introdução por Diego Albuquerque
Faixa a faixa por Bruno Tenório
Bruno Tenório é um artista pernambucano atualmente radicado no Reino Unido que, após uma série de quatro singles divulgados em espaços interessantes como a NTS Radio em Londres, está lançando seu álbum de estreia: “NAUPENC” (2026). O disco de 10 faixas marca uma grande transição em sua trajetória musical: da performance predominantemente instrumental para uma identidade realizada como compositor e produtor, ao mesmo tempo em que aprofunda sua conexão com as raízes nordestinas, região celebrada por sua riqueza rítmica.
“NAUPENC” é um trabalho predominantemente eletrônico, com todo o projeto musical girando em torno do ritmo (Tenório é baterista desde os 12 anos). Três faixas apresentam bateria acústica, enquanto as sete restantes são construídas a partir de padrões eletrônicos intrinsecamente interligados. Todos os sons são permeados por uma espécie de psicodelia mutante além da vibe retrô futurista que se adapta as batidas. “(Em ‘NAUPENC) A música é construída por meio de ostinatos e polirritmos sobrepostos, frequentemente executados por sintetizadores, com o conceito orientador de que instrumentos melódicos podem funcionar como vozes rítmicas”, explica Bruno. “A percussão e o design de som são intencionalmente focados em polirritmia, criando momentos em que o ritmo se torna melodia e a repetição se torna narrativa emocional”, complementa o artista.
As cançôes de “NAUPENC” foram compostas e pensadas ao longo de alguns anos, influenciadas por ideias que acompanham Bruno desde seus tempos no Conservatório Pernambucano de Música, sobretudo o estudo de polirritmia com Hugo Medeiros, e também as práticas de conjunto de frevo e forró, que refletem nos ritmos nordestinos que permeiam o álbum. Co-produzido por Tenório, “NAUPENC” é uma parceria com object blue e Mari Herzer, que também co-produziram e trabalharam como engenheiras de mixagem em faixas específicas do disco, que também contou com a participação de Bruno Saraiva (da Kalouv) como um dos co-produtores de cinco das faixas, e também na gravação de synth adicionais nessas músicas.
Além do álbum, Bruno Tenório também lança em parceria com o artista visual e designer gráfico Raul Luna, o filme experimental “NAUPENC“, dirigido por Luna (assista no final do texto). O filme se passa num passado alternativo, que remete a um Brasil alternativo nos anos 1980, no qual o país é uma potência nuclear e o programa NAUPENC surge como uma espécie de terapia alternativa. O protagonista é inicialmente submetido a um processo em que seu corpo é plenamente escaneado, e submerso em um líquido verde de cura. Após o scan, ele é transportado ao meio digital onde, após um processo similar ao de fecundação, ele passa a ser representado pelo ícone tradicional de um mouse de computador.
Abaixo, Bruno Tenório comenta, faixa a faixa, todo o processo por trás de “NAUPENC”. Dá o play no álbum aqui e leia o papo abaixo:
01- Dissociando – Uma das primeiras a ser escritas, “Dissociando” começou a partir de uma idéia composicional que o King Crimson usava nos anos 80, em músicas como “Frame By Frame”, “Neal and Jack and Me”, “Three of a Perfect Pair…” e que o TOOL também utilizou muito ao longo da carreira em músicas tipo “Vicarious”. É usar um padrão rítmico (X), nesse caso executado por uma das guitarras, e outra guitarra executando o mesmo padrão rítmico subtraindo a sua última subdivisão (X-1). Exemplo: uma guitarra está em 7 (14) e a outra está em 13. Os dois padrões vão começar juntos e vão saindo de sincronia, a guitarra em 14 vai tocar 13 vezes e a guitarra em 13 vai tocar 14 vezes o mesmo padrão até que os dois padrões (ou duas guitarras) entrem em sincronia de novo.
O padrão inicial que é tocado por um timbre agudo meio bell, que começa em 7, a partir de algumas repetições subtrai uma subdivisão também, a cada 4 repetições, ou seja 7 7 7 6, essencialmente um padrão em 27. Ele fica bem de fundo nessa parte. Não obstante, fiz uma reprise dele em “Quase Indo” que foi adicionado no final, mas que senti que amarrou o final do álbum pro início.
