Pedro Friedrich: “O blues tem uma história muito profunda, que passa pela vivência, pelo sofrimento e pela resistência”

entrevista de João Paulo Barreto

Pedro Friedrich é uma das novas caras do blues brasileiro. Focado no Delta Blues, fase inicial do estilo que surgiu no final do século XIX, às margens do rio Mississippi, nos Estados Unidos, Pedro Friedrich já lançou seis álbuns (os dois mais recentes, “The Real Blues”, de 2023, e “Work Hard”, de 2025, ao lado do gaitista Jefferson Gonçalves), passando por referências como Robert Johnson, Big Bill Broonzy, Blind Blake e Memphis Minnie.

Nos shows, o guitarrista friburguense mostra canções do blues raiz, de nomes como Tom Ball e Kenny Sultan, e aprofunda o lado musical com pontuações históricas: “Eu trago a lenda do Robert Johnson, falo das enchentes do Mississippi, explico um pouco das afinações abertas e do slide, mas sempre com cuidado para não virar uma aula. A ideia é ajudar o público a entender melhor o que está ouvindo sem quebrar o fluxo“, explica.

Nesta conversa com o Scream & Yell, Pedro Friedrich conta como se aproximou de Jefferson Gonçalves e revela como Eric Clapton, Stevie Ray Vaughan e Johnny Winter o inspiraram, além de falar da importância de nomes brasileiros do blues, como Álvaro Assmar, Eric Assmar e André Christovam. “O blues ainda é uma linguagem pouco difundida no Brasil, então existe esse trabalho de base mesmo, de formar público”, acredita o guitarrista. Leia a conversa.

A proposta de um mergulho pela História do Blues, passando pelo desenvolvimento do estilo musical desde seu surgimento com as work songs oriundas do período da escravidão dos povos afrodescendentes nos Estados Unidos do final do século XIX e pelo surgimento de nomes ícones do estilo traz um leque de possibilidades fabuloso para o repertório. Como você estruturou essa abordagem de cada fase desse período inicial?
Olha, na prática, isso é sempre um equilíbrio bem delicado. Existe, sim, uma linha histórica muito clara dentro do blues, mas, no palco, eu não consigo, e nem acho que faria sentido, seguir isso de forma totalmente cronológica. O meu foco acaba sendo muito mais recriar o clima de cada época. Quando a gente ouve aquelas gravações antigas, elas têm muitas limitações técnicas. Então, parte do meu trabalho é justamente tentar trazer aquela essência de volta, na forma de tocar, na dinâmica e na intenção. Ao mesmo tempo, eu preciso pensar no show como um espetáculo. É voz e violão, Delta Blues, então, a ordem das músicas precisa funcionar para prender a atenção, criar contrastes e manter o público envolvido do início ao fim. Então, mesmo passando por referências como Robert Johnson, Big Bill Broonzy, Blind Blake ou Memphis Minnie, eu organizo tudo de uma forma mais musical do que cronológica. As histórias entram mais como pontuações mesmo, bem diretas. Eu trago a lenda do Robert Johnson, falo das enchentes do Mississippi, explico um pouco das afinações abertas e do slide, mas sempre com cuidado para não virar uma aula. A ideia é ajudar o público a entender melhor o que está ouvindo sem quebrar o fluxo. E tem também as releituras. Eu toco coisas de artistas como Tom Ball e Kenny Sultan, que já vêm dessa tradição do blues raiz, misturado com ragtime e bluegrass, e que também reinterpretam músicos mais antigos. Então, o show acaba mostrando essa continuidade natural do blues. No fim, costumo dizer que não é uma aula de história, é uma experiência. É mais sobre fazer a pessoa sentir essas diferentes fases do Delta Blues do que, necessariamente, entender tudo de forma cronológica.

Na sua discografia, trabalhos como “Me and the Delta Blues”, “The Real Blues vol. 1 e Vol. 2”, “Work Hard” (ao lado de Jefferson Gonçalves) mostram essa influência do período inicial do blues. Como essa vertente do estilo lhe atraiu e norteou seu estilo próprio?
Essa conexão com o blues mais tradicional veio muito de forma natural pra mim. Cresci em um ambiente muito musical por influência do meu pai. Tinha um baú de discos de vinil em casa com The Beatles, Led Zeppelin, Hendrix, Genesis, Yes, Camel, Pink Floyd, Rush, Van Halen e Johnny Winter, entre outros. Eu ouvia muito rock, mas, naquela época, eu nem sabia que o bllues já estava ali dentro de tudo aquilo. Com o tempo, comecei a ir mais a fundo e teve um momento muito marcante, que foi quando eu vi um DVD do Eric Clapton tocando sozinho, voz e violão. Aquilo me chamou muita a atenção. Logo depois, conheci o trabalho do Stevie Ray Vaughan , e fui atrás das influências dele. Aí comecei a entender que tudo aquilo vinha de uma tradição muito mais antiga. O que mais me pegou foi justamente essa forma de tocar. O músico fazendo baixo, harmonia e melodia ao mesmo tempo, com uma pulsação muito forte, cantando por cima. É quase como se fosse uma banda inteira em uma pessoa só. Isso me fascinou e me fez querer ir cada vez mais na raiz, até chegar em nomes como Robert Johnson. A partir daí, virou um caminho sem volta. Comecei a mergulhar nesse universo, conhecer outros artistas, entender melhor essa linguagem e me apaixonar por esse jeito de fazer música. E isso acabou norteando completamente o meu estilo. Naturalmente, isso foi parar nos meus trabalhos e no meu show. A ideia sempre foi tentar resgatar essa essência, não só na forma de tocar, mas, também,trazendo o contexto, as histórias, para manter essa cultura viva e aproximar o público desse universo. No fundo, é uma tentativa de fazer as pessoas entenderem e sentirem o que é o blues de uma forma mais profunda.

