Crítica: Charli XCX encerra a era “Brat” com o mockumentário “The Moment”, uma sátira da indústria pop

texto de Renan Guerra

Muitos podem ter descoberto a inglesa Charli XCX recentemente, porém ela já está na carreira musical há quase 20 anos, desde sua adolescência. Há dez anos ela já estava escrevendo hits pop para filmes adolescentes e fazendo até show no interior do Rio Grande do Sul. “Brat”, de 2024, mudou as proporções de Charli, que viu seu disco se transformar em fenômeno do verão no hemisfério norte e “Brat” ser definida como a palavra do ano de 2024 pelo dicionário Collins. Para colocar fim a essa era, Charli subverte o universo do documentário musical com o divertidíssimo “The Moment” (2026), de Aidan Zamiri, diretor estreante no cinema, mas com vasto currículo assinando videoclipes para nomes como FKA twigs, Billie Eilish e a própria Charli.

Num universo de documentários musicais chapa branca, que parecem mais um jogo de cena bem ensaiado por grandes estrelas pop, Charli e Aidan decidiram fazer uma galhofa geral: “The Moment” acompanha a construção de uma inexistente turnê de arenas da era “Brat”, tendo Charli XCX no papel de Charli XCX – é ela, mas não é. Um universo de empresários musicais, criativos, publicitários e outros profissionais a cerca e passa a ditar cada vez mais os rumos que a turnê tomará, buscando cada vez mais expandir e esgarçar ao máximo a era “Brat”. “Brat”, o disco, saiu há quase dois anos, e foi um trabalho que rendeu e quase se esgarçou em seus desdobramentos, por isso é extremamente rico que a artista decida olhar para essa fase com acidez e complexidade.

Para cercar Charli, temos atores em papeis ficcionais, como Rosanna Arquette, Jamie Demetriou e Hailey Gates, ao lado de pessoas reais que ficcionalizam (ou não) suas personas reais, como Rachel Sennott, Kylie Jenner e Anthony Fantano. Dentre esses nomes, o destaque fica para Alexander Skarsgård (sim, filho de Stellan Skarsgård, ator de “Valor Sentimental“) no papel do diretor Johannes Godwin, indicado pela gravadora para transformar o show de Charli em um espetáculo para todos os públicos e para o amplo consumo.

Com uma atuação precisa, que domina muito bem as nuances do humor, Skarsgård constrói de forma certeira essa figura masculina que busca de algum modo seguir impondo suas ideias num mundo que mudou – e que ele custa em aceitar. É interessantíssimo como os diálogos são construídos, colocando Johannes sempre como esse personagem que tenta criar falsas logísticas apaziguadoras, o puro suco de alguém que viu um vídeo de YouTube sobre comunicação não-violenta e acha que isso é o suficiente ao lidar com outras pessoas.

A narrativa de “The Moment” se desenrola em duas possibilidades: 1) há uma série de subtextos e referências que dialogam com a persona on-line de Charli e que são espécie de “easter eggs” para seus fãs mais conectados, indo de referências a memes até trocas de farpas com outras artistas, em detalhes que trazem um charme cômico especial para quem esta por dentro destes signos; 2) há uma narrativa central que independe do conhecimento aprofundado sobre a obra de Charli e que se encaixa muito mais nessa sátira do universo da música pop, trazendo um olhar entre a acidez e a melancolia em torno desses percalços que, em sua maioria, atingem artistas femininas nessa indústria.

Curiosamente, uma das pessoas que celebrou o filme foi a sueca Robyn; sucesso na Europa nos anos 90, a indústria tentou de todo custo transformar Robyn no que viria a ser a Britney Spears, mas Robyn se distanciou disso de forma corajosa; após assistir “The Moment” ela postou em suas redes sociais que o filme representaria de forma certeira os 10 anos iniciais de sua carreira.

Em uma primeira leitura, “The Moment” pode até parecer uma sátira direta sobre outras artistas que se digladiam nesse universo de vendas, números e métricas – há inúmeras cenas que geram associação direta ao universo mercadológico gerido por Taylor Swift, por exemplo. Ainda assim, o filme de Aidan Zamiri e Charli XCX é menos sobre rivalidades femininas e muito mais sobre a forma como essa indústria trata a todas elas, construindo uma narrativa que deixa muito claro que as subjetividades de cada artistas são menores do que as demandas de venda, de viralização virtual e de memeficação. E Charli faz isso de uma maneira muito íntima: para olhar para esse macro da indústria, ela se entrega vulnerável em um filme que fala essencialmente sobre as suas próprias angustias e medos. Charli é uma artista pop que busca, como todo mundo, o sucesso e a aceitação do público e de seus pares, e nessa caminhada ela própria já se jogou em ciladas mercadológicas, em armadilhas vendáveis e em contratos problemáticos; e ainda assim ela segue tentando jogar esse jogo a sua maneira.

“The Moment” é um falso documentário com mais similaridades com a vida real do que Charli admitira e, por isso mesmo, se transforma em um filme ao mesmo tempo divertido e instigante. Uma subversão pop da indústria, um desmembramento das construções publicitarias para falar sobre a humanidade, as falhas e as fragilidades de quem esta por trás de todas as canções que amamos. “The Moment” é como uma polaroide desse verão “Brat” e que encerra essa era com a sabedoria de uma artista inventiva e que sabe cada vez mais pra onde quer ir e com quem quer ir.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *