Em noite especial em SP, a superbanda Drink The Sea encerra turnê tocando Mad Season, R.E.M., QOTSA e Cássia Eller

texto de Carlos Messias
fotos de Fernando Yokota

Surreal a ideia de ir à Casa Rockambole, que ocupa as instalações do antigo Centro Cultural Rio Verde, um teatro na Vila Madalena com ares de cabaré e capacidade para 500 pessoas (em pé), para assistir ao show do Drink the Sea, formado pelos antigos membros de algumas das bandas mais icônicas dos anos 1990 – daí o predicado superbanda, cunhado em 1967 pela Rolling Stone para definir o Cream, que desde então foi atribuída de Travelling Wilburys a Audioslave e Velvet Revolver, passando pelo Temple of the Dog, o primeiro supergrupo da geração de Seattle (chegaremos lá em 1 minuto).

Uma produção Balaclava Records, o Drink the Sea encerrou no Brasil, na última quarta (25), a turnê mundial dos seus álbuns de estreia, “I” e “II”, disponibilizados no streaming, respectivamente, em setembro e outubro do ano passado, e depois encartados como um CD duplo, pelo Sunyata Records, selo de Barrett Martin, baterista do supergrupo, pelo qual ele já havia lançado “Last Words” (2011), o disco derradeiro do Screaming Trees, banda na qual, então egresso do Skin Yard, tornou-se mais conhecido. Martin também esteve por trás de outro supergrupo de Seattle, o Mad Season, composto ainda por membros do Alice in Chains e do Pearl Jam, ainda contou com participação do vocalista Mark Lanegan (1964-2022), também dos Trees e, como veremos a seguir, uma espécie de denominador comum na formação do Drink the Sea.

Barrett Martin

Depois do sucesso estrondoso de “Above” (1995), estreia do Mad Season, em 2013 foi lançada pela Legacy Records (Sony) uma reedição de luxo do álbum clássico, já após a morte de Layne Staley (1967-2002) porém antes da partida de Lanegan, incluindo 10 canções inéditas, entre engavetadas e incompletas. Para a conclusão das quais, além de Lanegan, o supergrupo contou com Peter Buck, guitarrista do R.E.M. que hoje também integra o Drink de Sea e já tocou com Barrett Martin em mais de 40 discos, incluindo o novo álbum de Nando Reis, conforme também veremos adiante.

O currículo da banda que se apertou no modesto palco da Casa Rockambole esta semana mais parece uma ficha corrida – ou talvez um recorte abrangente do que rolou de mais original no rock nos últimos 40 anos.

Duke Garwood e Peter Buck

Em outra das guitarras, e também vocalista em diversas canções do Drink, o produtor nascido no Chile, cofundador do trio estadunidense Eleven, Alain Johannes. Em 1999, ele gravou e tocou no disco solo de estreia de Chris Cornell (1964-2017) e, de lá para cá, em três álbuns da Mark Lanegan Band, além de uma série de projetos que orbitam em torno do stoner californiano, como Queens of the Stone Age, Desert Sessions, Eagles of Death Metal, Masters of Reality, Patrón etc. E em 2009 ainda integrou o Them Crooked Vultures, outro supergrupo, no qual dividiu o palco e o estúdio “apenas” com John Paul Jones, Dave Grohl e Josh Homme (ele contou essa história aqui no Scream & Yell).

Na terceira guitarra e assumindo papel de frontman com seus vocais barítono – além do saxofone soprano, algo um tanto incomum para um roqueiro -, o inglês Duke Garwood, autor de seis discos solo e coautor de dois excelentes álbuns em duo com… Mark Lanegan. A jazzista Abbey Blackwell (baixo transversal e baixo elétrico) e a percussionista Lisette Garcia, que é a companheira de Barrett Martin, completam a formação do Drink the Sea.

Abbey Blackwell

Com pouco mais de 1h de atraso, o sexteto iniciou o show com “Shaking for the Trees”, composição que também abre o disco “I” e deu o tom da apresentação: etérea e espacial, com instrumentos sobrepostos em camadas (incluindo os vocais) e batidas tribais, em meio a um clima colaborativo e experimental, feito uma banda de jazz.

Além de um dos maiores bateristas da era grunge, embora criado na escola John Bonham de pancadaria, Barrett Martin também é percussionista e etnomusicólogo acadêmico, com discos, livros, filmes e até uma série documental (“Singing Earth”, disponível no YouTube) que exploram a musicalidade de povos africanos, indígenas e até mesmo indianos. Faceta do seu trabalho que foi a tônica em projetos como Tuatara, Barrett Martin Group e Silverlites, nos quais também colaborou com Peter Buck, e que transparecem no Drink the Sea – especialmente quando ele se levanta da bateria para se revezar com Lisette Garcia na percussão e no vibrafone, do qual, usando um arco de violoncelo, extrai um som de theremin.

Alain Johannes

Também adepto de sonoridades inusuais, Alain Johannes, que se queixou por não ter trazido seu moog, passou o show inteiro escondidinho, sentado no canto, cantando várias das canções e esmerilhando toda sorte de lap steels e guitarras esquisitas, como a guitarra portuguesa que ele, dizendo-se apreciador de fado, sacou em canções como “Embers” e “Paredes”.