Seus dois discos mais recentes foram em colaboração com Jefferson Gonçalves e queria aproveitar para lhe perguntar sobre essa parceria. Como se deu esse encontro e como é a química criativa entre vocês dois?
Essa parceria com o Jefferson Gonçalves tem uma história bem legal. Eu o conheci de longe primeiro, quando eu ainda era mais novo, devia ter uns 18 anos. Fui assistir a um show dele em Aldeia Velha e fiquei impressionado. Eu já acompanhava alguns vídeos dele na internet, mas ao vivo foi outra coisa. Parecia que tinham várias gaitas tocando ao mesmo tempo. Depois do show, fui falar com ele, elogiei, trocamos uma ideia rápida, peguei seu contato. Mas acabou ficando por isso mesmo naquele momento. Anos depois, quando eu já estava mais mergulhado no universo do blues, principalmente estudando muito Robert Johnson, comecei a postar alguns vídeos tocando. E aí, de forma bem natural, o Jefferson começou a interagir, comentar, e a gente começou a trocar ideia. A partir daí, rolou uma conexão muito legal. Ele começou a me apresentar outros artistas, outras referências que eu ainda não conhecia. Então, foi uma troca muito rica mesmo. Em um momento a gente pensou em fazer algo juntos e acabou gravando à distância. Foi assim que nasceu o projeto “The Real Blues”. A química vem muito dessa admiração mútua e, também, da forma como ele encara a música. O Jefferson é um cara muito generoso, com muito conhecimento e uma identidade muito forte tocando. E isso acaba somando muito com o que eu busco também dentro do blues. Com o tempo, além da parceria musical, virou uma amizade também. Então, é um projeto que nasceu de forma bem natural e que até hoje é muito especial pra mim.

Nas suas apresentações, é possível ver sua destreza no uso do slide guitar, bem como na performance com o resonator. Como tais instrumentos se fixaram em seu trabalho como forma de influência?
Essa relação com o slide veio muito cedo pra mim. Eu lembro que tinha uns 13, 14 anos quando meu pai me mostrou um show do Johnny Winter no festival de Woodstock. Ele estava tocando uma guitarra de 12 cordas com slide e aquilo me pegou de um jeito muito forte. Eu já tocava guitarra, mas não fazia ideia do que era aquilo. Era um som meio hipnotizante, uma coisa muito diferente. A partir dali comecei a tentar entender como aquilo funcionava. Fui atrás de material, muita coisa de fora, porque, na época, não tinha tanta informação disponível aqui no Brasil. Apesar de eu ter estudado também nomes do Delta como Robert Johnson e Son House, a minha base mais técnica de slide vem muito do Johnny Winter, que tem uma abordagem mais desenvolvida nesse sentido. Isso acabou moldando bastante a minha forma de tocar. Já o resonator entrou na minha vida de uma forma mais inesperada. Eu não tinha, e ainda não tenho esse instrumento (risos). Acabei tendo contato quando fui gravar em estúdio com o produtor Rodrigo Garcia, que já trabalhou com a Cássia Eller. Usei um resonator que estava lá no estúdio e aquilo acabou abrindo um novo caminho pra mim. Essas gravações entraram no meu primeiro trabalho, “Me and the Delta Blues”, e foram feitas no estúdio Porangareté (RJ). Era um momento em que eu ainda estava amadurecendo essa linguagem e entendendo melhor como trazer esse som para o meu trabalho. Então, tanto o slide quanto o resonator foram caminhos que surgiram de forma muito orgânica. Um veio de uma influência muito forte lá atrás, quase como um impacto mesmo, e o outro apareceu como oportunidade, mas acabou se tornando parte importante da minha identidade sonora.

