Esse você precisa ler: Mais contundente do que nunca, “O Cavaleiro das Trevas” completa 40 anos

texto de Davi Caro

Frank Miller é, para o bem ou para o mal, o mais debatido autor de sua geração. Com um currículo que inclui começos na Marvel (onde ajudou, no início dos anos 1980, a dar uma nova vida ao personagem Demolidor, além de ter criado sua mais célebre antagonista, na forma da ninja assassina Elektra), trabalhos autorais que se tornariam ora brilhantes (como a saga noir “Sin City”, de 1991, ou a fábula cyberpunk “Ronin”, entre 1983 e 1984), ora dignos de revolta (tal qual a infame graphic novel “Holy Terror”, de 2011), o autor e desenhista norte-americano se aventurou até pelo cinema: Miller é creditado como roteirista – nos pífios segundo e terceiro filmes da franquia “Robocop” – e como diretor – no igualmente terrível “The Spirit” (2008), adaptação do clássico personagem pulp de Will Eisner – sempre dividindo opiniões e usando sua arte como forma de externalizar suas visões de mundo. Independentemente do quão polêmicas elas sejam.

Foi na extensa folha corrida que o escritor criou para si na DC, entretanto, que Miller realizou provavelmente seus trabalhos mais icônicos. E, embora cada um deles possua méritos próprios, é possível dizer que todos existem sob a mesma sombra: a de “O Cavaleiro das Trevas”, minissérie em quatro edições cujo primeiro número foi publicado originalmente em fevereiro de 1986, há pouco mais de quatro décadas, e que acabou se tornando talvez a obra mais emblemática da carreira de Frank. Contando com o aporte dos artistas Klaus Janson e Lynn Varley (então esposa de Miller), a HQ conta a história dos últimos anos do Batman, e não apenas ajudou a ressignificar a imagem do herói junto ao consciente coletivo, como também solidificou uma nova roupagem para o vingador mascarado em uma década onde a maioria dos leitores, casuais ou não, associava o personagem à sua versão mais caricata – interpretada por Adam West na série televisiva kitsch dos anos 60.

Em um futuro distópico na qual Gotham City é assolada por gangues de criminosos, Bruce Wayne é apenas uma sombra do que um dia foi. Do alto de seus 55 anos de idade, beirando o alcoolismo e vivendo uma aposentadoria forçada de dez anos após a morte de seu pupilo, Jason Todd – o segundo Robin – o milionário amarga uma vida vazia, temperada por rompantes depressivos de niilismo. Até que uma série de eventos o levam, compulsivamente, a atender o chamado primal que carrega dentro de si, e a voltar às atividades como vigilante, mais incansável e violento do que nunca. Seu retorno, embora desencorajado por seu agora idoso, porém fiel, mordomo Alfred Pennyworth, resulta em um choque junto a um mundo que desaprendeu a lidar com salvadores uniformizados.

E a reação em cadeia se manifesta de diferentes formas: no crime organizado dominante na cidade que o Batman jurou proteger, e sobretudo no líder troglodita da maior de suas organizações, a gangue dos Mutantes; no aparecimento da jovem e idealista Carrie Kelley, que acaba por tomar para si o manto de Robin; na inquietação do governo dos EUA, que enxerga no ressurgimento do combatente do crime uma ameaça a seus objetivos imperialistas disfarçados de democracia (e que, em contrapartida, empregam os esforços de seu mais fiel lacaio, o Superman, para agir como seu porta-voz); nos esforços do comissário de polícia James Gordon, por si só a beira de uma aposentadoria forçada; e, sobretudo, na reemergência do grande arqui-inimigo do herói, o Coringa – implicado como o grande responsável pela morte do já citado Jason Todd, e cujo estado catatônico mantido no Asilo Arkham é interrompido pelo ressurgimento de seu nêmesis. Quando todas as peças deste enorme tabuleiro finalmente colidem, as consequências tomam a forma de um abalo sísmico que pode reestruturar todo o universo – ou destruí-lo por completo.