Além das referências de Tool e King Crimson, lembro de ter ideias, como o hook de synth da introdução, em que eu estava me referenciando em coisas do The Knife, principalmente nos riffs em pentatônica que eles usam muito, como numa música como “A Tooth For An Eye”. Outras referências foram Autechre em alguns dos padrões rítmicos percussivos, e o estilo linear e caótico das baterias do The Mars Volta e Death Grips.
Rafael Cadena do Cangaço regravou essas guitarras polirrítmicas da introdução da música, que escrevi e gravei quando estava compondo a versão demo dela. Ele também gravou outras camadas, algumas rítmicas e de caráter mais de fundo, no final da música, além de algumas guitarras tocando notas soltas, meio etéreas, na introdução, que me lembraram partes que Alex Lifeson gravou em discos do Rush dos anos 80 como o “Grace Under Pressure”. Ele também gravou, dessa vez na parte eletrônica/ do meio da música, os swells de guitarra bem esparsos, e que contrastam com as batidas pulsantes eletrônicas dessa parte.
02- Denial – Essencialmente uma faixa de interlúdio. Definitivamente a música que foi escrita mais rapidamente. Feita como parte de um exercício numa aula de composição de trilha sonora, em que a tarefa era escrever algo para ilustrar uma cena recém escrita. Toda a composição e timbres de synth da música foram feitos e escolhidos em menos de 15 minutos. Passei mais de um ano com ela na versão do export que eu fiz no final dessa aula, e ficou inalterada até eu me juntar com Rena (object blue) em setembro do ano passado para terminar a produção e mix de metade das músicas do disco, incluindo “Denial”. Grande parte do que fizemos juntos na produção foi criar camadas extras que soassem como pássaros e sons da natureza. Ela tem uma vibe meio trilha de filme cyberpunk anos 80 tipo “Blade Runner”, uma estética que influenciou muito o filme (álbum visual) que acompanha o disco.
03- Submerso – Primeira música a ter suas ideias iniciais concebidas, porém só foi finalizada dois anos depois, seis meses dentro do processo de composição do álbum, após já ter escrito “Dissociando” (1) e “Anedonia” (8). Lembro de ter a música “The Captain do Silent Shout” (The Knife) na cabeça, e o clima soturno do álbum foi definitivamente uma grande influência nessa época e nessa música específica do álbum. A segunda metade da música tem uns padrões melódicos nos synths que me lembram Aphex Twin, talvez por que eu estava com a “4” em mente quando escrevi.
04- Naupenc – Essa faixa é essencialmente duas músicas, sendo que os primeiros três minutos são uma espécie de introdução ambient – eu estava muito tentando ser Autechre nessa parte. Numa época em que eu estava particularmente obcecado e descobrindo as coisas do final dos anos 90 deles (“Envane”, “LP5”, “EP7″…), acho que a influência transpareceu aqui. Além disso, eu queria fazer algo que soasse sem andamento, então toda essa introdução está totalmente fora da grade/click no projeto, e instrumentos como o synthbass, os keys, tão em unidades de compasso/andamento completamente distintos e a ideia é que ficasse essa massa sonora central com esses instrumentos fora de sync meio “periféricos”.
A segunda seção da música é mais club oriented, tipo um… techno industrial? Tenho muito orgulho do synth bass dessa parte por que foi feito de uma forma muito aleatória. Nessa época (final de 2020) eu usava uma controladora MIDI, que nem funciona mais, e o cabo que conecta ela a interface de áudio estava meio bugado. Então quando você gravava a controladora usando ele, ele captava a informação midi de uma forma errada, lembro de tocar algo aleatoriamente que soava como muito menos coisas, e quando fui ouvir era como se o cabo tivesse dividido várias das informações midi em outras novas informações midi, de uma forma perfeita, e até hoje foi o momento que eu mais senti na vida que eu escrevi algo que não fui eu que escrevi.
A outra camada melódica principal nessa parte, além do synth bass, que é um synth mais distorcido que entra depois, também passou por esse “processo de mutação” através desse cabo defeituoso. O drop que rola aproximadamente em 5 minutos de música é um dos poucos drops do álbum e pra mim o clímax da música. Após ele, a seção final da música, ou terceira parte, foi toda feita em cima dessa progressão de acordes que foi praticamente roubada de “Windowlicker” de Aphex Twin.
