entrevista por Pedro Salgado, especial de Lisboa
Raquel Pimpão é uma figura singular e uma artista muito criativa. Nascida em Lisboa e criada na cidade de Caldas da Rainha, a cerca de uma hora da capital portuguesa, Raquel é pianista (estudou jazz na Escola Superior de Música de Lisboa), compositora, professora de música e apaixonada por disco music, hip-hop, salsa e trap. O nome artístico com que se apresenta, Femme Falafel, adveio de um episódio em que enviou uma música intitulada “Femme Fatale” a uma amiga, que leu mal e interpretou erradamente o título da canção. “Eu achei muito divertido e ficou o meu nome artístico desde então. Sou vegetariana e gosto de comer falafel, mas esse é o significado principal”, conta. Quando venceu a 27ª edição do Festival Termómetro, em 2023, obteve um grau de reconhecimento maior, que lhe deu como prêmio a possibilidade de atuar no Festival NOS Alive e no festival Bons Sons. O single bucólico-fantasioso movido a trap e r&b, “Romance Feudal”, de 2024, despertou igualmente a atenção do público para os seus próximos passos.
Quando falamos, na esplanada de um restaurante italiano no Chiado (centro de Lisboa), o seu disco de estreia recém-lançado, “Dói-Dói Proibido” (2025), editado pela Revolve e co-produzido com Luís Montenegro (integrante da banda Salto e do projeto solo Rapaz Ego) é o assunto que domina a nossa conversa. O trabalho navega por sonoridades como o hip-hop, jazz, disco, house e MPB e nele Femme Falafel faz um bom uso da sua lírica peculiar, humor, alienação, trocadilhos e algum nonsense para expurgar as suas dores existenciais e abordar quem a rodeia. Há uma evidente catarse e maior eficácia na sua mensagem em temas dançantes como o disco house do single “Electrocardiodrama” (que aborda problemas cardiovasculares, o encantamento com utilizadores de joalheria auricular e o anti-colonialismo), bem como “Depressão” e “Rio”. Em faixas como “Mitra”, alusiva a um sujeito mitra indie intelectualizado, são exibidas as melhores linhas melódicas do trabalho, “Camada de Ozono” expõe o seu gosto profundo pela MPB e a derradeira “Livre Arbítrio” transporta o ouvinte para uma reflexão pessoal não propositada. “Eu não escrevi a música com um intuito super-existencialista, mas acredito que quem a escutar pode sentir isso porque ela tem um travo melancólico”, explica. E conclui a apreciação à canção apontando um desígnio futuro para o seu trabalho: “A faixa ‘Livre Arbítrio’ está mais de acordo com o que pretendo fazer a seguir que será algo menos festivo. Por isso, também queria que fosse um momento de transição”.
Para valorizar o disco e deixar as pessoas com mais curiosidade para o escutar, Raquel Pimpão co-produziu um pequeno filme com André Abrantes que foi disponibilizado no YouTube. Segundo a própria, a decisão de avançar para esse formato deve-se ao fato de sentir que “os clipes já não têm tanto impacto nas pessoas e escutar um disco inteiro, mesmo pequeno, também provoca alguma resistência”. E destaca ainda os objetivos e o âmago do filme: “Tentei contar uma história que é uma narrativa, um pouco quebrada por vezes. A ideia era começar de manhã e acabar à noite e passar pelo universo das músicas. Sinto que o aspeto mais definido era um início diurno e um final fechado. Esse foi o fio condutor e tentamos arranjar elementos visuais que intercalassem os diferentes vídeos. Procuramos viajar pelas canções da melhor forma possível”.
Sobre o cenário musical português, a artista confessa ser fã de vários intérpretes e compositores e ter muitas amizades como Emmy Curl, Lana Gasparøtti e Margarida Campelo (da qual integra a sua banda), com quem gostaria de colaborar, e exprime um desejo: “Há uma pessoa da qual não sou tão próxima e com quem adorava fazer uma parceria, que é o Conan Osíris. Sou mega fã dele”. Relativamente aos seus objetivos artísticos, assume a importância de ser reconhecida mas dá primazia à criação: “Eu gosto que a minha música seja divulgada e é muito gratificante conhecer o retorno do público. No entanto, julgo que não vai soar muito arrogante se eu disser que o momento em que temos uma ideia e achamos que vai resultar é melhor do que o reconhecimento”.
De Lisboa para o Brasil, Femme Falafel conversou com o Scream & Yell. Confira:
Ouça o álbum “Dói-Dói Proibido” na integra abaixo
Que objetivos você procurou alcançar com seu disco de estreia, “Dói-Dói Proibido”, e qual é a relação do título do álbum com a sua visão criativa?
Não sei se os objetivos eram muito claros. Estava apenas a escrever canções que gostava de partilhar aleatoriamente com as pessoas ou que na altura não via a conexão entre elas. Encontrava-me a explorar e a compor coisas em que pensava e me iam acontecendo. Escolhi o nome do disco apenas há dois meses. As músicas são um pouco alienadas, embora algumas estejam mais assentes na realidade. Sinto que é um álbum desvairado e é estranho fazer música tão alegre, agora. Acho que alguma alienação é necessária. Claro que há humor e existem alguns elementos realistas, mas tem alguma coisa de “La la la la está tudo bem”. Por essa razão, “Dói-Dói Proibido” é tudo isso. É um stop ao sofrimento e transmite a ideia de que não é permitido sofrimento. Se calhar não é só alienação e quando dá a volta fica mais trágico. Mas sim, acho que é um convite à extroversão e este vai ser o trabalho mais animado que eu irei fazer.
