Otoboke Beaver no Cine Joia: o futuro é feminino, barulhento e japonês

texto de Alexandre Lopes
fotos de Camila Cara / 30e

Existem shows que não apenas tocam profundamente os espectadores – eles quebram as expectativas, reorganizam o espaço e redefinem o que significa assistir a uma apresentação. O do Otoboke Beaver, na noite de sexta-feira (31/10), no Cine Joia, foi um desses. Em pouco mais de uma hora e meia, quatro mulheres vindas de Kyoto provaram que o punk ainda pode ser uma força de libertação; não pela nostalgia ou pela violência sonora, mas pela recusa em pedir permissão.

Num cenário em que o punk já foi domesticado pela lógica do entretenimento via poppy punk de Blink 182 e Avril Lavigne e tantos outros, o quarteto japonês surge como uma anomalia ruidosa e lúcida. É como se Accorinrin (voz), Yoyoyoshie (guitarra), Hirochan (baixo) e Leo (Emi Morimoto, ex-Shonen Knife, na bateria, que está cobrindo a vaga de Kahokiss, que pediu uma pausa na banda para ter um bebê). integrassem uma máquina orgânica que transforma humor e dissonância em uma espécie de caos controlado.

Ainda na universidade, em 2009, elas formaram o Otoboke Beaver batizando a banda com o nome de um motel perto da escola que estudaram acrescentando “Beaver” (“castor”, mas também gíria para genitália feminina), uma piada que resume bem a mistura de irreverência e crítica feminista que atravessa tudo o que fazem. Tanto a iconoclastia do riot grrrl quanto a excentricidade performática do noise rock japonês dos anos 1990 se encontram ali, com uma mistura humorística e afrontosa de uma banda punk em desenho animado e uma revolução feminista.

Embora o Otoboke Beaver já somasse alguns EPs e uma compilação no início da década passada, foi só depois da explosiva sessão na KEXP em 2022 que o nome começou a circular mais fortemente fora do Japão, inclusive no Brasil. E isso ajudou a criar um bom público para vê-las nesta noite no Cine Joia.

Às 21h08, ao som de “Rock ’n’ Roll Star”, do Oasis, as quatro surgiram no palco vestidas em cores vibrantes, entre a autoparódia e a reverência – além de uma piscadela aos shows que o grupo abriu para os britânicos recentemente no Japão. A abertura com “Yakitori” e “Akimahenka” mostrou a banda em plena combustão, com a platéia respondendo em um redemoinho de mosh pits, gritos e pura insanidade.

No meio de tudo isso, Accorinrin lidera como uma sacerdotisa elétrica, exorcizando cada verso no microfone; Yoyoyoshie, carismática e falante, brinca com o público num inglês truncado e um português esforçado (“Boa noitiii, São Paulo!”) enquanto espanca sua guitarra; Hirochan e Leo sustentam a base no baixo e bateria com precisão militar e fúria adolescente.

O repertório privilegiou os discos “Super Champon” (2022) e “Itekoma Hits” (2019), com espaço para duas inéditas — uma delas apresentada com um aviso espirituoso: “Vocês não conhecem essa ainda, mas aproveitem!”. Cada canção durava cerca de dois minutos e parecia conter uma vida inteira: mudanças abruptas de tempo, paradas súbitas, gritos, silêncio e colapso instrumental. O público respondia com palmas e gritos, especialmente em “Don’t Light My Fire”, quando Accorinrin, entre tapas na própria bunda e olhares demoníacos, mandava “go to hell!” no microfone.

Entre uma faixa e outra, houve alguns espaços para comentários de Yoyoyoshie – visivelmente muito feliz. Empolgada, chegou a declarar: “Eu realmente quero morar em São Paulo!”. Em dado momento, a banda se apresentou, contando com um momento solo de cada integrante: uma percussão de bateria de Leo, um ataque do baixo grave de Hirochan, Yoyoyoshie mordendo o braço da guitarra durante seu solo e Accorinrin encerrando com um agradecimento em português e um sorriso que parecia dizer “viemos de longe para chegar até aqui mas sobrevivemos e vamos fazer valer a pena”.

Um momento destoante de tensão veio quando um homem na plateia gritou “gostosa”. A reação foi imediata: vaias e gritos de “escroto” vindos de boa parte do público. As japonesas se mostraram alheias à manifestação (ainda bem) e seguiram o show, com suas pausas e coreografias alimentando o espetáculo de absurdo e liberdade. Quando Accorinrin falou “Cala boca!” para testar seu português ao traduzir parte de “Pardon?”, poderia servir para essa infeliz declaração e o público obedeceu, até que o som voltasse a explodir em seguida.

O show quase terminou às 22h08, mas a banda ainda voltou para dois bis relâmpagos. O primeiro durou poucos minutos; o segundo veio logo depois de as luzes da casa acenderem, quando as quatro retornaram sorrindo, com um castor inflável gigante que foi lançado sobre o público, e Yoyoyoshie, surfou sobre ele em meio à multidão. De volta ao palco, puxou uma cantoria de “Buddy Holly”, do Weezer. Depois, avisou que a última canção teria “apenas 18 segundos”. Foi o final perfeito: curto, explosivo e hilário.

Sabe aquelas camisetas que diziam “The Future Is Female” e que fizeram sucesso nas vitrines de lojas de departamento? Pois bem; a frase nasceu em 1975, criada pela artista Liza Cowan para a livraria feminista Labyris Books, em Nova York. Foi um gesto de militância lésbica explorado pelo capitalismo e transformado em slogan pop diluído. Mas vendo o Otoboke Beaver em ação, ficou claro: o tal futuro feminino finalmente chegou, e ele é barulhento, suado e absurdamente divertido. Ainda bem.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br

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