A conciliação de tantas subtramas é apenas um dos grandes segredos por trás do sucesso de “O Cavaleiro das Trevas”. Ao optar por retratar Batman como o completo oposto da visão que a mídia possuía do personagem até então, Miller não apenas inovou em criar uma ideia completamente fresca (e influente, como os anos seguintes evidenciariam) de uma figura tão icônica, como também escancarou muitos dos dilemas inerentes à figura de Bruce Wayne desde sua gênese. Existe, afinal, algo de opressor (e, pode-se dizer, até um pouco fascista) na ideia de um indivíduo que se dá ao luxo de sair de sua posição de privilégio e riqueza com o objetivo de agredir criminosos desprovidos das mesmas oportunidades que ele; ao mesmo tempo, o autor tem o cuidado de posicionar o protagonista como o absoluto oposto à tirania vilanesca representada pelo Superman, o eterno escoteiro que, agora, serve como garoto de recados de um presidente autoritário e desprezível (que, embora não referenciado diretamente, é claramente uma alusão ao então chefe de estado norte-americano Ronald Reagan). No fogo cruzado, está a jovialidade de Carrie Kelley, que atua como um lembrete da inocência que existe por trás da ideia fundamental das histórias em quadrinhos – quase como um avatar da identidade mais leve e despretensiosa, embora cheia de energia, das eras de prata e ouro da nona arte.

Se o roteiro de Miller já seria, por si só, capaz de criar um enredo contundente e imersivo, o trabalho de ilustração do mesmo e de Klaus Janson eleva o potencial narrativo à enésima potência. E só com as indispensáveis cores de Lynn Varley adornando painéis cheios de movimento é que os ilustradores são capazes de conjurar momentos ao mesmo tempo delicados e tensos, cheios de ação e de sentimento ao mesmo tempo em que canalizam certa melancolia. “O Cavaleiro das Trevas” é, não à toa, recheada de momentos antológicos da história das HQs – da reencenação da origem do Batman, com o assassinato de Thomas e Martha Wayne, até o arrepiante clímax, com o Morcego e o Homem de Aço se degladiando em uma luta brutal e simbólica, passando pelo triunfal retorno de Wayne ao capuz e ao combate ao crime, a sangrenta batalha contra o líder mutante em uma cratera enlamaçada (“Isso não é um poço. É uma mesa de cirurgia – e eu sou o cirurgião”, diz o vigilante), e pelo macabro confronto derradeiro com o Coringa – o trabalho de arte é instrumental para o sucesso da obra ao longo das décadas que se seguiram.

O êxito da minissérie original se deve, no entanto, a mais do que seu trabalho narrativo excepcional. “O Cavaleiro das Trevas” foi, tanto em sua publicação original nos EUA (em quatro partes) quanto em sua eventual republicação, que reunia os quatro números em um encadernado, agraciada com aquilo que, na época, se convencionou chamar de “prestige format”: com acabamento diferenciado e um tipo de papel que se destacavam de publicações corriqueiras e revistas mensais tradicionais, a HQ também marcou o momento onde bancas de jornal deixaram de ser a prioridade de distribuição da indústria. Ao invés disso, o principal foco da DC passou a ser as ditas comic shops; lojas especializadas que trabalhavam com produtos sob encomenda – evidenciando ainda mais o verdadeiro estrondo que “O Cavaleiro das Trevas” representou junto aos quadrinhos mainstream, principalmente em suas reimpressões. Estas, inclusive, acabaram ofuscando um detalhe bastante interessante do conceito original da publicação: originalmente, a minissérie se chamaria apenas “The Dark Knight”, com cada uma das quatro edições tendo um título diferente; o nome da primeira edição, “The Dark Knight Returns”, terminaria sendo aplicado à história como um todo logo da primeira encadernação, em 1986.