O final foi uma das partes mais trabalhosas de fazer por que eu queria retomar a ideia inicial da música de ter uma ambiguidade rítmica, e o padrão da bateria é praticamente um baião, mas começando num lugar diferente do compasso, uma semicolcheia adiantada. Então isso tornou muito confuso na hora de escrever e arranjar as partes de synth do final, por que como é tudo muito baseado no ritmo, e tem essa ambiguidade rítmica, esse groove do final da música se você começa a escutar a partir de um momento específico, sem ser da cabeça do compasso, começa a soar como outra coisa… pra mim, talvez por que sou de Recife, um baião. Mas lembro de ter essa dificuldade com esse final e ter que dar play do começo do compasso, ou ter que sempre contar os tempos pra conseguir me achar, mas consegui escrever todas as partes em cima da batida principal.
05- Sleepless – Escrita a partir de um groove de bateria usando o polirritmo de 7 contra 3, eu transcrevi ele no ableton usando som de drum machine e a música foi construída em cima disso. Além dele, criei outro groove variação, que usei como o primeiro groove a ser tocando na introdução da música, e novamente no interlúdio. A música foi toda feita em cima dessas duas batidas, e o desafio pra mim foi mantê-la interessante até o final, tendo essa proposta repetitiva. Acho que as escolhas de timbres de synth, criando diferentes texturas ao longo da música, somado às variações que Rena (object blue) criou em cima de elementos como os hi hats, usando automações de efeitos, sends pra reverbs/delays… além das melodias no clímax da música, tudo isso ajudou a criar um senso de narrativa, e acho que a natureza repetitiva dos grooves ajudaram a criar uma vibe mais imersiva nessa faixa.
06- Graphie – A faixa mais club-oriented do álbum, foi muito escrita através das de duas premissas básicas: fazer algo dançante, e usar o máximo de síntese granular possível. Eu tinha sido introduzido a esse tipo de síntese poucos meses antes e estava muito empolgado a aprender a mexer no granulator no ableton. Muitas das camadas percussivas, que soam bastante metálicas, foram obtidas através desse tipo de síntese.
Essa música passou alguns meses praticamente toda escrita, até que do nada um dia eu consegui finalmente termina-la, quando eu tive a ideia para a ponte (que pra mim, talvez pela progressão de acordes dessa parte, ficou com uma vibe bem Daft Punk na época do “Discovery”), aí a música meio que encaixou. Depois só ficou faltando um senso de clímax maior no encerramento. Foi quando eu tive a ideia da melodia do final, que pra mim acabou sendo a melhor parte da música, e também a melhor melodia do álbum. Essa e a seguinte no álbum são provavelmente minhas favoritas.
07- Permanáculo – Essa música, a mais longa do disco, é definitivamente a mais progressiva. Ela tem 10 minutos e é dividida em cinco seções principais, cada uma com em média dois minutos de duração. A música toda foi construída em cima desse mesmo loop de bateria em 5/4, que escrevi numa prática de bateria umas semanas antes. Esse loop/groove, por sua vez, foi inspirado nas linhas de bateria que Hugo Medeiros escreveu, em músicas do Rua do Absurdo, como “Palavra”, do “Limbo” (2014), disco esse que teve uma influência absurda em mim no ano levando a composição dessa música. Além disso, nessa época eu estudava com Hugo no curso técnico de bateria do Conservatório Pernambucano de Música, e a forma dele de pensar ritmo e de uso composicional de polirritmos, e na música centrada no ritmo, tiveram um impacto muito grande em mim e nesse disco.
Essa música, junto com “Dissociando”, é a que mais faz uso de polirritmos. O groove da bateria e o baixo, o cerne da música, tocam em 5, mas o chimbau está em 3. Na primeira seção da música, após a bateria e o baixo e, posteriormente, percussões (paus-de-chuva, semente, congas, bongos, todas estas gravadas por Thiago Duarte, no estúdio Casona, em Recife, onde também foram gravadas todas as baterias do disco), são introduzidos dois padrões em dois synths diferentes, um em 3 e outro em 5. Logo após, um timbre agudo bell em 4 é introduzido. Ritmicamente a música é muito baseada nesse polirritmo de 5:3:4 (5 contra 3 contra 4). Após esses elementos, entra na música a primeira melodia principal, tocada por um synth vst simulando minimoog, pra mim essa parte era pra ter uma vibe meio anos 70 em relação a tipo de som de synth analógico.