Sendo de Salvador, é impossível para mim não falar de nomes como os de Álvaro e Eric Assmar, cuja utilização de tais elementos se tornaram marcas na criação blueseira. Sendo um músico de uma mesma geração de Eric, você poderia falar um pouco sobre a influência dele em seu trabalho, bem como de outros nomes brasileiros como André Christovam e do próprio Álvaro Assmar?
O Eric Assmar é um nome muito importante dentro do blues no Brasil, e, hoje, tem uma influência direta no meu trabalho, muito por conta da troca que a gente vem construindo. A gente se conheceu durante a pandemia, quando gravamos juntos, à distância, uma versão de “Nobody Knows You When You’re Down and Out”. Mas essa aproximação ficou muito mais forte agora, nessa minha vinda para Salvador. Acabei procurando o Eric, ele foi extremamente solícito, me acolheu super bem na cidade, e, a partir daí, a gente começou a conviver mais, trocar mais ideias e aprofundar essa conexão musical. É um cara muito generoso, muito parceiro, com uma identidade muito forte tocando. Tem muita estrada. Então, é alguém que eu admiro e com quem eu aprendo bastante. A partir desse contato, também fui me aprofundando mais no trabalho do Álvaro Assmar, que é um nome fundamental dentro do blues nacional. É impressionante a contribuição dele para a cena e a forma como ajudou a consolidar essa linguagem no Brasil. E quando a gente fala de blues no país, é impossível não citar também o André Christovam, que é um dos grandes pioneiros, principalmente na parte didática e na formação de músicos. É um trabalho que influenciou, direta ou indiretamente, toda uma geração. Então, são artistas muito importantes, que ajudaram a construir e fortalecer o blues no Brasil e que continuam influenciando não só a minha geração, mas, também, quem está chegando agora. Me sinto muito feliz de poder estar próximo dessa cena e aprender com essas referências.

Oriundo de Nova Friburgo e tocando em Salvador nessa e em outras ocasiões, como você tem encarado esse esforço de se fazer blues no Brasil?
Eu encaro isso como um desafio constante, mas também como um propósito. O blues ainda é uma linguagem pouco difundida no Brasil, então existe esse trabalho de base mesmo, de formar público, de apresentar essa música e tudo o que ela carrega. Porque não é só música. O blues tem uma história muito profunda, que passa pela vivência, pelo sofrimento, pela resistência dos povos afrodescendentes. Então, quando eu levo isso para o palco, eu também sinto essa responsabilidade de transmitir essa essência, não só tocar as canções. Vindo de Nova Friburgo, eu senti a necessidade de expandir esse trabalho, de levar isso para outros lugares. E estar em Salvador tem sido muito importante nesse sentido. Muito por conta também do apoio do Eric Assmar, que tem sido uma ponte fundamental aqui. Ele é um cara que acredita nisso, que também tem esse propósito de levar o blues para mais pessoas. Então, acaba sendo uma construção coletiva. Eu acho que isso é muito a cena do Blues. É quando os músicos se apoiam, se conectam e trabalham juntos para manter essa música viva. No fim das contas, o esforço é esse. Fazer um bom show, contar essas histórias, trazer essa sonoridade e, aos poucos, aproximar as pessoas desse universo. É um trabalho de resistência mesmo, de manter vivo não só um estilo musical, mas toda uma cultura.

Queria lhe perguntar, também, acerca de sua pesquisa dentro do blues. Qual é o seu desenvolvimento dentro desse campo?
Eu encaro essa pesquisa de uma forma muito prática, muito ligada ao instrumento e à escuta. Não é uma coisa só acadêmica. É um estudo que acontece no dia a dia mesmo, ouvindo gravações antigas, tentando entender como aqueles músicos pensavam e como eles construíam aquele som. Muito do meu desenvolvimento vem de tirar músicas nota por nota, observar a forma de tocar, as afinações, o uso do slide, a dinâmica. Tentar chegar o mais perto possível daquela linguagem original, mas trazendo isso para o meu corpo, para a minha forma de tocar. Também passa muito por entender o contexto. Saber de onde vem aquelas músicas, o que estava acontecendo naquela época, quem eram aqueles artistas. Isso muda completamente a forma como você interpreta. E uma parte importante dessa pesquisa é transformar tudo isso em algo vivo no palco. Não adianta só estudar, eu preciso conseguir comunicar isso. Então, o show acaba sendo uma extensão dessa pesquisa, onde eu organizo essas informações em forma de música e narrativa. E é um processo contínuo. Quanto mais eu aprofundo, mais eu descubro que ainda tem muita coisa pra aprender. O blues é um universo muito grande, com muitos artistas e muita história. Então, essa pesquisa nunca para.

Além do repertório acústico, voz e violão, você tem, também, um projeto elétrico, certo?
O formato Delta Blues é focado nessa coisa mais íntima de voz e violão, dentro da ideia do “Histórias do Delta Blues”. O projeto elétrico é uma outra proposta, bem diferente. Apesar de ter, claro, muita influência do blues, ele vai mais para um caminho de blues rock. É um show menos conceitual nesse sentido de narrativa histórica e mais voltado para a música em si, para a energia do repertório. Ali eu trago músicas que fazem parte da minha trajetória, coisas que eu ouvia quando era mais novo e que sempre quis tocar. Acaba sendo quase uma celebração desses momentos, com um repertório que vai mudando com o tempo, conforme as fases. Mas, mesmo sem a parte elétrica agora, a ideia é que numa próxima vinda a Salvador isso possa acontecer. Dependendo do público e da receptividade, é totalmente possível viabilizar um show elétrico por aqui também. E pra esse momento, já tem uma surpresa muito especial, que é a participação do Eric Assmar. Então, acho que isso já deixa a noite ainda mais especial.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.



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