Entrevista: Indira Castillo fala da nova fase da Malvada, com single novo, contrato com a Frontiers e mais

entrevista de Paulo Pontes

A Malvada vive um momento decisivo da própria trajetória, como uma banda que começa a consolidar um novo patamar dentro do rock nacional após o lançamento do disco mais recente, “Malvada” (2025), que simboliza uma virada estratégica e estética: a entrada no casting da gravadora italiana Frontiers, a reformulação da formação com a chegada de Indira Castillo (vocal) e Rafaela Reoli (baixo) – a banda ainda conta com Bruna Tsuruda (guitarra) e Juliana Salgado (bateria) –, e a construção de uma sonoridade mais moderna, agora também voltada ao mercado internacional com composições em inglês.

O resultado é um álbum que reposiciona a banda e redefine suas ambições. Parte desse salto pode ser testado recentemente na estrada, durante a turnê europeia ao lado de Michael Schenker, onde a Malvada teve contato direto com diferentes públicos e culturas, uma experiência que impacta diretamente a forma como o grupo encara o próprio palco.

Nesse contexto, o show no festival Bangers Open Air ganha um peso ainda maior. O festival se torna o primeiro grande ponto de encontro entre essa “nova Malvada” e o público brasileiro, funcionando quase como uma apresentação oficial dessa fase em território nacional. À frente dessa transformação está Indira, que entrou na banda em meio a esse processo e hoje ocupa um papel central na construção dessa nova fase. A vocalista ajuda a dar forma a uma Malvada mais ampla, mais consciente e mais preparada para o próximo passo.

Em entrevista ao Scream & Yell, Indira fala sobre os bastidores dessa transição, os aprendizados da turnê europeia, os desafios criativos do novo disco e as expectativas para o Bangers, um palco que, mais do que um show, representa um marco na trajetória recente da banda.

Pra começar, queria falar sobre o novo disco da Malvada. Muitas mudanças aconteceram antes mesmo do lançamento, inclusive você está no meio de todas elas. Teve a entrada na Frontiers e também mudanças na formação, com você e a Rafaela chegando. Como tem sido essa experiência pra você?
Já faz mais de dois anos, vai fazer três, mas ainda parece recente, porque é uma mudança grande. Tanto pra mim quanto pra Rafaela, pessoalmente, e pra banda como um todo. A entrada na Frontiers foi algo muito importante, muito legal pra gente, porque expandiu nosso leque, nosso alcance como banda. A ideia de levar o som pra fora, de forma mais internacional, ganhou força. A gente começou compondo em português, mas viu que também era necessário trazer músicas em inglês. Já era um desejo da banda, isso já tinha sido conversado com as meninas. Então acabou sendo um movimento natural: afirmar a Malvada como uma banda que faz música em inglês e em português, sem deixar as raízes de lado. E, claro, teve a oportunidade de acompanhar o Michael Schenker na Europa, que foi uma experiência fantástica.

E vocês fecharam com a Frontiers antes mesmo de ter o disco pronto? Antes das músicas estarem finalizadas?
Sim. Na verdade, a gente já estava produzindo quando tudo aconteceu. Quando eu entrei, a gente começou esse processo, depois a Rafa entrou também, junto com o Giu Daga (produtor) e toda a equipe. Mas ter uma data-limite pra entrega do álbum ajudou a dar um direcionamento. Tipo: “a gente precisa fazer isso, nesse tempo, entregar tal dia”. Isso organiza e dá um gás pra finalizar. E agora a gente já está, inclusive, compondo coisas novas também.

O disco (lançado em junho de 2025) tem uma pegada mais moderna e também trouxe as músicas em inglês. O contrato com a Frontiers influenciou esses caminhos?
Com certeza. Mas é uma soma de fatores também. O pessoal que trabalhou com a gente, como o Giu, já tem essa linguagem mais moderna. A gente também queria trazer algo diferente. Então acabou que juntou o útil ao agradável ali naquele momento e a gente conseguiu direcionar pra isso. Na pós-produção, a gente mudou muita coisa. Ajustes de estrutura, de intro, interlúdio… tudo pra chegar na sonoridade final que a gente queria. Foi um processo meio louco, porque foi acontecendo tudo junto, só que a gente conseguiu firmar uma identidade maior com ele, com certeza.

