texto de Ismael Machado
Há filmes que não se contentam em narrar um processo artístico. Eles aspiram tocar aquilo que antecede a própria arte. Aquele instante único em que um ser humano, despido de seus papéis, percebe que já não consegue mais mentir para si. “Bruce Springsteen: Salve-me do Desconhecido” (“Deliver Me from Nowhere”, 2025) se inscreve nesse território raro. O que vemos não é apenas Bruce Springsteen, que aos poucos já ia sendo conhecido como The Boss, às voltas com um novo disco, mas um homem diante da falência de uma persona e, portanto, diante da urgência de reinventar sua relação consigo mesmo, para além do projeto de rock star dono do mundo a que estava prestes a se tornar.
Springsteen aparece como alguém encurralado entre duas forças contraditórias: de um lado, o peso de uma carreira que o estava transformando em símbolo, mito, máquina de expectativas; de outro, os fantasmas íntimos que jamais se deixaram domesticar. A infância, o pai silencioso e duro, a mãe compreensiva e amorosa, os ambientes emocionalmente áridos, os amores fugidios a que ele não se entregava cem por cento, a sensação persistente de inadequação. Tudo isso retorna não como lembrança, mas como presença. O passado não é passado morto. Ele pulsa. Incomoda, arranha mais que a superfície. Ele exige resposta que nem sempre estamos prontos a dar, pois é um diálogo profundo demais.

A depressão do artista, nesse contexto, não surge como um evento isolado, mas como um acúmulo. Um desgaste da alma que nasce quando a distância entre o que se é e o que se aparenta ser se torna insustentável. O filme sugere que o verdadeiro colapso não acontece no momento em que se cai, mas no instante em que se percebe que se vem caindo há muito tempo. E quantos de nós não vivemos isso, mesmo que nem nos demos conta?
O desejo de fazer um disco “cru” e verdadeiro, que seria “Nebraska”, não é estético. É existencial. Springsteen não busca uma nova sonoridade. O que ele busca é uma nova possibilidade de verdade. Quer retirar camadas, desmontar arquiteturas, abandonar ornamentos. Como se cada instrumento a menos fosse também uma máscara a menos. Como se cada silêncio incorporado à música fosse uma confissão. E poucos além de Bruce estariam tão dispostos a escavar tão fundo. Talvez John Lennon. Talvez Cazuza, Bowie, Patti Smith, Renato Russo, Billie Holiday, Nina Simone… a lista não é tão extensa assim.
“Nebraska” (lançado oficialmente em 1982) nasce dessa recusa em continuar performando normalidade. Gravado de maneira doméstica, imperfeita, quase precária, o disco soa como um diário que nunca foi escrito para ser publicado. Canções que não pedem aplauso. Histórias que não oferecem redenção fácil. Personagens quebrados, solitários, muitas vezes moralmente ambíguos. É um álbum que não tenta salvar ninguém. E, justamente por isso, salva.

O filme entende que, ao registrar esse processo, está lidando com algo que ultrapassa Bruce Springsteen. Porque todo ser humano, em algum momento, pressente que existe dentro de si um território semelhante a “Nebraska”: um espaço árido, silencioso, despido de glamour, onde moram as perguntas que evitamos formular. Um lugar sem trilha sonora grandiosa. Sem plateia. Sem iluminação favorável.
Ter a própria versão de “Nebraska” é aceitar descer a esse território. Não para se punir. Não para se perder. Mas para escutar. Para reencontrar a própria essência de vida, uma inocência perdida, um gesto acolhedor de aceitação para consigo mesmo e para com os que estão ao nosso redor.
Escutar aquilo que foi abafado por anos de adaptação social. Escutar a raiva não resolvida. O medo não nomeado. A tristeza herdada. O amor mal elaborado. Escutar, sobretudo, a própria fragilidade — essa palavra que aprendemos cedo a associar a fracasso, quando na verdade ela é o ponto de partida de qualquer transformação real. Perdoar quem somos e o que fomos. Aceitar os erros nossos e de outrem.
O filme revela um Springsteen que começa a entender algo fundamental. Não há obra honesta sem um pacto radical com a própria imperfeição. Não há arte verdadeira sem a disposição de admitir “eu não sei”, “eu não estou bem”, “eu não sou o que pensei que fosse”.

A busca pela sinceridade é menos um movimento de conquista e mais um movimento de desapego. Desapego da imagem construída. Desapego da expectativa alheia. Desapego, sobretudo, da fantasia de controle. Que nunca tivemos, na verdade.
Por isso, a relação entre homem e obra apresentada em “Salve-me do Desconhecido” não é romântica. É dura. Por vezes, humilhante, doída. Encarar-se no espelho, de verdade, quase sempre significa gostar menos da própria imagem antes de gostar mais.
Mas há um paradoxo luminoso nesse processo. Quanto mais Springsteen aceita sua condição fraturada, mais inteiro ele se torna, ainda que não o perceba. Não porque resolveu seus conflitos, mas porque parou de fingir que eles não existem. A força que emerge não é a da superação heroica, mas a da convivência honesta com as próprias sombras.
“Nebraska”, então, deixa de ser apenas um disco e se torna um gesto ético muito difícil de ser alcançado. Escolher não embelezar a dor. Escolher não transformá-la em espetáculo. Escolher apresentá-la como ela é, um tanto confusa, sombria, inconclusa, real, repleta de imperfeições e fissuras. Como ocorre diariamente em nossas vidas.
Talvez seja isso que cada um de nós, em alguma fase da vida, precise fazer. Criar seu próprio “Nebraska”. Não necessariamente em forma de música, mas como atitude interior. Um período de recolhimento. Um corte de ruído. Uma suspensão das performances.
Um tempo para perguntar:
Quem eu sou quando ninguém está olhando?
O que me move quando os aplausos cessam?
Que histórias eu conto para sobreviver — e quais eu conto para não ter que mudar?
O filme sugere que a depressão levou Springsteen ao fundo do poço. Mas também deixa claro que esse fundo não foi apenas um lugar de queda. Foi um lugar de contato com aquilo que é incontornável. Contato com aquilo que não se resolve com sucesso externo. Ressurgir, nesse caso, não significa virar outra pessoa. Significa tornar-se mais próximo de quem sempre se foi. Daquela infância no cinema, na brincadeira esquecida, na casa abandonada.
Essa é, talvez, a beleza silenciosa de “Salve-me do desconhecido”. O filme não vende a ideia de cura como linha reta. Não oferece soluções prontas. Não promete felicidade permanente. Ele propõe algo mais modesto e mais profundo, que é a possibilidade de viver com menos mentira interior.
Ao final, compreendemos que a grande obra não é apenas “Nebraska”. A grande obra é o gesto de coragem que o antecede. E, nesse sentido, o filme nos devolve uma pergunta incômoda e necessária: quando será que teremos coragem de gravar, em silêncio, o nosso próprio disco impossível? Quando aceitaremos entrar no nosso deserto particular não para nos perder, mas para, quem sabe, nos reconhecer?
Porque talvez seja exatamente aí, nesse território seco, sem promessas e sem garantias que more a versão mais honesta de quem somos. E, para falar a verdade, essa é a trilha sonora que Bruce Springsteen sempre ofereceu a seus fãs. Eu entre eles.

– Ismael Machado é escritor, jornalista e, por que não, cineasta. Publicou cinco livros e é ganhador de 12 prêmios jornalísticos. Roteirista dos longas documentários “Soldados do Araguaia” e “Na Fronteira do Fim do Mundo” e da série documental “Ubuntu, a partilha quilombola“