O seu álbum navega por diversas sonoridades, mas o disco house do single “Electrocardiodrama” em conjunto com faixas como “Depressão” ou “Rio” representam os seus momentos de maior catarse. Considera que a faceta dançante define melhor o seu trabalho?
Eu estava numa onda diferente e menos dançante e, de repente, escuto Earth, Wind & Fire e torno-me a pessoa mais feliz do mundo. Sinto que essa faceta define totalmente aquilo que eu queria para este álbum. O objetivo era ter músicas que dessem para dançar. Porque é o que eu gosto de ouvir, não só, mas principalmente. Esse lado festivo e dançante marca a minha fase atual, mas não sei quão presente vai estar no futuro. Acho que é algo que vai flutuar um bocadinho.
As letras das suas músicas são humoradas, irônicas e fazem uso do nonsense também. Adotou este estilo para proteger a sua identidade ou como paliativo contra as dores existenciais?
É um pouco das duas coisas. No início tentei escrever em inglês e não me correu bem, porque eu era e tentava ser uma pessoa humorada e não conseguia traduzir isso em inglês. A partir daí o processo foi muito natural. Claro que o humor esconde algumas dores. Mas, simultaneamente, permite-me partilhá-las mesmo que estejam com outra roupagem. Sinto que não me exponho totalmente nas minhas letras, mas há pessoas que acham que sim. Elas dizem-me que há um tremendo sofrimento, mas abordado com humor. Julgo que as pessoas vêm as coisas de uma forma mais transparente do que as que existem. Reconheço que me protejo com os trocadilhos, porque dizer frases muito pesadas e sérias dá-me um bocado de ansiedade. Julgo que estou a resguardar-me mais, mas encontrei uma forma de escrever que é confortável.
Neste disco, há uma evidente aproximação à MPB (em “Camada de Ozono”) e no house minimal de “Floresta Amazónica” você repete duas vezes a estrofe “Parem de foder a floresta da Amazônia”. Gostaria de saber se existem mais ligações suas com o Brasil e, em particular, com a música brasileira.
Eu amo a música brasileira. A faixa “Camada de Ozono” é bastante influenciada, a vários níveis, pela MPB e as harmonias que eu gosto, escolho e me apaixonam são todas inspiradas no Tom Jobim ou no Chico Buarque. Mesmo agora, estou obcecada pelo Zé Ibarra e pela Júlia Mestre e é a única coisa que eu escuto há muitos meses. Esses elementos influenciam mais a base da canção e as formas de músicas que podem ser disco ou de outros estilos. No tipo de melodias e harmonias talvez haja uma maneira de cantar mais baixa e leve, ou seja, trata-se da minha referência e não necessariamente que eu consiga expressar isso.
Na faixa “Mitra”, você alude a pessoas que vivem em permanente contradição, entre o Benfica e o pensamento metafisico, e reveste o tema com uma toada melódica envolvente no refrão. O que procurou transmitir com a canção?
A música é baseada numa pessoa real a qual achei que tinha um ´background´de mitra, mas também gostava de coisas intelectuais. Eu distingo pessoas alternativas que se vestem de Adidas ou pessoas que sempre se vestiram de Adidas e que por acaso gostam do Tarkovsky e do Bukowski. Esta personagem de que falo está ali e está a par e, apesar de ter uma ´fanny pack´ da Lacoste, ela revela um lado intelectualizado. Na época, eu achava a fusão bastante improvável. Eu escrevi a canção há nove anos, numa altura em que haviam poucos mitras indie. Atualmente, há mais pessoas a vestirem-se de todas as maneiras possíveis com antecedentes e gostos diferentes. Nesse tempo, as coisas eram um pouco mais quadradas ou definidas em termos da forma como as pessoas se apresentavam e dos grupos com que se identificavam. Apenas quis transmitir que é possível conciliar dois aspectos que à partida pareciam inconciliáveis.
Quer deixar uma mensagem aos leitores do Scream & Yell?
Espero que de alguma forma este álbum chegue ao universo brasileiro e se alguém tiver dúvidas sobre uma referência demasiado portuguesa pode me contatar. Gostaria que entendessem as letras, apesar de eu falar muito rápido, e que descubram uma sonoridade divertida. Em junho deste ano, tive a oportunidade de ir com a Margarida Campelo ao Brasil (nota: Raquel faz parte da banda da cantora e multi-instrumentista lisboeta) e fizemos um mini-tour e nos apresentamos no Dolores Club (Rio de Janeiro), Centro Cultural SESIMINAS (Belo Horizonte) e no Bar Alto, em São Paulo. As salas não estavam muito cheias, mas quem assistiu gostou bastante e ficou impressionado com a música da Margarida que é incrível. A receção foi muito boa e foi superdivertido. Fiquei com imensa vontade de voltar e amava tocar a minha música para o público brasileiro.
– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell desde 2010 contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui. A foto que abre o texto é de André Tentugal