Outros destaques da longa sequência de canções própiras foram “Saturn Calling”, com notável influência de David Bowie; “The Strangest Season” e “Outside Again”, embaladas na esfumaçada atmosfera blues do trabalho de Duke Garwood, e “Spirit Away”, na voz e mais ao estilo de Johannes; além da onírica “Butterfly”.

Ainda no primeiro bloco Barrett Martin mencionou os amigos comuns da banda que não estão mais entre nós e o Drink the Sea teve o primeiro momento nostálgico da noite, quando tocou “Long Gone Day”, um dos maiores hits do Mad Season, com Duke Garwood assumindo as partes vocais de Lanegan e o próprio baterista cantando os versos de Layne Staley. Com seu indefectível estilo de palhetar as cordas individualmente em meio aos acordes, Peter Buck tocou Mad Season como quem toca R.E.M., como se houvesse uma interferência com” The One I Love” em meio à transmissão de “Long Gone Day”, o que pode ter dado uma atrapalhada para os fãs da versão original.

Peter Buck com Abbey Blackwell ao fundo

Martin ainda falou sobre a importância do Brasil para o Drink, especialmente para a canção “Sip of the Juice”, dedicada à Amazônia brasileira e inspirada em uma viagem recente que ele e Buck fizeram a Manaus como parte da banda de Nando Reis. A parceria do baterista estadunidense começou ainda em “Infernal” (2001) e culminou na produção de “Uma Estrela Misteriosa Revelará o Segredo “(2024), disco quádruplo, o quarto do ex-Titã em que Martin, e o segundo em que Peter Buck, participaram.

Corta para agosto de 2022, Barrett desembarca em São Paulo para iniciar o trabalho acompanhado da superbanda (?) de stoner Mojave Lords, com Buck e com Dave Catching (QOTSA, Eagles of Death Metal, earthlings?) nas guitarras. Depois de uma sessão no estúdio Aurora, em Pinheiros, os veteranos fizeram um show memorável no La Iglesia, na mesma rua, antes de se trancarem no estúdio com Nando Reis. Martin ainda articulou a participação de Krist Novoselic (Nirvana), Duff McKagan (Guns n’ Roses), Mike McCready (Pearl Jam, Mad Season) e Matt Cameron (Soundgarden, PJ) no último disco do ex-Titã, que teve uma superbanda para chamar de sua e não poderia deixar de retribuir com uma mega canja no show da Casa Rockambole.

Nando Reis / Foto cedida por Carlos Soares

No bloco final, que incluiu as ótimas “Land of Spirits” e “Tuareg Asteroid”, Nando terminou de lotar o palco com o filho Sebastião e o baixista Fernando Nunes, da banda de Cássia Eller. Eles e o Drink tocaram “Dois Reveillons” e “Azul Febril”, do mais recente trabalho do ex-Titã, e mais “Relicário” e “Segundo Sol”, presentes em “Infernal” e mais conhecidas na voz da carioca.

A composição e as gravações dos discos do Drink the Sea ocorreram por onde quer que os músicos estivessem trabalhando nos últimos dois anos, como o estúdio de Martin em Olympia, perto de Seattle; o Rancho de la Luna, operado por Dave Catching no deserto californiano; Santiago do Chile, Reino Unido, Islândia.. e até o estúdio High Five, na capital paulista.

Antes do fim da apresentação na quarta, os gringos revisitaram seus sucessos do passado, começando com uma entusiasmada versão de “The One I Love”, canção com que o R.E.M. encerrou seu primeiro show no Brasil, no Rock in Rio III, em 2001, sobre o mesmo palco onde Cássia Eller, que morreria naquele ano, se apresentou horas mais cedo.

Lisette Garcia

Na sequência, duas pedradas de Alain Johannes em parceria com Mark Lanegan lançadas nos volumes 7 & 8 das Desert Sessions (2001, ocasião em que os dois se conheceram): “Making a Cross” e ‘Hanging Tree”, esta mais famosa na versão para o disco “Songs for the Deaf” (2002), do QOTSA.

Os músicos do Drink the Sea, embora ainda tão lembrados pelo passado, não parecem tão interessados em nostalgia, mas, sim, felizes em viajar e em tocar “em família”. Como Johannes disse em recente entrevista ao Popload, mais do que uma carreira, trata-se de um estilo de vida em que são criativos o tempo todo.

No auge da sensibilidade musical e gozando do pleno domínio de seus instrumentos, os veteranos soam como um exemplo, uma alternativa aos finais trágicos de tantos dos seus contemporâneos. Ao longo das quase três horas de show, os veteranos demonstraram energia, liberdade e prazer genuínos, contagiantes o suficiente para a plateia sair com um sorriso bem aberto no rosto e ficar para tietar os super músicos, mesmo passado o horário do metrô.

Carlos Messias é jornalista e escritor. Autor dos livros “A Hora Mágica” (Editora Patua, 2025) e “Consolação” (Editora Prosaica, 2019)



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