de João Paulo Barreto
Michael Jackson é um dos ícones da cultura pop do século XX mais reinterpretados por imitadores caricatos e/ou sósias profissionais tanto em apresentações em esquinas e shows de cosplay quanto em grandes produções executadas em elegantes teatros lotados .Na plateia ou nas ruas, estão fãs que almejam um vislumbre do que era a genialidade dos seus exatos movimentos dançantes somados ao eletrizante som de suas músicas. Em uma proposta de cinebiografia ou de produção teatral/musical, um artista como Michael Jackson tem, logo de cara, o desafio de escapar do pastiche caricatural tão notório em torno de sua pessoa.
Nesse intuito, se um roteiro de cinema é capaz de encontrar um recorte específico de sua vida antes de sua figura se tornar caricatura de si mesmo, já existe, nesse momento, um escolha acertada de direcionamento. Em “Michael” (2026), filme do cineasta Antoine Fuqua, diretor de “Dia de Treinamento” (2001), a pontual abordagem da vida do rei do pop é pregressa ao ponto no qual suas transformações físicas começaram a afetá-lo de maneira triste e irremediável, bem como todas as suas trágicas excentricidades terem passado a se sobrepor em detrimento do seu inegável talento e equilíbrio psicológico.

Em seu roteiro, claramente construído diante de uma criteriosa aprovação da família Jackson, o consagrado escritor John Logan, autor dos textos por trás de filmes como “Hugo” (2011) e “O Aviador” (2004), até consegue encontrar certa liberdade na abordagem de detalhes antes tidos como tabus na vida do artista. Um exemplo é o seu diagnóstico de vitiligo, que é inserido em cena quase que de forma trivial, algo que cria um impacto narrativo justamente por conta de todo o sigilo em torno disso e que o cantor manteve como algo privado durante quase toda a sua vida.
Colocando , naturalmente, Joseph Jackson (Colman Domingo, perfeito) como o pai abusivo e grande vilão do traumático crescimento de Michael Jackson como homem e artista, o longa liga os pontos para o que seria o retrato consequente desse abuso. As inserções da relação afetiva do garoto, que sofria bullyng por parte do seu progenitor, que caçoava do formato de seu nariz e o forçava de forma cruel a ensaios constantes (sob pena de violência física), cria no filme a ideia precisa do antagonista que impedia a emancipação humana e afetiva do artista. Nessa construção, ao vermos o garoto Michael receber de produtores musicais o carinho que seu próprio pai não conseguia lhe dar, como no momento de um abraço tenro entre o fundador da Motown Records, Berry Gordy e a criança Jackson, fica evidente qual será a acertada construção dramática de toda a obra.
As consequências desse bullying são vistas na busca do rapaz, agora adulto, por uma adaptação física desnecessária que começa com um afilamento de seu nariz para um padrão supostamente visto como “bonito” (argumento cuja cena da visita ao médico faz questão de derrubar) e que tem nos ecos de uma fuga infantil pela páginas de Peter Pan uma eficiente metáfora emocional para seu protagonista e um vislumbre da tragicidade que a excêntrica busca de Michael por uma nova identidade traria para seu breve futuro.
“Michael”, o filme, localiza o arco dramático de seu roteiro no recorte exato entre a origem do grupo Jackson 5 no final da década de 1960 e a primeira fase de sua carreira solo com “Off the Wall” (1979), passando por “Thriller” (1982) e pelo acidente durante a gravação de um comercial da Pepsi que o deixou hospitalizado por conta de sérias queimaduras em janeiro de 1984. Neste ponto, John Logan insere em seu texto outros vislumbres do trágico futuro de Michael ao abordar um início do seu vício em analgésicos que, vinte e cinco anos depois, viriam a vitimá-lo.
Nessa proposta, ao finalizar sua estrutura biográfica e narrativa com a turnê de “Bad” (1987), o longa escapa das inevitáveis acusações de passar pano para todas as polêmicas que envolveram os supostos casos de pedofilia que Michael Jackson foi acusado e suas resoluções em acordos judiciais. Desta forma, o filme se garante em uma ideia de analisar o músico a partir tanto de sua arte quanto de seu talento para os negócios dentro do mercado fonográfico. Ao trazer a parceria do cantor com o advogado John Branca (Miles Teller), o longa evidencia como o músico conseguiu escapar da sombra de Joseph e alcançou um status de ícone para além dos Jackson 5 em acordos milionários com gravadoras. Válido citar que, mesmo não trazendo isso para o roteiro, foi graças à assessoria jurídica de Branca que Michael conseguiu adquirir os direitos sobre parte do catálogo dos Beatles, algo que lhe deu um retorno financeiro fabuloso.
E se esse texto abriu falando sobre a necessidade de uma biografia de Michael Jackson escapar da caricatura ao trazer um ator a encarnar a figura icônica do rei do pop, é inegável que tanto visualmente quanto sonoramente, esse intento foi alcançado com esmero. Jaafar Jackson, sobrinho do próprio Michael, assume tal a responsabilidade e consegue exatamente essa recriação da lenda em sua forma física e artística. Tendo em sua seleção de elenco um dos seus notáveis pontos, a produção também traz outro achado, no caso, o pequeno Juliano Valdi, que recria todo o carisma e poder vocal de Michael Jackson ainda criança. Na junção das duas figuras em sua fases distintas, “Michael”, o filme, tem um dos seus trunfos. E é impressionante como Jaafar consegue trazer todos os maneirismo e trejeitos dançantes do seu tio, mas sem necessariamente imitá-lo, criando para si uma identidade visual própria.
Ao final, quando o letreiro indica que a vida de Michael continuou após aquela fase, é com certa tristeza que levantamos da cadeira do cinema. Gênios assim não deveriam partir aos cinquenta anos.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.