E foi mais fácil compor em português ou em inglês?
É meio de lua (risos). Às vezes a fonética do português encaixa melhor, às vezes o inglês funciona melhor com o tempo do refrão, por exemplo. Isso varia muito de acordo com a música. A gente tem trabalhado com instrumental e letra quase ao mesmo tempo, então vai sentindo na hora o que funciona melhor.

Então tem muita relação com o instrumental, né?
Total. Mas a gente não quer abandonar o português. É a nossa língua, é como a gente se conecta diretamente com o público daqui. Então é importante manter.

E pra você, antes da Malvada, já era natural cantar em português e inglês?
Já era, sim. Eu tenho algumas músicas solo onde misturo os dois idiomas. Eu já estava numa fase meio experimental. Mas fazer um álbum completo é diferente de lançar poucas músicas. Então ainda é um aprendizado pra todas nós.

E como tem sido a recepção do disco, principalmente fora do Brasil? Vocês voltaram recentemente da turnê com o Michael Schenker…
Foi muito legal, de verdade. Cada país tem um público diferente, Alemanha, Holanda, França… a gente percebe muito essa diferença cultural. Uma coisa curiosa: aqui no Brasil, às vezes a galera já começa a aplaudir antes da música acabar. Lá fora, eles esperam terminar, ficar em silêncio, e só depois aplaudem. E foi uma experiência incrível, não só profissional, mas pessoal também. Estar em contato com outras culturas, outros jeitos de viver a música.

E o frio na barriga muda também?
Muda (risos). É até maior. Você watá longe de casa, né?

Tem single novo chegando também, né?
Tem (nota: o single “RNR GRL” foi lançado em 23 de março)! E tem mais novidade vindo, mas essa eu ainda não posso falar (risos) – (No dia 17/03, um dia após esta entrevista, a banda foi anunciada no line-up do Rock in Rio 2026). O single novo é “Rock’n Roll Girl”. A gente vai tocar no Bangers também.

Dá pra dizer que essa música é pra exaltar as mulheres no rock?
Sim. Tem relação com o Dia Internacional da Mulher, mas vai além disso. Na letra, eu coloquei nomes de mulheres da música que a gente admira. A ideia é afirmar a nossa presença na cena, dentro do rock e além dele. A gente sentia falta de uma música com essa mensagem. Pra gente, a música também é um meio social, de alertar, de comunicar, de celebrar. E também de celebrar as mulheres.

E quais são suas principais inspirações femininas?
Nossa, são muitas… No Brasil, gosto muito da Rita Lee. Fora, Tina Turner, Etta James, Janis Joplin, Amy Winehouse… E não só na música, mas também na literatura, como Hilda Hilst e Clarice Lispector. Quem escreve acaba bebendo muito dessas referências também.

Falando do Bangers, como foi receber esse convite?
Foi muito especial. A gente está num momento de apresentar um show novo aqui no Brasil, uma nova fase da banda. Desde antes da turnê na Europa a gente já vem ensaiando esse show do Bangers, pensando no set, na ordem… pra entregar algo diferente pra quem assistir.

É o primeiro grande festival de vocês depois do lançamento do disco, né?
Sim. A gente fez um show em São Paulo e depois foi direto pra Europa. Então esse contato com o público daqui, ainda mais num festival do tamanho do Bangers, é muito importante.

E vocês têm shows antes do festival?
Temos sim, alguns shows aqui pelo estado de São Paulo.

Você já tinha ido ao Bangers como público?
Já! Curto muito, fui várias vezes. Sempre achei que a Malvada combinava com o festival.

E quais bandas você quer assistir no lineup?
Nossa, queria ver todas (risos). É difícil! Quero muito ver os meninos do Trovão, nunca vi ao vivo. Também quero assistir o Richie Kotzen com o Adrian Smith… vi um pouco do The Winery Dogs em outra edição.

Perfeito, Indira! Obrigado pelo papo, parabéns pelo disco e pela turnê. E sucesso no Bangers!
Muito obrigada! Obrigada pelo espaço. É muito bom falar sobre esse momento, sobre a preparação… deixa a gente ainda mais animada. E bora pro Bangers que tá chegando aí!

– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.



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