O legado de “O Cavaleiro das Trevas” iria muito além de sua época, no entanto. No ano seguinte, Frank Miller seria mais uma vez convocado pela DC para, ao lado do artista Dave Mazucchelli, repaginar não o fim, e sim o início, da carreira do Homem-Morcego. Publicada também em quatro partes ao longo de 1987 (dentro da linha editorial mensal dedicada ao personagem), “Ano Um” se tornaria outra das mais reverenciadas histórias do herói ao longo dos anos, ambientada no mesmo universo que sua publicação predecessora, e servindo de inspiração para muitas das várias adaptações para outras mídias. Em tempo: “O Cavaleiro das Trevas” seria, juntamente com “A Piada Mortal” (1988), de Alan Moore e Brian Bolland, uma das principais referências para que Tim Burton trouxesse sua própria interpretação da mitologia do Morcego em “Batman” (1989).

A relação de Frank Miller com uma de suas obras mais consagradas, entretanto, tornou-se cada vez mais problemática ao longo dos anos. Não faltaram ao autor oportunidades de explorar sua própria versão do Batman – uma versão que dividiria opiniões e enfureceria fãs com cada novo material. Embora o crossover “Spawn/Batman” (1994) tenha servido como um prelúdio (feito, inclusive para capitalizar em cima do fenômeno no qual o então novo personagem da Image havia se tornado), leitores puderam vislumbrar o segundo ato do épico de 1986 em “O Cavaleiro das Trevas 2” (“The Dark Knight Strikes Again”, 2001), uma acidentada e confusa continuação que passou muito, mas muito longe da profundidade, ou do refinamento, da história original – embora reunisse mais uma vez Miller e Lynn Varley. Já “O Cavaleiro das Trevas III: A Raça Superior” (“The Master Race”, 2015) trouxe um novo colaborador na forma de Brian Azzarello, e o resultado foi mais satisfatório. Entre uma sequência de apenas uma edição (“A Criança Dourada”, com arte do brasileiro Rafael Grampá), um prelúdio detalhando as razões por trás da aposentadoria de Wayne e a morte de Jason Todd (“A Última Cruzada”, 2016, com Azzarello e John Romita Jr.) e um spin-off (“Superman: Ano Um”, 2019, mais uma vez com Romita Jr.), “O Cavaleiro das Trevas” foi republicado um sem-número de vezes. Embora publicado no Brasil logo em 1987, em quatro edições separadas, a melhor (e mais recente) republicação é a chamada “Edição Absoluta” (acima), lançada pela Panini em 2024 com novo prefácio e acabamento mais do que caprichado.

Vale citar também que, além de haver servido como inspiração mais do que descarada para o malfadado universo cinematográfico de Zack Snyder na década passada (sobretudo em “Batman v. Superman: A Origem da Justiça”, de 2016), e de ter emprestado seu nome e certos elementos de seu roteiro para o segundo e terceiro filmes da trilogia de Christopher Nolan (em 2008 e 2012, respectivamente), a HQ também ganhou sua própria adaptação direta em animação. Dividida em duas partes, com a primeira sendo lançada em 2012 e a segunda, no ano seguinte, a produção contou com Peter Weller (o eterno Robocop) como Batman, e colecionou elogios – embora algumas críticas tenham sido feitas em relação à detalhes da trama mais conectados à época de seu lançamento original, como referências à Guerra Fria, entre outros. No frigir dos ovos, entretanto, não é exagero apontar “O Cavaleiro das Trevas” como uma das obras mais influentes da história dos quadrinhos (a capa original abaixo, desenhada por Frank Miller, foi a leilão em 2022 sendo arrematada por US$ 2.4 milhões, cerca de R$ 12 milhões). Ao lado do “Watchmen” de Alan Moore e Dave Gibbons, a minissérie provou que quadrinhos de super-herói são, sim, formas de arte dignas de respeito, admiração e reverência. Através de sua influência, notada em obras como “Invencível” (de Robert Kirkman) e “The Boys” (de Garth Ennis), entre muitas outras, “O Cavaleiro das Trevas” se prova como um trabalho de um legado turbulento e, muitas vezes, problemático, mas nem por isso menos notável, ou menos válido como documento genuíno de uma visão muito à frente de seu próprio tempo. A despeito das muitas declarações e decisões artísticas duvidosas tomadas desde então, é justo (e necessário) dizer que, por pelo menos um instante, há quatro décadas, Frank Miller viu o futuro.

 Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.





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