A segunda seção da música, tem uma melancolia que também é muito inspirada no Autechre dos anos 90, mas dessa vez mais nos álbuns iniciais, como o “Amber”, principalmente pelo tipo de ambiência nesses trabalhos através do uso de pads “quentes”. A terceira seção pra mim sempre foi feita com a intenção de soar como o ápice de uma cerimônia ritualística, que tem tudo a ver com o conceito do filme. Ela é onde se faz mais presente as congas e bongos gravados por Thiago. Durante o processo de produção, eu e Bruno (Saraiva) nos divertimos muito criando várias e várias camadas de noise para essa parte. A seção termina com esse crescendo cacofônico de percussões e noise synths.
A quarta seção, após esse crescendo, tem como proposta soar como um alívio depois do caos, e serve como uma ponte para a parte final, com a bateria acústica com baquetas pela primeira vez na música, em essência tocando uma parte de heavy metal moderno. Essa quinta e última seção, o final da música, novamente faz uso da técnica King Crimson/TOOL de “deslocamento” de padrões rítmicos, por falta de um termo melhor, dessa vez tocados por três synths diferentes, o principal deles tem um som bem plucky, e espalhados no campo estéreo. Isso cria esse senso de movimento entre cada ciclo começando em um lugar diferente do panorama, em momentos diferentes.
08- Anedonia – Essa é basicamente uma música de rock experimental ou rock eletrônico. Os primeiros dois riffs de violões pra mim tem uma vibe meio Opeth, enquanto o terceiro tem uma vibe meio Porcupine Tree. Essa música foi escrita quando eu estava numa fase ouvindo muito o primeiro disco solo de John Frusciante, o “Niandra Lades and Usually Just a T-Shirt”, onde ele usa muito, ao longo do disco todo, esse som de guitarra invertido que acaba criando esse clima meio melancólico e fantasmagórico. No final da música eu também acho uma parte que mostra minha influência de John Frusciante, mas mais o estilo dele no Red Hot pós “Californication”/”By The Way”, discos solo anos 2000, nessa coisa de tocar os acordes em tríade dedilhando. Essa música também contou com Rafael Cadena, que regravou todos meus violões e guitarras que eu escrevi durante o processo de composição.
09- Waste – A faixa mais pesada do disco, ela é pela maior parte do tempo uma mistura de hardcore techno/gabber com o uso de breakbeat por cima. Ela tem uns synths meio Squarepusher/Aphex Twin que eu acho que serve pra dar um contraste a todo o peso e distorção das batidas e do synth bass. O final é pra mim uma grande homenagem ao Death Grips. Foi a última parte a ser escrita da música e também do álbum, já que essa foi a última música a ser escrita. Tem uns noise synths no começo da música que eu também adicionei no final do processo de produção, que me lembra muito alguns noises que o The Prodigy fazia num disco tipo o ‘Fat of the Land”.
10- Quase Indo – Acho que essa música funciona bem como uma faixa de encerramento, tanto pelo final, que pra mim sempre soou muito como um óbvio final de álbum, mas também por sua vibe meio melancólica, que soa como uma espécie de despedida. Musicalmente, a batida dela é basicamente um trap, mas os elementos melódicos trazem essa vibe mais melancólica, e a batida vai se moldando para algo mais breakbeat-oriented também. Assim como “Waste”, essa música pra mim tem uns elementos bem Squarepusher, mas dessa vez mais no synthbass que rola da metade da música pro final. O final da música, aliás, usa um padrão rítmico idêntico ao do começo de “Dissociando” em 27. (7776) Isso foi uma das últimas coisas a ser escritas, e deliberadamente forçado pra criar um senso de coesão e circularidade. Não obstante, eu acho que funcionou e deu um encerramento bom pro álbum.
– Diego Albuquerque é o criador do blog Hominis Canidae, um dos maiores repositórios de discos brasileiros da última década. O blog foi criado em 2009, no Recife, e divulga novos artistas e nomes indies da música brasileira, de norte a sul do país.

