entrevista de Bruno Lisboa
Seis anos após debutar com o single “World’s Curse” (2019), o power trio paulistano The Damnnation chega ao seu segundo disco, “Eyes of Despair” (2025), com uma nova formação – além da guitarrista, vocalista e fundadora Renata Petrelli, agora integram a banda Camila Almeida na bateria e Fernanda Lessa no baixo –, mas a mesma paixão pelo metal extremo que vem atraindo cada vez mais ouvidos para o som do trio.
Lançado pelo selo brasileiro Shinigami Records, “Eyes of Despair” foca em temas como depressão, política e injustiça social. Ao contrário de Helado Negro, que, em entrevista ao Scream & Yell, menosprezou o poder “salvador” e “revolucionário” da música (“A música não é capaz de salvar vidas”, disse), Renata acredita na força do discurso: “Se posicionar é sempre necessário. Se a gente não usar a música para falar sobre tudo que está errado, para mim não faz sentido”, acredita Petrelli.
Na entrevista abaixo, respondida por e-mail de maneira concisa, Renata fala sobre como é atuar em um cenário dominado por figuras masculinas, conta o que as novas parceiras Camila e Fernanda estão acrescentando ao som do trio, e diz que a participação de Mayara Puertas (Torture Squad), Opus Mortis (Paradise In Flames) e Daniela Serafim (Invisible Control) no disco é uma forma de demonstrar união: “Para mostrar a força da mulher no cenário, só com união de verdade. Uma ajudando a outra, não só no discurso”. Leia mais abaixo.
Desde o “Parasite” até o novo “Eyes of Despair”, é nítido que há uma evolução na sonoridade da banda, tanto em peso quanto em complexidade. O quanto essa mudança é pensada e o quanto vem de forma orgânica conforme vocês amadurecem como artistas?
Acredito que a parte ‘pensada’ é em sempre tentar se desafiar em cada novo lançamento, como uma forma de progredir, mas ao mesmo tempo, o fato de não se prender a rótulos faz com que as músicas saiam de maneira natural.
O The Damnnation surgiu em meio a um cenário metal dominado por figuras masculinas e padrões consolidados. Como foi — e ainda é — se afirmar como um power trio feminino dentro desse contexto? Há ainda muitas barreiras estruturais?
Há, sim. Muitas vezes veladas, sabe? A questão da cena em si, o discurso de união muitas vezes fica só no discurso mesmo. Muitas vezes precisamos lidar com outras pessoas relacionadas a cena que acham que podem diminuir qualquer coisa por sermos mulheres e já passamos por muita saia justa.
A temática lírica da banda passeia por questões como depressão, injustiça e política. Em um país como o Brasil, onde essas questões são latentes, como vocês equilibram o peso do som com o peso das palavras? Existe uma intenção de provocar reflexão além do palco?
Com certeza! Acho que além do instrumental a letra precisa ser uma conexão com quem ouve. Para mim como também letrista, é importante essa conexão e que o ouvinte se identifique de alguma forma e possa refletir.
Vocês têm um DNA bastante global, com influências que vão de Testament a Arch Enemy e passagens por selos europeus como a Soulseller Records. Como vocês veem o metal brasileiro nesse circuito internacional? A receptividade lá fora é diferente da daqui?
Vejo aquecido e bem respeitado fora. Nos lugares em que estivemos a receptividade tem sido muito boa.
O metal extremo, muitas vezes, pode parecer intransigente, fechado em fórmulas prontas. Como o The Damnnation consegue romper com isso, sendo pesado sem ser previsível, técnico sem ser frio, e engajado sem soar panfletário?
Acho que a melhor resposta é sendo nós mesmas, musicalmente e liricamente. Falarmos o que queremos falar, tocar o que nos dá vontade
O EP “Parasite” foi um marco para vocês, entrando no top 10 do Metal Injection, e o “Way of Perdition” consolidou a identidade da banda. Com “Eyes of Despair”, vocês buscam uma sonoridade, digamos, mais rápida e pesada. Foi um desejo de romper ainda mais os limites ou uma resposta ao que vocês vivem hoje, social e pessoalmente?
Foi uma vontade nossa, de nos desafiar nesse sentido e claro sem perder obviamente a melodia e o aspecto denso das músicas.
A formação da banda passou por mudanças importantes. Como essas trocas impactam o som e o espírito do The Damnnation? A entrada da Fernanda e da Camila trouxe novos elementos ou fortaleceu a essência original?
Na verdade na questão das composições e ideias preliminares das músicas não muito já que eu que trago à mesa. Agora com a Fernanda que vem do death metal e a Camila do punk, elas vão adicionar suas influências nessas ideias, o que provavelmente trará ainda mais dinamismo às novas composições.
A presença de mulheres do metal como Mayara Puertas (Torture Squad), Opus Mortis (Paradise In Flames) e Daniela Serafim (Invisible Control) no novo disco reforça uma rede de apoio e colaboração entre artistas da cena. Como é, na prática, essa troca entre mulheres que fazem metal pesado no Brasil? Há uma cena consolidada ou ainda estamos em processo de construção?
Estamos em mais evidência mas ainda há muito em construir, principalmente a união tão falada. Já somos minoria (ainda) para fazer valer e mostrar a força da mulher no cenário, só com união de verdade. Uma ajudando a outra, não só no discurso.
Vocês fizeram uma turnê pelos EUA, tocaram em festivais importantes no Brasil e seguem ganhando espaço. Qual é o maior desafio hoje para uma banda independente hoje?
Os custos e a valorização real. Muitas vezes o que ganhamos nem sempre cobrem os custos de uma turnê.
O metal sempre teve uma veia contestadora, mas nem todas as bandas abraçam esse aspecto. O The Damnnation não foge do embate. Em tempos de polarização e discurso de ódio, qual é o papel político — ou social — de uma banda extrema?
Acredito que se posicionar é sempre necessário. E ledo engano de quem acha que não faz parte. Fazemos e vivemos no olho do furacão. Além de direito é também obrigação nossa como comunicólogo na sua essência, debater sobre todos os temas latentes do cotidiano brasileiro, da mulher, do mundo e etc. Se a gente não usar a música para falar sobre tudo que está errado, para mim não faz sentido.
Olhando para trás, o que vocês diriam para aquela versão inicial do The Damnnation? O que mudou e o que permanece intocável na essência da banda?
Falando por mim, acho que tinha uma versão um pouco mais romântica de início (risos). Agora estamos mais focadas em fazer acontecer de fato. O que permanece intocável é a abordagem que queremos passar: sempre sendo honestas ao nosso som e aos sentimentos que passamos nas letras.
Por fim, com disco novo na praça, quais são os planos futuros?
Temos mais alguns shows até novembro, depois durante dezembro, devemos experimentar novas composições que já temos na manga para algo novo em 2026. Tem mais um clipe vindo ai também, gravado no La Iglesia no show de lançamento do álbum. 2026 também queremos tocar mais e em lugares que nunca fomos, estamos planejando algumas coisas, mas quando chegar o momento, divulgaremos.
– Bruno Lisboa escreve no Scream & Yell desde 2014.